The Project Gutenberg EBook of As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das
Letras e dos Costumes, by Ramalho Ortigo and Ea de Queiroz

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Title: As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes
       Outubro a Novembro de 1873

Author: Ramalho Ortigo and Ea de Queiroz

Release Date: January 6, 2005 [EBook #14622]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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[Illustration: AS FARPAS. R. ORTIGO. EA DE QUEIROZ]

RAMALHO ORTIGO--EA DE QUEIROZ

AS FARPAS

CHRONICA MENSAL DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

3. ANNO

Outubro a Novembro de 1873

VOLUME XX




Ironia, verdadeira liberdade! s tu que me livras da ambio do poder,
da escravido dos partidos, da venerao da rotina, do pedantismo das
sciencias, da admirao das grandes personagens, das mystificaes da
politica, do fanatismo dos reformadores, da superstio d'este grande
universo, e da adorao de mim mesmo.

P.J. Proudhon.




SUMMARIO

Regresso. Explicaes--Historia de uns ps--Modos de morrer. Os
Lovelaces do sepulchro. Os descamisados da cova--Epistola aos catholicos
do Porto. A associao catholica, seus fins, seus meios, sua
organisao, seu programma. O catholicismo. A egreja refugio da
liberdade. As propagandas catholicas em Frana e na Italia. Manzoni,
Rosmini, Balbo, Chateaubriand, Lamartine, o sr. conde de Samodes. Os
padres portuguezes. O liberal, o reaccionario, o indifferente. O
confissionario. As academias da rua da Picaria. A mulher christ. O
partido liberal portuense e a infallibilidade do papa. O protestantismo
do sr. Bismark. O seculo XVI. Theoria do scepticismo. A duvida na
politica, na sciencia, na religio. A tolerancia--Festa veneziana nas
aguas de Caparica--O aio de sua alteza. O que  o aio? O perfil do sr.
Martens Ferro. A corte, a mocidade, a aventura, os taes encarnados,
as espadas dos paladinos. Semiramis, Cleopatra, Penelope e outras. A
regencia. O beijo de Maria Laczinska. A bengala de Constancia de
Arbes--As senhoras hispanholas e os faqueiros--O santo padre, o
imperador Guilherme, o martyrio e as pastilhas de Voltaire. O conde de
Chambord e o constitucionalismo. Saul, Pepino, Henrique IV. Historia
philosophica dos pontaps nas monarchias modernas--Perfil do sr. D.
Miguel de Bragana e influencia politica d'este rei, o seu typo
physionomico, o seu temperamento, a sua popularidade. De como se
fabricou o partido liberal portuguez. O Joo Sedvem, o Jos da Policia,
o Telles Jordo e a ida nova. De como o actual principe D. Miguel 
anemico--O jornalismo, as idas, os aguadeiros da opinio publica--O
drama do Mexilhoeiro--A falta do elemento feminino nos banquetes
patrioticos.

Leitor querido--Depois de uma longa absteno de tres mezes--os mezes do
vero--_As Farpas_ voltam a apparecer no teu banquete ao mesmo tempo a
que recomeam a servir-se tambem as ostras.

 similhana dos mariscos, qu no  bom comerem-se nos mezes que no
teem r, estas paginas condimentosas e estimulantes, se abusasses d'ellas
no tempo quente, amigo, far-te-hian, talvez, furunculos.

       *       *       *       *       *

Alm de que, o vero tem influencias de expansibilidade que
desconcentram a vida da esphera das suas condies normaes.  a epoca
das viagens, dos banhos, das estaes do campo. Abandona cada um o
interior da sua casa, os seus habitos, as suas occupaes, a sua
hygiene, o seu trabalho. Frma-se uma existencia interina, transitoria,
supplementar. Est-se em uma casa alugada por dois mezes como hospede de
uma noite n'uma estalagem. No se reside; pernoita-se apenas, e
passam-se os dias. Com a supenso do trabalho esterilisam-se tambem as
idas, porque todo o trabalho  uma fecundao da intelligencia. Assim
todo o ser humano temporariamente transplantado da parte de solo, de
atmosphera moral, em que ordinariamente exerce a sua actividade,
emurchece. O portuguez, que sempre l pouco, no vero ento no l nada.
Achei-me por muitas vezes durante a estao finda a bordo dos pequenos
vapores que fazem o transporte dos banhistas entre Lisboa e as praias.
Os setenta minutos d'estas breves viagens eram o tempo consagrado por
cada um para, por meio da leitura, pr as suas idas em relao com os
interesses intellectuaes e moraes do resto do mundo. Fra do convez dos
vapores de Belem ninguem nas praias l, ninguem tem comsigo um livro.
Isto no  uma simples hypothese,  uma observao positiva. Em
Pedroios, por exemplo, a vida--toda de porta da rua-- transparente:
v-se o que cada um faz, quasi que tambem se v todo quanto cada um
sente e quanto cada um pensa. Pois bem, nas viagens dos vapores de
Belem, unico lapso de tempo destinado pelos banhistas ao estudo,
observmos durante o periodo de tres mezes consecutivos que ninguem lia
seno almanachs, colleces de cantigas ou de charadas, e os periodicos
de noticias. Que elementos para, a educao intellectual de alguns
milhares de cabeas: darem mergulhos no Tejo, aprenderem nos livros que
nasceu o dente do sizo ao sr. Alexandre Herculano, e saberem pelos
jornaes que o sr. commendador Santos foi  Outra Banda em partida da
recreio, com os seus amigos, comer um safio!

       *       *       *       *       *

No foram essas porm as rases porque _As Farpas_ se callaram durante a
estao calmosa. Os nossos motivos so inteiramente pessoaes. Ns
adoecemos ... Perda, leitor benevolo, estas perigosas tendencias de um
convalescente para a autobiographia. No, no foi um dente novo que nos
esteve crescendo. Ns no temos, como o immortal historiador a que acima
nos referimos, a honra de abrir estas linhas offerecendo  patria e 
sr. D. Guiomar Torrezo mais um novo instrumento gloriosamente
recemnascido para a trincadeira nacional.

O nosso mal, foi simplesmente uma affeco na larynge. Apanhmos isto
no Chiado. Tivemos na mucose da garganta as mesmas granulaes que
padecem os beduinos na mucose das palpebras por effeito do p nas
peregrinaes do deserto. O Chiado pagou-nos o pessimo gosto burguez,
especieiro, indigno, abominavel, de o frequentar, dando-nos esta doena
climaterica e local. Os hospitaes de S. Jos e do Desterro do as
desyntherias e as gangrenas; os tanques do Passeio do Rocio do as
febres paludosas e intermittentes; o Limoeiro e a Casa de deteno das
Monicas do as viciaes do sangue e as escrophulas; o Chiado e o
deserto da Arabia do as affeces granulosas da larynge e dos olhos.
Cada um d o que tem.

A poeira do Chiado  uma especialidade curiosa, interessante, to
romanesca como a sombra da mancenilha. Esta poeira  fina, miuda, subtil
como a _veloutine_ de Lubin. Ligeiramente tocada pela aza morna do vento
leste, ensinua-se, entranha-se, penetra docemente, consoladoramente,
profundamente--como a calumnia. Depois, uma vez inoculada, produz as
ophtalmias e as esquinencias--as duas maiores enfermidades de Lisboa.
No  simplesmente formada pelas trituraes da terra esta poeira. No,
porque o solo em Lisboa no  de terra. Aqui a terra tem sido de tal
maneira misturada, falsificada, fingida, que, hoje, aquillo que
primitivamente era a terra j no tem terra nenhuma. O solo de Lisboa 
formado de sobreposies de estercos, de amalgamas de lixo, de restos
pulverisados de fructas podres, de ces mortos e de papeis sujos.

De todas estas misturas requeimadas pelo vero, carbonisadas pelo sol
canicular, moidas sob as rodas dos trens e sob os ps pressurosos do sr.
conselheiro Arrobas, resulta o p envenenado da capital. Os papeis
velhos de Lisboa, dejeces burocraticas ou litterarias dos bancos, dos
cartorios, dos tribunaes, dos escriptorios dos negociantes, dos
jornalistas, dos advogados, dos tabellies e do sr. Melicio, so de tal
maneira abundantes que todos os esgotos da cidade no bastam para os
engulir. A brisa espalha esses papeis dilacerados pelas povoaes
suburbanas. A praia de Belem  uberrima de papeis sujos, e Pedrouos, a
manso burgueza das villegiaturas officiaes, parece-se no aspecto
especial das suas immundicies com um corredor da secretaria das Obras
Publicas destinado a projecto de nitreira modelo pelos disvellos
agronomicos do sr. Rodrigo de Moraes Soares.

De modo que a antiga expresso _terra da patria_, com referencia a
Lisboa e seus suburbios,  figura de rhetorica em demasia arrojada. A
patria do lisboeta no tem terra, tem os agglomerados residuos das
podrides e dos papeis velhos. O nauta vigilante, que do alto mar
descobre no azul o ponto escuro e indeciso d'estas praias, proceder com
louvavel exactido e amor da verdade se em vez do grito poetico de
_terra! terra!_ comear a exclamar  vista de Lisboa: Supedaneo de
Melicio!--ou--Nitreira de Soares!

Victima ns mesmo em todo o nosso apparelho respiratorio d'essas
influencias deleterias da geologia e da civilisao lisbonense, achamos
prudente substituir--como fizemos--a convivencia do publico pela do
gargarejo.

       *       *       *       *       *

No theatro de D. Maria, o drama--_Idiota_.

Suppoz-se pelos annuncios que _Idiota_ seria uma pea sem nome do
auctor. Equivoco. Era um nome do auctor sem pea.

No theatro de S. Carlos exhibio extraordinaria dos ps do sr.
Barberat. A primeira vez que este cantor appareceu em scena os
violinistas da orchestra suppozeram que elle se lhes tinha calado--nas
caixas das rebecas.

Quando no dia da chegada elle poz  porta as suas botinas para engraxar,
os creados do hotel cuidaram que elle rescindira a escriptura e se
retirava, por se lhes figurar que o sr. Barberat tinha j no corredor as
malas.

Em algumas alfandegas os guardas do fisco, desconfiados d'elle, teem-lhe
pedido as chaves dos ps!

Nunca at hoje poderam dormir juntos os ps e elle. Emquanto elle est
deitado de costas, os seus ps esto erguidos, ao fundo do leito,
embuados em capas, contemplando-o, firmes e silenciosos. Pela manh os
ps esto mortos de somno e de fadiga, e para que elles se deitem um
momento, elle ento, compadecido--levanta-se.

Ou por que elle os no queira desasocegar de dia, lembrando-se de que
teem de estar a p de noite, ou porque elles mesmos se recusem
obstinadamente a uma evoluo a que debalde os teem querido algumas
vezes violentar, o artista desistiu absolutamente de vestir as calas
pelos ps e comeou a vestil-as, como a camisa,--pela cabea. Antes de
chegar a esta prudente soluo, o cantor, para conseguir vestir-se, era
obrigado todas as manhs ou a descoser as calas, ou a desmanchar os
ps.

Uma das coisas que mais vivamente picou a curiosidade do publico nas
primeiras vezes em que este artista se mostrou em S. Carlos foi saber
como elle poderia cantar n'um theatro pequeno para que podesse estar
mais alguma coisa em scena alm d'elle com os ps. O empresario acaba de
confiar-nos a explicao d'esse segredo, que elle nos permitte enviar
d'aqui como uma dadiva sua  justa anciedade das platas. Mesmo porque o
empresario attribue, com bastantes probabilidades de acerto, a esta
preocupao do publico perante os ps phenomenaes do baixo a frieza
desdenhosa com que nas primeiras noites se escutou o canto to vivamente
sentido, to profundo e to genial da Galetti.

Pois bem, meus senhores, no pensem mais n'isso. Querem saber como elle
cantava nos pequenos palcos?...

Do mesmo modo que cantam os gallos--n'um p s.

       *       *       *       *       *

 praia da Torre em Belem foi hontem arrojado pela mar o cadaver de um
homem afogado Era ainda novo, robusto e forte. Estava vestido de panno
azul. A jaqueta e o collete que vestia tinham botes de metal doirado
com uma ancora em relevo. Na manga estava presa uma cora tambem de
metal. Tinha na algibeira um relogio e algumas moedas de prata
portuguezas e brazileiras. As auctoridades da policia e da saude vieram
 praia e olharam para o cadaver, como a lei manda. Depois do que,
officialmente averiguado que estava ali effectivamente o cadaver de um
afogado, pegaram nelle, atiraram-o ao fundo de uma cova aberta  pressa
na praia, e cobriram-o com alguns metros de areia.

Bem feita coisa!

       *       *       *       *       *

Nem toda a gente vae para a sepultura com esta simplicidade de
apparatos, a que podemos chamar o _enterro incivil_. Mas todos os ces
se enterram por este modo, e no  por isso menos repousado o seu eterno
somno. Alm de que,  preciso que cada um se apresente na eternidade em
condies que no desdigam da gerarchia em que viveu e do conceito em
que o teve a sociedade e a opinio publica. Pretender o contrario 
querer lograr a divina justia sujeitando-a a illudir-se com o aspecto
exterior dos mortos e a acolher com os mesmos cumprimentos na crte do
ceu o primeiro aguadeiro que chegue assim como o mais digno e
respeitavel ministro de estado ou general de diviso que se
apresente,--o que seria certamente para Deus um desgosto profundo. Logo:
que cada qual morra como o que  e v para o outro mundo como o que foi,
para no pr em equvocos a celestial etiqueta!

       *       *       *       *       *

 um senhor conselheiro a pessoa que morre, na sua cama, victima da sua
gotta? Vestem-se-lhe as suas calas de presilhas e galo de oiro, e a
sua farda bordada; prega-se-lhe no peito a constellao das suas placas
de diamantes, faz-se-lhe a barba, retinge-se-lhe o cabello, pe-se-lhe
ao lado o espadim e as luvas brancas, o chapeu armado sobre o ventre e
um pouco de carmim nas faces. E eil-o ahi est em toda a plenitude e em
toda a magestade dos seus meios physicos e da sua importancia social. As
pallidas Julietas dos sepulchros e as immodestas Rigolboches da tabida
podrido e dos gulosos vermes do _chic_, que se acautelem d'esse magano
de bom gosto!

Elle  poderoso: deixou na terra muitos necrologios e muitas missas, e
vae optimamente recommendado pelo alto clero  especial proteco do
Padre Eterno.

       *       *       *       *       *

O que morre  pelo contrario um destes infimos e asquerosos animaes, de
jaqueta de panno azul com botes de ancora, que andam a bordo dos navios
sobre a agua do mar? Uma onda envolve-o no tombadilho e arroja-o ao
abysmo inclemente? Suspende-se ento por dois ou tres minutos a marcha
da embarcao--um slido paquete talvez, luxuoso, commodo, de uma forte
companhia, em que tudo est seguro para os riscos da navegao, tudo
menos a gente,--lana-se uma boia de salvao, arreia-se uma lancha com
quatro homens, e alguns _gentlemen_ que sobem  tolda, tiram dos estojos
de couro de Varsovia que trazem ao tiracollo os seus binoculos e
assestam-os sobre o elemento. Apesar porm d'estas delicadas attenes,
o bruto desagradecido desapparece. Dois ou tres dias depois, a mar, com
nojo, cospe-o  praia da Torre juntamente com outras immundicies.

Que queres tu d'aqui, meu estupido? Isto no  nenhuma selvagem ilha
deserta e encantada, querida dos luares transcendentes de que fallam 
phantasia as musicas de Bethowen e os versos do Ileine, e em que se
figuram, sob uma luz de esmeralda, os bailados da opera.

Aqui no ha os profundos paraizos aquaticos habitados pelas ondinas e
pelas sereias de beijos deliciosos e gelados. No ha os duendes das
phantasticas florestas que te suspendam, sob o luar impregnado de
calidos aromas e de nocturnas harmonias, nos beros aereos das magnolias
e dos lilazes em flor, nem beneficas deidades transparentes que te
cinjam nos seus doces braos e te levem n'uma festa nupcial para os seus
leitos de algas, de coral e de perolas, no fundo dos dormentes lagos,
sob as folhas dos nenufares.

No, isto aqui  uma praia decente e grave onde os senhores oficiaes de
secretaria o os senhores desembargadores veem durante a villegiatura
sentar-se pela fresquido das tardes, com suas mulheres, contemplando
austeros e recolhidos as babugens da vasante e o fronteiro panorama, to
magestoso e solemne, da Fonte da Pipa.  d'esta praia que o senhor
commendador Santos e o senhor commendador Firmo e o senhor commendador
Eloy teem partido em fina companhia de virtuosas damas, com honestas
guitarras e casto peixe frito, a bordejar no Tejo.  aqui que a illustre
e veneravel burguesia de Lisboa faz as suas estaes balneatorias. 
n'estas aguas que ella annualmente refresca e desemporcalha a sua gorda
carne.  aqui que o mesmo poder moderador tem vindo, por vezes, com sua
augusta e elegante consorte demolhar no argento o excelso e inviolavel
systema nervoso da monarchia e da constituio.

Portanto,  immundo, tu que morreste afogado no oceano e te deixaste
rolar para a praia da Torre, impertinente como o esqueleto de um goso
morto de fome na Trafaria, tu, imbecil, se querias mais alguma
considerao, mais algum respeito com os teus restos, fosses cahir a
outra parte.

Trazias algum dinheiro na algibeira, o sufficiente para te pagares o
luxo de um padre e de uma cova, mas, realmente tu no tinhas aspecto de
mereceres a pena de que alguem se occupasse por um minuto comtigo.

Animal! se querias ser enterrado com respeito e commoo, se querias ter
artigos nos jornaes e padres a cantarem-te o _De profundis_, porque foi
que em vez de te afogares de jaqueta, te no afogaste com uma farda de
almirante, ou de casaca preta e gr cruz dentro de um _coup_ da
companhia?!

Deixaste por acaso na terra uma velha me desamparada, uma esposa
lacrimosa, uma filha orph, uma familia, a que seria doce ajoelhar sobre
a tua sepultara ou plantar algumas flores sobre a terra que te cobrisse?
Querias permittir-lhes essa extrema consolao? Deixasses-te ficar no
Chiado ou no Terreiro do Pao, tornasses-te um dos elementos
constituitivos da civilisao lisbonense, fizesses-te moo de recados,
agiota ou empregado publico. Vive-se assim na corrupo, na usura, na
humilhao ou na miseria, mas enfim morre-se bem, barato--e muito!

       *       *       *       *       *

O _Jornal da Noite_ publica uma conta de despeza feita pelo presidente
da republica dos Estados Unidos, Abraho Lincoln, em um hotel de Albany.
O illustre democrata e as pessoas do seu sequito pagaram a somma de um
conto e alguns mil ris por uma hospedagem de menos de vinte e quatro
horas.

Este facto argumenta vivamente contra a opinio dos que acham as
republicas mais baratas para os povos do que as monarchias.

Effectivamente vemos que, ao passo que o presidente da republica da
America do Norte faz um conto de ris de despeza em algumas horas em
Albany e paga essa despeza, sua magestade o imperador da America do Sul
dispende no Porto mil libras em quatro dias, e no as paga.

 indubitavel pois que as monarchias so incomparavelmente mais baratas
do que as republicas.

Deve-se porm observar que, sob este ponto de vista, o descredito das
democracias prodigas procede principalmente das estalagens exigentes.
Porque est provado que sempre que um republicano em viagem pretende
gastar to pouco como um rei economico, os estalajadeiros fazem ao
republicano o seguinte: sequestram-lhe a bagagem.

       *       *       *       *       *

Parece-nos arriscado estabelecer entre os principes e os povos esta
perigosa competencia de quem ha de pagar menos em viagem. Pois que,
realmente, desde que as testas coroadas chegaram ao ideal de se
apoderarem das contas e no pagarem nada, os povos s podero desbancar
os reis se, no pagando egualmente nada, comearem a estabelecer este
uso: depois de se apoderarem das contas, apoderarem-se egualmente--das
pratas.

       *       *       *       *       *

_Primeira aos membros da Associao Catholica no Porto_

Meus senhores e minhas senhoras.--Em nome da Nosso Senhor Jesus Christo
e da Santa Madre Egreja Catholica Apostolica Romana, eu vos sado e vos
desejo a divina graa. Como tenho obrigao de vos suppr--taes como o
dizeis--sinceros e dedicados servos de Deus, devotados a cumprir a sua
lei e a divulgar a sua doutrina, mais vos desejo que nunca vos persigam
os bens e as riquezas temporaes de que certamente vos despojastes para
seguir a Jesus. Eu sei que o divino mestre, antes de mandar aos
apostolos que o acompanhassem, lhes ordenou que deixassem as redes,
fazendo-nos sentir por esta frma que ninguem pde estar com Deus
estando ao mesmo tempo com o mundo, e que para ter os bens do co  a
condio essencial--abandonar os da terra. Primeiro: _deixae as redes_;
depois: _vinde commigo_.

Amados irmos, presumindo-vos pobres, desvalidos, tendo previamente dado
o vosso po aos que tinham fome e os vossos vestidos aos que tinham
frio, eu desejo ainda sobre a vossa nudez a mortificao da vossa carne,
a santa mortificao que raspa a vaidade e o orgulho e limpa o
entendimento e a alma das lepras mundanaes.

Que a graa de Nosso Senhor vos assista e que nada mais do que 
temporal se vos pegue, porque n'este mundo tudo  esterco: _Omnia ut
stercora_, como muito bem disse S. Paulo!

Se vos no poderdes furtar aos contactos impuros do seculo, permitta o
ceo que em todas as vossas relaes com a sociedade todas as invectivas
e todas as malquerenas pharisaicas vos punjam e vos espicassem o
corao, assim como os chacaes famintos furam e rasgam no deserto as
tendas dos piedosos peregrinos. Porque--bem o sabeis--s com as
inimisades do mundo podereis merecer e lograr a amisade de
Deus:_amicitia hujus mundi inimica est Dei_.

Finalmente, meus senhores e minhas senhoras, resumindo os meus votos
pelo molde mais consentaneo com as vossas aspiraes, que o Senhor vos
veja eternamente no ceu e vos aplane o caminho da promisso, tendo-vos
tanto de sua mo que nunca sobre vs deixem de chover as dores e as
ruinas, por isso que, como diz o psalmista, ser pela somma das vossas
penas contingentes, transitorias e mundanaes, que sero medidas as
vossas alegras celestiaes e eternas!--_Secundum multitudinem dolorum
meorum in corde meo, consolationes tuae laectificaverunt animam meam._

       *       *       *       *       *

Permitt-me agora que, antes de entrar em algumas breves consideraes
que a natureza do vosso instituto me suggere, eu me detenha um momento
na simples contemplao do nome que lhe puzestes.

Que razes poderiam levar-vos, beatissimos senhores, a denominardes
_catholica_ a associao que fundastes, ahi no Porto, em certa casa da
rua da Picaria? Que significa uma associao chamada _catholica_ no meio
de uma sociedade egualmente catholica? Quem  que no  _catholico_ em
Portugal? No temos ns todos a mesma religio, que no  uma religio
especial da rua da Picaria, mas sim a bem conhecida religio do paiz, a
religio do estado, a religio famosa da carta? Ignoraes por acaso que
nenhuma associao pde ser em Portugal seno isso--_catholica_?
Ignoraes que no temos a liberdade dos cultos, a divergencia de
religies?...

Ora, no havendo o mosaismo aqui no Chiado, no existindo o pantheismo
no Rocio, nem o lutheranismo no Terreiro do Pao, nem o fetichismo no
Arco do Bandeira, o que vem a ser um catholicismo da rua da Picaria na
cidade do Porto? Ter cahido o Porto porventura no paganismo idolatra?
Estar elle sacrificando a Jupiter a sua rica vacca cosida? Tel-o-hiam
levado os seus representantes, os seus philosophos, os srs. Faria
Guimares e Pinto Bessa, s vertiginosas regies do livre exame, onde o
espirito humano, abatido, fatigado, morde na solido o fructo amargo da
sciencia?...

No. Eu visitei o Porto ha pouco tempo. Cheguei ahi no dia 24 de junho.
A cidade tinha o aspecto mais jubiloso e festival. Erguiam-se arcos
triumphaes nas embocaduras das ruas, palpitavam  virao matutina
bandeiras desfraldadas nas janellas das casas. Na rua de S. Joo os
habitantes, de camisa lavada e barba feita, passavam com bandejas cheias
de lanternas para luminarias, outros espetavam no cho mastros
embandeirados; iam, vinham, fallavam alto, tinham gestos abundantes e
felizes. As egrejas por onde passei estavam cheias at  porta de fieis
que ouviam as primeiras missas. Os sinos repicavam em todas as torres, e
os foguetes furavam o limpido azul da manh.

O Porto, onde n'esse dia devia celebrar-se um grande _meeting_ liberal,
comeava no emtanto--por festejar o S. Joo!

Portanto, meus senhores, se vs vos denominaes catholicos, no  porque
supponhaes que os outros o no so;  porque vos parece que o sabeis ser
melhor do que os outros, e pretendeis que vos considerem como unicos
catholicos perfeitos, catholicos affianados, catholicos garantidos.

Se  isto o que quereis dizer-nos com o titulo escolhido para a
vossa associao, e no podeis querer dizer outra coisa,
ento--meditae-o--achaes-vos em peccado mortal de soberba, de jactancia,
de presumpo de merecimentos.

Localisando por esse modo a religio na rua da Picaria, vs lanaes
tacitamente a suspeita de impiedade nas demais ruas da cidade da Virgem.

Pois bem, que a Picaria o saiba: a viella do Ferraz tambem vae  missa,
e Deus sabe se jejua ou no, s sextas-feiras, a Ferraria de Cima!

       *       *       *       *       *

Advirtamos agora como a associao catholica tem correspondido pela
importancia dos seus actos  audaciosa escolha do seu titulo.

At o momento em que vs vos apoderastes do catholicismo para vos
fechardes com elle na rua da Picaria, cabia ao catholicismo a gloria de
ter inspirado as maiores obras produzidas pelo espirito humano.

Foi esse pobre catholicismo, ainda ento desprotegido do valioso
patrocinio que n'este seculo lhe devia conceder a vossa associao, meus
illustres senhores e minhas preclaras senhoras, foi elle, ainda
desalbergado da rua da Picaria, o que na edade media fez brotar da
imaginao dos povos o que ha mais bello nas artes, os maravilhosos
poemas, as ternas legendas melancolicas, as portentosas cathedraes. Foi
elle que levou Pedro Eremita e Godofredo de Bulhes a descerem o valle
do Danubio e a seguirem o caminho de Attila. Foi elle que inspirou Tasso
e Dante. Foi elle que produziu S. Thomaz, o _boi mudo de Sicilia_, o
Aristoteles do christianismo--como lhe chamou Michelet--, o mais
poderoso cerebro da egreja. Foi elle que creou em Hispanha desde o
seculo XVI at o seculo XVII no meio da maior escravido e do maior
fanatismo, o mais brilhante grupo de artistas que tem visto o mundo:
Velasquez, Murillo, Herrera, Zurbaran, Lope de Vega, Calderon,
Cervantes, Tirso de Molina, Luiz de Leon. O profundo mysticismo de
Quixote  um reflexo do poder da f em todos esses espiritos. Calderon
era official do santo officio e Lope de Vega desmaiava em extase ao
dizer missa. O catholicismo inaugurou ainda a sociedade mais popular,
mais accessivel, mais equalitaria. No meio da barreira levantada diante
da plebe pelos privilegios do sangue, a egreja era o portico de todos
os grandes talentos e de todas as elevadas ambies: o papa Urbano IV,
filho de um sapateiro, edificava a egreja de Santo Urbano e expunha
n'ella, bordado em uma rica tapessaria, o retrato de seu pae fazendo
sapatos.

Por outro lado o catholicismo deu-nos ainda a Saint-Barthelemy, a
carnificina nacional dos christos novos, a Inquisio, a guerra dos
trinta annos, os monges bretes que envenenaram o calix de Abeilard e os
dominicanos de Buon Convento que assassinaram Henrique VII, fazendo-lhe
commungar o veneno na hostia consagrada.

Protegido por vs, meus senhores, tutelado pela vossa sociedade
propagandista da rua da Picaria, o catholicismo portuense tem-nos dado
apenas:--como carnificina, quatro pranchadas nas espaduas de quatro
patriotas  porta da S; como arte, a _Palavra_, um pobre jornal piegas,
lacrimoso e beato, com pouca elevao, com pouco enthusiasmo, com pouca
f, e com alguns erros de grammatica.

Ora realmente, meus senhores, para resultados to mediocres no valia a
pena de vos dardes o apparato de quem funda uma agencia para a
Bemaventurana e nos fecha o ceu--n'um armazem de commisses.

Em 1849 havia na Italia uma propaganda catholica, cujos membros todavia
no chegaram nunca a aggremiar-se e a constituir-se em sociedade como os
cavalheiros e as damas da rua da Picaria.

O chefe da propaganda italiana era um dos espiritos mais rectos e mais
benignos, era o doce e pacifico poeta Manzoni, recentemente fallecido.

_I promessi Sposi_, o celebre romance to conhecido, foi como o _Genio
do Christianismo_, de Chateaubriand e como as odes religiosas de
Lamartine, inspirado por essa reaco catholico-litteraria com que os
romanticos de 1830 bateram as idas philosophicas do seculo XVIII.

Manzoni porm, servindo a causa catholica como propagandista, e abrindo
um exemplo que se tornou escola de muitos escriptores e poetas
italianos, Manzoni, em primeiro logar, escrevia para esse fim livros
adoraveis,--e que vs, meus queridos senhores no resolvestes ainda
comear a fazer na vossa officina religiosa da rua da Picaria. Em
segundo logar Manzoni considerava a ida religiosa como um elemento de
emancipao e de regenerao para a Italia ento opprimida e
escravisada. Finalmente Manzoni no tinha por fim especial glorificar os
padres, arregimental-os, armal-os, pl-os em p de guerra, como o est
fazendo a associao catholica portuense. Pelo contrario, Manzoni sabia
que os padres italianos do seu tempo eram, como Cant os descreve tomado
do mais santo horror: glutes, avaros, estupidos e bandidos. O perfil
ideal do padre Borromeu nos _Promessi Sposi_ no tinha pois a inteno
de um retrato, era o estabelecimento de um novo nivel para a opinio,
era um exemplo, era uma lio dada pelo modo delicado e brando com que o
desgosto profundo inspirra a alma candida e honesta do piedoso
escriptor.

Feita assim, n'estas circumstancias, n'estas condies, por estes meios,
eu comprehendo a propaganda catholica, e inclino-me respeitosamente
diante dos que a servirem e a promoverem. No me parece todavia que seja
esse o caso da Associao catholica portuense, nem no que diz respeito
aos fins que ella se prope, nem no que toca aos meios que emprega para
conseguir o seu fim.

       *       *       *       *       *

Que pretende a associao catholica?

Libertar a patria, chamal-a  independencia, fortificando com o
sentimento religioso a f patriotica, como fizeram Manzoni, Rosmini,
Gioberti, Balbo e outros na Italia invadida pela dominao? No, porque
Portugal,  por emquanto independente e livre.

Estabelecer a cathechese? Diffundir a moral? Regenerar os costumes? No,
porque, no sendo publicas as sesses da associao e no tomando parte
n'ellas seno os mesmos associados, pessoas cujos costumes e cujas
crenas religiosas foram d'antemo affianados, estes acham-se
satisfatoriamente moralisados e instruidos.

Educar o clero, aprestando-o para uma influencia mais directa e mais
proficua nos interesses da cidade ou nos interesses do ceu? Tambem no,
pelas razes seguintes:

Os padres portuguezes acham-se todos incluidos em uma d'estas tres
classes:--os indifferentes, os liberaes e os reaccionarios.

O padre indifferente vive obscuro e tranquillo no fundo de uma aldeia
entre a sua lavoira e o seu campanario. Baptisa as creanas, confessa
os adultos e absolve os que morrem. Se no forem todos para o ceu, a
culpa no  d'elle. Cartilha e bons conselhos propina-lh'os todos os
domingos depois da missa conventual; se os no tomarem para seu bem, l
se aviro com o demonio no outro mundo e c na terra com o regedor. De
resto elle cava a sua horta,  grande madrugador, deita-se com as
gallinhas, diz a missa ao romper d'alva, caa a perdiz no inverno e
pesca os barbos no vero. Alm de um bocado de breviario, no l seno
um repertorio para estar ao facto das luas e saber quando convm
alporcar as pereiras e semear os pepinos. Bom homem, rijo, satisfeito,
sanguineo, infatigavel companheiro na caa e na mesa, se tentardes
esgrimir com elle algumas idas politicas ou religiosas, algumas
subtilezas de critica, de controversia, ter tonturas, arregalar os
olhos, ouvr-se-lhe-ho rugidos interiores e no sentir seno um
desejo: o de vos aular s pernas os seus ces e cascar-vos pela cabea
com o seu grosso marmeleiro argolado.

O padre liberal habita as cidades, l os periodicos, intervm em
eleies, frequenta os botequins e as casas de jogo, fuma cigarros, e
protesta vigorosamente contra a reaco e contra o jesuitismo, trazendo
os dedos amarellos e tomando medicamentos secretos.

O padre reaccionario anda quasi sempre de loba; tem os olhos baixos, o
passo miudo e commedido, o sorriso contrafeito como uma coisa azeda
misturada com assucar; gordura fria e pallida, um tanto sinistra; mos
brancas, suadas, viscosas; ps moles, de pato, arrastando. O
confissionario  para elle uma vocao, um destino, um prazer:  a sua
arte. Algumas vezes mobila-o com certo luxo, introduz-lhe um soph e
abastece-o de viveres: uma lata de po de l e copos com gela.  ahi
que elle escuta, de olhos meio cerrados e mos crusadas no peito, as
confidencias secretas das mulheres, os casos encobertos s mes e aos
maridos, os inveterados vicios escondidos e os grandes crimes occultos,
as obras e os pensamentos, os alvoroos da carne no meio da penitencia e
da orao, as tentaes do inimigo, os ardentes desejos diabolicos, os
pungentes escrupulos de alcova, a grande tragedia intima dos mysticos e
dos solitarios. Elle escuta, manda repetir, inquire, investiga, indaga,
minucia por minucia, as circumstancias que aggravam e as circumstancias
que attenuam; disseca o peccado, desfibra-o musculo por musculo, nervo
por nervo, arteria por arteria; depois reconstitue-o, recompe-o,
inteira-o, evoca-o, fal-o resurgir nos olhos da penitente--para a
moralisar com a enormidade do erro. A culpa, assim rediviva pelos
retoques finos, dialecticos, incisivos do stylo theologico e casuistico
dos commentadores do Decalogo, a culpa repintada com essa arte mais
sabia, mais poderosamente minuciosa que a de todos os modernos
romancistas psychologos dos vicios torpes e vergonhosos, cinge outra vez
a peccadora, colla-se estreitamente com ella como a serpente do Eden,
envolve-a nas suas espiraes, penetra-a da sua essencia magnetica,
communica-lhe a electricidade dos seus filtros.  ento, n'esse momento
terrivel de crise, nevralgico, histerico, allucinado, que elle critica
friamente, com uma analyse perpendicular, dominadora, arbitra da
commoo; e consola, aconselha, admoesta, subjuga, domina, e absolve ou
condemna, elle, elle em nome do Creador, a fragil creatura desmaiada aos
seus ps. O padre reaccionario faz parte da grande centralisao
catholica,  uma das rodas do grande machinismo, vive no systema de
partido como na obediencia e na regra de um instituto. No pensa nem
discute. O seu rumo est tomado; segue-o apezar de tudo, atravez de
tudo, como um boi abre um rego, com os olhos tapados. Tem heranas de
velhas devotas, avultadas esmolas de missa, frequentes presentes de
confessadas. Vende agua de Nossa Senhora de Lourdes ou de La Salette.
Cobra os dinheiros de S. Pedro e remette-os para Roma, assigna a
_Nao_, e quasi sempre  rico.

Dos padres d'estas tres categorias quaes so aquelles que a associao
Catholica influe, aconselha ou dirige?

O padre obscuro nem mesmo sabe que tal associao existe. O padre
liberal  seu inimigo e adversario intransigente. Resta-lhe o padre
ultramontano.

Ora este ultimo padre  o vo de que a associao Catholica  a ave.
Ella no o modifica, no o educa, no o adverte, no o illustra. Faz-lhe
simplesmente isto: choca-o. Depois, quebrada a casca do sr. padre Couto,
o sr. conde de Samodes apparece.

       *       *       *       *       *

A associao Catholica celebra periodicamente reunies, a que chama
academias. Que se faz n'estas reunies frequentadas por muitas senhoras
da primeira sociedade portuense, o que ha de mais digno, de mais
inviolavel e de mais sagrado?

Relevem-nos este ponto de interrogao, que no tem de nenhum modo a
impertinencia de uma pergunta e deve apenas ser considerado da nossa
parte como um simples ponto de perturbao e de pasmo.

Se os homens estivessem ss comprehendemos que as reunies da associao
Catholica fossem para elles um meio do repousarem suavemente das fadigas
temporaes, dos enganos do mundo, das illuses e das vaidades do seculo.
Concebemos perfeitamente que depois de terminados os seus negocios,
assignada a sua correspondencia, pagas as suas lettras, despachadas as
suas mercadorias, fechada a sua caixa, comido amplamente o seu jantar,
saboreado o seu caf e o seu _kumel_, elles encerrassem o seu dia
juntando-se todos fradescamente, sem etiqueta, sem cerimonias de
elegancia nem de _toilette_, e que, em seguida, descalassem as botas e
dissessem: Ora dissertemos l um bocado sobre a immortalidade da alma!


Mas, com senhoras, com senhoras elegantes e bellas, que ho de apear-se
das suas carruagens, depr os seus burnous no _vestiaire_ e penetrar no
salo, sob o gaz, n'uma onda scintillante de setim e de renda, que faro
os homens?

Ho de se ter espalhado na athmosphera os perfumes da _toilette_, os
murmurios dos vestidos, os reflexos das joias e as confusas palavras
finas, magneticas, que susurram sob a palpitao dos leques. Suppomos
que no ha orchestra nem piano, de modo que as pessoas devotas no
podero dirigir-se immediatamente ao sr. padre Couto para que as faa
valsar; no estaro patentes os ultimos telegrammas dos successos de
Hispanha; no haver um servio de gelados trazido em bandejas de prata
por criados de calo curto: no se ter  mo um numero da
_Illustrao_ nem um album que se folheie ...

Estranha perplexidade!

Tem um simples associado de abotoar as suas luvas, de adiantar um
_fauteuil_, de se aproximar de um grupo e de lanar um assumpto pela
seguinte frmula: Minha senhora, ser vossencia assaz boa para querer
fazer-me a honra de me dizer se j tem interlocutor para uma breve
dissertao sobre os novissimos do homem?

Ou talvez que haja uma organisao parlamentar para a distribuio dos
assumptos e para a ordem das discusses. E n'esse caso, reunido o
claustro pleno, ser o sr. conde de Samodes quem abrir as sesses,
persignando-se, tocando a sua campainha e dizendo:

--Dou a palavra ao relator da commisso encarregada de dar o seu
parecer cerca das Divinas Pessoas da Santissima Trindade. Meus senhores
e minhas senhoras, est em discusso o Espirito Santo.

       *       *       *       *       *

Porque emfim, meus senhores, celebrando como catholicos as vossas
academias religiosas, das duas coisas uma: ou vs estabeleceis a
controversia e discutis os canones e os dogmas, ou no a estabeleceis e
no os discutis.

No primeiro caso usurpaes os poderes que s competem aos concilios,
entregaes aos debates da razo as materias de obediencia e de f e cahis
no racionalismo heretico.

No segundo caso, reunidos em nome de Deus, vs no tendes o direito de
fazer seno uma coisa: elevar humildemente ao ceu os vossos espiritos e
prostrar-vos na penitencia e na orao.

Mas para os exercicios da orao e da penitencia vs tendes a egreja
para rezar e a solido no interior das vossas casas para meditar o
arrependimento. Para similhantes effeitos congregar os fieis nos sales
da rua da Picaria  desviar dos templos a corrente natural da devoo e
arrancar do interior da familia o saudavel recolhimento dos propositos
bons.

Eu creio profundamente que entre vs existem homens dignos, honrados, de
uma piedade limpida, com as mais rectas intenes de espirito e de
consciencia. Acredito mesmo que essas almas, timoratas mas boas,
constituem a grossa maioria dos vossos consocios. Por isso vos consagro,
passando, esta palavra sria:

Nada mais funesto para os costumes do que ensinar s mulheres que ha
instituies especiaes para o servio de Deus, para a conquista do ceu,
para a remisso da culpa. O posto digno da mulher christ  em sua casa
ao p dos seus filhos. Os exercicios espirituaes e as contemplaes
mysticas escurecem a alegria domestica, alvoroam a virtude, perturbam a
consciencia. Na sociedade actual a mulher pertence, integralmente, com
toda a responsabilidade do seu destino,  misso sublime da regenerao
do homem pela attraco do lar. Desviar sob qualquer pretexto que seja
a atteno da mulher dos interesses da familia  commetter para com a
moral um sacrilegio. A casa conjugal tambem  um templo, e a maternidade
 uma religio.

       *       *       *       *       *

Meus senhores, tenho procurado tanto quanto me tem sido possivel ser
amavel comvosco, tomando para vos observar todos os pontos de vista.
Olho-vos como christo, olho-vos como catholico romano, olho-vos como
cidado, olho-vos como simples espectador, como _dilettante_. De todos
os modos vs me pareceis ou incongruentes, ou ridiculos, ou absurdos.

Todavia, meus senhores, depois de to exactas observaes, eu no
concluo que dissolvaes o vosso synodo e que vos retireis para vossas
casas. Os senhores liberaes, que vos combatem, so egualmente
incongruentes, egualmente absurdos e um pouco mais comicos do que vs, e
os senhores liberaes tambem se no retiram.

Elles do morras ao papa, chefe supremo da religio catholica e todavia
continuam a dizer-se catholicos. Odeiam e guerreiam os padres e no
emtanto continuam a entregar as suas mulheres aos confissionarios e as
suas filhas  cathechese. Insultam a theologia do vosso jornal a
_Palavra_ mas no acceitam com elle a controversia porque no sabem
theologia. No lhes importa o irem para o inferno, mas no querem ir
para o Carmo. O seu atheismo leva-os a quererem esmagar o infame como
elles mesmos dizem, mas com a clausula de no molestarem com essa
operao os calos do sr. Bento de Freitas, governador civil, ou do sr.
Pinto Bessa, presidente da camara. Ultimamente vs festejaveis com um
_Te Deum_ na egreja da S o anniversario de Pio IX: estaveis
inteiramente no vosso direito e na logica dos vossos principios. Elles,
em vez de combaterem com uma affirmao de sciencia a vossa protestao
de f, esperaram-vos  porta da egreja, deram vivas  liberdade, a
Victor Manuel e a Garibaldi e alguns morras ao Papa infallivel. Foi com
esta elevao de critica que analysaram o Concilio do Vaticano, consti.
4. cap. IV _De infallibilitate romani pontificis magni_, a qual
constituio nunca leram. A policia interveio, espancou varias pessoas,
prendeu varias outras, e eis em resumo o que os periodicos liberaes
chamam os conflictos da liberdade e da reaco religiosa na cidade do
Porto!

Profundas graas ao Altissimo, que no so inteiramente estas as
circumstancias que determinaram as antigas crises do poder entre os
burguezes do senado do Porto e os poderosos bares feudaes da S
portuense ou do balio de Lea! Os srs. padre Rademaker e padre Couto no
afivelaram os arnezes de ao dos antigos bispos e dos freires
hospitalarios, no reuniram os seus sergentes e homens d'armas, no
mandaram erguer as levadias dos seus paos acastellados nem
desembainharam as suas espadas famosas ... No, elles apenas entoaram a
ladainha de todos os santos, e prometteram, no excurses armadas sobre
os rebeldes dos seus feudos, mas sim jubileus e benos telegraphicas
aos seus adeptos.

Ora no vemos realmente em que estas coisas possam atterrar a liberdade
e sobresaltar o paiz.

 singular esta coincidencia:

O clero catholico tem hoje em toda a Europa o papel sympathico. Os
unicos paizes do mundo em que ainda se gosa a liberdade religiosa so os
paizes catholicos. Na Russia, na Allemanha, temos o despotismo e a
perseguio protestante. O sr. de Bismark prende, processa e desterra
os sacerdotes catholicos. No novo imperio do rei Guilherme, o
patriotismo refora-se na religio do estado; a recente legislao
allem submette todos os casos de disciplina ecclesiastica e todas as
deliberaes episcopaes ao poder civil, e prohibe o clero sob as mais
severas penas de cumprir preceitos que dimanem de qualquer auctoridade
ecclesiastica estranha  nacionalidade allem.

Ferida violentamente na sua liberdade, perseguida pela fora, a egreja
catholica--quem o diria!--appella para as garantias espirituaes e quer a
distinco dos poderes como salvaguarda da liberdade. Na Allemanha os
ultramontanos mais ardentes fortificam-se nos seus ultimos
entrincheiramentos pedindo como Cavour a egreja livre no estado livre. A
tal estado chegou desprestigiado e abatido o antigo poder clerical!...
Elle j no quer exercer a sua velha tyrannia, contenta-se em no
supportar a perseguio; e, como todos os martyres, pede a liberdade
como o extremo refugio das consciencias apavoradas.

Violentamente ferida no corao, perseguida pela fora, a egreja
apresenta esse symptoma infallivel da sua suprema dr--o grito das
garantias espirituaes, o appello em ultima instancia para a distinco
dos poderes.

Pio IX, fortificado no Vaticano, como n'uma cidadella gloriosa,
desmoronada e vencida, posto que respeitada, soffre as ultimas
consequencias fataes da sua politica, e, indomavelmente pertinaz e
corajoso, esse velho batalhador veneravel, despojado da sua cora
temporal, arroja aos vencedores o derradeiro desafio do seu despreso,
arvorando impavidamente o dogma e metralhando com as excommunhes a
opinio liberal em ultimo sacrificio a uma causa perdida.

 curioso at o ponto de se tornar ligeiramente comico que seja este o
momento escolhido pela burguezia portuense para comear a apontar-nos a
egreja catholica como um perigo para a liberdade!

No Porto os livres pensadores da calada dos Clerigos principiam agora a
receiar que os catholicos da rua da Picaria assoberbem e esmaguem sob a
desmaiada e quasi esvahida legenda pontificia o poderoso mundo
scientifico moderno.

Pela sua parte vs, catholicos da Picaria, reunis as vossas mulheres e
as vossas filhas, entoaes ladainhas e procuraes com preces e com
penitencias desaggravar a divindade offendida com as invectivas dos
periodicos liberaes--no que nos parece que confundis tambem um pouco a
religio com a sacristia, e tomaes frequentemente o sr. padre Couto pelo
Padre Eterno.  o vosso erro. No entanto ficae no vosso posto. A
civilisao precisa de vs, no como elemento reconstituinte, mas como
producto lachante. A sciencia estima-vos ... como droga. O velho mundo
invoca a vossa assistencia para o ajudar a morrer, para o enterrar. Para
mim, que acabo de vos discutir como fazendo eu mesmo parte do meio
burguez em que existis, vs sois certamente um absurdo. Perante a
philosophia vs sois porm uma necessidade historica. Nos annaes do
progresso transcendente do espirito humano o vosso nome ha de ficar como
o curioso epitaphio de uma gerao que se extinguiu ha tresentos annos.
Porque a verdade  que vs representaes as idas do seculo XVI.

A associao catholica do Porto instituiu-se para qu? Vs mesmos o
estaes dizendo todos os dias: Para salvaguardar a f religiosa da
corrente invasora do scepticismo moderno.

Pois bem, meus senhores, foi esse mesmo scepticismo, cuja corrente vs
pretendeis hoje reprimir ou recuar, o que produziu a grande revoluo
scientifica do seculo XVII e toda a civilisao subsequente at os
nossos dias.

O scepticismo  o estado de espirito que medeia entre a superstio e a
tolerancia. Ha mais de um seculo que nenhum pensador grave se intromette
na vossa controversia theologica. Ninguem vos combate, ninguem mesmo vos
discute. O mundo novo est j na tolerancia, quando vs combateis ainda
o scepticismo de que a tolerancia  o fructo!

Duvidar, meus bons amigos,  exercer uma das mais poderosas e mais
fecundas faculdades da razo humana. Para chegar  verdade no ha seno
esse caminho: a duvida. Para chegar a Deus, que no  outra coisa seno
a expresso theologica da verdade, o unico meio  tambem esse: a duvida.
Primeiro que tudo duvida-se, depois aprende-se, por fim descobre-se. Tal
 a marcha invariavel dos espiritos na sua grande ascenso do imperfeito
para o absoluto.

O mesmo christianismo no poderia nunca ter principiado a existir se no
o tivesse precedido a duvida nas consciencias da antiguidade pag.
Antes de acreditar em Jesus Nazareno o homem teve que duvidar de Jupiter
Capitolino. A tradico christ  uma conquista do scepticismo antigo. A
duvida foi a primeira e a mais augusta expresso da revelao divina.

A duvida tem sido em todos os tempos a luz immortal e a guia suprema do
entendimento humano. Foi a duvida quem levou Colombo ao novo mundo,
Copernico e Newton  astronomia, Boyle e Pascal  hydrostatica, Galyleu
 mecanica e Lavoisier  chimica.

Se nas profundidades da nossa alma o scepticismo no tivesse existido
sempre como uma indomavel fora inextinguivel de perfectibilidade
indefinida, a sciencia astronomica no viria occupar o logar da
astrologia, a physica e a chimica no substituiriam a alchimia, e a
imagem de Christo crucificado no succederia nos altares do Vaticano s
estatuas dos dois mil deuses da Roma antiga.

Quereis a definio precisamente scientifica do scepticismo? Ouvi
Buckle, o historiador da civilisao: scepticismo  a difficuldade de
crer; de sorte que o scepticismo que se augmenta  a percepo
augmentada da difficuldade de provar asseres, ou, n'outros termos, 
a applicao augmentada e a diffuso augmentada das regras do raciocinio
e das leis da evidencia. Esse sentimento de hesitao  em todo o campo
do pensamento o preliminar invariavel de todas as revolues
intellectuaes por que tem passado o espirito humano; sem o scepticismo,
progresso, mudana, civilisao, tudo seria impossivel. Na physica 
elle o precursor necessario da sciencia; na politica o precursor da
liberdade; na religio o precursor da tolerancia.

Ora defendendo a integridade da f, vs fazeis  philosophia este
servio relevante: suggeris a duvida, procuraes accordar a razo
individual, a qual nunca em nenhum outro meio social se desenvolveu to
larga e to arrojadamente, como no seio da egreja christ, a qual apezar
de todos os seus erros e dos seus mesmos crimes, tem sido sempre o mais
forte nucleo da vida moral e o mais alto objecto de todos os grandes
desenvolvimentos da intelligencia e da vontade.

De resto entendo que o Porto, esse feliz e arrojado industrial, vos deve
ser especialmente grato e reconhecido, porque vs o dotastes com um
estabelecimento que Lisboa ainda no possue--A associao catholica da
rua da Picaria,--a qual,  similhana dos antigos moinhos do Tibet e das
cabaas rotatorias dos Kalmuks, assegura  commodidade dos habitantes um
systema permanente, uma especie de moagem mechanica, com motuo continuo,
de adoraes e de preces.

       *       *       *       *       *

Algumas das familias que durante a estao finda se achavam a banhos de
mar em Pedrouos, resolveram de uma vez fazer uma festa nocturna,
mysteriosa, venesiana. Tomaram um vapor da carreira de Belem,
illuminaram-o com bales de papel como as gondolas do canal da Zueca que
deslisam em frente dos terrassos do palacio Barbarigo no primeiro acto
da _Lucrecia_. Para que a commoo de todas as pessoas que tomaram parte
n'esta scena fosse profunda e illimitada, os homens tinham-se
apresentado todos vestidos como os tenores nas scenas de _barcarola_. O
jubilo era indescriptivel.

Reunida a bordo toda a sociedade, o vapor levantou ferro, e penetrou na
treva, vibrante de aventura, saturado de drama, na direco de
Caparica.

O Tejo porm estava grosso e picado, de modo que comeou a dar ao vapor
uns balanos intermittentes para um lado e para o outro como de quem
escabacea com somno. Com isto principiaram a manifestar-se com uma
insistencia progressiva os symptomas spasmodicos nos esophagos da
assembla. Os Mazaniellos, verdes como azebre, tristes como condemnados
 morte, procurando sorrir  catastrophe com sorrisos dilacerados como
os que apresentam os cotovellos rotos, enrolavam-se nas suas capas e
prostravam-se como trchos inuteis nos bancos da tolda. As senhoras
punham os seus lenos na bocca, corriam a mo pela testa, cuspiam
desconsoladamente no mar, e tinham ligeiros movimentos extaticos e
doloridos como de quem est escutando no ar o rumor de uma angustia que
chega.

Ento o sr. Mathias Ferrari, segundo lemos no _Diario de Noticias,_ fez
correr um abundante servio de neve. Todos se serviram.

Os effeitos foram taes que quando os criados repassaram com a segunda
roda de sorvetes, todos os convivas, com as boccas ainda abertas,
estremeceram de horror, porque cuidaram que esses segundos gelados eram
outra vez--os primeiros.

Ento um homem forte, que tinha ido para bordo armado de um violo,
tentando arrancar a companhia a uma consternao abatida e geral,
comeou, a dedilhar o instrumento e a entoar uma chacara. Mas, de
repente, suspende-se, torce-se, arripiam-se-lhe os cabellos,
encurva-se-lhe a espinha dorsal, cae-lhe o violo desfallecido nos
braos das senhoras, e o resto da chacara destinada aos eccos nocturnos
do oceano e recolhida pelos circumstantes n'uma bacia.

Era immenso a bordo o desalento.

Mathias Ferrari, descoroado, abatido, j no fazia correr os
servios. Este grande confeiteiro, dominando inteiramente a situao
com a profundidade da sua critica, comprehendera--e muito bem!--que a
questo ali j no era de _fazer correr_, mas de _fazer parar_.

Era alta noite quando o vapor abicou outra vez  praia de Belem,
recolhendo-se todos perfeitissimamente satisfeitos pelo modo como se
passara to bello tempo. Apenas, para que desembarcassem, houve o
pequeno trabalho de virar os que tinham assistido a esta festa, a mais
brilhante talvez que se tem dado no Tejo, por que os convivas em virtude
dos reiterados exforos que tinham feito no mar para puxar para fora o
interior, succedera-lhes terem-o effectivamente conseguido, e haverem
chegado todos a terra--pelo avesso.

       *       *       *       *       *

Com a mais extranha commoo lemos ultimamente que fra nomeado aio de
sua alteza o principe real sua ex. o sr. Martens Ferro, abalisado
jurisconsulto e procurador geral da cora.

       *       *       *       *       *

 talvez uma bem perigosa temeridade da parte de prosaicos e obscuros
burgueses como ns somos o atrevermo-nos a meditar um momento no que
possam ser perante a educao e perante a sciencia as attribuies
especiaes de um aio junto de um principe. Todavia--debalde procurariamos
escondel-o--em presena de similhante assumpto, profunda e illimitada 
a confuso do nosso espirito. Por isso que, por mais assignaladas que se
nos representem as differenas que devem distinguir o alto e poderoso
filho de um monarcha do mero filho de um fabricante de velas de cebo,
nunca, por maiores que sejam na direco do infinito os arrojos da nossa
phantasia curiosa, nunca podemos chegar a alcanar, nem pelas
presumpes mais vagas nem pelas mais remotas suspeitas nem pelas mais
affastadas conjecturas, qual o emprego pratico e effectivo que possa dar
um principe aos prestimos de um aio. Para satisfao de que
necessidades, de que conveniencias ou de que simples formalidades, em
que condies, em que circumstancias, em que especial momento da
preciosa e augusta vida do real infante vae sua excellencia o aio 
presena de sua alteza o principe?!... Ns o ignoramos.

Porque, quando as ordens de sua alteza procedam das necessidades do seu
espirito, das curiosidades da sua intelligencia, dos interesses da sua
instruco, sua alteza pedir naturalmente algum dos seus mestres ou
algum dos seus livros, e a sua alteza ser ento applicado um professor
de linguas, um compendio do sr. Joo Felix ou um numero do _Diario de
Noticias_. Quando os desejos manifestados por sua alteza dimanem das
urgencias physicas da sua naturesa, das fatalidades animaes do seu
organismo ou do seu temperamento, sua alteza pedir o seu banho, o seu
jantar, as suas pastilhas ou o seu escarrador; e ento os camaristas de
sua alteza, as suas aias e os seus escudeiros cumpriro os desejos de
sua alteza.

E no vemos, nem na ordem physica, nem na ordem moral, nem na ordem
inlellectual das relaes de sua alteza com o mundo externo, a
necessidade, a conveniencia ou a plausibilidade da interveno do aio.

A no ser que a concorrencia d'esta legendaria entidade methaphysica se
deva considerar nos reaes paos como um acepipe _hors d'oeuvre_ ou como
um objecto supplementar de recreio, porque ento comprehendemos de certo
modo que ao servio particular de sua alteza um camareiro exclame:

Est o _lunch_ na mesa: ha _galantine_, rabanetes e o sr. Martens
Ferro com salsa picada e manteiga fresca. ou ento: Eis os brinquedos
de sua alteza: aqui est a bola de guttapercha e a caixa com o sr.
Martens Ferro de engonsos.

       *       *       *       *       *

Se porm--e perdoe-se-nos esta hypothesese, sob a senhoreal e demievica
palavra aio, devemos entender a ida perfeitamente logica, sensata,
popular, de um preceptor pratico, de um mestre experimental, de um
amigo, de um companheiro, n'esse caso notaremos com o mais profundo
respeito a Sua Magestade a Rainha, dedicada me e primeira educadora do
joven principe, que foi singularmente illudida a sua perspicacia
elegendo o sr. Martens Ferro como conselheiro official e privado de seu
filho, como guia experimentado da candida existencia inexperiente do
innocente alumno. E isto por uma razo que de nenhuma maneira desabona
os altos merecimentos de sua excellencia o actual senhor procurador
geral da cora, antes pelo contrario os confirma e corrobora. Esta razo
 que: o sr. Martens Ferro, pela sua natureza, pela sua organisao,
pelo seu temperamento, pelo seu caracter, pela sua biologia,  to
inexperiente, to candido, to ingenuo, to innocente e to puro como o
proprio alumno que elle  chamado a aconselhar e a dirigir na difficil e
complicada navegao da vida.

Passando em tenros annos do regao d'aquella que lhe deu o ser para os
braos da austera jurisprudencia, que tinha de amamental-o para a
sciencia e para a gloria, o sr. Martens Ferro tem at hoje passado a
sua vida _en nourrice_ em casa do Direito Publico.

Os seus dias teem decorrido transcendentemente fora das condies
historicas do tempo e do espao. A sua existencia tem sido
exclusivamente mystica e symbolica. Quando tem os seus impetos mais
ferozes de extravagancia, de anarchia, de deboche, elle sae a passear
pelas viosas campinas da philosophia do direito e faz patuscadas
orgiacas e escandalosas com as origens celticas do direito e com as
liberdades municipaes do imperio romano. Depois o remorso apodera-se
d'elle. No dia seguinte acorda pallido, abatido, com a lingua grossa: o
espectro pavoroso e formidavel do sr. Batbie appareceu-lhe em sonhos, e
elle ouviu vozes vingadoras que lhe bradavam das profundidades da noite
e do arrependimento: Joo Baptista, para onde deixaste o direito de
punir? que fizeste do direito administrativo, Joo? que  do direito
internacional, Baptista?! Taes so os seus dias de mais desdem, de mais
anormalidade, de mais sexo, de mais jogo e de mais champagne! tal  o
seu despertar contricto para a legalidade, para a descentralisao
districtal e para as reformas de administrao! Tal, resumidamente, 
elle! E quando dizemos _elle_, commettemos uma incerteza de
concordancia, porque to pura, to transcendental, to scientifica  a
personalidade do sr. Martens Ferro, que nada obsta a que a historia
referindo-se a sua excellencia, em vez de dizer _elle_, diga--_ella_.
Pela nossa parte, aguardando cerca da resoluo d'esse ponto as
ulteriores disposies definitivas da posteridade, diremos por emquanto
simplesmente _el_, sem a desinencia de genero, sob a respeitosa formula
neutra.

Como diziamos, pois, tal --el.

       *       *       *       *       *

Analysando, timidamente como o temos feito, a nomeao do sr. Martens
Ferro para aio do principe real--note-se bem isto--no  a sorte de sua
alteza o que nos inspira receios sob a guarda de um tal guia ... Ah! no!
 pelo contrario o destino de sua excellencia o que nos inquieta sob a
influencia de um tal companheiro. Por _elle_ podemos estar perfeitamente
socegados. Mas _el_? o que ser d'_el, el_ to puro ou pura, to
candido ou candida, sob os impulsos da nova existencia que
repentinamente vae no seu temeroso vertice arrebatal-o ou arrebatal-a?!

Na vida da crte, fina, scintillante, irritavel, cheia de factos, de
commoes, de rasgos de espirito e de valor, de emboscadas, de
surpresas, de malicias, de tentaes, quantos perigos, quantos laos,
quantas ratoeiras para a innocencia virginal, para a candida pureza
inexperiente e inerme d'_el!_ ...

Os principes por effeito da sua vida reclusa, claustral, vigiada,
monotona, amam naturalmente a escapada, o mysterio, a aventura, a
innocente anormalidade. Apraz-lhes a sortida arriscada, a partida
carnavalesca, o ruido dos festins secretos, a mascara inescrutavel, a
longa capa dramatica e a espada ligeira e subtil dos paladinos;--o que
se lhes deve relevar, porque  esse o unico despique dos principes para
a secca official dos intrigantes, dos bajuladores, dos ambiciosos, dos
sensabores e dos hypocritas que ordinariamente os rodeiam. Estes porm
no so ainda para _el_ os unicos perigos. No  licito esconder que ha
outros mais e muito mais temerosos. Pensemos nas influencias
tempestuosas d'esse elemento, terrivel para a mocidade, que se chama--a
mulher. Sentimos magoar com este promenor a pudicicia do sr. procurador
geral da cora, mas esta  a verdade que no devemos occultar aos olhos
de sua excellencia. Diz Michelet, o casto, o austero Michelet, que em
todo o tempo a mulher attrahiu o homem, assim como a vinha da Italia
chamou os gaulezes, e a laranja da Sicilia chamou os normandos. Ellas
chamam-nos,  srs. procuradores geraes da cora, ellas chamam-nos!
Lembremo-nos da bella Helena, sr. Martens Ferro, lembre-mo-nos de
Semiramis, de Cleopatra, da casta Penelope, das Sabinas!

Os principes no esto mais isemptos que os outros homens d'esta lei
geral da humanidade, e os que vivem com elles--ponderemol-o bem--ficam
sujeitos s mesmas influencias que envolvem os reis.

Guilherme VII, cuja f religiosa era to ardente que elle foi  Terra
Santa com cem mil homens, o proprio Guilherme VII levou tambem na viagem
do Santo Sepulchro a galante legio das suas amantes, e diz d'elle uma
velha chronica que, bom trovador e bom cavalleiro d'armas, por muito
tempo correra o mundo _para enganar as damas_. Tal  a raa de que elles
sem, s vezes, quando no sem peores que o mystico e piedoso
Guilherme! Que a actual procuradoria geral da cora emquanto  tempo o
medite!

De Francisco I, um dos mais sabios e dos mais uteis reis que tem tido o
mundo, diz-se que s bellas milanezas se deve a mais importante parte na
perseverana com que elle combateu pela conquista da Italia.

Sem fallarmos na cohorte das peccadoras, to gentis como funestas, dos
_boudoirs_ de Luiz XIV e da Regencia, recordemos ainda as dissolutas e
ferozes mulheres da crte de Carlos IX, Catharina de Medicis, Maria
Touchet, e as grosseiras amantes torpes de Luiz XI, a Gigogne e a
Passefilou ... Oh! pudor! oh decoro! oh reforma administrativa!

Suppondes que a educao, os exemplos salutares e os conselhos sabios
possam preservar os principes dos perigos das suas ligaes
clandestinas? Mas quando assim pudesse ser, quantos outros riscos na
propria convivencia legal das mulheres legitimas!

Um dia Maria Laczinska, legitima mulher de Luiz XV, recusou um beijo ao
rei com o fundamento de que este cheirava a vinho. Luiz, segundo a
expresso pittoresca de um chronista das galanterias escandalosas do
seculo passado, comeava ento _a tomar o gosto ao champagne_. O rei
resolveu n'esse dia nefasto separar-se para sempre da rainha, e so
sabidos os desgostos e as desgraas que o rompimento d'essas relaes
custou  felicidade da Frana e  moral da Europa. Que remorso para o
aio de Luiz XV! Foi d'elle a culpa d'esse desastre. Se o aio do joven
rei, em vez de comear _a tomar o gosto ao champagne_ juntamente com o
seu alumno, fosse, como pelo contrario devia ser, um experimentado e
antigo _soupeur_, conhecedor esperto de todas as ciladas armadas ao
homem pela bebida e pelo amor, elle teria evitado o divorcio do rei.

Tel-o-hia evitado, porque teria ensinado ao seu alumno, com a
auctoridade da experiencia, que a intemperana nas ceias e o abuso no
champagne produzem as hepatites, as predisposies para a apoplexia e
para a gotta e a manifestao das areias no rim. Se o principe no
obedecesse a estes conselhos e persistisse em ceiar, n'esse caso o seu
aio lhe faria comprehender que depois de ter bebido champagne nenhum
homem vae conversar com senhoras sem ter concluido a sua digesto e sem
haver previamente lavado a bocca com um elixir dentifrico. Um pequeno
passeio ao ar livre, uma gota de laudano ou uma pastilha, qualquer
d'estas tres coisas ministrada opportunamente por um aio intelligente e
dedicado, teria obstado ao rompimento das relaes de Luiz XV com sua
mulher e a todas as consequencias que d'ahi se seguiram.

Algumas vezes succede ainda que, alm de todos estes desgostos, d'estas
decepes e d'estes remorsos, os aios, os validos, os intimos dos
principes levam ainda por cima pancada das princezas. N'este ponto as
chronicas so prodigas de eloquentes e salutares avisos. Constancia de
Arles, por exemplo, mulher de Roberto Pio, tinha taes accessos furiosos
de mau genio que um dia vasou um olho do seu proprio confessor
batendo-lhe com uma bengala que tinha no casto um bico de passaro. Esta
mesma bengala nem sempre se conteve perante a pessoa inviolavel e
sagrada da real magestade, e por muitas vezes se ergueu sobre as cabeas
dos amigos mais particulares do rei para nem sempre deixar inteiros
esses craneos dedicados e fieis. Foi a mesma sobredita princeza a que de
uma vez mandou matar por occasio de um passeio, aos proprios olhos do
soberano, o ministro De Beauvais, que lhe desagradava, e que, de outra
vez impoz para o outro mundo um cortezo antipathico, estafando-o com
uma corrida que o obrigou a dar n'uma caada.

       *       *       *       *       *

Ora se a cora tem por um lado a obrigao de escudar a infancia e a
innocencia dos principes, no deve por outro lado sacrificar a
inexperiencia inerme das instituies pondo os srs. procuradores geraes
como barreira entre as tentaes e as culpas, lanando emfim a alta
magistratura ao pego tenebroso, ao Mexilhoeiro insondavel em que ha o
espumar dos vinhos capitosos, o sussurrar das sedas, o arfar dos leques,
os sorrisos tentadores e as bengalas de casto de bico.

       *       *       *       *       *

Algumas das pessoas que tiveram a honra de serem admittidas a jantar com
as senhoras hispanholas que ultimamente se acharam em uso de banhos de
mar, e de emigrao, em Lisboa pedem-nos a nossa interveno para
dirigirem quellas senhoras, alis to distinctas e to interessantes,
uma pequena observao que os seus amigos mais dedicados se no atrevem
a fazer-lhes directamente.

Suas excellencias teem  mesa o terrivel habito de comerem o peixe com a
faca, o que os admiradores mais enthusiastas do fino sal de espirito de
suas excellencias e do seu poderoso encanto de maneiras, no podem
abster-se de considerar como uma concorrencia temeraria feita por suas
excellencias aos acrobatas dos jogos malabares, unicos entes que
insistem em accumular os seus meritos pessoaes com o talento
supplementar de metterem as facas pela bocca.

... Sendo certo ainda assim que os malabares que temos visto
entregarem-se a este exercicio, servem-se o seu rodovalho  parte, e
comem as facas--sem peixe!

Submettemos estas simples reflexes a suas excellencias, as quaes em
seu delicado criterio decidiro se, attentos os graves cuidados que nos
inspiram, devem ou no continuar a manter--na lista dos seus acepipes
predilectos--os faqueiros.

       *       *       *       *       *

Durante este mez, to inquieto, to palpitante de commoes, em toda a
Europa, os principes com mo nervosa e febril cultivaram a epistola.

O Santo Padre escreveu ao imperador da Alemanha, o imperador da Alemanha
escreveu ao Santo Padre, o conde de Chambord escreveu ao deputado
Rodez-Benavent, o sr.D. Miguel de Bragana escreveu ao sr. conde da
Redinha, e a historia em geral e os redactores da _Nao_ espeialmente,
escutaram com ardor o fremito d'essas pennas riscando a face do universo
com letras um pouco menos correctas que as de Cicero, de Plinio o moo e
de madame de Sevign.

       *       *       *       *       *

O Santo Padre pede ao imperador Guilherme que obste a que o governo da
Alemanha persista na perseguio do clero catholico. O imperador
Guilherme roga a Sua Santidade que impea o clero catholico de proseguir
na rebelio contra o governo da Alemanha.

D'este modo o Papa deseja que se retire da scena o martyrio, a grande e
bella apotheose da egreja triumphante, e lembra ao verdugo que sirva aos
martyres o antigo fel das legendas gloriosas com o moderno assucar dos
confortos policiaes.

O imperador opina que amargo de mais  o proprio calix que o obrigam a
tragar, e tirando da cabea o seu ponderoso capacete bellico de ponta de
pra-raios, e humilhando-se dentro das suas botas de couraceiro,
elle--abatido, beato, lacrimoso--pede egualmente para as suas
tribulaes de christo as correspondentes e proporcionaes douras.

E taes so os dois maximos guardas da f, os dois summos representantes
na Europa moderna dos dois grandes ramos em que se acha dividida a
christandade!

Oh! Voltaire compungir-se-hia, e, franzindo n'um sorriso bom os feixes
malignos das suas sarcasticas rugas, elle, o caustico philosopho, o
livre espirito, tirando benevolo dos bolsos da sua houppelande de
veludo e martas a caixa das suas pastilhas, offereceria s potestades
chorosas os bombons sacrilegos dos sales de Mesdames du Deffant e de de
Lambert.

       *       *       *       *       *

A carta do conde de Chambord  o velho golpe astuto de Jarnac jogado ao
constitucionalismo monarchico.

O principe a quem a Frana offerecera a cora burgueza de Luiz Filippe,
pergunta-lhe o que exige d'elle a Frana, que papel lhe destina, para
que misso o invoca.

Vs, que estaes na liberdade, na democracia, na republica, cedeis ao
invencivel appetite de acclamar um rei. Comprehendestes que  superior
aos vossos meios repressivos e reorganisadores a perturbao corrompida
da sociedade em que viveis. Duvidaes da vontade, da intelligencia, da
fora do vosso accordo collectivo. Quereis uma iniciativa individual,
culminante, prestigiosa, predestinada para o mando, para o triumpho,
para a gloria; quereis o monarcha eleito como Saul para livrar o seu
povo das mos dos seus inimigos, segundo a formula primitiva do
propheta Samuel.

N'esse caso armae a vossa cathedral de Reims, convidae os vossos
principes do seculo e da egreja, trazei a cora real, a espada, as
esporas, a dalmatica azul, as botinas de seda estrellada de lizes de
oiro, entregae-nos o sceptro de Carlos Magno, e dae-nos as sete unces
de Pepino o Breve. Depois do que, ns haveremos por bem deliberar por
quaes secretos caminhos nos apraz mandar-vos, segundo as vossas
gerarchias, para a victoria, para a bemaventurana ou para a fora.
Emquanto vs, tranquillos, repousados, deixareis definitivamente de
occupar-vos da coisa publica, e, sem ambies, sem principios, sem
idas, tereis a felicidade absoluta da besta no seu aprisco; _hoc erit
jus regis qui vobis imperaturus est_.

Se, em vez d'isto porm, o que desejaes ter , no uma fora omnipotente
que vos governe, mas sim um instrumento politico que manejeis; se para
me outorgardes a cora, precisaes de me tirar a iniciativa, a
personalidade, a dignidade de homem; se para que me julgueis inoffensivo
 preciso que eu vos mostre ser pdre; se as garantias que me pedis para
que vos no domine so uma fraqueza, uma corrupo, uma inepcia que vos
assegurem a facilidade de me dominardes a mim, ento no: no vos
convenho eu, o derradeiro dos Bourbons fundadores da monarchia absoluta
nascida dos terrores da Liga e da Saint-Barthelemy, descendente e
herdeiro de Henrique IV, o que teve a dupla coragem da fora e da
miseria, o que na tomada de Cahors se bateu nas ruas durante cinco dias
consecutivos, lho a lho, dente a dente, brao a brao, o que de Dieppe
escrevia alegremente a Sully que tinha todas as camisas despedaadas e
um gibo roto nos cotovellos!

Camille Desmoulins conta que em 1790 o poder monarchico era representado
em Londres por meio de um bailado expressivo como uma parabola. N'este
baile a primeira figura era um rei que terminava a execuo de um
_entrechat_ cheio de garbo e de pompa alongando um pontap ao fundo das
costas do seu primeiro ministro; este transmittia o pontap real ao
segundo ministro, o qual o traspassava ao terceiro, seguindo-se a mais
viva e espirituosa corrente de pontaps que se tem visto n'uma crte,
at que o personagem que apanhava em cheio no seu volumoso e amplo
hemispherio posterior o ultimo pontap era o paiz--que ficava com elle.


Nas monarchias constitucionaes imaginou-se reconstituir, por meio da
carta, essa graciosa dana, alterando porm a collocao do soberano ou
a ordem dos pontaps, de maneira que ou o principe est em baixo e os
pontaps vem de cima, ou o tyranno est em cima e os pontaps vo de
baixo.

Os povos monarchicos julgam-se felizes tendo cada pessoa ao lado de si
alguem a quem transmittir o pontap em giro atravez das instituies e
da politica. A carta do conde de Chambord no  em resumo seno o
testemunho de uma divergencia com a assembla nacional sobre este ponto
importante do bailado em ensaios: quem  que recebe o pontap?

A um paiz corrompido e a uma assembla senil no occorre esta
considerao to simples: que quando se trata de um stygma de servilismo
e de baixeza a questo no  poder transmittil-o,  no dever
acceital-o. Organisar pela monarchia a responsabilidade dos que se
corrompem  abdicar a faculdade de demittir a corrupo. Os reis quando
no enodoam os povos, tambem no lhes tiram as nodoas que elles tenham.
N'esses casos o que limpa um paiz no  a realesa. Quereis saber o que
? Pois bem!  a benzina!

       *       *       *       *       *

A carta do sr. D. Miguel de Bragana ao sr. conde da Redinha  ao mesmo
tempo o tocante documento da estima inviolavel de um amigo ausente, e o
authentico manifesto politico de um principe proscripto.

Sua alteza declara ao _seu paiz_ que quer ser o protector e o amigo de
todos os portuguezes e que considera como sua mais elevada ambio e sua
maior gloria--restaurar o throno pontificio. N'este simples trao
encarna sua alteza a expresso politica da sua indole,--o que nos parece
de uma moderao de intuitos demasiadamente modesta.

Diriamos que sua alteza folga em confundir-se na obscura legio invalida
dos tyranos burguezes, dos cezares bonacheires, Neros de barrete de
dormir, Caligulas dyspepticos, Eliogabalos em uso do pronto alivio e da
revalenta arabica. A politica affirmada por sua alteza accusa uma
visivel pobresa de sangue. Sua alteza  um anemico. Tal  o infortunio
da nossa raa! Que degenerao!

O pae do joven principe D. Miguel era sanguineo, esse. A sua
extraordinaria fora muscular era a admirao respeitosa, a maravilha
profundamente inclinada do _sport_ lusitano de 1827. Nas redondezas do
pao de Queluz, nas terras do Infantado, via-se s vezes atravessar os
campos, a p, caando acompanhado do seu falcoeiro, um homem de mais de
meia estatura, de solidos hombros, faces morenas, barba rapada, mos
enormes, beios sensuaes, grandes olhos negros, rasgados, peninsulares;
vestia um casaco de baeto verde, calo preto, botas altas, de cava,
com taes de prateleira e esporas de prata; usava um bonet azul, do
prato largo, com vizeira. Este homem, que amava a convivencia dos
plebeus, a quem dava largas esmolas de dinheiro e de conversao,
comprazia-se em ensinar a lavrar os moos do campo: tomava na mo
esquerda a rabia de um arado, azorragava com a direita uma parelha de
mulas, e abria no solo mais empedrado e mais endurecido, sob a poderosa
presso do seu pulso, um rego profundo, extenso de um kilometro, e recto
como um risco passado a regoa por um tira-linhas. Suffocava um forte
cavallo de Alter puchando-lhe a ponta da cilha com os dentes. Segurava
pela bocca, que juntava e cerrava no punho, um sacco de sete alqueires
do trigo, e lanava-o ao hombro, com uma s mo, erguendo o brao por
cima da cabea e conservando o corpo immovel, erecto e firme. Quando
vinha de Queluz a Lisboa, galopando  desfilada, com uma vara debaixo da
perna, entre os seus companheiros mais assiduos, Joo Sedvem, o picador,
o Jos Verissimo, o da policia, a fora de soldados de cavallaria que o
acompanhava, ficava aos poucos pela estrada destroada pela fadiga: elle
nunca chegou seno s. No dia em que recebeu ao p da mata, na Quinta
Velha, onde estava caando ao falo, por volta das duas horas da tarde,
a noticia de ter entrado a barra de Lisboa a flotilha que apresou e
levou para Frana todos os nossos vasos de guerra surtos no Tejo, elle
veiu de Queluz a Belem, em menos de tres quartos de hora. Esse homem que
tinha a grande popularidade que trazem comsigo as legendas da fora e da
destreza physica, era sua magestade el-rei o sr. D. Miguel I.

O soberano tinha os defeitos do homem e as qualidades dos seus defeitos.
A sua politica era apopletica simplesmente porque elle era plethorico.

Esse principe, com o seu temperamento, o qual constituia, politicamente
assim como physiologicamente, toda a sua personalidade, fez  liberdade
e s idas modernas o mais relevante servio: foi elle o que fabricou o
partido liberal portuguez.

Os constitucionaes foram uma inveno da policia do sr.D. Miguel. Elles
no combatiam o direito divino, nem os privilegios da nobreza e do
clero, nem o regime absoluto, nem a servido popular; o que elles
combatiam principalmente era o Jos Verissimo. Affirmavam-se os direitos
do homem porque se tinha percebido que esses direitos prejudicavam os do
Joo Sedvem. Os revolucionarios portuguezes no vieram da sciencia, no
vieram do amor da justia, das impaciencias da liberdade, dos contagios
da Conveno, da revolta da dignidade humana. No. Elles vieram
simplesmente dos carceres, dos carceres em que o regime despotico
recalcou de mais a fora viva da nao. Os principios eram o pretexto
sob o qual se vingavam as offensas feitas no s idas vigentes, mas aos
interesses estabelecidos. As denuncias partiam dos lesados. A ida
exposta na organisao da Companhia dos vinhos preoccupava mais os
espiritos em Portugal do que o principio representado em Frana pela
existencia da Bastilha. Havia martyres da liberdade que nunca tinham
amado a liberdade com devoo mais intensa que a do Sedvem e que no
teriam posto duvidas irremissiveis em continuar a dobrar a cerviz, ao
jugo da tyrannia como se dizia no stylo do tempo; smente o que elles
tinham recusado era emprestar algumas moedas ao Jos da Policia. Para a
maior parte da gente a victoria da ida liberal foi simplesmente a morte
do Telles Jordo. Finalmente o sr. D. Miguel de Bragana, _primeiro_,
foi o principe cuja fora fez na monarchia portugueza o rombo por onde a
liberdade appareceu. O sr.D. Miguel de Bragana, _segundo_,
figura-se-nos pela sua expressiva carta ao sr. conde da Redinha, uma
pessoa extremamente debilitada. Ser o protector e o amigo de todos os
portugueses  enfraquecer-se diffundindo-se. Os antigos fortes
concentravam-se.

Pobres de ns! Como somos diversos de nossos paes! Os plethoricos,
sangrados, legaram  gerao que lhes succedeu a impotente anemia!

       *       *       *       *       *

Acabamos de lr um livro que foi publicado era Lisboa ha cerca de tres
mezes e a respeito do qual ainda no ouvimos  critica uma palavra de
meno. Foi abafado pelo silencio. Se lhe no dessem esse destino teria
sido um livro escandaloso porque foi inteiramente concebido fra da
rotina, fra da conveno, fra do compadrio, por um espirito
justo, esclarecido, honrado, fatalmente inclinado ao bem.
Intitula-se--_Portugal e o socialismo_, e  escripto pelo sr. Oliveira
Martins.

A litteratura portugueza actual apresenta este notavel caracter:--o
bysantinismo. Ella no  um documento historico, nem um documento moral
do tempo em que vivemos. No tem importancia na direco dos espiritos,
no tem influencia na formao dos caracteres, no tem validade no
estabelecimento dos principios. No d nenhuma theoria  razo, no d
nenhuma lei  consciencia, no d nenhuma norma  dignidade.

A imitao, a conveno, o servilismo, o estreito espirito de seita, de
partido, de escola, a ignorancia, a indolencia, a bajulao, a
orthodoxia official puzeram a pouco e pouco as lettras portuguezas
inteiramente fra do seu objecto--a simples e pura verdade humana.

O que actualmente se escreve no  absolutamente nada o que actualmente
se pensa. Todas as grandes questes capitaes que preoccupam a sociedade,
a litteratura ou as evita ou as falsea. Ou as evita porque as no sabe
tratar, ou as falsea porque as trata com um espirito particular de
interesse, hostil  sciencia e rebelde  arte.

Entre tantos escriptores portuguezes que quotidianamente enegrecem em
Portugal o innocente papel sobre o qual se ora a medida das nossas
faculdades, onde est o homem cuja obra represente o precurso das idas
predominantes d'este seculo atravez d'esta sociedade? Onde est o
artista, onde est o philosopho, onde est o poeta que tenha atacado de
frente a soluo desinteressada, independente, firme, clara, nitida, dos
multiplos problemas que agitam o espirito, a consciencia, o corao do
homem moderno no meio do sentimento, do temperamento, da religio e da
politica da sociedade moderna?

Ser tal escriptor o sr. Alexandre Herculano, philosopho collaborador da
sr. D. Guiomar Torreso no _Almanack das Senhoras_?

Ser o poeta sr. Nunes, deputado conservador, o mais arrojado dos vates
que conhecemos dentro dos limites da carta constitucional e do systema
representativo?

No nos parece.

O sr. Oliveira Martins faz parte de um pequeno grupo de alguns
trabalhadores obscuros, inteiramente penetrados da corrente scientifica
do tempo actual, que teem procurado introduzir na litteratura as idas
correspondentes s preoccupaes, s necessidades e aos interesses mais
altos, mais legitimos e mais vitaes da sociedade em que vivem, fixando
assim scientificamente algumas das bases do programma geral da revoluo
por meio da qual se vae transformando o mundo europeu.

Esses humildes obreiros, aos quaes cabe a gloria de terem iniciado em
Portugal quasi todos os grandes principios das civilisaes modernas,
no teem encontrado, como galardo dos seus estudos, da sua
independencia e da sua andcia de pensadores, seno a surda guerra das
maledicncias, das calumnias e dos desdens, evantada pelo obscurantismo,
pelo fanatismo, pela ignorancia. Accusam-os de attentarem contra a
moral, contra a religio, contra a ordem, contra o patriotismo, e
expulsaram-os vilmente e infamemente do respeito publico e da
considerao social como jacobinos, como communistas, como incendiarios.

       *       *       *       *       *

 do livro acima citado que extrahimos a seguinte pagina to sensata,
to viva, to humana:

Portugal no tem pauperismo.  por isso que entre ns se no levantaram
ainda, nem se levantaro j, Nelsons ou Sydney Smiths para dizerem como
em Inglaterra: A pobreza  infame.  por isso que a definio ingleza
da fabrica--_manufactura de algodo e de pobres_--no pode servir-nos. O
no attingirmos porm um termo to elevado de preverso social no quer
dizer que as classes trabalhadoras de todas as industrias vivas do paiz,
extractivas e transformadoras, encontrem para c das nossas fronteiras
um modo de vida essencialmente differente. No, a nossa organisao
politica, semi-monarchica, semi-liberal, d em resultado ser duplamente
absurda, immoral, pauperisadora. Porque, como liberal, permitte a livre
concorrencia do capital e do trabalho, aliena as funces e
propriedades collectivas, e, para corrigir as consequencias de
distribuio viciosa que d'ahi resultam, mantem uma proteco
anachronica, com as alfandegas, com a divida e com o imposto, proteco
que recaindo afinal toda no consumo, vem ainda aggravar as condies do
trabalhador pela elevao no preo das coisas. Acima da preverso
economica devemos pr a preverso moral. No pequeno mundo industrial de
Lisboa, no contaste nunca, leitor, aos sabados o numero de ebrios que
pova as vielas escuras e nauseabundas, onde  crapula vem juntar-se a
orgia das mulheres perdidas? Onde o prostibulo est em frente da
taberna, ao lado o bilhar, e entre o bilhar, o prostibulo e a taberna,
se funde a feria?

A desordem e a immoralidade so contra a natureza. Se esses homens no
fossem pobres seriam melhores. Se no tivessem de trabalhar doze horas
para comer saberiam ler. Se tivessem po e liberdade seriam paes de
familia. Olhae as mulheres e as creanas. Termo medio a familia tem
quatro pessoas; termo medio o salario  de 400 ris. O trabalhador
recorre ao celibato,  prostituio, s relaes illicitas, d'onde
resultam os infantecidios (to frequentes em Portugal como na China) e a
roda dos expostos. Quando um homem foi agarrado por esta engrenagem
d'ao morreu. Ha muitos a quem uma certa energia de caracter ou uma
constituio artistica e sentimental levaram ao casamento e  familia: 
ento que se encontram quatro pessoas com quatro tostes por dia. A
industria offerece uma tentao diabolica: augmentar o salario
destruindo a familia. N'esse momento a esposa e os filhos entram na
_fabrica_ ...

       *       *       *       *       *

A fabrica  para as mulheres e para as creanas o sepulchro do pudor, da
honestidade e da saude. Emquanto as instituies sociaes no assegurarem
 mulher o seu legitimo logar na familia  absolutamente preciso que,
pelo menos a protejam na miseria fatal da fabrica. Porque nas fabricas
portuguezas o que succede com a mulher  que, pela sua fraqueza e pela
sua ignorancia, ella  no trabalho o escravo do homem. Ninguem entre ns
tem lanado os olhos a esses desgraados destinos obscuros.

       *       *       *       *       *

Acostura que ainda ha pouco era o grande refugio das raparigas pobres
desappareceu com a machina de cozer. A mulher no pde sustentar essa
concorrencia, porque ella no pde, por maiores que sejam os esforos
dar por suas mos mais de 30 pontos por minuto: a machina d 643 pontos
no mesmo espao de tempo. Para se empregar n'outros servios precisaria
de uma educao preparatoria pratica, para a qual so indispensaveis as
escolas profissionaes que no existem em Portugal. Em Frana, na
Inglaterra, na Allemanha e principalmente na Suecia, as mulheres
habilitadas em cursos especiaes teem j muitos empregos uteis na
industria e no commercio. Em 1871 havia na Suecia 4:055 mulheres
empregadas no commercio e na industria. D'estas 2:675 dirigiam os seus
proprios negocios. Quinhentas e quatro mulheres eram proprietarias de
fabricas e de officinas. Alm d'isto muitas outras se achavam empregadas
nos bancos, nas caixas de soccorros, nas companhias de seguros, etc. com
emolumentos annuaes variando de 800 a 5:000 rixdalers. No servio dos
correios, dos caminhos de ferro, dos telegraphos, a mulher alarga de dia
para dia os seus dominios. A America, a Suecia, o Wurtemberg,
offerecem-lhe sob esse ponto de vista as maiores facilidades.

Em Darmstadt muitas mulheres se acham empregadas nas reparties de
estatistica com optimos resultados para o servio publico. Os cuidados
aos doentes so um bello emprego para o trabalho das mulheres. Na
Hollanda muitas teem sido auctorisadas a tirar diplomas de
pharmaceuticos. A profisso medica tem-lhes sido permittida em diversos
paizes. Na America, em S. Petersburgo, em Zurich, em Upsel e em varias
outras universidades ha um consideravel numero de alumnos do sexo
feminino estudando a medicina. Na Suecia estabeleceu-se pelo estado um
fundo permanente de soccorros para as mulheres que seguem a carreira
medica.

A ultima exposio de Vienna veiu provar ainda quanto as mulheres se
teem ultimamente occupado nas artes industriaes e nas bellas artes. Na
exposio sueca v-se no pavilho dos productos da industria o perfeito
exito com que as mulheres teem cultivado n'aquelle paiz a pintura, a
gravura em madeira, a xylographia, a lythographia, a gravura em cobre, a
photographia, a cartographia, a pintura em porcelana, a modelagem. Na
Suecia concedeu-se-lhes accesso, como aos demais empregados, nos
servios dos telegraphos, dos correios e dos caminhos de ferro.
Admittem-as como gravadoras na casa da moeda; muitas so empregadas nas
academias, nas imprensas e n'outros estabelecimentos como xylographas,
impressoras, compositoras, directoras de officina, etc.

Na Suecia ha hoje immensas escolas sustentadas pelo governo, pelas
communas e por associaes particulares onde ensinam s raparigas pobres
todos os trabalhos femininos do mnage. Ha escolas especiaes
destinadas a formar creadas. Em Stockolmo ha escolas de remendagem onde
as raparigas aprendem a concertar os seus fatos e a sua roupa branca com
um acceio e uma arte inexcedivel. As meninas burguezas teem  sua
disposio a escola industrial de Stockolmo, as escolas normaes reaes, o
instituto central de gymnastica onde se formam mestras de gymnastica, a
academia real de musica, a academia das bellas artes os estabelecimentos
de instruco das parteiras e a mesma universidade, onde se ministram
subsidios a tres raparigas que estudam por conta do estado. Depois da
Suecia devem-se citar os Paizes Baixos e a Austria. Em Vienna a
municipalidade fundou em alguns bairros escolas industriaes nocturnas.
Sociedades de senhoras estabeleceram escolas profissionaes de
differentes especies. Ha uma sociedade especial encarregada de obter s
mulheres meios de subsistncia (Frauenerwerb-Verein). Alm das escolas
preparatorias para a instruco geral elementar e para a instruco
superior, estabeleceu a referida sociedade uma escola de costura, uma
escola superior de trabalho com um curso de estudos que dura tres annos,
uma escola de desenho industrial, uma escola de commercio, uma escola de
linguas, um curso especial para as empregadas na telegraphia. Na
Hollanda  na escola industrial de Amsterdam que se instrue a mocidade
feminina no s nos trabalhos manuaes, taes como o bordado, costura 
mo e  machina trabalhos de cartonagem e obras de palha, escripturao
commercial, legislao commercial e pharmacia. Na Alemanha do norte e na
Alemanha central ha egualmente muitas escolas industriaes fundadas por
sociedades especiaes e por outras corporaes para a educao das
raparigas e das mulheres. Um fabricante de Munich fundou uma excellente
escola de ensino commercial para as raparigas da classe burgueza e da
classe operaria. As mulheres que sem d'esta escola encontram
immediatamente emprego nos bancos, ou nas casas de commercio.

A Russia resolveu ultimamente facultar a matricula na escola de medicina
de S. Petrsburgo s mulheres habilitadas com determinados titulos de
capacidade. Logo depois da promulgao d'esta lei, quatrocentas mulheres
se apresentaram como candidatos  frequencia da alludida faculdade.

       *       *       *       *       *

Sabem dizer-nos o que  que, sob este ponto de vista, se tem feito em
Portugal? Esperamos que suas excellencias os senhores conservadores se
dignaro responder-nos.

       *       *       *       *       *

O sr. marquez de Vallada mandou correr este mez os reposteiros
brasonados dos seus sales para inaugurar as soires elegantes do
presente inverno com um jantar _pri_.

Assistiram todos os membros do gabinete e varios outros personagens
illustres na politica e na burocracia. Sentia-se apenas uma falta n'essa
reunio selecta: a ausncia absoluta de senhoras no palacio do nobre
fidalgo. Bem sabemos que um jantar no  precisamente como uma valsa
para a qual a gente no ha de ir convidar a lagosta, nem danar com o
per. Mas mesmo para o que  comer no basta apenas a comida. O sr.
marquez sabe a este respeito a opinio de Savarin: o bruto pasta, o
homem come, s o homem de espirito  que sabe comer. Ora uma duzia de
barbatolas postos a mascar trufas uns diante dos outros em volta de uma
mesa no nos parece que deem o espectaculo da espiritualidade mais fina.
 preciso que concorram tambem as senhoras, com a _toilette_, com a fina
pelle, com os perfumes, com as rendas, com as perolas, com as frescas
risadas cristalinas, com os agudos ditos penetrantes, com a elevao
finalmente, com a idealidade, com o espirito.

       *       *       *       *       *

Atravessar a gente por entre duas filas de criados gordos e graves como
embaixadores, indo por baixo dos lustres, pizando um tapete espesso,
dando o brao a alguem, ou seguindo mesmo, atraz, sosinho, na turba dos
obscuros, com a claque debaixo do brao; entrar na sala de jantar,
tepida, fulgurante de luz; contemplar a mesa de um aspecto tropical pela
natureza das fructas e pela frma das flres trasvasadas do plateau,
procurarmos o nosso nome nos bilhetes que esto em cima dos guardanapos;
sentarmo-nos ao dce murmurio dos vestidos que se enffam ao nosso lado
e dos talheres que telintam; desdobrar nos joelhos um amplo guardanapo,
frio, lustroso e pesado, de linho de Irlanda; aconchegarmo-nos, unirmos
os cotovellos ao corpo e inclinarmo-nos sobre o prato; metter na bocca a
primeira colher do sopa, sentir estalar e derreter-se no dente o
primeiro rabiolo, escorrendo no paladar o acre succo dos espinafres, em
quanto a nossa visinha da esquerda mette a sua luva enrolada no copo do
Madeira, e a nossa visinha da direita morde atrevidamente no po
deixando-nos vr de lado todos os seus pequeninos dentes mais lindos que
as suas perolas ... isto  realmente acharmo-nos n'um dos momentos mais
augustos que a civilisao e a elegencia concedem ao homem em paga dos
sacrificios que elle lhes tem feito nos esmeros da educao e na alta
cultura do espirito.  ento que as mulheres, smente as mulheres--ellas
que vivem na graa e no mimo como os solitarios vivem no egoismo e no
tedio--desenvolvem o talento especial de fazer romper os alados
assumptos ligeiros e subtis, em torno dos quaes adejam as conversaes,
as phantasias, as replicas, os repentes, como doiradas abelhas famintas
sobre um ramo de rosas.

Se n'esses momentos os homens se acham ss, ou caem na bestialidade
indolente e calada dos deuses de Epicuro, ou discutem, questionam,
fallam alto, gritam, pem os cotovellos na mesa, fazem gestos, fazem
bolas de po, do estalos com a lingua, limpam as unhas, e quebram
palitos nos dedos--o que ha mais implicativo dos nervos e mais offensivo
do gosto.

       *       *       *       *       *

Consta-nos que pelas razes referidas o jantar do sr. marquez tocou um
pouco no tetrico. O silencio era a principio to solemne que apenas se
ouvia confusamente o ruido da maioria parlamentar engolindo pelo
esophago do ministerio e a ordem e a guarda municipal mastigando pela
bocca do sr. baro do Zezere. Tinha-se ar de se estar n'uma sesso
deliberativa e no n'uma festa; parece at que o sr. marquez de Avila, o
illustre parlamentar, dirigindo-se a um criado, se mostrra gravemente
preoccupado ao ponto de que, sendo a sua inteno pedir-lhe Sauterne,
lhe pedira a palavra.

Por fim parece que o dono da casa usara da fala para expr o objecto
d'aquella reunio, o qual, segundo referem os jornaes, foi:

_Affirmar a adheso do sr. marques de Vallada  monarchia_.

       *       *       *       *       *

Achamos extremamente louvavel e digno de ser imitado por todos os
fidalgos portuguezes o exemplo dado pelo sr. marquez de se sacrificarem
pelo throno ao ponto de no hesitarem um momento, para o salvar, em
irem ... para a mesa!

Os vossos avs, quando queriam dedicar-se ao esplendor da cora iam
bater-se em Arzilla, em Ormuz, em Ceuta, em Tanger, descobriam terras,
venciam batalhas, conquistavam reinos.

Quereis provar-nos que ainda guardaes nos vossos archivos as antigas
cartas do roteiro dos mares? Que ainda tendes nas vossas panoplias as
duras armaduras e as famosas lanas dos vossos maiores? Muito bem! Visto
que no podeis refazer o que est j feito por elles, comeae pelo menos
a realisar o que elles tantas vezes omittiram: jantae!

E a cora ver, pela maneira como vos mostrardes aptos para comer,
quanto sois capazes de amar.

Assim como o Castro forte dizia que por cada pedra da fortaleza de Diu
elle daria um filho, mostrae vs que por cada perna de per trufado
sereis capazes de dar um av. E o soberano, jubiloso e grato,
contemplando por cima da gloriosa terrina da historia contemporanea, os
feitos valorosos dos vossos garfos invenciveis, apreciar os vossos
titulos de immortalidade, discriminando, no ardor e na confuso das
refregas, os que se lhe dedicam at ao pato com arroz, os que o
estremecem at ao frango com hervilhas, os que o idolatram at s
salchichas com couve lombarda!

       *       *       *       *       *

Mas por Deus, meus senhores, consenti que vol-o repitamos: No excluaes
dos agapes patrioticos com que preparaes a entranha para a communho
monarchica, o doce elemento feminino, o melhor encanto do triumpho, o
mais alto premio do heroismo, o mais precioso complemento da gloria! Se
a prosmicuidade dos sexos insuperavelmente vos repugna, que alguns de
vs pelo menos se sacrifiquem s conveniencias da arte, s prescripes
do bello, e salvem sequer as apparencias--vestindo-se de mulheres!

Animo, senhores commandantes dos corpos! animo, senhores officiaes
maiores! animo, senhores ministros de estado!  por ellas, que vos
pedimos isto, pelas que tiveram sempre o seu logar nas nossas gloriosas
tradices dymnasticas! Lembrae-vos d'ellas, e ide lanar-vos aos ps da
Aline! Lembrae-vos d'ellas, e consenti em decotardes os vossos hombros!
Elanguescei, meus senhores, reclinae meigamente as frontes, cerrae
levemente as palpebras, agitae um pouco os vossos leques, dae suspiros,
ponde taes de setim escarlate, vinde de cuia! e, sobretudo--no o
esqueaes--trazei _tournure_ ... Que vos custa trazer _tournure_? Uma
coisa to facil, que se traz como as patronas!

 pelo throno, pelo mesmo throno de que vos declaraes adeptos, que vos
supplicamos isto!  pelas vossas excelsas e augustas soberanas, no
representadas no vosso banquete ... Em nome de Mecia Lopes, meus
senhores! Em nome de D. Urraca!

       *       *       *       *       *

A imprensa de Lisboa no tem opinio. Aquelles dos seus membros que por
excepo presentem as idas proprias, vivas, originaes zumbindo-lhes
importunamente no cerebro, enxotam-as como vespas venenosas.  que a
misso do jornalismo portuguez no  ter idas suas,  transmittir as
idas dos outros. Por tal razo em Lisboa o homem que pensa no  nunca
o homem que escreve. O jornalista nunca se concentra, nunca se recolhe
com o seu problema para o meditar, para o estudar, para o resolver.
Nunca procura a verdade. Procura apenas a soluo achada pelo publico,
pelo publico d'elle, pelo seu partido politico, pelos consocios do seu
club, pelos seus amigos, pelos seus protectores, pelos seus assignantes.
Portanto trabalha na rua, debaixo da arcada do Terreiro do Pao, nos
corredores ou nas tribunas de S. Bento, no Chiado, no Martinho, no
Gremio. Como trabalha? Trabalha d'este modo: _informando-se_;-- o termo
technico. Uma vez informado, o jornalista considera-se instruido. Desde
que tem a informao recebida tem o jornal feito. O que elle vos escreve
hoje--notae-o bem-- o que vs lhes dissestes hontem. O jornal no  uma
fonte de critica, de analyse, de investigao. O jornal  o barril de
transporte das idas em circulao, das solues previamente recebidas e
approvadas pelo consenso publico. O jornalista  o aguadeiro submisso e
fiel da opinio. No a dirige, no a corrige, no a modifica, no a
tempera. O unico servio que lhe faz  este: transporta-a dos centros
publicos aos domicilios particulares. O publico  a nascente,  o veio,
 o manancial; a imprensa periodica  simplesmente--o cano.

       *       *       *       *       *

Essa  a lei geral da conducta da publicidade em Portugal. Toda a
transgresso d'essa lei  um eminente perigo para o que a commette. O
leitor portuguez no quer que o seu livro ou o seu periodico o obriguem
s fadigas da discusso e da controversia com o seu proprio espirito. A
conquista desinteressada e pura da verdade no tem attractivo algum para
as suas faculdades. As curiosidades e os interesses especiaes da alma
portugueza repastam-se no sentimento: a reflexo molesta-a. Entre tantos
escriptores nacionaes nunca houve um pensador. Descartes, Spinosa, Kant
seriam inteiramente impossiveis no seio d'esta sociedade, a que falta a
respirao logo que a tirem da rotina. No se lhes d, aos leitores
portuguezes, de verem a verdade, mas querem a verdade atravez da
opinio. Ninguem pensa fra das materias da ordem do dia. Que ha de
novo?  a nossa pergunta de todas as manhs. Esta phrase profundamente
caracteristica quer dizer: Dem-me a senha e a contrasenha; digam-me em
que pensam para eu saber o que hei do pensar. O meu jornal vem bom ou
vem mau segundo  ou no  em cada dia a expresso das minhas convices
baseadas em idas preconcebidas na convivencia do publico. O criterio 
substituido pelo _mot d'ordre_.

Se n'um tal meio intellectual apparece um miseravel solitario, que no
tem um partido, que no tem um centro, que no tem um _club_, que no
tem sequer um botequim, mas que, no obstante, segue os successos do seu
tempo e exprime a respeito d'elles uma opinio absolutamente individual,
isto --livre, sobre esse homem cem todas as suspeitas, todas as
presumpes malevolas que acompanham atravez de uma multido apalavrada
um intruso mysterioso e sinistro. Tal  a especie de acolhimento que por
differentes vezes nos tem sido feito e que mais particularmente nos foi
manifestado depois da publicao do nosso ultimo numero a proposito de
dois artigos, um consagrado ao sr. Alexandre Herculano, outro destinado
 casa de correco installada no convento das Monicas.

       *       *       *       *       *

Lemos alguns dos artigos que nos foram consagrados, e achamo-nos
inteiramente edificados cerca do nosso desacato s instituies
publicas e da nossa irreverencia com as glorias nacionaes.

Smente, meus senhores, uma coisa nos parece ter-vos esquecido, e :
demonstrar-nos que a reverencia das instituies e o respeito das
celebridades gloriosas seja um instrumento de critica ou um meio de
analyse. Porque ns--talvez o no tenhaes comprehendido bem--ns no
somos propriamente os mestres de ceremonias da gerao a que
pertencemos. No estamos aqui a leccionar mesuras nem a praticar
experiencias sobre a variedade das curvas mais ou menos inclinadas a que
se nos presta o espinhao. Ns somos apenas uns simples chronistas do
tempo que vamos atravessando. Somos os contribuintes especiaes do mez
para a historia geral do seculo. Ora no ser pondo-nos humildemente de
cocoras no cho que ns veremos de mais alto as coisas e os homens. No
exame e na apreciao dos factos o minimo vislumbre do respeito  um
perigo da verdade. Michelet, demolindo no seu ultimo livro a legenda
napoleonica filha da reverencia da historia pelo falso heroismo de
Bonaparte, mostra-nos que a fascinao grosseira produzida pelo heroe
de Marengo e de Austerlitz teria cahido perante o bom senso e perante a
gargalhada, se a Frana no tivesse perdido, depois do Terror, o riso, a
sua grande arma contra os tyrannos.

O primeiro dever da critica diante dos grandes acontecimentos e dos
grandes personagens  simplesmente o despreso ou a zombaria ... Michelet
diz mesmo o sacrilegio como instrumento da verdade! e aconselha-nos
que imitemos como historiadores o exemplo de Renaud de Montauband
pegando n'um tio para barbear Carlos Magno.

       *       *       *       *       *

De resto, meus senhores, para que se mantenham na decencia do culto as
tradies patrioticas, parece-nos inutil que ns nos occupemos d'isso.
L estaes vs, diligentes e sollitos, para espanardes as teias da aranha
aos velhos principios, para varrerdes as instituies veneraveis, e para
conservardes em bom estado os heroes e os sabios, limpando-lhes as golas
das sobrecasacas, engraxando-lhes os sapatos e pondo-lhes rap novo no
nariz.

       *       *       *       *       *

Chegmos tarde para fallar da grande tragedia monumentosa do
Mexilhoeiro. O paiz inteiro se pronunciou j sobre este caso, o maior da
historia contemporanea. O facto tem sido largamente tratado em artigos
de jornaes, em folhetins, em trechos de romance, em pias legendas, em
dramas, em _te-deuns_ cantados em todas as cathedraes, em polkas
expressivas, em missas rezadas em todas as egrejas, em felicitaes de
todos os municipios, em sentimentaes mazurkas.

Uma s coisa nos parece que falta, e  a que propomos: um monumento que
eternise to alto successo, levando s geraes vindouras esta lapide:

AOS MOLHADOS
POR UMA FRIA TARDE
NO PEGO DO MEXILHOEIRO
A GLORIA
RECONHECE N'ESTE MONUMENTO
OS IRREFRAGAVEIS DIREITOS
DE TO ILLUSTRES VICTIMAS

CONSTIPAO

INDEX

_Dos volumes d'esta chronica_

PUBLICADOS AT HOJE


    I--Maio................... 1871

   II--Junho..................  

  III--Julho..................  

   IV--Agosto.................  

    V--Setembro...............  

   VI--Outubro................  

  VII--Novembro...............  

 VIII--Dezembro...............  

   IX--Janeiro................ 1872

    X--Fevereiro..............  

   XI--Maro..................  

  XII--Abril..................  

 XIII--Junho a julho..........  

  XIV--Julho a agosto.........  

   XV--Setembro a outubro.....  

  XVI--Novembro...............  

 XVII--Dezembro...............  

XVIII--Janeiro a fevereiro.... 1873

  XIX--Maro a abril..........  

   XX--Outubro a novembro.....  


Nota. D'hora vante cada um dos volumes d'esta publicao ser marcado
com o correspondente numero.





End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas: Chronica Mensal da
Politica, das Letras e dos Costumes, by Ramalho Ortigo and Ea de Queiroz

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forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
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property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
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Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
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LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
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LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

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in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
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1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
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If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
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with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.net

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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