The Project Gutenberg EBook of A Alma Nova, by Guilherme d'Azevedo

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Title: A Alma Nova

Author: Guilherme d'Azevedo

Release Date: January 30, 2006 [EBook #17639]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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GUILHERME D'AZEVEDO

A ALMA NOVA


LISBOA

TYPOGRAPHIA SOUSA & FILHO

Rua do Norte, 145

1874




A ANTHERO DE QUENTAL




A ANTHERO DE QUENTAL

_Meu amigo.


Este livro parece-me um pouco do nosso tempo. Sorrindo ou combatendo,
fala da Humanidade e da Justia, inspirando-se no mundo que nos rodeia.

E porque julgo que elle segue na direco nova dos espiritos, offereo-o
a um obreiro honesto do pensamento: a uma alma lucida, moderna e
generosa_.

Dezembro de 1873.

Guilherme d'Azevedo.




I


Eu poucas vezes canto os casos melancolicos,
Os lethargos gentis, os extasis bucolicos
E as desditas crueis do proprio corao;
Mas no celebro o vicio e odeio o desalinho
Da muza sem pudor que mostra no caminho
A liga  multido.

A sagrada poesia, a peregrina eterna,
Ouvi dizer que soffre uma affeco moderna,
Uns fastios sem nome, uns tedios ideaes;
Que ensaia, presumida, o gesto romanesco
E, vaidosa de si, no collo eburneo e fresco,
Pe crmes triviaes!

Oh, pensam mal de ti, da tua castidade!
Deslumbra-os o fulgor dos astros da cidade,
Os falsos ouropeis das cortezs gentis,
E julgam j tocar-te as roagantes vestes
 deusa virginal das coleras celestes,
Das graas juvenis!

Retine a canoneta alegre das bachantes,
Saudadas nos wagons, nos caes, nos restaurantes,
Vises d'olhar travesso e provocantes ps,
E julgam j escutar a voz do paraiso,
Amando o que ha de falso e torpe no sorriso
Das musas dos cafs!

Oh, tu no s, de certo, a virgem quebradia
Estiolada e gentil, que vem depois da missa
Mostrar pela cidade o seu fino desdem,
Nem a fada que sente um vaporoso tedio
Emquanto vae sonhando um noivo rico e ndio
Que a possa pagar bem!

Nem posso mesmo crr, archanjo, que tu sejas
A menina gentil que s portas das egrejas
Emquanto a multido galante adora a cruz,
A bem do pobre enfermo  turba pede esmola
Nas pompas ideaes da moda, que a consola
Das magoas do Jesus!

E nas horas de luta emquanto os povos choram
E a guerra tudo mata e os reis tudo devoram,
No posso dizer bem se acaso tu sers
A senhora que espalha os languidos fastios
Nos pomposos sales, sorrindo a fazer fios
 viva luz do gaz!

Tu s a appario gentil, meia selvagem,
D'olhar profundo e bom, de candida roupagem,
De fronte immaculada e seios virginaes,
Que desenha no espao o limpido contorno
E cinge na cabea o virginal adorno
De folhas naturaes.

Tens a linha ideal das candidas figuras;
As curvas divinaes; as tintas ss e puras
Da austera virgindade; as bellas correces;
E segues magestosa em teu longo caminho
Deixando fluctuar a tunica de linho
s frescas viraes!

Quando trava batalha a tua irm Justia
Acodes ao combate e apontas sobre a lia
Uma espada de luz ao Mal dominador:
E pensas na belleza harmonica das cousas
Sentindo que se move um mundo sob as louzas
No germen d'uma flr!

N'um sorriso cruel, pungente d'ironia,
Tambem sabes vibrar, serena, altiva e fria,
O latego febril das grandes punies;
E vendo-te sorrir, a gerao doente,
Sentir cuida, talvez, a nota decadente,
Das morbidas canes!

Oh, va sem cessar traando nos teus hombros
O manto constellado,  deusa dos assombros,
At chegar um dia s regies de luz,
Aonde, na poeira aurifera dos astros,
Contricto, Satanaz enxugar de rastos,
As chagas de Jesus!

Logar  minha fada  languidas senhoras!
E vs que amaes do circo as noites tentadoras,
Os fluctuantes vos, os gestos divinaes,
Podeis vel-a passar n'um turbilho fantastico,
Voando no corcel febril, nervoso, elastico,
Dos novos ideaes!




II


Eu vi passar, alm, vogando sobre os mares
O cadaver d'Ophelia: a espuma da voragem
E as algas naturaes, serviam de roupagem
 triste appario das noites seculares!

Seguia tristemente s regies polares
Nos limos das mars; e a rija cartilagem
Sustinha-lhe tremendo aos halitos da aragem,
No peito carcomido, uns grandes nenuphares!

Oh! lembro-me que tu, minha alma, em certos dias
Sorriste j, tambem, nas vagas harmonias
Das cousas ideaes! mas hoje  luz mortia

Dos astros, caminhando; apenas as ruinas
Das tuas creaes fantasticas, divinas,
De pasto vo servindo aos lyrios da justia!




III

VELHA FARA


Rufa ao longe um tambor. Dir-se-ia ser o arranco
D'um mundo que desaba; ahi vae tudo em tropel!
Vo ver passar na rua um velho saltimbanco
E uma fra que dansa atada a um cordel.

 funambulos vis, comediantes rotos,
O vosso riso alvar agrada  multido!
E quando vs passaes o archanjo dos esgotos
Atira-vos a flr que mais encontra  mo!

L vae tudo a correr: so as grotescas dansas
D'uns velhos animaes que j foram crueis
E agora vo soffrendo os risos das creanas
E os apupos da turba a troco de dez ris.

Conta um velho histrio, descabellado e pallido,
Da fra sanguinaria o instincto vil e mau,
E vae chicoteando um urso meio invalido
Que lambe as mos ao povo e faz jogo de pu.

Depois inclina a face e obriga a que lh'a beije
A fera legendaria olhada com pavor:
E uma deosa gentil, vestida de bareje,
Annuncia o prodigio a rufo de tambor!

E as mes erguem ao collo uns filhos enfezados
Que nunca tinham visto a luz dos ouropeis:
E accresce  multido a turba dos soldados,
--Ao ilota da cidade o escravo dos quarteis.

E o funambulo grita; impe qual evangelho
 turba extasiada a grande narrao.
E sobre um co enfermo um ourangotango velho
Passeia nobremente os gestos de truo.

Correi de toda a parte, aligeirae o passo,
Deixae a grande lida e vinde  rua vr
As prendas d'uma fera, as galas d'um palhao,
E um archanjo que sua e pede de beber!

A tua imagem tens  povo legendario
No comico festim que mal podes pagar,
Pois tu ainda s no mundo o velho dromedario
Que a vara do histrio nas praas faz dansar.




IV

GRAA POSTHUMA


Depois da tua morte eu heide ver se arranco,
N'uma noite serena, ao teu bero final,
Um producto mimoso;--um grande lyrio branco
Da alvura do teu collo eburneo e divinal!

Aquella flr suave,  minha viso estherica,
Debruada gentil, na taa em que a puzer,
Fazer-me-ha lembrar a graa cadaverica
Do teu corpo franzino e ethereo de mulher!

E mesmo conter, de certo, alguma cousa
Do que me traz submisso e prezo ao teu olhar:
--Teu corpo a pouco e pouco ir fugindo  louza
Depois tornado em lyrio  terra hade voltar!--

E em longas noites, n'elle, eu beberei sosinho,
Sonhando as convulses d'uns lindos braos ns,
A fragrancia que exhala a candidez do linho
Em que hoje ondeias leve e onde os meus labios puz,

--Saudando a boa me que faz com que eu te gose
Depois do verme vil teu seio polluir,
Mais pura no frescor de tal metamorphose
Do que eras a scismar, do que eras a sorrir!

 minha doce Ophelia! Os rapidos momentos
Da vida, so crueis mas passam como um som!
Um dia quando em fim dos velhos sedimentos
Teu corpo renascer n'um lyrio immenso e bom,

Talvez que eu durma j tambem sob os matizes
Das flres, ao sorrir das mil germinaes,
Dando um pasto fecundo s tuas sas raizes
Depois de te sagrar as ultimas canes!




V

HISTORIA SIMPLES


Havia um rapaz so, robusto, bom, valente,
De espadua larga e rija; um ceifador gentil.
Cavava todo o dia, andou sempre contente
E a feria dava  me sem falta d'um ceitil.

Elle amava a campina e os ceus largos, serenos.
Aos domingos a me deixava-lhe uns dez reis.
Deitava-se ao luar, dormindo sobre os fnos,
Na fragrancia do trvo, ao p dos ces fieis.

A me tinha de seu duas vaquitas mansas:
N'um cerro agreste e vil alguns palmos de cho.
E tinha ainda mais no sei quantas creanas
Que andavam nuas sempre e sempre a pedir po.

O pae mal se sustinha s vezes sobre as pernas:
Era bebado e mau, batia na mulher;
E  noite, ao scintillar dos vinhos nas tavernas,
Cantava canes vis de a gente ensurdecer.

Um dia uma senhora honesta da cidade,
Esplendida, gentil, sabendo-se sorrir,
Reparou no rapaz; achou-lhe propria a idade
E fez-lhe um certo gesto:--o moo no quiz ir.

Teve um assomo de raiva, ento, sua excellencia.
Ordenou-lhe que fosse: o moo disse,--irei!
Despediu-se dos seus: devia obediencia
 senhora gentil que se chamava... a Lei!

Pegou no velho alforge e no bordo nodozo
E metteu-se a caminho. Os pobres dos irmos
Choravam  partida:--um quadro doloroso!
A me louca de dr torcia as magras mos!

Chegando no outro dia ao ponto onde o chamaram
Primeiro foi medido e todos a final,
Depois de bem revisto,  uma, concordaram
Que ao servio do rei convinha este animal!

Aquell'outra senhora, astuta, grave, terna,
--A ordem--jubilava em doces pulsaes!
Contava mais um servo, um filho, na cazerna,
Gastando pouco mais:--uns cobres e uns feijes!...

Agora quando passa o batalho luzente
Na rua, podeis ver o pobre cavador
Com modos imbecis, marchar pesadamente
--Heroe por conta alheia--ao rufo do tambor!

No sabe onde caminha entre as guerreiras hostes!
Perguntem-lhe o que  patria e liberdade e lei!
Caminha simplesmente s ordens dos prebostes
Que trazem no chicote a salvao do rei.

E na pobre cabana ainda se conserva
O mesmo quadro triste:--a lacrimosa me;
Alguns pequenos ns rolando sobre a herva,
E um ebrio que pragueja e no pensa em ninguem!--

Mulher no chores mais: a quadra  pura e bella:
Emquanto na campina alouram os trigaes,
Teu filho guarda o mundo e a Deus faz sentinella:
Receiam que Deus faa andar o mundo mais.

Em breve elle vir de jubilo e d'assombro
Encher tua alma, em fim, quando manh voltar
Com seu velho canudo, a trouxa posta ao hombro,
Trazendo novamente a luz ao pobre lar.

E tu perguntars: o que  meu filho,  ouro!!
A quantas guerras foste?  ceus, como tu vens!
--Me tome essa lata! esconda o meu thesouro
E deixe-me ir dormir no fno ao p dos ces!




VI


 meza do festim, cercada de formosas,
O canto dos cristaes e o scintillar dos vinhos
Saudavam juntamente os bellos desalinhos
Das galantes vizes das ceias luminozas!

Molhavam-se em champagne as ptalas das rozas!
E em baixo, a nossos ps, em leves murmurinhos
A gaze sobreposta  candidez dos linhos
Erguia-se n'um mar de vagas caprichosas!

Ali tudo era paz! Nem odios vis nem zelos!
Os labios pois limpando s rendas e aos cabellos
Da menos trivial das fadas tentadoras,

Eu brindo aos mortos!--disse:  legio sagrada
Que foi  solido,  eternidade, ao nada!
--s almas e ao pudor d'estas gentis senhoras.




VII

OS SONHOS MORTOS


Embora triste a noite, a vagabunda lua
Mais branca do que nunca erguia-se nos ceus,
Igual a uma donzella ingenua e toda nua
No leito ajoelhada erguendo a fronte a Deus!

O mar tinha talvez scintillaes funestas.
A praia estava fria, as vagas davam ais;
Semelhavam, ao longe, as extensas florestas
Fantasmas ao galope em monstros colossaes.

E eu vi n'um campo immenso, agreste e desolado,
Immerso no fulgor diaphano da luz,
Juncando tristemente o solo ensanguentado
Sinistra multido de corpos semi-nus!

Tinha a morte cruel, em sua orgia louca,
Deposto em cada fronte um osculo brutal;
E um ironico rizo ainda em muita boca
Se abria, como a flr fantastica do mal!

E eu vi corpos gentis de virgens delicadas
Beijando a fria terra, as mos hirtas no ar,
Em sagrada nudez!... Cabeas decepadas!...
Em muito peito ainda o sangue a borbulhar!...

E sobre a corrupo das brancas epidermes
Luzentes de luar e d'esplendor dos ceus,
Orgulhosos passando os triumphantes vermes,
Da santa formosura os ultimos Romeus!

Se tu minha alma livre ainda hoje conservas
Memoria das vizes que amaste com fervor
Ahi as tens agora alimentando as ervas
De novo dando  terra o que ella deu  flr!

So ellas! as vizes dos meus dias felizes,
Meus sonhos virginaes, as minhas illuses,
Que a seiva do agora aos vermes e s raizes,
Que em pasto do seu corpo a novos coraes!

So as sombras que amei, divinas, castas, bellas;
As chymeras gentis, os vagos ideaes,
Que de rozas cingi, que illuminei d'estrellas,
E que no podem j da terra erguer-se mais!




VIII

FALA A ORDEM


Pequeno, d'onde vens cantando a Marselhesa;
Da barricada infame, ou d'outra vil torpeza?

Que esplendido porvir! Do nada apenas sahes
Comeas a morder as purpuras reaes
 filho trivial da livida canalha!...
E, vamos, deixa ver, guardaste uma navalha,?!
No tremas que eu bem vi! que trazes tu na mo?
Intentas j limar as grades da prizo,

Fazendo scintillar um ferro contra o solio
Archanjo que adejaes nos fumos do petroleo?!...
Mas, vamos abre a mo: no queiras que eu te d.

Bandido eu bem dizia!--a carta do A B C!...




IX


 lirios da cidade,  coraes doentes
Das vagas affeces modernas e galantes;
Eu sei que vs morreis aos sons agonisantes
Das orchestras febris,--nos sonhos dissolventes!

Sois os fructos gentis que balanaes pendentes
Nas arvores da vida; e os pobres viajantes
Famintos d'ideal, sorriem triumphantes
Julgando-vos colher nas seivas innocentes!

E tragam com fervor o pomo apetecido
Que deve ter um mel oculto no tecido,
--Um raio bom do sol que nos sorri to alto;

Mas vs que sois da moda um luminozo aborto,
Como os fructos crueis das margens do mar morto
Apenas conteis dentro uma poro d'asphalto!




X

MISERIA SANTA


Entrando esta manh n'um templo da cidade
Aberto  multido mas triste e quasi s,
O ver ao desamparo a velha magestade
N'um throno a desabar, meteu-me certo d.

Restavam to somente alguns dourados velhos
Do passado esplendor, e foi-me facil ver
Que uma nuvem de p cobria os evangelhos
Como cousa esquecida e impropria de se ler!

A virgem, sobretudo; a me predestinada
Que o Golgotha lavou nas lagrimas de fel
Que sempre hade chorar toda a mulher amada,
Ou seja a me de Christo, ou seja a de Rossel;

Achei-a desolada e triste l n'um canto,
Sem pompas e sem luz, coberta d'ouropeis
To velhos como o roto e desbotado manto
Que ha muito, j, deveu  crena dos fieis!

Dizer-me pde alguem d'affectos bons e puros
Que eu posso ainda encontrar as bellas cathedraes
Aonde o simples Christo e os martyres obscuros
Campeiam no fulgor de pompas theatraes.

Bem sei; mas como disse, o acaso ou o quer que fosse
Levou-me a um templo pobre e foi n'elle que vi
Que ha mendigos do co, d'olhar sereno e doce,
Proletarios do altar a quem ninguem sorri!

E ao ver esta humildade,--eu tenho d'isto s vezes,--
Pensei, no sei porque, nas morbidas vizes
Que no passam de ser as filhas dos burguezes
Mas de rendas de Frana enfeitam seus roupes!




XI

ASTRO DA RUA


Fazia hontem j tarde um nevoeiro espesso.
--Que insonia em mim produz este humido vapor!--
Eu vinha enfastiado, ou turvo, emfim confesso,
Dos fumos do caf, da luz e do rumor.

Um fantastico vo cobria as longas praas;
E o gaz ria atravez da grande cerrao
Que em lagrimas descia ao longo das vidraas
E em flocos d'alva neve humedecia o cho.

Eu mesmo achava em tudo um tom maravilhoso.
Dispuz-me a crer no ceu a amar este ideal:
Do subito eis que passa um astro radioso
Luzindo-me atravez do magico cendal!

Que vaga exhalaao  cousas vis que adoro!
Que bello olhar de Deus, deixae-me assim dizer!
Pelo sulco de luz julguei um metero,
Pelo aroma subtil sonhei uma mulher!

Passou porm, fugiu: no fim eis em resumo
A sua breve historia! o sonho  sempre assim!
Ha cousas que ao passar ainda deixam fumo:
Aquella s deixava um vacuo dentro em mim.

Archanjos caminhae, que eu espero o grande dia
Da nossa atroz vingana,  despotas do ceu!
Nossa alma anda algemada  vossa tirannia
Mas hade erguer-se a escrava...--Assim dizia eu

E a mesma apario de novo a deslumbrar-me!
De novo a mesma aurora o espao a illuminar!
Agora pude vl-a e posso recordar-me
Dos abysmos de luz que havia em seu olhar.

O astro vinha envolto em nuvens d'escumilha:
De resto era uma fada, eu mais no sei dizer.
Deixava atraz de si um aroma de baunilha
D'um louco se abysmar d'um pobre enlouquecer!

Quem quer que sejas tu, que sejam sempre bellos
Teus ceus sem vendaval, teus dias sem revez!
Feliz de quem poder beijar os teus cabellos
E aos labios aquentar os teus pequenos ps!

--Dizendo caminhe. Porm novo prodigio!
Ainda a perseguir-me a mesma apario
E eu ainda sentia o lucido vestigio
Que ha pouco em mim deixra a outra exhalao!

Mas agora reparo, attento em sua chama!
Que olhar to insolente, o ceu no luz assim!
Na gaze que ella arrasta ha um debrum de lama,
Na face macerada uns traos de carmim!

Oh! astro! emfim conheo a orbita que traa
O teu curso veloz! bem sei onde tu vaes!
Prosegue no teu giro em volta d'essa praa
E Deus te d mais luz e menos lamaaes.




XII


Quando Martha morrer, depois do extremo arranco,
No tratem d'oraes;
Desprendam-lhe o cabello o vistam-a de branco
 moda das vises.

Desejo vel-a ento passar d'esta maneira
Depois de tal revz,
Por entre a chama azul e tenue da poncheira
No fumo dos cafs.

quelle bom paiz das pallidas chymeras,
Monotonia azul;
No temam que ella v no fogo das espheras
Queimar o vu de tulle.

Assusta-a muito o frio, a chuva, o sol dos tropicos
A nuvem triste e v,
E pdem-lhe prender os ps to microscopicos
As nevoas da manha!

De noite ella vir com seus trajes singellos,
Archanjo d'outros ceus,
Nos suspiros febris dos meigos violoncellos
Dizer-nos mal de Deus.

Contar-nos por que foge  doce transparencia
Que o ceu formoso tem,
Meiga filha gentil da mesma decadencia
Que  nossa boa me.

Se as lagrimas de luz que chora o firmamento
Em noites de luar,
Ao seu pescoo n podessem, n'um momento,
Cingir-se n'um collar;

De certo ella daria ao pallido comta
E  estrella trivial,
A mesma adorao que dava  canoneta
Que amou at final!

E  saida do circo, ao astro romanesco,
 noite iria, ento,
Contar, ainda a sorrir, o ardor funambulesco
Do livido truo!

Assim, no quer ouvir aos cros invisiveis
Um hymno d'enfadar,
Cantado por milhes d'archanjos insensiveis
Sem um que a possa amar!

E no lhe esquecem nunca os rapidos instantes
Do que ella amava mais:
--A vida illuminada  luz dos restaurantes
N'um sonho de cristaes!




XIII

AS VICTIMAS


Eu vejo muita vez e raro j me assombro
--Minha alma tanto afiz s tristes commoes!--
Na rua, junto a mim, passar hombro com hombro
No transito penozo as longas procisses,

De victimas da sorte e victimas do mundo!
Umas boas, gentis, outras feias, crueis,
Envoltas n'um sudario ou n'um burel immundo;
Nas pompas theatraes, nas galas dos bordeis,

No so filhas do sonho ou creaoes chymericas
Da mente allucinada, ou vagos ideaes;
So magros peitos ns, so faces cadavericas,
So as tristes, as vs desolaes carnaes.

So pequenos sem po que vo pedindo esmola
Nas lamas encharcando os regelados ps:
Que dormem nos portaes, que nunca vo  escla
--Flres que enfeitaro a noite das gals!

So aquellas gentis e pobres costureiras
De peito comprimido; anemica expresso;
Que passam a tossir, cansadas, com olheiras,
Ganhando em todo o dia apenas um tosto,

Curvadas a cozer o languido velludo,
O irritante setim dos grandes enxovaes,
Das princezas do Banco, herdeiras d'isto tudo;
Depois indo morrer nos tristes hospitaes!

So os pobres heroes que os seus irmos combatem;
Que morrem sob o pezo enorme dos canhes,
E o cortejo de mes pedindo aos reis que as matem
E os reis fazendo rir das suas maldies!

So da lugubre noite umas flres sem nome
Batidas muito j dos grandes vendavaes,
Que, por que sentem frio ou por que sentem fome,
Derramam pelo seio aromas triviaes

E fingem depois ser apparies divinas,
Erguendo um pouco a saia, a fimbria sensual,
Abrindo um vil leilo de beijos, nas esquinas,
Aos apetites vs da multido brutal!

So mineiros sem luz; so velhos britadores,
Que o contacto da pedra um dia endureceu,
Queimados pelo sol, gelados nos horrores
Do tumulo cruel que em vida os recebeu!

So aquelles heroes, em fim, dos grandes sonhos,
Que sentiram na terra as vastas corrupes
E s turbas apontando uns mundos mais risonhos
Tentaram espedaar os ultimos grilhes

E que passam tambem um tanto contristados,
Talvez cheios de tedio, ao verem que hoje, ns,
Os deixamos seguir ainda apedrejados
No raro desprezando a sua augusta voz!

E a grande multido de martyres sublimes,
De tristes semi-ns, constante a caminhar,
Aos ceus erguendo as mos, queixando-se dos crimes
Dos despotas que aos ps no cessam de os calcar!

A fila tenebroza, a procisso de victimas,
Augmenta mais e mais; no deixa de crescer!
E do estygma cruel das penas mais legitimas
Em muita fronte bella um trao podeis ver!

Caminhe muito embora: a sorte  sempre varia
E a turba soffredora,  grandes bem sabeis,
Podia dividir a tunica cezarea
Lanando aos que esto ns a purpura dos reis!




XIV

EVOCAO


Levanta-te Romeu do tumulo em que dormes
E vem sorrir de novo  boa,  eterna luz!
De noite, ouo dizer que ha sombras desconformes
E as noites do passado, oh, devem ser enormes
Na atonia fatal das larvas e da cruz!

Conchega gentilmente ao peito carcomido
Os restos do teu manto:--assim, que bem que ests!

Na terra ho de julgar-te um grande Aborrecido
Que busca desdenhoso o centro do ruido
Nas horas vis do tedio e das insonias ms.

O mundo transformou-se; aquelle fundo abysmo
Do antigo amor fatal, fechou-se d'uma vez,
E tu filho gentil do velho romantismo,
Tu vens achar dormindo o rude prozaismo
No bero onde sonhava a doce candidez!

No entanto pdes crer; faz muito menos frio
 luz do novo sol; do gaz provocador;
E o seculo apezar de gasto e doentio,
No pode j escutar o cantico sombrio
Que fala de edeaes e cousas sem valor!

Em paz deixa dormir a terna Julieta
Que aos ceos ainda por ti levanta as brancas mos;
E em quanto por mim corre a tetrica ampulheta,
Da muza alegre e vil da torpe canoneta
Saudemos a nudez a par dos bons pagos!

Nas praas, tu bem vs; a turba prazenteira
Innunda-se na luz de mil constellaces!
E os archanjos da rua assomam na poeira
Que exhala o macadam, trazendo em cada olheira
O astro creador das grandes sensaes!

E quando a cotovia  estrella matutina
Mandar a saudao, l fora, em pleno co,
Romeu tu beijars, que  tua eterna sina,
A trana da belleza anemica e franzina
Que entre os fumos da festa, a amar, adormeceu!




XV


Boas noites coveiro: a tua enxada
No cessa ha tanto tempo de cavar?!
Cavalleiro da morte,  fronte desolada
No sentes a mo tremula e canada
De tanto trabalhar!

Tu esperas hoje as legies sombrias
De mortos, que eu supponho ao longe ver?
Os felizes cados nas orgias
E os tristes que alm todos os dias
O gelo vem colher?!

Que immensa valla aberta! so medonhos
Os risos d'essa boca infame, alvar!...
Descansa dos teus dias enfadonhos!
--Eu cavo a sepultura dos teus sonhos
No posso descanar!




XVI

FLOR DA MODA


Alice, o turbilho das salas elegantes,
Comea a entristecer; ninguem sabe por qu!
Aquella flr doente amava muito d'antes
As festas, o ruido, as cousas deslumbrantes,
Agora  desolada e penso que descr.

Que tedio se abrigou na vaga transparencia
D'um todo to subtil, aerio, divinal.
--Moderna creao da santa decadencia,
Que alia gentilmente s pompas da regencia
Os indecisos tons d'um ar sentimental?!

Archanjo por quem s! desvenda esse mysterio
Das vagas oppresses da tua insomnia m,
E diz-me o teu sonhar viso do baixo imperio,
Vestal que amas o gaz e tens o fogo ethereo
Na conta d'uma cousa um tanto usada j!

No idylio pastoril das noites venturosas
No sonhas tu de certo, e raro o ho de sonhar
N'um mundo todo nosso, as bellas desditosas
Que em trinta annos de fogo as suas velhas rozas
Nos grandes vendavaes sentiram desbotar!

E quando a augusta voz do mar ou das florestas
Abala o corao dos justos e dos bons,
Bem sei que tu no vaes, fugindo s grandes festas,

No amor das castels scismar entre as giestas
Com medo que te acorde a bulha dos wagons!

Eu sei talvez teu mal! A febre que hoje sentes
Abraza a gerao de lyrios ideaes
Que passam, como tu, galantes e doentes,
D'um amor desordenado s cousas dissolventes,
s vozes da guitarra e aos cantos sensuaes!...

E tem de os consumir a grande nostalgia
D'um mundo mais  moda e menos trivial,
Onde haja um grande caso, ao menos, cada dia
E se possa esquecer a vil monotonia
De tudo que nos cerca:--Alice eis o teu mal mal!

No entanto eu sei que s boa: apenas das insomnias
A febre, me cruel d'estranhas sensaes,
Na fria placidez do gaz e das bigonias
Construe na tua mente as grandes babylonias
D'um mundo extraordinario e monstro de vises!

Tocou-te um mal galante: s tenue e caprichosa:
s boa e fazes gala em que te julguem m.
E sentes sobre tudo uns tedios cr de rosa
E os extasis crueis d'uma mulher nervosa:
--Se existe a mulher-flr, tu s a flr de ch!

E chame-te o bom Deus ao foco aonde brilha
Aquella eterna luz, amor dos immortaes,
Que tu amortalhada em rendas e escumilha
Achar deves, talvez, da moda,  terna filha,
O co modesto um pouco e os anjos triviaes!




XII


 machinas febris! eu sinto a cada passo,
Nos silvos que soltaes, aquelle canto immenso,
Que a nova gerao nos labios traz suspenso
Como a estancia viril d'uma epopea d'ao!

Emquanto o velho mundo arfando de cansao
Prostrado cae na luta; em fumo negro e denso
Levanta-se a espiral d'esse moderno incenso
Que offusca os deuses vos, anuviando o espao!

Vs sois as creaes fulgentes, fabulosas,
Que, vibrantes, crueis, de lavas sequiosas,
Mordeis o pedestal da velha Magestade!

E as grandes combustes que sempre vos consomem
Comeam, n'um cadinho, a refundir o homem
Fazendo resurgir mais larga a Humanidade!




XVIII

A CHRISTO


Precisamos Jesus, se no te sentes velho,
Que cinjas novamente o resplendor de luz
E venhas explicar a letra do evangelho
A muitos que hoje vs prostrados ante a cruz!

Ainda no cessou, de todo, essa contenda
Que um dia, ha muito j, tentaste debellar:
E aquelles que so bons e adoram tua lenda
Desejavam tambem ouvir-te hoje falar.

Apenas resoasse o teu verbo indignado,
O latego febril das grandes corrupes,
Iria atraz de ti um mundo revoltado
Que sente na consciencia a luz das redempes.

E embora no houvesse, aqui, outra alma gemea
Da tua, e to ungida em balsamos dos cos,
Havias d'encontrar essa alma de bohemia
Que sonha uma justia e sente em si um Deus!

Mas no, no voltes c: teu corpo combalido
No pde supportar os gelos da manh.
Precisavas de po, d'abrigo e de vestido
E a vida aqui  cara e longo o macadam!

Terias d'encontrar, de certo, mil estorvos
No mundo revolvido, e escuta-me Jesus:
Se no fosses, em fim, comido pelos corvos
Talvez te fuzilasse um cura Santa-Cruz!

Serias apontado a ddo, muitas vezes,
Como um simples bandido, um agitador feroz,
E haviam de esconder seus ouros os burguezes
Apenas resoasse, ao longe, a tua voz!

Depois vinhas achar a par do proletario,
Ao p do que se innunda em bagas de suor,
Aquelle velho Pedro, agora millionario,
E triste por pensar que j esteve melhor!

E perto do ocio vil  sombra do qual medra
O egoismo feroz que extingue o corao,
Lutando todo o dia o britador de pedra
A quem  noite espera, em casa, um negro po;

E uns pequenos sem cr; talvez cheios de fome,
Com pouca luz no olhar; atrophiados, ns;
Abrindo os olhos muito  codea que elle come
E indo-se deitar sem roupas e sem luz!

Assim deixa-te estar. O teu cadaver triste
Recende uma fragrancia etherea e divinal,
Emquanto o mundo segue e vae de lana em riste
Sem treguas combatendo as legies do Mal!

Tu foste o paladino, o trovador sagrado,
Que falaste do amor, da paz e do perdo,
E o ferro que varou teu corpo lado a lado
Comtudo inda reluz altivo em muita mo!

Ns, hoje, quando em luta erguemos sobre a lia
O gladio vingador das oppresses crueis,
Soltamos, n'um sorriso, o nome da Justia,
E ha quem saiba morrer sem benos nem laureis!

Descansa pois Jesus! Bem basta que tu sintas,
N'esse velho sepulchro, o immenso vozear
Dos mineiros sem luz, das legies famintas,
Que nunca, um dia s, deixaram de lutar,

Mas que ho de em fim vencer, porque a suprema essencia
A jorros cae do co nas mos dos Prometheus,
E tanto vae subindo a vaga da consciencia
Que um dia ha de abismar-se em ns o proprio Deus




XIX


Eu tive um sonho estranho: ouvi que vou dizel-o.
Era em praia dezerta, em frente a um longo mar:
Nos cos havia a nevoa, a me do Pezadlo,
E o vago, o incerto, o informe em tudo a oscillar!

De subito surgiu, na praia, uma criana
D'olhar profundo e bom, d'angelica expresso,
E o mar contemplou com tanta confiana
Que nem que visse n'elle o bero d'um irmo!

Mas a vaga subindo, em cada extremo arranco
Levando ia comsigo aquella flr dos cos!
E em breve s boiava um tenue vulto branco
No mar onde fluctua o espirito de Deus!

Mais tarde  beira-mar chegava a pura imagem
Da mais casta mulher que em vida pude ver.
Detinha-se distante:--a espuma da voragem
S meia extenuada aos ps lhe ia morrer!--

O immenso mar, porm, crescia a cada instante
Mais turvo e mais veloz! depois... No quiz vr mais.
Ergui-me e caminhei de val em val errante
Pensando tristemente em coisas ideaes!--

Ao longe, muito alm, na serra desviada
De subito encontrei-- estranha appario--!
Uma pobre velhita enferma e desolada
Trazendo j no olhar a grande cerrao!

Que ida me assaltou no sei dizel-o agora.
Aonde iria o espectro, aquella sombra va?
Iria aonde vae o que hontem foi aurora
E aonde iro tambem as rosas d'manha?...

Dos meus instantes bons,  lucida chimera,
Bem vs que os sonhos maus so faceis d'esquecer!
Que importa a grande noite em plena primavera,
Que importa o que tu foste, o que s, e o que has de ser!!




XX

O GRANDE TEMPLO


Eu no trajo o burel do magro cenobita
Nem me posso infligir crueis maceraes;
Mas no rio d'alguem que busca a paz bemdita
No seio casto e bom das grandes solides.

Bem sei que ha na montanha aromas penetrantes
E certas vibraes que podem fazer mal;
Mas se  preciso Deus, direi que  melhor antes
Amal-o com fervor no templo universal!

Em quanto sobre o altar das serras azuladas
Mil lampadas do co derramam toda a luz,
Nas velhas cathedraes, j meio arruinadas,
O Tempo,--o grande verme!--at devora a cruz!

Depois  facil vr, por entre os arabescos
Que a arte sensual traou com tanto amor,
s vezes, o sorrir dos Satyros grotescos
Pungindo cruelmente a face do Senhor.

Ou mais; podemos ns voar todos captivos
Do sereno ideal, d'aquelle summo bem,
Ao vermos tanta vez os Faunos mais lascivos
Olhando de revez a virgem nossa me?!

E ainda mil traies: as musicas, as flres
Os lindos seraphins voando todos ns;
Da sda que se arrasta os languidos rumores
Do incenso as espiraes; os turbilhes de luz!

Oh! visto haver de tudo; aromas e decotes,
O vinho scintillante, a viva luz do gaz;
Que a vossa rouca voz, pomposos sacerdotes,
No cante apenas Deus; que solte alguns _hurrahs_!

O fumo d'essa festa, a mim, pouco me assusta.
Se eu quero alguma vez fugir do p, voar,
Eu tenho o val profundo ou a floresta augusta,
As montanhas, os cos, e o bello, o vasto mar!

Da casta natureza  templo gigantesco,
Tu s mais amplo, sim; mais livre, muito mais!
O meigo e doce olhar do Christo romanesco
A multido gentil no chama aos teus umbraes.




XXI

A UM CERTO HOMEM


Agora s todo nosso: a rude voz da historia
J pde hoje falar
E dar-te um balancete s nodoas e  gloria
Rei-sol de _boulevard_.

Que dias d'esplendor! Porm como comea
A noite e a podrido!
Foi Deus que te mandou tambem para a Lambessa
Da eterna punio!

Enfarda a tua gloria e leva-a que  vergonha
Que vejam manh,
Que at lhe depennou as aguias de Bolonha
O abutre de Sedan!

E visto que em redor nenhuma estrella brilha
E a noite  longa e m,
No caminho do opprobrio acende a cigarrilha
E, cezar, ouve l:

Que altiva e bella a Frana! aquella Gallia ardente
Que de Valmy levou,
Descala, quasi na; a Marselheza em frente;
Nossa alma at Moscow!

Seus filhos teem a fouce: envergam rudes clamydes
Depois, caminham ss;
E em quanto ceifam reis acordam nas Pyramides
A alma dos Pharas!

E vo cheios de f, bandeira solta ao vento,
Na gleba das naes,
Convictos semeando o novo pensamento
No sulco dos canhes!

Mas tu chegas um dia: afogas-lhe a grandeza
E quando a tens aos ps,
Celebras a victoria aos hymnos de Thereza,
A musa dos cafs!

Banquetes ds ao crime; e os teus heroes d'esquna
Ainda a afrontam mais,
Tornando a _Marselheza_ em torpe Messalina
D'um circo de chacaes!

E sobre alguns montes de mortos ainda quentes,
Emfim campeias, tu,
Que dste  sagrao das cousas dissolventes
Um Petroneo-Sardou!

Porm, quando ao colher ainda um beijo  Fama
Um dia avanas mais,
Teu carro triumphal trambolha-te na lama
E ento como tu saes!...

Revolves-te no horror das vis, infectas ondas
De lodo e podrido,
E vaes de manto roto e vestes hediondas
Buscar a escurido!

Em vez de reclinar a fronte ao sol ardente
Da luta que sorri,
Do fumo dos canhes fugiste, e de repente...
Matou-te um bistori!...

Que entrada a tua, ento, na funebre morada,
Pizando, incerto, o p,
 luz d'uma _lanterna_, ao vir da encruzilhada,
Sinistro, sujo e s!

Das cinzas levantou-se um brado entre os jazigos
Dos bons e dos leaes,
Apenas descobriste a marca dos _castigos_
Nas faces triviaes!

E quando te assustava o olhar altivo d'Hoche
E o gesto de Danton,
Sorria-te na sombra o amor da Rigolboche
Meu cezar-Benoiton!

73--Janeiro.




XXII

 HORA DO SILENCIO


Eu quiz hontem sonhar, sentir como um romantico
A doce embriaguez do pallido luar,
Ouvindo em pleno azul passar o immenso cantico
Dos astros no seu giro e em sua luta o mar!

A cidade dormia o somno dos devassos;
Aquelle somno turvo, infecto e sensual:
E a lua, antiga fada, erguia nos espaos
Tranquilla e sempre ingenua a fronte de vestal!

E sobre a quietao das coisas vis e exoticas
Sentiam-se as febrs, crueis respiraes,
Dos tristes hospitaes e das virgens clorothicas,
Dos amantes fataes da febre e das paixes!

A noite era em silencio, a athmosphera doce
E ria a natureza aos beijos d'um bom Deus.
De subito escutei, ao longe, o quer que fosse
D'um canto que suppuz ento baixar dos cos!

Attento ao vago som, porm, a pouco e pouco
Senti que era uma voz disforme e sensual,
Soltando uma cano n'aquelle accento rouco
Da triste inspirao alcoolica e brutal!...

 terna vagabunda, enamorada lua!
Emquanto ias assim, diaphana e sem vo,
Uma triste mulher passava, ento, na rua
Cuspindo uma poro d'infamias para o co!




XXIII


Eu quizera depois das lutas acabadas,
Na paz dos vegetaes adormecer um dia
E nunca mais volver da santa lethargia,
Meu corpo dando em pasto s plantas delicadas!

Seria bello ouvir nas moutas perfumadas,
Emquanto a mesma seiva em mim tambem corria,
As sas vegetaes, em intima harmonia,
Aos troncos enlaando as lividas ossadas!

 belleza fatal que ha tanto tempo gabo:
Se eu volvesse depois feito em jasmins do Cabo,
--Gentil metamorphose em que n'esta hora penso;--

Tu, felina mulher com garras de veludo
Havias de trazer meu espirito, comtudo,
Envolto muita vez nas dobras do teu leno!




XXIV

O VELHO CO


Soltava hontem j tarde um velho co felpudo
Uns doloridos ais,
Em frente d'um palacio altivo, bello e mudo,
Cerrado aos vendavaes.

Fazia pena ouvil-o, o misero mollosso
Em seu triste chorar!
Era quasi uma sombra: apenas pelle e osso
E um vago, um doce olhar!...

Eis a sorte cruel do pobre que no come,
Dos miseros sem po!
Em paga ainda em cima os vae tragando a Fome,
A negra appario!

Latia o co faminto. O frio era mordente,
Feroz, quasi voraz!
E o pobre no sabia, em fim, que ha muita gente
Que adora a santa paz.

Ora perto vivia uma galante rosa,
Etherea, virginal,
Que tinha um lindo collo, amava, era nervosa
E a quem fazia mal,

Aquelle uivar sinistro; a ponto de em desmaios
Pender a fronte ao cho!
Saram pois  rua impavidos lacaios
E foram dar no co.

--Ha no mundo um rafeiro, um velho co esfaimado,
--O povo soffredor,
Que s vezes vae ganir, com fome, o seu bocado
s portas d'um senhor.

O resto  velha historia: ocioso  j dizer-vos
O fim que ella ha de ter.
A Ordem, s d'ouvil-o, alteram-se-lhe os nervos
E manda-lhe bater!




XXV

AS VELHITAS


Eu no professo muito o culto das ruinas.
Prefiro uma officina s velhas barbacs;
Das velhinhas, porm, mirradas, pequeninas,
No entanto nunca insulto as prateadas cns.

Deixal-as caminhar, curvadas, vagarosas,
Com seu bento rozario, os seus fofos beites,
A rirem-se de ns, crueis, maliciosas,
Sagazes comentando as nossas illuses!

Ah, velhitas sem cr! cabeas regeladas,
Vulces de que s resta a cinza e nada mais:
J fostes as vises; talvez as brancas fadas;
Prendestes vossos ps nos humidos rosaes;

Tivestes j no olhar os bons reflexos magicos
Dos lagos ideaes cubertos de luar;
As curvas sensuaes, os bellos dedos tragicos;
As rosas ms do inferno, os lyrios bons do altar!

Pendestes j scismando as frontes melancolicas
Nas varandas  noite, amantes dos Tites
Do bello amor antigo!  Marcias das bucolicas!
E agora apenas sois as mes de nossas mes!

Segui vosso caminho: as graciosas fadas,
As bellas da cidade, anmicas, gentis,
Sorriem-se, talvez, das fitas desbotadas,
Dos provectos chapos, das gallas que vestis!

Oh! mostrando os trophos das vossas velhas rosas,
Dizei-lhes, a sorrir das futeis illuses,
Que fostes j, tambem, galantes e nervosas
Mas destes isso tudo a varios coraes!

Agora tendes pouco: apenas uns lamentos
Sentidos contra ns; queixumes sem valor
E ao mundo importam muito os vossos testamentos
E importa muito pouco a vossa immensa dr!

Batei  grande porta: os bellos dias vossos
Velhitas, bem sabeis, no podem voltar mais!
 terra ide levar, em fim, n'uns tristes ossos
O residuo fatal das cousas virginaes!




XXVI

S VISES


Pois que vises! no cessa a rapida corrida
E seja noite ou dia,
Volteadoras crueis! vs sempre a toda a brida
Na minha phantasia!

Parti chymeras vs! archanjos ou _madonnas_,
Parti, que o mando eu,
Como um bando fatal de velhas amasonas
Que o circo aborreceu!

Levae tudo comvosco: as settas mais a aljava;
O angelico sorriso;
E as azas d'escumilha em que eu voava
 noite, ao paraiso!

Eu quero, em fim, dormir; passar as noites gratas
Sentindo-me feliz,
No somno machinal dos velhos acrobatas
Depois das faras vis!

Mais tarde hei de sorrir, ou escarnecer-me quasi,
Lembrando-me-- verdade!--
Que onde eu suppunha aurora havia apenas gaze
E uns traos d'alvaiade.

Perdo se vos insulto! oh, no, vs sois do empyreo,
D'aquelle meigo azul,
Que a todos tem sorrido: a Christo no martyrio,
Na dr, ao rei de Thule;

E quando vos apraz, nas azas transparentes,
Mais alto ides por certo,
Do que as deusas gentis, aerias, insolentes,
Que vemos voar to perto!

No entanto podeis crer  lucidos fantasmas
Que o seculo, afinal,
Occulta no esplendor no sei que vis miasmas
Que fazem muito mal!

E quando vs passaes, nas horas do mysterio
D'estrellas revestidas,
Bebemos ns, talvez, o aroma deleterio
Das rosas corrompidas!

Oh sim! parti depressa; erguei-vos d'este abysmo
Archanjos ideaes,
Deixando-nos colher a flr do realismo
Nas coisas triviaes!




XXVII


Melancolias do outono! Eu quando alm descubro,
Nas tristezas do campo, as filas mugidoras
Dos vagarosos bois que voltam das lavouras,
Compungem-me as crueis desolaes d'outubro!

Das orlas do poente, afogueado, rubro,
 moribundo sol! com que poesia douras,
As formas triviaes das cabecitas louras,
Que, s portas dos casaes, de benos tambem cubro!...

Solta o canto final a orchestra da folhagem:
So horas de partir; apresta-se a viagem,
E as noites dos saraus ho de voltar mais bellas!

Mas as vistas lanando s regies saudosas,
Nos esforos crueis das tosses dolorosas,
Em bandos vo partindo as tisicas donzellas!




XXVIII

O VELHO MUNDO


Eu vejo em toda a terra um vasto cemiterio,
A necrpole immensa, a campa dos colossos,
Aonde em paz descansa o velho megatherio,
Por entre a fauna morta, os carcomidos ossos!

E os grandes leviathas dos primitivos mares;
Os tremendos reptis, crueis, descommunaes,
Celebram no silencio as nupcias singulares
Dos seus residuos vis, com ricos mineraes!

E os esqueletos ns dos lividos gigantes
Abraam-se melhor; conchegam-se na cova,
Deixando um logar vago aos velhos elephantes
Que vo fugindo  luz da natureza nova!

Tambem no mundo interno as almas vo seguindo.
Na corrente da vida, em mil circulaes;
E da consciencia humana o largo abysmo infindo
Occulta, ha muito j, disformes creaes!

Ellas dormem na sombra immensa do passado
Aonde em breve ho de ir nos trances doloridos,
A velha Realeza e o trmulo Papado
Sem foras descanar os corpos corrompidos.

Depois viro mais tarde as geraes futuras
E os dois espectros vos da sombra ho de evocar,
Bem como a nossa voz, as grandes creaturas
Do mundo primitivo, obriga a despertar.

E as crianas tero seus nomes de memoria,
Como exemplo, na vida, a todos os momentos;
E vel-os-eis de p, nas paginas da historia,
Grotescos, machinaes, pezados, somnolentos;

Fazendo-nos pensar; d'espanto enchendo tudo;
Soffrendo o riso alvar do ingenuo e do plebeu,
Eguaes ao masthodonte armado para estudo
E exposto s irrises nas salas d'um museu!




XXIX


Eis a velha cidade! a cortes devassa,
A velha imperatriz da inercia e da cubia,
Que da torpeza acorda e  pressa corre  missa!
Baixando o olhar incerto em frente de quem passa!

Ella estreita no seio a velha populaa,
Nas vis dissolues da lama e da preguia,
E nunca o santo impulso, o grito da Justia,
Lhe fez estremecer a fibra inerte e lassa!

E pde receber o beijo e a bofetada
Sem que sinta o rubor da colera sagrada
Acender-lhe na face as duas rosas bellas!

Smente d'um sorriso alvar e deshonesto,
s vezes, acompanha o provocante gesto
Quando sa a guitarra,  noite, nas viellas!




XXX

 NOITE


Eu gosto de velar a percorrer os mundos
 noite dos bons canticos,
Aos lividos clares dos astros vagabundos
Nos extasis romanticos,

Emquanto a vil cidade, a cortes devassa
Dos falsos ouropeis,
Com seus famintos ces, a sua lua baa
E os seus negros bordeis,

Resona torpemente aos beijos deleterios
D'alguns velhos amantes;
--Os longos hospitaes e os tristes cemiterios
Que a afagam delirantes!

Comtudo eu tambem sei que existe muito instante
De gelos, em que tu,
Feroz, cravas o dente agudo e penetrante
No pobre seio n!

Que ha horas em que vens, nas humidas cidades,
Nas choas, nos esgotos,
Cuspir cynicamente as frias tempestades
No seio vil dos rotos,

Sem ter pena, sequer, da pobre me que passa
Um dia sem ter po,
Nem d'essa esfarrapada e velha populaa
Que rosna como um co!...

Mas em breve deixando as tenebrosas vestes,
O manto dos horrores,
E o gladio vingador das coleras celestes
 noite dos amores,

Retomas o tom puro e santo do mysterio
Da pallida mulher
Que vae colher, scismando, um lyrio ao cemiterio
E ao campo um malmequer!

Em horas de tormenta s a mulher colerica!
At cospes na cruz!
E formam-te espiraes na coma athmospherica
As viboras de luz!

Porm no teu regao, altivo, casto, enorme,
Em doce e plena paz,
 que a virtude sonha e que a desgraa dorme
Depois das horas ms,

E em lucidos cristaes, ha scintillantes vinhos;
Os casos mais galantes;
As languidas canes; os bellos desalinhos
E os gestos provocantes!...

 filha do silencio! Aos puros alabastros
Dos hombros ideaes,
Se Deus arremessasse a quantidade d'astros
Que em ti brilham a mais,

As pallidas vises que passam doloridas,
E um tanto contristadas,
Haviam de surgir d'estrellas revestidas
Em trajos d'alvoradas!

Em ti cuida escutar uns sons inexprimiveis
De languidas canes,
O pobre sonhador de coisas impossiveis
Que adora as solides!

E quando o resplendor de mundos luminosos
Na tua fronte cinges,
Os gatos sensuaes, electricos, nervosos
Repouzam como esphinges;

Emquanto as combustes dos lividos comtas,
Errantes e fataes,
Comsomem lentamente as grandes borboletas
Dos nossos ideaes!




XXXI

A VALLA


Trazei mortos  valla; a hydra est com fome
E deve ser-lhe longa a hora em que no come!
Olhae como ella mostra aquelles que a vo ver,
Inerte, sem pudor, de fauce escancarada,
A amargura cruel da bocca desdentada
Que pede de comer!

Lanae ao monstro informe algum repasto novo!
Trazei-lhe carne humana; arremeae-lhe o povo.
Tranzido pelo frio ou morto pelo sol!
E visto haver na fera abysmos insondaveis
Mandae-lhe as legies dos grandes miseraveis
Que morrem sem lenol!

Eu quero vel-a farta, a lugubre panthera,
Que, na sombra agachada, olhando em roda, espera
A preza que lhe inveja a gula dos chacaes.
Comea a ouvir-se ao longe a marcha vagarosa
Da triste procisso cruel e dolorosa
Que vem dos hospitaes.

Um velho esquife chega: em duas taboas toscas
Um pobre semi-n coberto j de moscas,
N'um riso deixa ver no sei que tons crueis!
Emquanto nos sorria a luz das noites bellas,
Talvez que elle varresse a lama das viellas
E o lixo dos bordeis!...

E poude, em fim, dormir no seio bom da morte!
Apoz, como se fra a livida consorte
D'aquelle vil despojo, s mesmas horas vem,
Trazendo por sudario os seus vestidos rotos,
Uma triste mulher cada nos esgotos
Sem benos de ninguem!

Devora-os ambos fera! Engole-os juntamente:
Reune-os em consorcio e d-os de presente
 larva que partilha as ancias do teu ser!
Agua o teu desejo!--A garra infecta lana
Ao corpo tenro e n d'uma gentil criana
Que a me te vem trazer!

Redobra d'appetite! Alonga-se a teu lado
A fila tenebrosa! O espectro do soldado
A par do que vergou canado de cavar:
E o mineiro sem luz, o martyr legendario;
E amparando-se a custo ao velho proletario
A flr do lupanar!

Mastiga a turba vil e alonga essa guela!
Bem vs que vem chegando um corpo de donzella
Que pela candidez recorda uma vestal!
Voou-lhe, n'um sorriso, o derradeiro arranco
E traz vioso ainda um grande lyrio branco
No seio virginal!

 monstro sensual na sombra tripudia!
Celebra no silencio a tenebrosa orgia,
Que as Deusas vem chegando ao lubrico festim!
N'um beijo os labios colla  frigida epiderme
E o D. Juan da morte, o cavalheiro Verme,
Que viva e gose emfim!

Eu quero ver-te farta, em halitos profundos,
Dormindo o somno vil dos animaes imundos,
De ventre para o ar; serpente infecta e m!
E manh, na estao dos candidos amores,
Veremos rebentar n'um tapete de flres
O lixo que em ti ha!

E a santa mocidade; as languidas mulheres;
Viro depois colher os gratos malmequeres,
Pizando-te sem medo e cheias de desdem,
Em danas sensuaes; o fato em desalinho;
Compondo-te canes; regando-te de vinho;
Sem pena de ninguem!

E tu que s monstruosa, infame, vil, medonha;
Que no mostras pudor; que no sentes vergonha;
Que s a campa-monturo e no pdes ser mais;
Cingida em fim, tambem, de rosas orvalhadas,
Ters dado um perfume s almas namoradas,
E pasto aos animaes!




XXXII


 vultos ideaes, fantasticos e bellos,
Que s vezes revoaes nas salas deslumbrantes,
N'um grande mar de tulle, ethereas, fluctuantes.
Aos suspiros fataes dos meigos violoncellos;

Que bom que era sonhar nos pallidos castellos,
 noite,  beira mar, nas solides distantes,
Nos tempos em que a flr dos timidos amantes
 lua confiava os intimos anhelos!...

Agora sois gentis, despepticas, vistosas;
Pagaes por alto preo as exquisitas rosas;
Nos rapidos wagons correis o mundo em roda;

Mas prostradas do baile, amarrotando a luva,
Emquanto cae na rua a somnolenta chuva,
Scismaes no Deus-Milho,--no Creador da moda!




XXXIII


Eu vejo em tua bocca as ptalas vermelhas
D'uma rosa de fogo aonde vo libar,
O mel das illuses, quaes timidas abelhas,
Uns velhos ideaes que em vo tento expulsar.

Dizer-me pdes tu de que ovulo espontaneo,
Tocado pelo sol, em mim poude nascer
Este bando cruel que dentro do meu craneo
No faz ha muito j seno roer, roer?!

s vezes va ao largo; s serras, s campinas;
Remonta aos astros bons; torna a descer dos cos;
E volta a demolir as trmulas ruinas
Do templo onde crepita a luz dos dias meus!

 grande flr suave! e n'isto se resume
A constante batalha, o sempiterno afan!
Aspira a minha essencia ao teu grato perfume;
Sossobra o dia d'hoje ao dia d'manh!

Oh, volvamos  terra; aos placidos logares,
Aonde os hymeneus fecundos e reaes,
Produzem, dia a dia, os fetos singulares
E as ss vegetaes dos candidos rozaes!

E o que ha d'ethereo em ns, que siga as breves phases
D'um fluido transitorio, erguendo-se nos cos,
Nas grandes expanses dos fugitivos gazes
Onde em linguas de fogo s vezes fala Deus.

Foroso  separar os dois rivaes antigos,
Na batalha cruel que em ns se reproduz.
Sorria o que  da terra aos vegetaes amigos;
Rebrilhe o que  do co nas refraces da luz!




XXXIV

NOS CAMPOS


A fragrancia do trevo o das flres selvagens
Da noite embalsamava as tepidas bafagens:
Ao longe os astros bons olhavam-nos dos cos.
O mundo era um altar; as serras grandes aras;
E os canticos da paz corriam nas searas
Em honra do bom Deus.

No solemne silencio immersa ia minha alma
Em tranquilla mudez; n'aquella doce calma
Que sente germinar os frescos vegetaes.
De subito uma voz deixou-me um pouco extatico:
Detive-me um momento; olhei:--era o viatico!
De noite a horas taes,

Que andava Deus fazendo, assim, pela campina,
Trazido pela mo d'um padre sem batina
Roubado s sensaes d'um longo resonar?
Fui seguindo o cortejo at que n'uma choa
O Rei dos reis entrava: o padre, com voz grossa,
Movia-se a rezar.

Nos restos d'uma enxerga, ali, no vil cazebre,
Um pobre cavador, mordido pela febre,
Torcia as grossas mos nas ancias do estertor;
E os filhos semi-nus sentindo a pena ignota
Tentavam-se esconder na velha saia rota
Da me louca de dr!

A voz do sacerdote a custo resoava.
A palavra d'amor que ali se precisava,
No posso dizer bem se acaso elle a soltou.
Falava o Deus severo e forte dos castigos,
Ou esse bom Jesus que aos ps d'alguns mendigos
Um dia ajoelhou?

Do padre tinham medo os tremulos pequenos.
Os magros ces fieis erguendo-se dos fnos
Latiam tristemente em volta do cazal:
E o levita lanava quella noite escura
A beno derradeira, erguendo a mo segura,
N'um gesto machinal!

Depois transpondo,  pressa, a porta da cabana,
Sahia sem deixar da sa verdade humana
O balsamo suave, o dom consolador!
Oh, de certo o Jesus de que nos fallam tanto
No era o que deixava ali, n'aquelle canto
Ssinha a mesma dr!

Sorria Deus, no entanto, em toda a natureza!
Nas florestas, no val, nas serras, na deveza,
Nas moitas dos rozaes, no movedio mar!
O constellado azul dir-se-a um sanctuario!
Havia aquelle albergue apenas solitario,
E frio o pobre lar!

E o rude agonisante, o triste moribundo
Que em breve a partir; abandonar o mundo;
Os seus deixando ss, na terra, sem ninguem,
Talvez ao presentir o fim da insana lida
Soltasse maldices, ainda, contra a vida
E contra ns tambem!

E eu lembrei-me ento d'aquelles bons valentes
Que lutam todo o dia e vo morrer contentes
 noite, ao p dos seus, depondo os vos laureis;
E d'aquelles, tambem, de frontes requeimadas
Que pela causa santa, em p, nas barricadas,
Se batem contra os reis!

Lembraram-me os heroes, serenos, bons, austeros,
Que sagram toda a vida aos ideaes severos
Da justia e do bem; cando com valor,
Sem que a dextra cruel dos despotas os dome
Nas batalhas da ida; oppressos pela fome,
Varados pela dor!

 pobres multides! as grandes noites frias
No cessam de morder, famintas e sombrias,
N'um banquete nefando os vossos corpos nus!
E o lyrio da justia; a grande flr sagrada,
Nem sempre mostra, em vs, aberta e desdobrada,
As petalas de luz!

Eu quando porem lano as vistas ao futuro
E vejo dia a dia a despontar mais puro
O grande sol da ida, em rubidos clares,
Recordo-me que sois a productiva leiva
Aonde j circula uma opulenta seiva,
De grandes creaes!




XXXV

O ULTIMO D. JUAN


D'aquelle de quem falo, as socegadas lousas
Podiam-vos contar as violaes brutaes!
A gula com que morde as mais sagradas cousas
D'horror faz recuar os trmulos chacaes.

No descanta  viola,  noite, os seus enleios:
Elle vive na sombra e eu sei tambm que vs,
Gentis bellezas d'hoje,  astros dos Passeios,
Lhe no lanaes, a furto, a escada de retroz.

Mas sede muito embora as virgens sem desejos,
As monjas virginaes, uns pudicos drages;
Fechae o niveo collo aos vendavaes dos beijos,
E s noites de luar os vossos coraes;

Um dia hade chegar em que elle, informe, tosco,
Sem garbo, sem pudor, grotesco, infame, vil;
Nas grandes solides ir dormir comvosco,
Mordendo em cada seio o lyrio mais gentil!

E o que elle adora muito  virgens romanescas
No  o que abrigaes d'ethereo e virginal:
Adora os corpos nus; as bellas carnes frescas;
Deixando o resto a vs damnados do ideal!

No vive como ns de candidas mentiras:
No communga do amor esse illuzorio po:
Devora com fervor as pallidas Elviras
E em muitos seios bons d pasto ao corao!

Tem palacios na sombra e fazem-lhe um thesouro
Maior do que o dos reis; adora as solides:
No uza d'espadim; no traz esporas d'ouro;
Mas vive como os reis das grandes corrupes!

Flres sentimentaes! tremei do paladino,
Do velho D. Juan, feroz conquistador,
A quem da vossa bocca um halito divino,
Em vida, faz fugir talvez cheio d'horror;

Mas que um dia vir, na candida epiderme,
Na sagrada nudez dos collos virginaes,
Em hymnos de triumpho--o grande Cezar-Verme!--
Colher o que ficou de tantos ideaes!




XXXVI


Formosuras do inverno! Ao sol das duas horas
A area multido de fadas quebradias,
Gentis apparies dos bailes e das missas,
Desliza no fulgor das pompas seductoras.

No arfar da cazimira ha frases tentadoras
E maciezas taes nas languidas pellias,
Que as tristes commoes, decrepitas, mortias,
Resurgem do lethargo  pallidas senhoras!

E muitos ho de ter uns extasis divinos
Ouvindo soluar,  noite, aos violinos,
A vaga introduco d'uma balada aerea;

Em quanto, do futuro, ao toque da alvorada,
Se escuta, a martellar na sua barricada,
Sinistra rota e fria, a livida Miseria.




XXXVII

ANTIGO THEMA


Passae larvas gentis na rua da cidade
Aonde se atropella a turba folgaz;
A noite  um tanto agreste e cheia d'humidade
Mas o tedio mortal precisa a claridade
Que em vosso olhar trazeis, vizes do macadam!

Estatuas sem calor! vs sois das grandes vazas
D'um corrompido mar as Deusas menos vis!
Se  noite abandonaes, voando, as pobres casas,
E vindes pela rua enlamear as azas,
Quem sabe a fome occulta, as sedes que sentis!

A pallida Miseria em seu triste cortejo
Precisa as contraces de muitos hombros ns:
E vs ides sorrindo ao lubrico desejo,
Do carro da desgraa arremessando um beijo
Que apenas  de lama em vez de ser de luz!

Embora! caminhae deixando um grande rasto
D'estranhas emoes, d'aromas sensuaes:
E ao pobre que mendiga a pallidez d'um astro;
Ao que sonha vizes e archanjos d'alabastro
Fazei por despenhar nos longos tremedaes!

Do velho idyllio, a muza, ha muito j que dorme,
E o arroio em vo suspira e chora a nossos ps!
A grande multido,--a vaga, a onda enorme,
Que oscilla sem cessar, e gira multiforme
s corridas, ao circo, ao templo e aos cafs,

Talvez ao presentir que tudo, emfim, declina,
Adore a immensa luz, em vs, constellaes,
Que no baixaes do co; que vindes d'uma esquina,
Vagando no rumor da area musselina,
Em plena bacchanal fingindo de vizes?

Oh, sois do nosso tempo! A languida existencia
De tedios se consome e sente febres ms!
Aspira ao que  bizarro: a uma exquisita essencia
Que exhala aquella flr que vem na decadencia
E quando a toda a luz succede a luz do gaz!

Do seculo a voz rude apenas diz--trabalha!--
Ao poste vil amarra o lubrico ideal
Que expira, emfim, talhando a funebre mortalha
Na vossa trana gasta,  muzas da canalha
Que apenas revoaes do olimpo ao hospital!




XXXVIII

A ME


Eu canto-vos, mulher, por que vos tenho visto
Na palpebra vermelha a lagrima d'amr,
Que vem d'Eva a Maria--a doce me de Christo--
Formando a stalactite immensa d'uma dr!

Oh, quantas vezes j n'aldeia miseravel
Nas tristezas do campo, s portas dos casaes,
Vos tenho surprehendido, em extasi adoravel,
Em quanto os filhos ns ao peito conchegaes!

A fria noite chega. Os maus, de bocca cheia,
Rebolam-se na terra: ainda pedem po!
Com elles repartis a vossa parca ceia;
E vendo-os a dormir podeis sorrir ento.

D'inverno quasi sempre as noites so mordentes.
Uivam lobos na serra: o vento uiva tambem:
Mas elles vo dormindo os longos somnos quentes,
Em quanto a vil insomnia opprime a pobre me!

Tendes sustos crueis. Temendo que lhes caia
A roupa que os abafa, aos pobres acudis;
E aninhando-os melhor nas vossas velhas saias
Podeis ento dormir um tanto mais feliz.

Mulher quanto  suave e longo esse poema
Quanto  preciso  me, no transito cruel,
Que vossa alma estremea e o vosso peito gema
A fim de que em vs brilhe o mais alto laurel!

Quem  que nunca viu, na rua, a cada passo,
A pallida mulher que rompe a multido,
Trazendo agasalhado, um filho no regao,
E aos tombos, muita vez, um outro pela mo?!

Nos frios do lagedo, s vezes, pede esmola
s portas dos cafs: ninguem a quer ouvir:
E a ella qualquer codea a farta e a consola
Comtanto que sem fome os filhos vo dormir!

E em quanto  luz do gaz a turba prazenteira
No fumo dos festins revoa em turbilho,
Quantos dramas crueis nas humidas trapeiras;
Nos campos quantas mes sem roupas e sem po?!

E sempre a mesma lenda, a mesma historia antiga:
Do palacio  cabana o vosso doce olhar,
Nas insomnias crueis, na fome ou na fadiga,
D'um raio creador o bero a illuminar!

No entanto  doce me, se aquelle amor sem termo,
Da moda traja agora os novos ouropeis,
E o vosso corao j gasto e um pouco enfermo,
Soffrendo se dilue nos ideaes crueis;

Nas vagas pulsaes d'umas recentes ancias,
Se aquella santa flr das grandes commoes,
Apenas tem logar nas vossas elegancias.
Como um enfeite de mimo amado nos sales;

Na corrente fatal que ao longe arrasta os povos,
Se o vosso grande affecto intenta erguer-se mais,
Sonhando a sagrao dos heroismos novos,
Resplendente de luz; vistosa de metaes:

Aos reflexos do gaz,  me, abri passagem
Por entre a saudao das alas cortezs,
Levando as seduces da vossa doce imagem
Aos delirios da noite, s ceias das manhs!

Surgi do canto obscuro aonde o casto seio
Palpita ingenuo e bom na paz da solido,
E o vosso amor levae  opera e ao passeio
A fim de que elle arranque um bravo  multido!

E eu heide rir ao ver que o peito onde um thesouro
Maior do que nenhum podemos encontrar,
Intenta seduzir pela medalha d'ouro
Que aos pequenos heroes os reis costumam dar!




XXXIX


Archanjo vae-te embora:  tarde: em nossas casas
Talvez alguem se afflija;  to deserta a rua!...
Tu deves sentir frio! Embua-te nas asas;
D saudades  lua.

Um beijo em cada estrella!... Espera que eu sou louco!
Sonhei devo pagar: perdo anjo dos cos!
Agora tem cuidado; o co escorrega um pouco:
Boas noites adeus!




XL

SANTA SIMPLICIDADE


Na serena misso de paz que tu cumpriste
 suave Jesus,  doce galileu,
Que santa singeleza e que perfume triste
Do teu casto perfil no mundo rescendeu!

Havia no teu verbo aquella uno divina
Que a velha harpa de Job soltou nas solides,
E o bello, o puro sol da antiga Palestina
Suave contornou, de luz, tuas feies!

Compunham-te o cortejo uns pobres pescadores
Almas rectas e ss; marchavas por teu p,
E sorrias falando aos rudes e aos pastores,
Sentado nos portaes da pobre Nazareth.

Da tua Galila os valles percorrias
Levando um bom quinho d'affecto a cada lar,
E o grande olhar suave e terno das judias
Turbaste muita vez, de certo, sem pensar!

E mais simples na morte, apenas a tua alma
Transpunha as regies purissimas do sol,
Tu que havias colhido a immorredoura palma
No tinhas para o corpo as gallas d'um lenol!

Consola-te  Jesus! Tu deves j ter visto
Que sobre a terra, agora, ao teu nome fieis,
Os que se dizem ser apostolos de Christo
No precisam trajar os infimos bureis.

No maceram seus ps! no vo pobres e rotos
Envoltos na estamenha, apedrejados, ss,
Nos desertos viver de mel e gafanhotos,
Convertendo o gentio ao som da sua voz.

Ante elles, ao contrario, alargam-se os batentes
Dos palacios reaes, nas grandes recepes,
E formam-lhes cortejo os coches reluzentes
Atraz dos quaes se bate um trote d'esquadres!

Cobrindo-lhes, depois, d'insignias as roupetas,
Afim d'honrar melhor a primitiva f,
Redobram-se ainda mais as velhas etiquetas;
Polvilham-se melhor os homens da libr!

E do-se-lhes festins onde ha grandes baixellas,
Fataes scintillaes de vinhos e rubins,
Gargantas ideaes, grandes espaduas bellas,
Lampejos de cristaes, insidias de setins!

Oh! temo bem Jesus que tantas pedrarias
Faam peso de mais na barca do Senhor,
Quando  certo que as mos de Pedro um pouco frias
Mal podem segurar o leme salvador!

Por isso quando avisto o espao que negreja
E o mar que se encapella, eu temo que manh
Do fendido baixel da tua velha Egreja
Apenas reste,  pra, uma fico pag!




XLI


O velho Olimpo dorme o bom somno comprido
Que prostra o lutador no fim d'uma batalha,
E os Deuses d'outro tempo, em livida mortalha,
Descanam no torpor d'um mundo corrompido.

No puro co christo, de estrellas revestido,
No entanto ha muito j que chora e que trabalha,
Por ns, o Christo bom sem que seu Pae lhe valha,
A fim de ver, de todo, o mundo redimido!

Justia, traa o manto alvissimo e estrellado
E senta-te, mulher, no throno abandonado
Pelos vultos gentis de tantos Deuses velhos!

Depois inda maior, mais pura e mais serena,
No sangue de Jesus molhando a tua penna
Explica a nova lei no fim dos evangelhos!




XLII

OS PALHAOS


Heroes da gargalhada,  nobres saltimbancos,
Eu gosto do vosss,
Por que amo as expanses dos grandes rizos francos
E os gestos d'entremez,

E prezo, sobretudo, as grandes ironias
Das faras joviaes,
Que em visagens crueis, imperturbaveis, frias,
 turba arremeaes!

Alegres histries dos circos e das praas,
Oh, sim, gosto de os ver
Nas grandes contorses, a rir, a dizer graas
Do povo enlouquecer,

Ungidos para a luta heroica, descambada,
De giz e de carmim,
Nas mimicas sem par, heroes da bofetada,
Tites do trampolim!

Correi, subi, voae n'um turbilho fantastico
Por entre as saudaes
Da turba que festeja o semi-deos elastico
Nas grandes ascenes,

E no curso veloz, vertiginoso, aerio,
Fazei por disparar
Na face trivial do mundo egoista e serio
A gargalhada alvar!

Depois mais perto ainda, a voltear no espao,
Pregae-lhe, se podeis,
Um pontap furtivo,  lividos palhaos
Lusentes como reis!

Eu rio sempre ao ver aquella magestade,
Os tragicos desdens,
Com que nos divertis, cobertos d'alvaiade,
A troco d'uns vintens!

Mas rio ainda mais dos histries burguezes
Cobertos d'ouropeis
Que tomam, n'este mundo, em longos entremezes,
A serio os seus papeis.

So elles, almas vs, consciencias rebocadas,
Que, em fim, merecem mais
O comentario atroz das rijas gargalhadas
Que s vezes disparaes!

Portanto  rir,  rir, hirsutos, grandes, lestos,
Nas comicas funces,
At fazer morrer, em desmanchados gestos,
De riso as multides!

E eu que amo as expanses dos grandes risos francos
E os gestos d'entremez,
Deixae-me dizer isto  nobres saltimbancos,
Eu gosto de vosss!




XLIII

A HYDRA


Ha muito que desceu das orientaes montanhas
A hydra singular que espalha nas ardencias
D'uma luta febril scintillaes estranhas!

Ella galga, rugindo, s grandes eminencias,
E emquanto vae soltando o silvo pelo espao
Engrossa  luz do sol na seiva das consciencias.

Tem rijezas sem par, como de roscas d'ao
E corre descrevendo em giros caprichosos
Na leiva popular um indefinido trao.

Prefere aos antros vis os focos luminosos
E em mil voltas crueis aperta dia a dia,
N'uma longa espiral, os thronos carunchosos.

Passou pelo paiz da candida Utopia:
Nos mythicos rosaes viveu d'um vago aroma
Ao pallido fulgor da aurora que rompia.

Mas hoje com valor em toda a parte assoma,
E sem temer sequer a lugubre vizeira
Ha muito que transpoz os porticos de Roma.

E os Papas mais os Reis sentindo-a na carreira
Do seu longo triumpho, um tanto apavorados,
Trataram d'acender a livida fogueira.

E ao galope lanando os esquadres cerrados
Comearam depois, na terra, a perseguil-a,
A cumplice fatal dos lividos Pecados!

Mas ella sem temor, nos cerberos tranquilla,
Derrama cada vez mais bellos e fecundos
Os intensos clares da lucida pupilla,

E emquanto a imprecao de tantos moribundos,
Os despotas crueis, acolhem com desdem,
A hydra immensa--a Ida--a farejar nos mundos
Ainda a garra adunca afia contra alguem!




XLIV

OS NOVOS LEVIATHS


Dos antigos Tites, o mar,--fera indomavel,
Agora verga o dorso ao peso colossal
Dos novos leviaths que em bando formidavel,
Nas grandes exploses da colera insondavel,
J levam de vencida o abysmo e o vendaval!

Elles seguem no mar, altivos no seu rumo,
Em halitos de fogo,  nossa voz fieis,
E como o combatente erguendo a lana a prumo,
Era turbilhes rompendo, as flamulas de fumo
Ostentam sem cessar correndo entre os parceis!

Que sopro creador, que fora omnipotente
Os fez surgir do nada, os monstros colossaes?
 novos leviaths provindes to somente
Do fecundo hymeneu, d'este connubio ardente
Do Genio e do Trabalho, amantes immortaes!

Correis de mar em mar, altivos, triumphantes,
Levando a toda a parte a vida, a nova luz,
E as sereias gentis no fazem como d'antes,
Ao som da sua voz, perder os navegantes;
O dorso dos delfins, no mar, j no reluz!

 alma antiga dorme inerte no regao
Dos velhos Deuses vos, que o homem creador
Agora ri de ti, prostrada de cansao,
Emquanto vae soprando em mil gigantes d'ao
Outra alma inda mais larga,--o novo Deus-Vapor!




XLV


Sua alteza real o pequenino infante
Matou, d'um tiro s, dois gamos na carreira:
Um hymno mais ao co, pois era a vez primeira
Que sua alteza vinha  diverso galante!

 vergontea gentil! quando um tropel distante
De subito acordar os echos da clareira
E uma preza cansada, em rolos de poeira,
Varada, a vossos ps, car agonisante,

Acercai-vos ento da pobre fera exangue
Que estrebuxa de dr n'um mar de lama e sangue
Sem que um grito de d nos coraes acorde!

No entanto no fiqueis na doce gloria absorto:
O velho javali parece s vezes morto
Mas surge da agonia e os seus algozes morde!




XLVI

VERSOS A *


Eu sou, mulher suave, aquelle antigo louco,
O triste sonhador que o teu olhar cantou,
E que hoje vae sentindo, o sonho, a pouco e pouco,
Fugir como o luar d'um astro que expirou!

Que morra, porque, emfim, bem longo elle tem sido
E tempo  j, talvez, da Morte desposar
O sonho que em minha alma entrou como um bandido
E s da vida sae depois de me roubar!

Eu devera amarral-o  braga do forado,
Como a Justia faz aos despreziveis ros,
E lanal-o depois  valla do passado
Aonde o fulminasse a colera dos cos.

Mas no; quero embalar-lhe os ultimos momentos
Ao som d'uma cano das quadras juvenis,
E amortalhar depois--em doces pensamentos--
No manto da saudade, os seus restos gentis.

E quando elle seguir s regies saudosas,
Aonde todos ns iremos repousar,
Ao esquife hei de atirar-lhe as derradeiras rosas
Que dentro de minha alma houver por desfolhar!

Ninguem profanar seus restos adorados,
Que em paz iro dormir n'um fundo mausoleo;
E quando alguma vez j hirtos, regelados,
Acordem, por ventura,  luz que vem do co;

Em vo tu baters,  sonho,  fria porta
Que em breve has de sentir fechada sobre ti,
Porque a tua Memoria, emfim, j estar morta,
E no te escutarei... porque tambm morri!




XLVII


 pobres versos meus, lanae-vos pela estrada
Agreste e pedregosa, aonde os companheiros
Da luta, encontrareis, meus infimos guerreiros,
Formando os batalhes da bellica avanada!

E o trajo em desalinho, a face illuminada,
Transponde, sem demora, os fossos derradeiros
Que separam de ns os braos justiceiros
Da serena Verdade, a Deusa idolatrada.

Vencidos no combate, ou pouco ou nada importa.
Ao cho vergae sem pena a fao semi-morta,
Mordendo, inda a lutar, o p da enorme lia:

E tudo, emfim, esquecendo; os odios e os desprezos;
Que d'entre vs alguns, ao menos, fiquem prezos
Como fios de luz, ao manto da Justia!

FIM.




APPENDICE


Nas paginas que em seguida se leem acha-se to bem determinada, com
tanta eloquencia e to profunda observao, a misso da poesia
contemporanea, que no podemos resistir ao desejo de as trazer das
folhas passageiras do jornal, aonde pela primeira vez viram a luz, para
as paginas d'este livro, por ventura um pouco menos ephemeras.

O autor das _Radiaes da Noite_, intenta sobretudo mostrar que o seu
espirito, correspondendo s indicaes da critica, procura inspirar-se,
tanto quanto lhe  possivel, no mundo que o cerca, nos factos e nas
aces do nosso tempo. Das _Radiaes da Noite_  _Alma Nova_
poder-se-ha talvez notar um certo caminho andado na direco em que vae
seguindo a arte contemporanea.

Do escripto como primitivamente foi publicado, entendemos, como o leitor
tambem de certo comprehender, suprimir, hoje, a parte final em que o
talentoso critico se referia, d'um modo demasiadamente lisongeiro, 
individualidade litteraria do autor das _Radiaes_.

Guilherme d'Azevedo




TENDENCIAS NOVAS DA POESIA CONTEMPORANEA

a preposito das

RADIAES DA NOITE

do sr.

Guilherme d'Azevedo




O seculo XIX, cujos primeiros annos enflorou uma cora poetica de
esplendor incomparavel, tem mentido cruelmente s esperanas da sua
aurora. Envelhecendo, perdeu o dom do canto, ou, pelo menos, o
sentimento que faz os cantores verdadeiros. Os Goethe, os Byron, os
Lamartine, os Miczkawicz, os Hugo, os OEhlenschlaeger, no deixaram
descendencia digna d'aquella poderosa gerao. O romantismo foi um
meteoro. O grande canto do seculo esvaeceu-se gradualmente n'um
murmurio. A poesia contemporanea no tem unidade, e no tem sobre tudo o
largo folego de inspirao, que caracterisa as verdadeiras pocas
poeticas. O interesse do tempo dirige-se evidentemente para outro lado.
No meio das preoccupaes da actualidade, a poesia  como a cano de um
conviva distrado que se affasta da sala do festim, e cuja voz se perde
pouco a pouco no silencio da distancia e da noute.

Depois do apparecimento do romantismo, a sua queda  o maior facto
litterario, do seculo. Porm essa queda, que como facto todos
reconhecem, mas cuja phenomenalidade poucos tentam explicar, ser uma
justa sentena lavrada pela razo publica, ou ser uma condemnaao
arbitraria que deshonra o tribunal que a firma? Indicar para o espirito
do nosso tempo um progresso ou uma decadencia? uma gloria ou um
deslustre aos olhos da historia?

No hesito em responder. O romantismo foi justamente condemnado. O
seculo, com um sentimento lucido da sua verdadeira misso, affastou-se
d'aquelles que lhe fallavam uma linguagem, cujo brilho, cuja eloquencia,
cuja sinceridade, por maiores que fossem, no podiam encobrir o falso do
principio, que a inspirava. Essa misso  essencialmente positiva,
social e racional, e o romantismo era essencialmente apaixonado,
individual e subjectivo. Por mais que se virasse para o futuro, a sua
alma pertencia ao passado; emquanto que o seculo, ainda nos momentos em
que parece invocar o passado,  sempre para o futuro que caminha. No
fundo, uma sociedade sada da revoluo, e uma poesia que se inspirava
das tradies da edade-media, contradiziam-se, negavam-se radicalmente.
Um equivoco historico pde por um momento estabelecer aquelle infundado
accordo: no dia, porm, em que se conheceram, separaram-se.

Ainda ha muita gente que _sente_, _chora_, _cr_, e _aspira_,  maneira
dos grandes, melancolicos e apaixonados de 1820. Mas j nos no commovem
como ento, j no influem poderosamente no mundo que os rodeia. So
vozes sem ecco.  quanto basta para que nada signifiquem,
historicamente: tanto mais que aquellas vozes frouxas no teem j o
timbre ardente de indomavel paixo, que nas outras nos commovia. A
paixo d'estas  mais estudada na escola, do que sada do corao. No 
j como ento, um convencimento violento dos direitos da propria
loucura, que os inspira: so apenas os livros dos mestres: ora, no 
nos bancos apertados da escola, mas no seio da livre natureza, que se
criam os verdadeiros poetas.

Os poetas da gerao actual vem-se pois, rasgado aquelle veo
phantastico da _sentimentalidade_ d'outr'ora, em face d'uma sociedade,
que elles no comprehendem, porque ella mesma a si se no comprehende
bem, mas que os no quer escutar seno com a condio de lhe falarem
d'aquillo que a interessa e a preoccupa, de se inspirarem da sua vida
real e das suas verdadeiras aspiraes.  d'esta situao anormal que
resulta a incerteza, a anarchia, a fraqueza da poesia contemporanea. A
ida poetica acha-se confusa, embaraada no meio de factos sociaes, que
se no definem claramente: as fontes da inspirao correm escassas ou
turvas. A antiga nascente, to querida e conhecida, est quasi secca: a
nova, j por ser nova, e depois por que s deixa rebentar, em caches,
uma agua turbida, cheia de elementos estranhos, assusta os que a ella se
chegam pela primeira vez; os mais ousados inclinam-se um momento, tomam
a medo um golle da bebida suspeita, e retiram-se furtivamente como se
acabassem de fazer uma aco m.

E todavia,  alli que  necessario beber, porque  alli, n'aquellas
aguas rumorosas e confusas, que se conteem os elementos da inspirao
real, os principios vitaes de que se nutre a sociedade, e de que tem por
conseguinte de se alimentar tambem a poesia, sob pena de se tornar uma
abstraco, um phantasma, uma puerilidade. O problema da evoluo
poetica na actualidade encerra-se todo n'isto.

Mas aqui apresenta-se uma questo, que nos detem. Ter a sociedade
contemporanea (essa sociedade, ao que dizem, positiva at ao mais
desolador utilitarismo) na sua atmosphera suffocadora de industria, de
lutas sociaes e de sciencia friamente analytica, condies de vida e
desenvolvimento normal para a constituio delicada das castas musas,
das musas melindrosas e scismativas? No ser uma sociedade
essencialmente anti-poetica, esta nossa, um mundo rebelde a toda a
idealidade? Por outras palavras; poder haver poesia racional, positiva
e social? Ser um ser _poetico_ o homem do nosso tempo?

Intendo que pde haver tal poesia; que a alma moderna, na sua titanica
aspirao de verdade e justia,  poetica, poetica essencialmente,
d'aquella poesia forte e audaciosa dos mythos de Prometeu e Ajax; que ha
uma fonte abundante de inspirao n'esta luta historica de naes, de
classes e de idas, que  a epopea e a tragedia viva do nosso seculo;
que, finalmente,  maneira que os factos confusos da nossa epoca se
forem desembrulhando, mais lucida e evidente se ir mostrando a
idealidade sublime que n'esse chaos apparente se contm.

E a ida d'essa poesia nova no s existe, mas deve ser superior  ida
poetica das eras anteriores, porque corresponde a um periodo mais
adiantado da consciencia humana, penetra com maior intensidade a
natureza e o espirito, extrae o bello da propria realidade universal,
no das vises de um subjectivismo inexperiente, e d por base ao
sentimento, em vez de sonhos e intuies quasi instinctivas, os factos
luminosos da raso.

Os caracteres essenciaes d'essa poesia j hoje se podem indicar, e todos
elles se consubstanciam n'uma palavra, que resume tambem as tendencias
da nossa civilisao: o Humanismo. A inspirao social e naturalista vem
substituir a sentimentalidade toda subjectiva e pessoal, ou o
transcendentalismo contemplativo de outras idades poeticas. A poesia
deixa de duvidar e scismar, para affirmar e combater; mostra-nos o
interesse profundo e o valor ideal dos factos de cada dia; d s aces,
que parecem triviaes, da vida ordinaria, um caracter, e significao
universaes; e surrindo maternalmente para as creanas, as mulheres, os
simples, caminha todavia armada no meio das lutas dos homens.

Uma tal misso ninguem dir que  mesquinha ou vulgar: ha n'isto com que
tentar os mais altos engenhos, captivar os coraes mais generosos. E,
sobretudo, deve seduzir os espiritos verdadeiramente poeticos acharem-se
em communicao directa e constante com o seu tempo, com as aspiraes,
os interesses, as crenas da sociedade que os roda, e de cuja vida
vivem, como meio historico a que fatalmente pertencem.

Certamente que essa evoluo nova da poesia tem de ser lenta, como lenta
 a evoluo do edeal social, que a deve inspirar. Ha um certo receio, e
uma certa incerteza. O novo assusta: o indistincto faz hesitar, mas
insensivelmente, e fatalmente tambem, caminha-se n'aquella direco. Os
symptomas d'este movimento tornam-se cada dia mais accentuados. Em
Frana e Allemanha, sobre tudo, paizes aonde as idas e tendencias novas
se pronunciam n'uma agitao crescente, podem j indicar-se exemplos bem
significativos; em Allemanha ainda mais do que em Frana. Alli a poesia
inspira-se resolutamente das lutas sociaes e religiosas do tempo, e
abalana-se j, ainda que com incerta fortuna, s grandes composies
epicas, aonde se desenha uma sociedade, consubstanciada nos seus typos e
paixes mais caracteristicas. Entre ns, ha apenas indicios tenues e
raros, mas que, porisso mesmo, devemos recolher tanto mais
cuidadosamente, quanto parecem provar que nem tudo est inteiramente
morto no espirito portuguez, e nos animam a esperar com alguma confiana
n'um melhor futuro.

Anthero de Quental.




NOTA


Na reviso d'este livro escapou uma ou outra incorreco que no
mencionamos, e de que o leitor benevolo nos absolver. A paginas 63,
devemos porm notar, em especial, o 3.^o verso, que insidiosamente
apparece mascarado em alexandrino puro, feio que de certo lhe no
compete. Aos entendidos concedemos plena autorisaco para demolir o
verso referido, reconstruindo-o depois como julgarem mais proprio.




INDICE




INDICE


I--Eu poucas vezes canto os casos melancolicos
II--Eu vi passar alm vogando sobre os mares
III--Velha fara
IV--Graa posthuma
V--Historia simples
VI--A meza do festim cercada de formosas
VII--Os sonhos mortos
VIII--Falta a ordem
IX-- lyrios da cidade,  coraes doentes
X--Miseria santa
XI--Astro da rua
XII--Quando Martha morrer, depois do extremo arranco
XIII--As victimas
XIV--Evocacas
XV--Boas noites, coveiro, a tua enxada
XVI--Flor da moda
XVII-- machinas febris, eu sinto a cada passo
XVIII--A Christo
XIX--Eu tive um sonho estranho: ouvi que vou dizel-o
XX--O grande templo
XXI--A um certo homem
XXII-- hora do silencio
XXIII--Eu quizera depois das lutas acabadas
XXIV--O velho co
XXV--As velhitas
XXVI--As vizes
XXVII--Melancolias d'outono! eu quando alm descubro
XXVIII--O velho mundo
XXIX--Eis a velha cidade, a cortez devassa
XXX-- noite
XXXI--A valla
XXXII-- vultos ideaes, fantasticos e bellos
XXXIII--Eu vejo em tua boca as petalas vermelhas
XXXIV--Nos campos
XXXV--O ultimo D. Juan
XXXVI--Formosuras do inverno! Ao sol das duas horas
XXXVII--Antigo thema
XXXVIII--A me
XXXIX--Arcanjo vae-te embora,  tarde em nossas casas
XL--Santa simplicidade
XLI--O velho Olimpo dorme o bom somno profundo
XLII--Os palhaos
XLIII--A hydra
XLIV--Os novos leviaths
XLV--Sua alteza real o pequenino infante
XLVI--Versos a *
XLVII--O pobres versos meus, lanae-vos pela estrada
Appendice






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