The Project Gutenberg EBook of Orpheu N1, by 
Lus de Montalvor and Mrio de S-Carneiro and Ronald de Carvalho and Fernando Antnio Nogueira Pessoa and Jos Sobral de Almada Negreiros

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with this eBook or online at www.gutenberg.org


Title: Orpheu N1
       Revista Trimestral de Literatura

Author: Lus de Montalvor
        Mrio de S-Carneiro
        Ronald de Carvalho
        Fernando Antnio Nogueira Pessoa
        Jos Sobral de Almada Negreiros

Release Date: November 25, 2007 [EBook #23620]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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Produced by Vasco Salgado




ORPHEU




*"ORPHEU"*

REVISTA TRIMESTRAL DE LITERATURA


PORTUGAL E BRAZIL

Propriedade de: ORPHEU, L.^da     Editor: ANTONIO FERRO


_DIRECO_

PORTUGAL

Luiz de Montalvr--17, Caminho do Forno do Tijolo--LISBOA

BRAZIL

Ronald de Carvalho--104, Rua Humayt--RIO DE JANEIRO


*ANO I--1915*     *N.^o 1*     *Janeiro-Fevereiro-Maro*


*SUMARIO*

LUIZ DE MONTALVR            _Introduco_
MARIO DE S-CARNEIRO         _Para os "Indicios de Oiro"_ (poemas)
RONALD DE CARVALHO           _Poemas_
FERNANDO PESSOA              _O Marinheiro_ (drama esttico)
ALFREDO PEDRO GUISADO        _Treze sonetos_
JOS DE ALMADA-NEGREIROS     _Frizos_ (prosas)
CRTES-RODRIGUES             _Poemas_
ALVARO DE CAMPOS             _Opirio_ e _Ode Triunfal_


*Capa desenhada por Jos Pacheco*


Oficinas: Tipografia do Comrcio--10, Rua da Oliveira, ao Carmo

LISBOA




*CONDIES*


Toda a correspondencia deve ser dirigida aos Directores.


Convidamos todos os Artistas cuja simpatia esteja com a indole desta
Revista a enviarem-nos colaborao. No caso de no ser inserta
devolveremos os originais.


So nossos depositarios em Portugal os srs. Monteiro & C.^a, Livraria
Brazileira--190 e 192, Rua Aurea, Lisboa.


*Orpheu* publicar um numero incerto de paginas, nunca inferior a 72,
ao preo invariavel de 30 centavos o numero avulso, em Portugal, e
1$500 ris fracos no Brazil.


*ASSINATURAS*

(AO ANO--SRIE DE 4 NUMEROS)

Portugal, Espanha e Colonias portuguesas     1 escudo
Brazil                                       5$000 ris (moeda fraca)
Unio Postal                                 6 francos




*Livraria Brazileira de MONTEIRO & C.^a--Editores*
190 e 192, RUA AUREA--LISBOA


 venda no fim de abril:


*CU EM FOGO*

NOVELAS POR

MARIO DE S-CARNEIRO


A GRANDE SOMBRA--MISTRIO
O HOMEM DOS SONHOS--ASAS--EU-PRPRIO O OUTRO
A ESTRANHA MORTE DO PROF. ANTENA
O FIXADOR DE INSTANTES--RESURREIO


1 VOLUME DE 350 PAGINAS


CAPA DESENHADA POR

JOS PACHECO


Preo 70 centavos




*Obras dos colaboradores dste numero*


LUIZ DE MONTALVR

_A Caminho_, uma plaquette de versos
Edio da Livraria Brazileira
Preo: 20 centavos


MARIO DE S-CARNEIRO

_Amizade_, pea em 3 actos (com colaborao de Toms Cabreira J.^or)
Edio da Livraria Bordalo
Preo: 30 centavos

_Principio_, novelas
Edio da Livraria Ferreira
Preo: 70 centavos

_Disperso_, 12 poesias
Edio do autor
Exgotada

_A Confisso de Lucio_, narrativa
Edio do autor
Preo: 60 centavos


RONALD DE CARVALHO

_Luz Gloriosa_, poemas
Paris 1913. Edio do autor


FERNANDO PESSOA

_As sete salas do palacio abandonado_, poemas
Em preparao


ALFREDO PEDRO GUISADO

_Rimas da Noite e da Tristeza_, versos
Edio da Livraria Classica Editora
Preo: 40 centavos

_Distncia_, poemas
Edio da Livraria Ferreira
Preo: 30 centavos


JOS DE ALMADA-NEGREIROS

_Frizos_, prosas ilustradas pelo autor
A sar este ano


ALVARO DE CAMPOS

_Arco do Triunfo_
Em preparao


Qualquer destas obras pode ser requisitada directamente ao administrador
de ORPHEU--Alfredo Pedro Guisado: 112, Rocio, Lisboa.


No nosso segundo numero (a sair em junho) contamos publicar, entre
outras obras, as seguintes: _Poemas_ de Fernando Pessoa, _Mundo
Interior_, novela de Mario de S-Carneiro e _Narcisso_, poema de Luiz
de Montalvr.


A fotogravura da capa foi executada nos ateliers da ILUSTRADORA




*ORPHEU*

VOL. I--1915




*ORPHEU*

REVISTA TRIMESTRAL DE LITERATURA

VOLUME I


LISBOA
TYPOGRAPHIA Do COMMERCIO
10, RUA DA OLIVEIRA (AO CARMO), 10

1915




_INTRODUCO_


_O que  propriamente revista em sua essencia de vida e quotidiano,
deixa-o de ser_ ORPHEU_, para melhor se engalanar do seu titulo e
propr-se.

E propondo-se, vincula o direito de em primeiro lugar se desassemelhar
de outros meios, maneiras de formas de realisar arte, tendo por notavel
nosso volume de Beleza no ser incaracteristico ou fragmentado, como
literarias que so essas duas formas de fazer revista ou jornal.

Puras e raras suas intenes como seu destino de Beleza  o do:--Exilio!

Bem propriamente,_ ORPHEU_,  um exilio de temperamentos de arte que
a querem como a um segrdo ou tormento...

Nossa preteno  formar, em grupo ou ideia, um numero escolhido de
revelaes em pensamento ou arte, que sobre este principio aristocratico
tenham em_ ORPHEU _o seu ideal esotrico e bem nosso de nos sentirmos
e conhecermo-nos.

A photographia de gerao, raa ou meio, com o seu mundo immediato de
exhibio a que frequentemente se chama literatura e  sumo do que para
ahi se intitula revista, com a variedade a inferiorisar pela egualdade
de assumptos (artigo, seco ou momentos) qualquer tentativa de
arte--deixa de existir no texto preocupado de_ ORPHEU_.

Isto explica nossa ansiedade e nossa essencia!

Esta linha de que se quer acercar em_ Beleza_,_ ORPHEU_, necessita de
vida e palpitao, e no  justo que se esterilise individual e
isoladamente cada um que a sonhar nestas cousas de pensamento, lhes
der orgulho, temperamento e esplendor--mas pelo contrario se unam em
seleco e a dem aos outros que, da mesma especie, como raros e
interiores que so, esperam ansiosos e sonham nalguma cousa que lhes
falta,--do que resulta uma procura esthtica de permutas: os que nos
procuram e os que ns esperamos...

Bem representativos da sua estructura, os que a formam em_ ORPHEU_,
concorrero a dentro do mesmo nivel de competencias
para o mesmo rithmo, em elevao, unidade e discreo, de onde
depender a harmonia esthtica que ser o typo da sua especialidade.

E assim, esperanados seremos em ir a direito de alguns desejos de bom
gosto e refinados propositos em arte que isoladamente vivem para ahi,
certos que assignalamos como os primeiros que somos em nosso meio,
alguma cousa de louvavel e tentamos por esta forma, j revelar um
signal de vida, esperando dos que formam o publico leitor de seleco,
os esforos do seu contentamento e carinho para com a realisao da
obra literaria de_ ORPHEU_._


LUIS DE MONTALVR.





*PARA OS "INDICIOS DE OIRO"*

POEMAS DE

MARIO DE S-CARNEIRO




*TACITURNO*


Ha Ouro marchetado em mim, a pedras raras,
Ouro sinistro em sons de bronzes medievais--
Joia profunda a minha Alma a luzes caras,
Cibrio triangular de ritos infernais.

No meu mundo interior cerraram-se armaduras,
Capacetes de ferro esmagaram Princesas.
Toda uma estirpe rial de herois d'Outras bravuras
Em mim se despojou dos seus brazes e presas.

Heraldicas-luar sobre mpetos de rubro,
Humilhaes a liz, desforos de brocado;
Bazilicas de tdio, arnezes de crispado,
Insignias de Iluso, trofus de jaspe e Outubro...

A ponte levadia e baa de Eu-ter-sido
Enferrujou--embalde a tentaro descer...
Sobre fossos de Vago, ameias de inda-querer--
Manhs de armas ainda em arraiais de olvido...

Percorro-me em sales sem janelas nem portas,
Longas salas de trno a espessas densidades,
Onde os pnos de Arrs so esgaradas saudades,
E os divans, em redr, ansias lassas, absortas...

Ha rxos fins de Imperio em meu renunciar--
Caprichos de setim do meu desdem Astral...
Ha exquias de herois na minha dr feudal--
E os meus remorsos so terraos sobre o Mar...


_Paris--Agosto de 1914_




*SALOM*


Insnia rxa. A luz a virgular-se em mdo,
Luz morta de luar, mais Alma do que a lua...
Ela dana, ela range. A carne, alcool de nua,
Alastra-se pra mim num espasmo de segrdo...

Tudo  capricho ao seu redr, em sombras ftuas...
O arma endoideceu, upou-se em cr, quebrou...
Tenho frio... Alabastro!... A minh'Alma parou...
E o seu corpo resvala a projectar esttuas...

Ela chama-me em Iris. Nimba-se a perder-me,
Golfa-me os seios nus, eca-me em quebranto...
Timbres, elmos, punhais... A doida quer morrer-me:

Mordoura-se a chorar--ha sexos no seu pranto...
Ergo-me em som, oscilo, e parto, e vou arder-me
Na bca imperial que humanisou um Santo...


_Lisboa 1913--Novembro 3_




*CERTA VOZ NA NOITE, RUIVAMENTE...*


Esquivo sortilgio o dessa voz, opiada
Em sons cr de amaranto, s noites de incerteza,
Que eu lembro no sei d'Onde--a voz duma Princesa
Bailando meia nua entre clares de espada.

Leonina, ela arremessa a carne arroxeada;
E bbada de Si, arfante de Beleza,
Acera os seios nus, descobre o sexo... Reza
O espasmo que a estrebucha em Alma copulada...

Entanto nunca a vi, mesmo em viso. Smente
A sua voz a fulcra ao meu lembrar-me. Assim
No lhe desejo a carne--a carne inexistente...

 s de voz-em-cio a bailadeira astral--
E nessa voz-Esttua, ah! nessa voz-total,
 que eu sonho esvar-me em vicios de marfim...


_Lisboa 1914--Janeiro 31_




*NOSSA SENHORA DE PARIS*


Listas de som avanam para mim a fustigar-me
Em luz.
Todo a vibrar, quero fugir... Onde acoitar-me?...
Os braos duma cruz
Anseiam-se-me, e eu fujo tambem ao luar...

Um cheiro a maresia
Vem-me refrescar,
Longinqua melodia
Toda saudosa a Mar...
Mirtos e tamarindos
Odoram a lonjura;
Resvalam sonhos lindos...
Mas o Oiro no perdura,
E a noite cresce agora a desabar catedrais...
Fico sepulto sob crios--
Escureo-me em delirios,
Mas ressurjo de Ideais...

--Os meus sentidos a escoarem-se...
Altares e vlas...
Orgulho... Estrelas...
Vitrais! Vitrais!

Flores de liz...

Manchas de cr a ogivarem-se...
As grandes naves a sagrarem-se...
--Nossa Senhora de Paris!...


_Paris 1913--Junho 15_




*16*


Esta inconstancia de mim prprio em vibrao
 que me ha de transpr s zonas intermdias,
E seguirei entre cristais de inquietao,
A retinir, a ondular... Soltas as rdeas,
Meus sonhos, lees de fogo e pasmo domados a tirar
A trre d'ouro que era o carro da minh'Alma,
Transviaro pelo deserto, muribundos de Luar--
E eu s me lembrarei num baloiar de palma...
Nos osis, depois, ho de se abismar gumes,
A atmosfera ha de ser outra, noutros planos:
As rs ho de coaxar-me em roucos tons humanos
Vomitando a minha carne que comeram entre estrumes...

       *       *       *       *       *

Ha sempre um grande Arco ao fundo dos meus olhos...
A cada passo a minha alma  outra cruz,
E o meu corao gira:  uma roda de cres...
No sei aonde vou, nem vejo o que persigo...
J no  o meu rastro o rastro d'oiro que ainda sigo...
Resvalo em pontes de gelatina e de bolres...
Hoje, a luz para mim  sempre meia-luz...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

As mesas do Caf endoideceram feitas ar...
Caiu-me agora um brao... Olha, l vai le a valsar
Vestido de casaca, nos sales do Vice-Rei...

(Subo por mim acima como por uma escada de corda,
E a minha Ansia  um trapzio escangalhado...).


_Lisboa--Maio de 1914_




*DISTANTE MELODIA...*


Num sonho d'Iris, morto a ouro e brasa,
Vem-me lembranas doutro Tempo azul
Que me oscilava entre vus de tule--
Um tempo esguio e leve, um tempo-Asa.

Ento os meus sentidos eram cres,
Nasciam num jardim as minhas ansias,
Havia na minh'alma Outras distancias--
Distancias que o segui-las era flres...

Caa Ouro se pensava Estrelas,
O luar batia sobre o meu alhear-me...
Noites-lagas, como reis belas
Sob terraos-liz de recordar-me!...

Idade acorde d'Inter sonho e Lua,
Onde as horas corriam sempre jade,
Onde a neblina era uma saudade,
E a luz--anseios de Princesa nua...

Balastres de som, arcos de Amar,
Pontes de brilho, ogivas de perfume...
Dominio inexprimivel d'pio e lume
Que nunca mais, em cr, hei de habitar...

Taptes doutras Persias mais Oriente...
Cortinados de Chinas mais marfim...
Aureos Templos de ritos de setim...
Fontes correndo sombra, mansamente...

Zimbrios-panthons de nostalgias...
Catedrais de ser-Eu por sobre o mar...
Escadas de honra, escadas s, ao ar...
Novas Byzancios-alma, outras Turquias...

Lembranas fluidas... cinza de brocado...
Irrealidade anil que em mim ondeia...
--Ao meu redr eu sou Rei exilado,
Vagabundo dum sonho de sereia...


_Paris 1914--Junho 30_




*VISLUMBRE*


A horas flbeis, outonais--
Por magoados fins de dia--
A minha Alma  gua fria
Em nforas d'Ouro... entre cristais...


_Camarate--Quinta da Vitria.
Outubro de 1914._




*SUGESTO*


As companheiras que no tive,
Sinto-as chorar por mim, veladas,
Ao pr do sol, pelos jardins...
Na sua mgoa azul revive
A minha dr de mos finadas
Sobre setins...


_Paris--Agosto de 1914_




*7*


Eu no sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermdio:
     Pilar da ponte de tdio
     Que vai de mim para o Outro.


_Lisboa--Fevereiro de 1914_




*ANGULO*


Aonde irei neste sem-fim perdido,
Neste mar co de certezas mortas?--
Fingidas, afinal, todas as portas
Que no dique julguei ter construido...

--Barcaas dos meus impetos tigrados,
Que oceano vos dormiram de Segrdo?
Partiste-vos, transportes encantados,
De embate, em alma ao rxo, a que rochdo?...

-- nau de festa,  ruiva de aventura
Onde, em Champanhe, a minha ansia ia,
Quebraste-vos tambem ou, por ventura,
Fundeaste a Ouro em portos d'alquimia?...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Chegaram  baa os galees
Com as ste Princesas que morreram.
Regatas de luar no se correram...
As bandeiras velaram-se, oraes...

Detive-me na ponte, debruado,
Mas a ponte era falsa--e derradeira.
Segui no cais. O cais era abaulado,
Cais fingido sem mar  sua beira...

--Por sbre o que Eu no sou ha grandes pontes
Que um outro, s metade, quer passar
Em miragens de falsos horizontes--
Um outro que eu no posso acorrentar...


_Barcelona--Setembro de 1914_




*A INEGUALAVEL*


Ai, como eu te queria toda de violetas
E flbil de setim...
Teus dedos longos, de marfim,
Que os sombreassem joias pretas...

E to febril e delicada
Que no podesses dar um passo--
Sonhando estrelas, transtornada,
Com estampas de cr no regao...

Queria-te nua e friorenta,
Aconchegando-te em zibelinas--
Sonolenta,
Ruiva de teres e morfinas...

Ah! que as tuas nostalgias fssem guisos de prata--
Teus frenesis, lantejoulas;
E os cios em que estiolas,
Luar que se desbarata...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Teus beijos, queria-os de tule,
Transparecendo carmim--
Os teus espasmos, de sda...

--gua fria e clara numa noite azul,
gua, devia ser o teu amor por mim...


_Lisboa 1915--Fevereiro 16_




*APOTEOSE*


Mastros quebrados, singro num mar d'Ouro
Dormindo fgo, incerto, longemente...
Tudo se me igualou num sonho rente,
E em metade de mim hoje s mro...

So tristezas de bronze as que inda chro--
Pilastras mortas, marmores ao Poente...
Lagearam-se-me as ansias brancamente
Por claustros falsos onde nunca ro...

Desci de mim. Dobrei o manto d'Astro,
Quebrei a taa de cristal e espanto,
Talhei em sombra o Oiro do meu rastro...

Findei... Horas-platina... Olor-brocado...
Luar-ansia... Luz-perdo... Orquideas pranto...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

-- pantanos de Mim--jardim estagnado...


_Paris 1914--Junho 28_


MARIO DE S-CARNEIRO.





*POEMAS*

DE

RONALD DE CARVALHO




*A ALMA QUE PASSA*


*I--Sentido*

Fujo de mim como um perfume antigo
foge ondulante e vago de um missal
e julgo uma alma estranha andar commigo,
dizendo adeus a uma aventura irreal.

Sou transparencia, chamma pallida, ansia,
ultima nau que abandonou o caes.
No alvr das minhas mos chora a distancia
pras rachadas, longes de ouro, ideaes...

Sonho meu corpo como de um ausente,
naufrgo e exsurjo dentro da memoria,
accrdo num jardim convalescente,

vago perdido em outros num jardim,
e sinto no claro da ultima gloria
a sombra do que sou morrer em mim...


*II--Legenda*

A Vida  uma princeza dolorosa
no seu castelo de rubis e opalas,
tanjendo ao poente em harpa silenciosa
uma agonia de almas e de falas...

Colho de tuas mos a triste rosa,
Vida que s sombra e sobre mim resvalas.
Passas, e em tua sombra a ondear saudosa
vagam fantasmas de desertas salas...

(Vozes perdidas, juramentos a esmo,
passos que morrem sobre passos, sinos
accrdam madrugadas em mim mesmo.

E entre trompas, tambores e metralha,
claveharpas, orgos, tubas e violinos
a Vida e a Dr comeam a batalha...)


*III--Genese*

Antes a alma que tenho andou perdida,
foi pedrouo a rolar pelo caminho,
topazio, opala, perola esquecida
num bracelete real; foi caule e espinho,

bronze que a mo tocou, aurea jazida
por entre as ruinas de um paiz maninho,
e reflectiu, fatal, o olhar da Vida
no corpo em sangue de um estranho vinho...

Foi casco medieval, foi lana e escudo,
foi luz lunar e errante de lanterna,
e depois de exsurgir, triste, de tudo

veio para chorar dentro em meu ser
a amarga maldio de ser eterna
e a dr de renascer quando eu morrer...




*LAMPADA NOCTURNA*


Tonta de somno e de doura
no alto das garras de marfim
perdida em sombra a luz procura.
Alguem morreu dentro de mim...

Pela janela triste e escura
que abre os balces para o jardim
sbe um perfume de amargura.
Alguem morreu dentro de mm...

E vaes rompendo silenciosa
com o fino teu punhal de luxo
no ultimo vaso a ultima rosa...

E o caule n reflecte agora
no teu olhar como um repuxo
que implora o azul e no demora...




*TORRE IGNOTA*


Da sombra se ergue e no demra
nas mos que a cingem desejosas
o ar a fascina sempre e agora
e as linhas lava luminosas

O talhe inquieta a luz por fra
sonham chimeras dolorosas
e no floresce na haste da hra
nem a volupia de outras rosas

S de ser unica levanta
como um sorriso a pedraria
que o som dos bronzes acalanta

Da sombra se ergue para a gloria
e a mo que a esflra  argila fria
num vo branco de memoria




*O ELOGIO DOS REPUXOS*


Dr dos repuxos ao Sol-Pr agonisando
em plumas e marfins, em rosas de ouro e luz...
Canto da gua que desce em poeira, leve e brando,
canto da gua que sobe e onde o jardim transluz.

Dormem sinos na bruma--a cinza tem affagos...
Sombras de antigas nos, velas altas a arfar,
passam em turbilhes pelo fundo dos lagos,
(a aventura, a conquista, a ansia eterna do mar!)

Repuxos a morrer sobre si mesmos, lentos--
curvos leques a abrir e a fechar num adejo,
--mo vencida que vem de vos incitamentos,
mo nervosa que vai mais cheia de desejo...

Volupia de fugir--ser longe e ser distancia,
e tornar logo ao cais e de novo partir!
Volupia--desejar e no possuir, ser ansia...
Repuxos a descer, repuxos a subir...

No fixar emoes, volupia de esquec-las,
andar dentro de si perdido na memria...
(Caadores ideais de mundos e de estrelas--
repuxos ao Sol-Pr cheios de magoa e glria...)

Dr dos repuxos ao crepusculo cantando!
desespero, alegria--o labio, a mo... e um beijo.
Dr dos repuxos, dr sangrando, dr sonhando--
ir tocar a iluso e morrer em desejo...




*REFLEXOS*

_(Poema da Alma enferma)_


Minha alma treme como um lirio
dentro da gua dos teus olhos--
minha alma treme como um lirio,
com as mos varadas por abrolhos.

Toda de linho de noivado,
 tua porta a tremer,
toda de linho de noivado
minha alma vai amanhecer.

Anda um perfume de alm-morte
na sua voz dolorida,
anda um perfume de alm-morte
nas vestes plidas da vida...

A hora lilaz desabota
em flres de cinza e braza,
a hora lilaz desabota
com um rumor sonambulo de asa.

Pelo canal resam os barcos
cheios de graa e de glria...
pelo canal resam os barcos
a triste histria da memria...

Minha alma accorda o caes deserto,
florida em rosas de magoa--
minha alma accorda o caes deserto,
e a sua sombra  um cysne na gua...

E sobre as lampadas extintas
tombam funebres antenas,
e sobre as lampadas extintas
morrem as ultimas falenas.

As torres scismam pelo espao.
No silencio erram violinos--
as torres scismam pelo espao...
na penumbra cogitam sinos...

Minha alma toda se enclausura
no jardim que entardeceu...
minha alma toda se enclausura
num beijo irreal que no nasceu...

Dentro da gua dos teus olhos
minha alma treme como um lirio...


RONALD DE CARVALHO.





_FERNANDO PESSOA_


*O MARINHEIRO*

DRAMA ESTTICO EM UM QUADRO


a Carlos Franco.




Um quarto que  sem duvida num castello antigo. Do quarto v-se que 
circular. Ao centro ergue-se, sobre uma ea, um caixo com uma
donzella, de branco. Quatro tochas aos cantos.  direita, quasi em
frente a quem imagina o quarto, ha uma unica janella, alta e estreita,
dando para onde s se v, entre dois montes longinquos, um pequeno
espao de mar.

Do lado da janella velam trez donzellas. A primeira est sentada em
frente  janella, de costas contra a tocha de cima da direita. As
outras duas esto sentadas uma de cada lado da janella.

 noite e ha como que um resto vago de luar.


*Primeira veladora*.--Ainda no deu hora nenhuma.

*Segunda*.--No se podia ouvir. No ha relogio aqui perto. Dentro
em pouco deve ser dia.

*Terceira*.--No: o horizonte  negro.

*Primeira*.--No desejaes, minha irm, que nos entretenhamos contando
o que fmos?  bello e  sempre falso...

*Segunda*.--No, no fallemos d'isso. De resto, fmos ns alguma
cousa?

*Primeira*.--Talvez. Eu no sei. Mas, ainda assim, sempre  bello
fallar do passado... As horas teem cahido e ns temos guardado
silencio. Por mim, tenho estado a olhar para a chamma d'aquella vela.
s vezes treme, outras torna-se mais amarella, outras vezes empallidece.
Eu no sei porque  que isso se d. Mas sabemos ns, minhas
irms, porque se d qualquer cousa?...


(uma pausa)


*A mesma*.--Fallar do passado--isso deve ser bello, porque  intil
e faz tanta pena...

*Segunda*.--Fallemos, se quizerdes, de um passado que no tivessemos
tido.

*Terceira*.--No. Talvez o tivessemos tido...

*Primeira*.--No dizeis seno palavras.  to triste fallar!  um
modo to falso de nos esquecermos!... Se passeassemos?...

*Terceira*.--Onde?

*Primeira*.--Aqui, de um lado para o outro. s vezes isso vai buscar
sonhos.

*Terceira*.--De qu?

*Primeira*.--No sei. Porque o havia eu de saber?


(uma pausa)


*Segunda*.--Todo este paiz  muito triste... Aquelle onde eu vivi
outr'ora era menos triste. Ao entardecer eu fiava, sentada  minha
janella. A janella dava para o mar e s vezes havia uma ilha ao longe...
Muitas vezes eu no fiava; olhava para o mar e esquecia-me de
viver. No sei se era feliz. J no tornarei a ser aquillo que talvez
eu nunca fsse...

*Primeira*.--Fra de aqui, nunca vi o mar. Alli, d'aquella janella,
que  a unica de onde o mar se v, v-se to pouco!... O mar de
outras terras  bello?

*Segunda*.--S o mar das outras terras  que  bello. Aquelle
que ns vemos d-nos sempre saudades d'aquelle que no veremos
nunca...


(uma pausa)


*Primeira*.--No diziamos ns que iamos contar o nosso passado?

*Segunda*.--No, no diziamos.

*Terceira*.--Porque no haver relogio neste quarto?

*Segunda*.--No sei... Mas assim, sem o relogio, tudo  mais
afastado e mysterioso. A noite pertence mais a si-propria... Quem
sabe se ns poderiamos fallar assim se soubessemos a hora que ?

*Primeira*.--Minha irm, em mim tudo  triste. Passo dezembros
na alma... Estou procurando no olhar para a janella... Sei que de
l se vem, ao longe, montes... Eu fui feliz para alm de montes,
outr'ora... Eu era pequenina. Colhia flres todo o dia e antes de
adormecer pedia que no m'as tirassem... No sei o que isto tem de
irreparavel que me d vontade de chorar... Foi longe d'aqui que
isto pde ser... Quando vir o dia?...

*Terceira*.--Que importa? Elle vem sempre da mesma maneira...
sempre, sempre, sempre...


(uma pausa)


*Segunda*.--Contemos contos umas s outras... Eu no sei contos
nenhuns, mas isso no faz mal... S viver  que faz mal... No
rocemos pela vida nem a orla das nossas vestes... No, no vos
levanteis. Isso seria um gesto, e cada gesto interrompe um sonho...
Neste momento eu no tinha sonho nenhum, mas -me suave pensar
que o podia estar tendo... Mas o passado--porque no fallmos ns
d'elle?

*Primeira*.--Decidimos no o fazer... Breve raiar o dia e arrepender-nos-hemos...
Com a luz os sonhos adormecem... O passado
no  seno um sonho... De resto, nem sei o que no  sonho... Se
lho para o presente com muita atteno, parece-me que elle j passou...
O que  qualquer cousa? Como  que ella passa? Como 
por dentro o modo como ella passa?... Ah, fallemos, minhas irms,
fallemos alto, fallemos todas juntas... O silencio comea a tomar
corpo, comea a ser cousa... Sinto-o envolver-me como uma nevoa...
Ah, fallae, fallae!...

*Segunda*.--Para qu?... Fito-vos a ambas e no vos vejo logo...
Parece-me que entre ns se augmentaram abysmos... Tenho que
canar a ida de que vos posso ver para poder chegar a ver-vos...
Este ar quente  frio por dentro, naquella parte que toca na alma...
Eu devia agora sentir mos impossiveis passarem-me pelos cabellos...
As mos pelos cabellos-- o gesto com que fallam das
sereias... _(Cruza as mos sobre os joelhos. Pausa.)_ Ainda ha pouco,
quando eu no pensava em nada, estava pensando no meu passado...

*Primeira*.---Eu tambem devia ter estado a pensar no meu...

*Terceira*.--Eu j no sei em que pensava... No passado dos
outros talvez..., no passado de gente maravilhosa que nunca existiu...
Ao p da casa de minha me corria um riacho... Porque 
que correria, e porque  que no correria mais longe, ou mais
perto?... Ha alguma razo para qualquer cousa ser o que ? Ha
para isso qualquer razo verdadeira e real como as minhas mos?...

*Segunda*.--As mos no so verdadeiras nem reaes... So mysterios
que habitam na nossa vida... s vezes, quando fito as minhas
mos, tenho medo de Deus... No ha vento que mova as chammas
das velas, e olhae, ellas movem-se... Para onde se inclinam ellas?...
Que pena se alguem pudesse responder!... Sinto-me desejosa de
ouvir musicas barbaras que devem agora estar tocando em palacios
de outros continentes...  sempre longe na minha alma... Talvez porque,
quando creana, corri atraz das ondas  beira-mar. Levei a vida
pela mo entre rochedos, mar-baixa, quando o mar parece ter cruzado
as mos sobre o peito e ter adormecido como uma estatua de
anjo para que nunca mais ninguem olhasse...

*Terceira*.--As vossas phrases lembram-me a minha alma...

*Segunda*.-- talvez por no serem verdadeiras... Mal sei que as
digo... Repito-as seguindo uma voz que no ouo que m'as est
segredando... Mas eu devo ter vivido realmente  beira-mar... Sempre
que uma causa ondeia, eu amo-a... Ha ondas na minha alma...
Quando ando embalo-me... Agora eu gostaria de andar... No o
fao porque no vale nunca a pena fazer nada, sobretudo o que se
quer fazer... Dos montes  que eu tenho medo...  impossivel que
elles sejam to parados e grandes... Devem ter um segredo de pedra
que se recusam a saber que teem... Se d'esta janella, debruando-me,
eu pudesse deixar de ver montes, debruar-se-hia um momento da
minha alma alguem em quem eu me sentisse feliz...

*Primeira*.--Por mim, amo os montes... Do lado de c de todos
os montes  que a vida  sempre feia... Do lado de l, onde mora
minha me, costumavamos sentarmo-nos  sombra dos tamarindos e
fallar de ir ver outras terras... Tudo alli era longo e feliz como
o canto de duas aves, uma de cada lado do caminho... A floresta
no tinha outras clareiras seno os nossos pensamentos... E os nossos
sonhos eram de que as arvores projectassem no cho outra calma
que no as suas sombras... Foi decerto assim que alli vivemos, eu
e no sei se mais alguem... Dizei-me que isto foi verdade para que
eu no tenha de chorar...

*Segunda*.--Eu vivi entre rochedos e espreitava o mar... A orla
da minha saia era fresca e salgada batendo nas minhas pernas nuas...
Eu era pequena e barbara... Hoje tenho medo de ter sido... O presente
parece me que durmo... Fallae-me das fadas. Nunca ouvi fallar
d'ellas a ninguem... O mar era grande demais para fazer pensar
nellas... Na vida aquece ser pequeno... Ereis feliz minha irm?.

*Primeira*.--Comeo neste momento a tel-o sido outr'ora... De
resto, tudo aquilo se passou na sombra... As arvores viveram-o mais
do que eu... Nunca chegou quem eu mal esperava... E vs, irm,
porque no fallaes?

*Terceira*.--Tenho horror a de aqui a pouco vos ter j dito o que
vos vou dizer. As minhas palavras presentes, mal eu as diga, pertencero
logo ao passado, ficaro fra de mim, no sei onde, rigidas e
fataes... Fallo, e penso nisto na minha garganta, e as minhas palavras
parecem-me gente... Tenho um medo maior do que eu. Sinto
na minha mo, no sei como, a chave de uma porta desconhecida. E
toda eu sou um amuleto ou um sacrario que estivesse com consciencia
de si-proprio.  por isto que me apavora ir, como por uma floresta
escura, atravez do mysterio de fallar... E, afinal, quem sabe
se eu sou assim e se  isto sem duvida que sinto?...

*Primeira*.--Custa tanto saber o que se sente quando reparamos
em ns!... Mesmo viver sabe a custar tanto quando se d por isso...
Fallae portanto, sem reparardes que existis... No nos ieis dizer quem
ereis?

*Terceira*.--O que eu era outr'ora j no se lembra de quem sou...
Pobre da feliz que eu fui!... Eu vivi entre as sombras dos ramos, e
tudo na minha alma  folhas que estremecem. Quando ando ao sol a
minha sombra  fresca. Passei a fuga dos meus dias ao lado de fontes,
onde eu molhava, quando sonhava de viver, as pontas tranquillas
dos meus dedos... s vezes,  beira dos lagos, debruava-me e fitava-me...
Quando eu sorria, os meus dentes eram mysteriosos na
agua... Tinham um sorriso s d'elles, independente do meu... Era
sempre sem razo que eu sorria... Fallae-me da morte, do fim de
tudo, para que eu sinta uma razo p'ra recordar...

*Primeira*.--No fallemos de nada, de nada... Est mais frio, mas
porque  que est mais frio? No ha razo para estar mais frio. No
 bem mais frio que est... Para que  que havemos de fallar?...
 melhor cantar, no sei porqu... O canto, quando a gente canta
de noite,  uma pessoa alegre e sem medo que entra de repente no
quarto e o aquece a consolar-nos... Eu podia cantar-vos uma cano
que cantavamos em casa de meu passado. Porque  que no quereis
que vol-a cante?

*Terceira*.--No vale a pena, minha irm... Quando alguem canta,
eu no posso estar commigo. Tenho que no poder recordar-me. E
depois todo o meu passado torna-se outro e eu chro uma vida morta
que trago commigo e que no vivi nunca.  sempre tarde de mais
para cantar, assim como  sempre tarde de mais para no cantar...


(uma pausa)


*Primeira*.--Breve ser dia... Guardemos silencio... A vida assim
o quer... Ao p da minha casa natal havia um lago. Eu ia l
e assentava-me  beira d'elle, sobre um tronco de arvore que cahira
quasi dentro de agua... Sentava-me na ponta e molhava na agua os
ps, esticando para baixo os dedos. Depois olhava excessivamente
para as pontas dos ps, mas no era para as ver... No sei porqu,
mas parece-me d'este lago que elle nunca existiu... Lembrar-me
d'elle  como no me poder lembrar de nada... Quem sabe porque
 que eu digo isto e se fui eu que vivi o que recordo?...

*Segunda*.-- beira-mar somos tristes quando sonhamos... No
podemos ser o que queremos ser, porque o que queremos ser queremol-o
sempre ter sido no passado... Quando a onda se espalha e a
espuma chia, parece que ha mil vozes minimas a fallar. A espuma
s parece ser fresca a quem a julga uma... Tudo  muito e ns no
sabemos nada... Quereis que vos conte o que eu sonhava  beira-mar?

*Primeira*.--Podeis contal-o, minha irm, mas nada em ns tem necessidade
de que nol-o conteis... Se  bello, tenho j pena de vir a
tel-o ouvido. E se no  bello, esperae..., contae-o s depois de o
alterardes...

*Segunda*.--Vou dizer vol-o. No  inteiramente falso, porque sem
duvida nada  inteiramente falso. Deve ter sido assim... Um dia que
eu dei por mim recostada no cimo frio de um rochedo, e que eu tinha
esquecido que tinha pae e me e que houvera em mim infancia
e outros dias--nesse dia vi ao longe, como uma cousa que eu s pensasse
em ver, a passagem vaga de uma vela... Depois ella cessou...
Quando reparei para mim, vi que j tinha esse meu sonho... No
sei onde elle teve principio... E nunca tornei a ver outra vela...
Nenhuma das velas dos navios que sahem aqui de um porto se parece
com aquella, mesmo quando  lua e os navios passam longe devagar...

*Primeira*.--Vejo pela janella um navio ao longe.  talvez aquelle
que vistes...

*Segunda*.--No, minha irm; esse que vdes busca sem duvida
um porto qualqur... No podia ser que aquelle que eu vi buscasse
qualqur porto...

*Primeira*.---Porque  que me respondestes?... Pode ser... Eu
no vi navio nenhum pela janella... Desejava ver um e fallei-vos
d'elle para no ter pena... Contae-nos agora o que foi que sonhastes
 beira mar...

*Segunda*.--Sonhava de um marinheiro que se houvesse perdido
numa ilha longinqua. Nessa ilha havia palmeiras hirtas, poucas, e
aves vagas passavam por ellas... No vi se alguma vez pousavam...
Desde que, naufragado, se salvra, o marinheiro vivia alli... Como
elle no tinha meio de voltar  patria, e cada vez que se lembrava
d'ella soffria, poz-se a sonhar uma patria que nunca tivesse tido; poz-se
a fazer ter sido sua uma outra patria, uma outra especie de paiz,
com outras especies de paysagens, e outra gente, e outro feitio de passarem
pelas ruas e de se debruarem das janellas... Cada hora elle
construa em sonho esta falsa patria, e elle nunca deixava de sonhar,
de dia  sombra curta das grandes palmeiras, que se recortava, orlada
de bicos, no cho areento e quente; de noite, estendido na praia,
de costas, e no reparando nas estrellas.

*Primeira*.--No ter havido uma arvore que mosqueasse sobre as
minhas mos estendidas a sombra de um sonho como esse!...

*Terceira*.--Deixae-a fallar... No a interrompaes... Ella conhece
palavras que as sereias lhe ensinaram... Adormeo para a poder escutar...
Dizei, minha irm, dizei... Meu corao doe-me de no ter
sido vs quando sonhaveis  beira mar...

*Segunda*.--Durante annos e annos, dia a dia o marinheiro erguia
num sonho contnuo a sua nova terra natal... Todos os dias punha
uma pedra de sonho nesse edificio impossivel... Breve elle ia tendo
um paiz que j tantas vezes havia percorrido. Milhares de horas lembrava-se
j de ter passado ao longo de suas costas. Sabia de que cr
soiam ser os crepusculos numa bahia do norte, e como era suave
entrar, noite alta, e com a alma recostada no murmurio da agua que
o navio abria, num grande porto do sul onde elle passra outr'ora,
feliz talvez, das suas mocidades a supposta...


(uma pausa)


*Primeira*.--Minha irm, porque  que vos calaes?

*Segunda*.--No se deve fallar demasiado... A vida espreita-nos
sempre... Toda a hora  materna para os sonhos, mas  preciso no
o saber... Quando fallo de mais comeo a separar-me de mim e a
ouvir-me fallar. Isso faz com que me compadea de mim-propria e
sinta demasiadamente o corao. Tenho ento uma vontade lacrimosa
de o ter nos braos para o poder embalar como a um filho... Vde:
o horizonte empallideceu... O dia no pde j tardar... Ser preciso
que eu vos falle ainda mais do meu sonho?

*Primeira*.--Contae sempre, minha irm, contae sempre... No
pareis de contar, nem repareis em que dias raiam... O dia nunca
raia para quem encosta a cabea no seio das horas sonhadas... No
toraes as mos. Isso faz um ruido como o de uma serpente furtiva...
Fallae-nos muito mais do vosso sonho. Elle  to verdadeiro que no
tem sentido nenhum. S pensar em ouvir-vos me toca musica na
alma...

*Segunda*.--Sim, fallar-vos-hei mais d'elle. Mesmo eu preciso de
vol-o contar.  medida que o vou contando,  a mim tambem que o
conto... So trez a escutar... _(De repente, olhando para o caixo,
e estremecendo.)_ Trez no... No sei... No sei quantas...

*Terceira*.--No falleis assim... Contae depressa, contae outra
vez... No falleis em quantos podem ouvir... Ns nunca sabemos
quantas cousas realmente vivem e vem e escutam... Voltae ao vosso
sonho... O marinheiro... O que sonhava o marinheiro?...

*Segunda* _(mais baixo, numa voz muito lenta)_.--Ao principio elle
creou as paysagens; depois creou as cidades; creou depois as ruas
e as travessas, uma a uma, cinzelando-as na materia da sua alma--
uma a uma as ruas, bairro a bairro, at s muralhas dos caes d'onde
elle creou depois os portos... Uma a uma as ruas, e a gente que as
percorria e que olhava sobre ellas das janellas... Passou a conhecer
certa gente, como quem a reconhece apenas... Ia-lhes conhecendo as
vidas passadas e as conversas, e tudo isto era como quem sonha apenas
paysagens e as vae vendo... Depois viajava, recordado, atravez
do paiz que creara... E assim foi construindo o seu passado... Breve
tinha uma outra vida anterior... Tinha j, nessa nova patria, um
logar onde nascera, os logares onde passara a juventude, os portos
onde embarcara... Ia tendo tido os companheiros da infancia e depois
os amigos e inimigos da sua edade viril... Tudo era differente de
como elle o tivera--nem o paiz, nem a gente, nem o seu passado
proprio se pareciam com o que haviam sido... Exigs que eu continue?...
Causa-me tanta pena fallar d'isto!... Agora, porque vos fallo
d'isto, aprazia-me mais estar-vos fallando de outros sonhos...

*Terceira*.--Continuae, ainda que no saibaes porqu... Quanto
mais vos ouo, mais me no perteno...

*Primeira*.--Ser bom realmente que continueis? Deve qualquer
historia ter fim? Em todo o caso fallae... Importa to pouco o que
dizemos ou no dizemos... Velamos as horas que passam... O nosso
mister  inutil como a Vida...

*Segunda*.--Um dia, que chovra muito, e o horizonte estava mais
incerto, o marinheiro canou-se de sonhar... Quiz ento recordar a
sua patria verdadeira..., mas viu que no se lembrava de nada, que
ella no existia para elle... Meninice de que se lembrasse, era a na
sua patria de sonho; adolescencia que recordasse, era aquella que se
creara... Toda a sua vida tinha sido a sua vida que sonhara... E
elle viu que no podia ser que outra vida tivesse existido... Se elle
nem de uma rua, nem de uma figura, nem de um gesto materno se
lembrava... E da vida que lhe parecia ter sonhado, tudo era real e
tinha sido... Nem sequer podia sonhar outro passado, conceber que
tivesse tido outro, como todos, um momento, podem crer...  minhas
irms, minhas irms... Ha qualquer cousa, que no sei o que , que
vos no disse..., qualquer cousa que explicaria isto tudo... A minha
alma esfria-me... Mal sei se tenho estado a fallar... Fallae-me, gritae-me,
para que eu acorde, para que eu saiba que estou aqui ante
vs e que ha cousas que so apenas sonhos...

*Primeira* _(numa voz muito baixa)_.--No sei que vos diga... No
ouso olhar para as cousas... Esse sonho como contina?...

*Segunda*.--No sei como era o resto... Mal sei como era o
resto... Porque  que haver mais?...

*Primeira*.--E o que aconteceu depois?

*Segunda*.--Depois? Depois de qu? Depois  alguma cousa?...
Veiu um dia um barco... Veiu um dia um barco...--Sim, sim...
s podia ter sido assim...--Veiu um dia um barco, e passou por
essa ilha, e no estava l o marinheiro...

*Terceira*.--Talvez tivesse regressado  patria... Mas a qual?

*Primeira*.--Sim, a qual? E o que teriam feito ao marinheiro? Sabel-o-hia
alguem?

*Segunda*.--Porque  que m'o perguntaes? Ha resposta para
alguma cousa?


(uma pausa)


*Terceira*.--Ser absolutamente necessario, mesmo dentro do vosso
sonho, que tenha havido esse marinheiro e essa ilha?

*Segunda*.--No, minha irm; nada  absolutamente necessario.

*Primeira*.--Ao menos, como acabou o sonho?

*Segunda*.--No acabou... No sei... Nenhum sonho acaba...
Sei eu ao certo se o no contino sonhando, se o no sonho sem o
saber, se o sonhal-o no  esta cousa vaga a que eu chamo a minha
vida?... No me falleis mais... Principo a estar certa de qualquer
cousa, que no sei o que ... Avanam para mim, por uma noite que
no  esta, os passos de um horror que desconheo... Quem teria eu
ido despertar com o sonho meu que vos contei?... Tenho um medo
disforme de que Deus tivesse prohibido o meu sonho... Elle  sem
duvida mais real do que Deus permitte... No estejaes silenciosas...
Dizei-me ao menos que a noite vae passando, embora eu o saiba...
Vde, comea a ir ser dia... Vde: vae haver o dia real... Paremos...
No pensemos mais... No tentemos seguir nesta aventura
interior... Quem sabe o que est no fim d'ella?... Tudo isto, minhas
irms, passou-se na noite... No fallemos mais d'isto, nem a ns-proprias...
 humano e conveniente que tomemos, cada qual a sua
attitude de tristeza.

*Terceira*.--Foi-me to bello escutar-vos... No digaes que no...
Bem sei que no valeu a pena...  porisso que o achei bello... No
foi porisso, mas deixae que eu o diga... De resto, a musica da vossa
voz, que escutei ainda mais que as vossas palavras, deixa-me, talvez
s por ser musica, descontente...

*Segunda*.--Tudo deixa descontente, minha irm... Os homens
que pensam canam-se de tudo, porque tudo muda. Os homens que
passam provam-o, porque mudam com tudo... De eterno e bello ha
apenas o sonho... Porque estamos ns fallando ainda?...

*Primeira*.--No sei... _(olhando para o caixo, em voz mais baixa)_
Porque  que se morre?

*Segunda*.--Talvez por no se sonhar bastante...

*Primeira*.-- possivel... No valeria ento a pena fecharmo-nos
no sonho e esquecer a vida, para que a morte nos esquecesse?...

*Segunda*.--No, minha irm: nada vale a pena...

*Terceira*.--Minhas irms,  j dia... Vde, a linha dos montes
maravilha-se... Porque no choramos ns?... Aquella que finge estar
alli era bella, e nova como ns, e sonhava tambem... Estou certa
que o sonho d'ella era o mais bello de todos... Ella de que sonharia?...

*Primeira*.--Fallae mais baixo. Ella escuta-nos talvez, e j sabe
para que servem os sonhos...


(uma pausa)


*Segunda*.--Talvez nada d'isto seja verdade... Todo este silencio,
e esta morta, e este dia que comea no so talvez seno um sonho...
Olhae bem para tudo isto... Parece-vos que pertence  vida?...

*Primeira*.--No sei. No sei como se  da vida... Ah, como vs
estaes parada! E os vossos olhos to tristes, parece que o esto inutilmente...

*Segunda*.--No vale a pena estar triste de outra maneira... No
desejaes que nos calemos?  to extranho estar a viver... Tudo o
que acontece  inacreditavel, tanto na ilha do marinheiro como neste
mundo... Vde, o cu  j verde... O horizonte sorri ouro... Sinto
que me ardem os olhos, de eu ter pensado em chorar...

*Primeira*.--Chorastes, com effeito, minha irm.

*Segunda*.--Talvez... No importa... Que frio  este?... O que
 isto?... Ah,  agora...  agora... Dizei-me isto... Dizei-me uma
cousa ainda... Porque no ser a unica cousa real nisto tudo o marinheiro,
e ns e tudo isto aqui apenas um sonho d'elle?...

*Primeira*.--No falleis mais, no falleis mais... Isso  to extranho
que deve ser verdade... No continueis... O que ieis dizer no
sei o que , mas deve ser de mais para a alma o poder ouvir...
Tenho medo do que no chegastes a dizer... Vde, vde,  dia j...
Vde o dia... Fazei tudo por reparardes s no dia, no dia real, alli
fra... Vde-o, vde-o... Elle consola... No penseis, no olheis
para o que pensaes... Vde-o a vir, o dia... Elle brilha como ouro
numa terra de prata. As leves nuvens arredondam-se  medida que
se coloram... Se nada existisse, minhas irms?... Se tudo fosse, de
qualquer modo, absolutamente cousa nenhuma?... Porque olhastes
assim?...


(No lhe respondem. E ninguem olhara de nenhuma maneira.)


*A mesma*.--Que foi isso que dissestes e que me apavorou?... Senti-o
tanto que mal vi o que era... Dizei-me o que foi, para que eu,
ouvindo-o segunda vez, j no tenha tanto mdo como d'antes... No,
no... No digaes nada... No vos pergunto isto para que me respondaes,
mas para fallar apenas, para me no deixar pensar... Tenho
medo de me poder lembrar do que foi... Mas foi qualquer cousa
de grande e pavoroso como o haver Deus... Deviamos j ter acabado
de fallar... Ha tempo j que a nossa conversa perdeu o sentido...
O que ha entre ns que nos faz fallar prolonga-se demasiadamente...
Ha mais presenas aqui do que as nossas almas... O dia devia ter
j raiado... Deviam j ter acordado... Tarda qualquer cousa...
Tarda tudo... O que  que se est dando nas cousas de accordo com
o nosso horror?... Ah, no me abandoneis... Fallae commigo, fallae
commigo... Fallae ao mesmo tempo do que eu para no deixardes
sosinha a minha voz... Tenho menos medo  minha voz do que
 ida da minha voz, dentro de mim, se fr reparar que estou fallando...

*Terceira*.--Que voz  essa com que fallaes?...  de outra...
Vem de uma especie de longe...

*Primeira*.--No sei... No me lembreis isso... Eu devia estar
fallando com a voz aguda e tremida do mdo... Mas j no sei como
 que se falla... Entre mim e a minha voz abriu-se um abysmo...
Tudo isto, toda esta conversa, e esta noite, e este mdo--tudo isto
devia ter acabado, devia ter acabado de repente, depois do horror que
nos dissestes... Comeo a sentir que o esqueo, a isso que dissestes,
e que me fez pensar que eu devia gritar de uma maneira nova para
exprimir um horror de aquelles...

*Terceira* _(para a Segunda)_.--Minha irm, no nos devieis ter
contado essa historia. Agora extranho-me viva com mais horror. Contaveis
e eu tanto me distrahia que ouvia o sentido das vossas palavras
e o seu som separadamente. E parecia-me que vs, e a vossa voz, e
o sentido do que dizieis eram trez entes differentes, como trez creaturas
que fallam e andam.

*Segunda*.--So realmente trez entes differentes, com vida propria
e real. Deus talvez saiba porqu... Ah, mas porque  que fallamos?
Quem  que nos faz continuar fallando? Porque fallo eu sem querer
fallar? Porque  que  no reparamos que  dia?...

*Primeira*.--Quem pudesse gritar para despertarmos! Estou a ouvir-me
a gritar dentro de mim, mas j no sei o caminho da minha
vontade para a minha garganta. Sinto uma necessidade feroz de ter
mdo de que alguem possa agora bater quella porta. Porque no bate
alguem  porta? Seria impossivel e eu tenho necessidade de ter mdo
d'isso, de saber de que  que tenho mdo... Que extranha que me sinto!...
Parece-me j no ter a minha voz... Parte de mim adormeceu e ficou
a vr... O meu pavr cresceu mas eu j no sei sentil-o... J
no sei em que parte da alma  que se sente... Puzeram ao meu sentimento
do meu corpo uma mortalha de chumbo... Para que foi que
que nos contastes a vossa historia?

*Segunda*.--J no me lembro... J mal me lembro que a contei...
Parece ter sido j ha tanto tempo!... Que somno, que somno absorve
o meu modo de olhar para as cousas!... O que  que ns queremos
fazer? o que  que ns temos ida de fazer?--j no sei se  fallar
ou no fallar...

*Primeira*.--No fallemos mais. Por mim, cana-me o esforo que
fazeis para fallar... De-me o intervallo que ha entre o que pensaes
e o que dizeis... A minha consciencia boia  tona da somnolencia
apavorada dos meus sentidos pela minha pelle... No sei o que  isto,
mas  o que sinto... Preciso dizer phrases confusas, um pouco longas,
que custem a dizer... No sentis tudo isto como uma aranha
enorme que nos tece de alma a alma uma teia negra que nos prende?

*Segunda*.--No sinto nada... Sinto as minhas sensaes como uma
cousa que se no sente... Quem  que eu estou sendo?... Quem 
que est fallando com a minha voz?... Ah, escutae...

*Primeira e Terceira*.--Quem foi?

*Segunda*.--Nada. No ouvi nada... Quiz fingir que ouvia para que
vs suppozesseis que ouvieis e eu pudesse crr que havia alguma cousa
a ouvir... Oh, que horror, que horror intimo nos desata a voz da alma,
e as sensaes dos pensamentos, e nos faz fallar e sentir e pensar
quando tudo em ns pede o silencio e o dia e a inconsciencia da vida...
Quem  a quinta pessoa neste quarto que estende o brao e nos interrompe
sempre que vamos a sentir?...

*Primeira*.--Para qu tentar apavorar-me?... No cabe mais terror
dentro de mim... Peso excessivamente ao collo de me sentir.
Afundei-me toda no lodo morno do que supponho que sinto. Entra-me
por todos os sentidos qualquer cousa que m'os pega e m'os vela. Pesam
as palpebras a todas as minhas sensaes. Prende-se a lingua a
todos os meus sentimentos. Um somno fundo colla uma s outras as
idas de todos os meus gestos... Porque foi que olhastes assim?...

*Terceira* _(numa voz muito lenta e apagada)_.--Ah,  agora, 
agora... Sim, acordou alguem... Ha gente que acorda... Quando
entrar alguem tudo isto acabar... At l faamos por crr que todo
este horror foi um longo somno que fomos dormindo...  dia j...
Vae acabar tudo... E de tudo isto fica, minha irm, que s vs sois
feliz, porque acreditaes no sonho...

*Segunda*.--Porque  que m'o perguntaes? Porque eu o disse? No,
no acredito...


Um gallo canta. A luz, como que subitamente,
augmenta. As trez veladoras quedam-se silenciosas
e sem olharem umas para as outras.

No muito longe, por uma estrada, um vago
carro geme e chia.


_11/12 Outubro, 1913._


FERNANDO PESSA.





*TREZE SONETOS*

DE

ALFREDO PEDRO GUISADO




_ADORMECIDA_


As tuas mos dormiam na laga incenso.
E pelas alamedas destrudas, loucas,
Desceu-se em mim minha alma a procurar as bocas
Que me rezaram Ser sbre o teu manto extenso.

Vagamente desceu sbre o silncio, a arfar,
Combatendo de luz, a esvoaar no ataque...
E de noite caiu Egipto em meu olhar,
Nos teus braos em cruz, sepulcros em Karnak.

Bocas de Faras rezam mmias cansadas...
Tebas em mim fenece em bronze de toadas,
Apagando-se em cinza em lmpadas sombrias.

E tu adormecida h tanto tempo, em pranto.
Os cisnes na laga embranqueceram tanto,
Que se esqueceram Cr nas tuas mos esguas.




_SONHO EGPCIO_


No palcio, os paves so apenas diz-los...
As asas cr do longe erguidas sbre mim.
Existem os paves... O meu sentir-me  v-los...
E o meu sonhar-te, alm, so lagos no jardim.

Quando passei no parque, eu encontrei Nitokris.
Vi-a. Fitei-lhe as mos para poder senti-las...
Meus olhos foram naus em guas intranquilas,
Meus sentidos, aneis nos dedos de Nitokris.

Labirinto de sons. Adormeo-me oiro.
Ansia apagada. Deus desce minha alma em oiro.
Meus olhos p'ra te ver, arcadas nos espelhos.

Rezas que nunca ouvi. Hlitos de saudades.
E as tuas mos, ao largo, ungindo divindades
Scismam Ibis, pagos, sbre tapetes velhos.




_PAGO_


... Lembro-me ento de mim. Rezo-me longe. Scismo.
E o lembrar-me de mim so os meus passos idos.
Arqueia-se em azul meu prprio misticismo
E eu fico apenas Cr sbre vitrais vencidos.

O teu hlito  luz em candelabros velhos
Aos cantos dos sales onde me vejo a orar,
E os teus passos de Dr so um quebrar de espelhos.
Quando te quero ver, morres no meu olhar.

Abrao-me chorando. O teu morrer  vr-me,
Oiro de asas em Tule, ardendo antiguidade--
E o ter-te visto morta, o mdo de perder-me.

Procuro-me em silncio e oio-me em teus passos.
Sbre altares pagos ergo-me divindade
E Isis dorme meu Ser em cortinados lassos!




_VER-TE_


Estendi os meus braos p'ra abraar-te
E entre ns uma porta se cerrou.
Um spro de rubins em mim voou,
Spro que permitiu poder sonhar-te.

Saa a tua sombra p'las janelas
E perdia-se, ao largo, em arvoredos...
Os meus dedos scismando caravelas,
Eram prolongamentos dos teus dedos.

Num parque de oliveiras te sonhei
Erguendo-te do oiro que queimei
Nas nforas do templo do meu Ser.

Parece que te vejo e tu ests longe...
Afastei-me de mim para ser monge...
Meus olhos so a sombra de te ver!




_PRINCESA LOUCA_


Vejo passar na curva da alameda
Uma princesa h muitos anos louca,
Princesa cujo Corpo  uma roca
Em principados de faises de seda.

A sua sombra, uma laga azul.
As suas mos tecendo pinheirais,
Lembram-me naus sempre chegando ao cais,
guias sem asas num palcio, em Tule.

Seus dedos, pregos que pregaram Cristo.
Olha-me longe. Em seu olhar existo...
Passo nas rezas duma antiga boca...

Arqueio-me a sonhar sbre marfim.
Sou arco com que brinca no jardim
Essa princesa h tantos anos louca.




_MOS DE CEGA_


I

Sinto que as tuas mos so teus olhos vencidos,
Teus olhos que esquecendo as oraes da luz
So claustros apagando os passos esquecidos
De Deus ao regressar de amortalhar Jesus.

Sinto-as tanger ainda os violinos velhos,
Onde os dedos saltando em cordas de oiro,  tarde,
Te cegaram de som. E em candelabros arde
O teu antigo olhar emoldurando espelhos.

Teus dedos ao bater nas tuas mos so remos.
Inda vejo nas salas do palcio, arfando,
As tuas mos de Dr entreabrindo as portas.

Buscamo-nos em Cr e quando nos perdemos
Passam as tuas mos em meus dedos, scismando
Esttuas de marfim sbre as arcadas, mortas...


II

Morreram os lees que guardavam perdidos
A branca escadaria. Velhos lees sombrios...
Dles apenas resta o eco dos rugidos
Que os arcos dos sales tornaram mais esguios.

As rendas que fiaste adormeciam bocas
E as rugas no teu rosto iam caindo, fundas...
No fim do parque,  noite, as guias moribundas
Guardavam em silncio as destroadas rocas.

Fiavas noutro tempo os teus olhos dormentes.
Deixaste de os fiar e os teus olhos arderam
Na cr das tuas mos, na cruz de outros poentes...

Cega de mim, partiste. E quando regressaste
Manchada de Distncia, os meus sentidos eram
Palmeiras ladeando a estrada onde passaste!




_ESQUECENDO_


Os lagos dormem cisnes na alameda
E as portas do palcio esto fechadas.
As folhas a car, rezando seda,
Sonham paisagens mortas, afastadas...

Essas paisagens foram tuas aias.
Flautas ao longe foram teus sentidos.
E as tuas mos ao desfiar vestidos
Dormiram franjas em doiradas saias.

A tua Sombra o seu olhar perdeu...
No sei se no sers um gesto meu,
Um gesto de meus dedos longos, frios...

No sei quem s... Meus olhos esquecidos
Sentem-te em mim, dormir nos meus sentidos...
Meus sentidos, arcadas sbre rios...




_SALOM_


I

Danava Salom sbre mistrios idos.
--Tarde bronze a morrer. Poente em vus vermelhos--
Os seus sentidos, longe, eram bailados velhos,
E o seu Corpo, a bailar,  que era os seus sentidos.

Danava Salom nas suas mos morenas
Que eram sales de seda, a descerrar o hbito.
E Ela quando se via era o seu prprio hlito,
E o Corpo no bailado era uma curva apenas.

Danava Salom.--E os seus olhos ao v-la,
Cerravam-se lees com mdo de perd-la,
Lees bebendo luz na luz dos olhos seus...

No vejo Salom.--Talvez adormecida...
Talvez no meu olhar Ausncia dolorida...
Talvez boca pag beijando as mos de Deus...


II

Deus, longo cais em mim, donde outras naus singrando
Conduzem para o Longe o meu no existir.
Morena, Salom, entre vitrais bailando.
Arcadas-sensaes transpondo o seu Sentir.

Fita paisagens-Ansia em suas mos cansadas,
Paisagens a sonhar castelos nunca erguidos.
E os lbios percorrendo em lume os seus sentidos,
Scismam prncipes-Cr descendo das arcadas.

H entre Ela e Deus o corpo de Joo.
E em seu olhar, dormindo um bronze de orao,
 sombra do bailado um inclinar de palma.

Baila seu Corpo ainda. E Deus nos seus bailados.
Bailados-asas, longe, em capiteis bordados,
Gestos de Deus caindo entre molduras-Alma!




_MORTE DE SALOM_


Apagaram-se bronze os crios que sonhara.
Erguidos no seu Ser, sentidos-mausolus.
O palcio, no parque, era um olhar de Deus
E as salas do palcio, os bailes que bailara.

Ela, taa cada em uma orgia infinda,
Taa vencida de Alma em plios afastados.
Seu Corpo tinha sido algum dos seus bailados,
E a sua prpria Morte era um bailado ainda.

Eram as suas mos rainhas em imprios
Onde passavam reis com squitos mistrios,
Adagas de marfim erguidas noutras mos.

Seu Corpo, cinto de oiro ao seu redor, dormindo,
Um hlito de Deus sbre missais caindo,
Cinza de Alma rezando outros Jesus, pagos.




_RECORDANDO_


Sinto as cores, de noite, terem mdo
E acolherem-se  sombra do teu luto.
Eu fui um rei dos godos, que em Toledo
O Tejo adormeceu e ainda escuto.

Cercam-se de oiro as salas que habitei,
Oiro-cinza esquecido, oiro dormente.
E em minha Alma, na qual inda sou rei
Scismo tronos caindo lentamente.

Buscam-me pagens tristes nos caminhos.
E a minha lenda em sonhos pergaminhos
Vai escrevendo em silncio o meu scismar.

So outros os domnios que vivi
Todas as coisas que eu outrora vi
Regressaram mistrio ao meu olhar.




_ANTE DEUS_


Quando te vi eu fui o teu voar
E desci Deus p'ra me encontrar em mim.
Voei-me sbre pontes de marfim--
E uma das pontes, Deus, em meu olhar!

Aureolei-me de oiro em sombra fria
E meus vos cairam destrudos.
Foram dedos de Deus os meus sentidos.
Meu Corpo andou ao colo de Maria.

Agora durmo Cristo em vus pagos.
So tapetes de Deus as minhas mos.
Regresso Ansia p'ra alcanar os cus.

Ergo-me mais. Sou o perfil da Dr.
Sbre os ombros de Deus olho em redor
E Deus no sabe qual de ns  Deus!


ALFREDO PEDRO GUISADO.





*FRIZOS*

DO DESENHADOR

JOS DE ALMADA-NEGREIROS




*CIUMES*


Pierrot dorme sobre a relva junto ao lago. Os cisnes junto d'elle
passam sde, no n'o acordem ao beber.

Uma andorinha travssa, linda como todas, ava brincando rente
 relva e beija ao passar o nariz de Pierrot. Elle accorda e a andorinha,
fugindo a muito, olha de medo atraz, no venha o Pierrot de
zangado persegui-la pelos campos. E a andorinha perdia-se nos montes,
mas, porque elle se queda, de nvo volta em zig-zags travssos
e chilreios de troa. E chilreia de troa, muito alto, por cima d'elle.
Pierrot j se adormecia, e a andorinha em descida que faz calafrios
pousou-lhe no peito duas ginjas bicadas, e fugiu de nvo.

De contente, ergueu-se sorrindo e de joelhos, braos erguidos,
seus olhos foram to longe, to longe como a andorinha fugida nos
montes.

De repente viu-se cego--os dedos finissimos da Colombina brincavam
com elle. Desceu-lhe os dedos aos labios e trocou com beijos
o arma das palmas perfumadas. Depois dependurou-lhe de cada
orelha uma ginja,  laia de brincos com joias de carmim. Rolaram-se
na relva e uniram as boccas, e j se esqueciam de que as tinham
juntas...

--Sabes? Uma andorinha...

E foram de enfiada as graas da ave toda paixo. Pierrot contava
enthusiasmado, olhando os montes ainda em busca da andorinha,
e Colombina torceu o corpo numa dr calada e tomou-lhe as mos.

Havia na relva uma mscara branca de dr, e a lua tinha nos
olhos claros um olhar triste que dizia: Morreu Colombina!




*O ECHO*


To tarde. Ado no vem? Aonde iria Ado?!

Talvez que fosse  caa; quer fazer surprezas com alguma cra
branca l da floresta.

Era p'lo entardecer, e Eva j sentia cuidados por tantas demoras.

Foi chamar ao cimo dos rochedos, e uma voz de mulher tambem,
tambem chamou Ado.

Teve mdo: Mas julgando fantazia chamou de nvo: Ado? E
uma voz de mulher tambem, tambem chamou Ado.

Foi-se triste para a tenda.

Ado j tinha vindo e trouxera as settas todas, e a ca era nenhuma!

E elle a saud-la ameaou-lhe um beijo e ella fugiu-lhe.

--Outra que no Ella chamra tambem por Elle.




*SVRES PARTIDO*


A amazona negra era bella como o sol e triste como o luar, e
ninguem acredita mas era pastora de galgas. Figura negra muito esguia,
cypreste procurando vaga na margem do caminho.

Nas manhs de Outomno, frias como os degraus do tanque, era
Ella quem largava s galgas a lebre cinzenta, e a que a filsse j
sabia com quem dormia a ssta. E as galgas j nem dormiam bem
noutra almofada.

Sobre a relva, na sombra arrendilhada das folhas amarellecidas
dos pltanos onde os repuxos do tanque cuspiam lagryrnas de vidro,
a Amazona negra sonhava o seu Principe encantado e a galga do dia
dormia quieta, estendido o focinho no ventre d'Ella.

Uma manh mais turva as galgas todas voltaram tristes, de focinhos
pendidos--e nenhuma para dormir a ssta!

Uma flauta triste vinha de viagem pelo caminho; chorava de seguida
imensas canes de choros e tinha acompanhamentos funreos
de guisalhdas surdas.

Callou-se a flauta, um cypreste distante gemia baixinho as dres
da tatuagem que lhe iam abrindo no peito. O pastor lembrava ali o
nome do seu Bem. Pendia-lhe da cinta uma lebre cinzenta e a funda
torcida.

As galgas como settas deixaram n o caminho. E as guisalhadas...




*MIMA FATAXA*


Ella marcra-lhe na vespera aquelle rendez-vous no muro do
cemiterio. De feito Elle tornara escrava de uma cigana a sua alma
apaixonada de uma rainha loira senhora de todas as ciganas. Fra
d'Ella desde o dia em que, seguindo o ritmo acanalhado das ancas
desconjuntadas, ficou enfeitiado por aquelles dentes brancos ferindo
lume no colar de pederneiras. Sentiu desejos de morder aquelles labios
ardendo vermlhos incendios de beijos e as faces fumadas do
lume d'aquella bocca. E estranhava o seu corao vencido pela monotonia
dos berros das cantorias com acompanhamentos de urros de
pandeiro. Enfeitiara-o aquella vagabunda de olhos ardidos compondo
as tranas nos fundos dos caldeires de cobre onde durante o sol um
tisnado cigano consumia as horas em maadras marteladas. Encantra-o
aquella feiticeira afiando as tranas nos labios molhados da
saliva. E nas danas o tic-tac metalico das sandlias, matrcas tagarlas
a cantar nas lgens, tinha um telintar jovial; e os pulsos cingidos
de guizos eram um concerto de amarellos canarios contentes da
gaiola.

E mais bella do que nunca no chafariz real, de saias arregaadas,
a lavar as pernas da poeira das estradas e bellamente descomposta a
enfiar as meias muito grossas, vermlhas da cr das papoulas, e a dr
um n-cego num retorcido nastro branco muito negro  laia de liga
muito acima do joelho... E tem graa que a sua morenez no era
por via do sol, pois toda ella era queimada. Quem a visse trepar nas
amoreiras e despi-las das amras que lhe ensanguentavam os labios
e as faces e os dedos sem cuidar no vento que lhe levanta as saias,
teria tido como Elle um sorriso de desejos, iria como Elle fingir a
ssta por debaixo da linda amoreira.

E na descida, co'a saia erguida  laia de cabaz, meio tonta, meio
embriagada p'las amras em demasia, v-la-hia to bella como em
sonhos se desenha uma mulher para ns. E escarranchada no tronco
deixava-se escorregar lentamente, mas teve subida forada por via da
haste que ficava em riba. Depois dependurou-se de um galho rijo,
abriu as mos e foi de vez chapar-se na relva. E de bruos, como uma
cabra a espojar-se, comeou de juntar os fructos espalhados. E os
seus olhos de gata, de gata que brinca nos telhados vermlhos com
a lua branca, mais do que amras colhiam.




*A SOMBRA*

(TRADUCO DE UM POEMA DE UMA LINGUA DESCONHECIDA)


Foi ali que um dia sentiu desejos de partir tambem. Que ficava
fazendo ssinha? Quem leva uma lana, leva a mulher tambem.


O seu chle negro tem um segredo, e o seu mal de morte vem
do mesmo dia.


Os annos correram sem nvas algumas, e as mas finaram-se
velhas, velhas de tanto esperar.


E todas as noites, na margem sombria, uma silhueta franzina de
tragica sonambula vae seguindo, como um brao murcho de cypreste
a boiar ao de cima da corrente que o vae levando-mansamente.




*A SSTA*


Pierrot escondido por entre o amarello dos gyrassois espreita em
cautela o somno d'ella dormindo na sombra da tangerineira. E ella
no dorme, espreita tambem de olhos descidos, mentindo o sno, as
vestes brancas do Pierrot gatinhando silencios por entre o amarelo
dos gyrassois. E porque Elle se vem chegando perto, Ella mente
ainda mais o sno a mal-resonar.

Junto d'Ella, no teve mo em si e foi descer-lhe um beijo mudo
na negra meia aberta arejando o p pequenino. Depois os joelhos redondos
e lizos, e j se debruava por sobre os joelhos, a beijar-lhe o
ventre descomposto, quando Ella acordou canada de tanto sno fingir.

E Elle ameaa fugida, e Ella furta-lhe a fuga nos braos ns estendidos.

E Ella, magoada dos remorsos de Pierrot, acaricia-lhe a fronte
num grande perdo. E, feitas as pazes, ficou combinado que Ella dormisse
outra vez.




*CANO DA SAUDADE*


Se eu fosse cego amava toda a gente.

No  por ti que dormes em meus braos que sinto amor. Eu
amo a minha irm gemea que nasceu sem vida, e amo-a a fantazia-la
viva na minha edade.

Tu, meu amor, que nome  o teu? Dize onde vives, dize onde
mras, dize se vives ou se j nasceste.

Eu amo aquella mo branca dependurada da amurada da gal
que partia em busca de outras gals perdidas em mares longissimos.

Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim-do-dia por
entre as gentes apressadas.

Eu amo aquellas mulheres formosas que indiferentes passaram
a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas.

Eu amo os cemiterios--as lgens so espessas vidraas transparentes,
e eu vejo deitadas em leitos flordos virgens nas, mulheres
bellas rindo-se para mim.

Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das
mulheres so como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em
meus sonhos. Eu amo a lua do lado que eu nunca vi.

Se eu fosse cego amava toda a gente.




*RUINAS*


Pandeiros rtos e cxas tas de crystal aos ps da muralha.

Heras como Romeus, Julietas as ameias. E o vento toca, em
bandolins distantes, surdinas finas de princezas mortas.

Poeiras adormecidas, netas fidalgas de minuetes de mos esguias
e de cabelleiras embranquecidas.

Aquellas ameias cingiram uma noite peccados sem fim; e ainda
guardam os segredos dos mudos beijos de muitas noites. E a lua velhinha
todas as noites rza a chorar: Era uma vez em tempo antigo
um castello de nobres naquelle lugar... E a lua, a contar, pra um
instante--tem mdo do frio dos subterraneos.

Ouvem-se na sala que j nem existe, compassos de danas e rizinhos
de sdas.

Aquellas ruinas so o tumulo sagrado de um beijo adormecido--
cartas lacradas com ligas azues de fechos de oiro e armas reais e
lizes.

Pobres velhinhas da cr do luar, sem tero nem nada, e sempre
a rezar...

Noites de insonia com as gals no mar e a alma nas gals.

Archeiros amordaados na noite em que o cche era de volta ao
palacio pela tapada d'El-rei. Grande caada na floresta--galgos brancos
e Amazonas negras. Cavalleiros vermlhos e trombtas de oiro
no cimo dos outeiros em busca de dois que faltam.

Uma gondola, ao largo, e um pagem nas areias de lanterna erguida
dizendo pela briza o aviso da noite.

O sapato d'Ella desatou-se nas areias, e fram cala-lo nas furnas
onde ninguem v. Nas areias ficaram as pgadas de um par que
se beija.

Noticias da guerra--choros l dentro, e crpes no brazo. Ardem
cirios, serpentinas. Ha mos postas entre as flres.

E a torre morna canta, molenga, dze vezes a mesma dr.




*PRIMAVERA*


O sol vae esmolando os campos com bdos de oiro.

A pastorinha aquecida vae de corrida a mendigar a sombra do
choro corcunda, poeta romantico que tem paixo p'la fonte.

Espreita os campos, e os campos despovoados do-lhe licena
para ficar na. Que leves arrepios ao refrescar-se nas aguas! Depois
foi de vez, meteu-se no tanque e foi espojar-se na relva, a seccar-se
ao sol. Mas o vento que vinha de l das Azenhas-do-Mar, trazia peccados
comsigo. Sentiu desejos de dar um beijo no filho do Senhor
Morgado. E lembrou-se logo do beijo da horta no dia da feira. Fechou
os olhos a cegar-se do mau pensamento, mas foi lembrar-se do
proprio Senhor Morgado  meia noite ao entrar na adega. Abanou a
fronte para lhe fugir o peccado, mas foi dar comsigo na sachristia a
deixar o Senhor Prior beijar-lhe a mo, e depois a testa... porque
Deus  bom e perda tudo... e depois as faces e depois a bocca e
depois... fugiu... No devia ter fugido... E agora o moleiro, l no
arraial, bailando com ella e sem querer, coitado, foi ter ao moinho
ainda a bailar com ella. E lembra-se ainda--sentada na grande arca,
e mos alheias a desapertarem-lhe as ligas e o corpte, emquanto
ouve a historia triste do moinho com cincoenta malfeitores... Quer
lembrar-se mais, que seja peccado! quer mais recordaes do moinho,
mas no encontra mais.

Ah! e o boieiro quando, a guiar a junta, topou com ella e lhe
perguntou se vira por acaso uma borboleta branca a voar a muito,
uma borboleta muito bonita! Que no, que no tinha visto; mas o
boieiro desconfiado foi procurando sempre, e at mesmo por debaixo
dos vestidos.

Como desejava poder ir com todos!


No sabe o que sente dentro de si que a importuna de bem estar.

Teria a borbolta branca fugido para dentro d'ella?




*TREVAS*


De dia no se via nada, mas p'la tardinha j se apercebia gente
que vinha de punhaes na mo, devagar, silenciosamente, nascendo
dos pinheiros e morrendo nelles. E os punhaes no brilhavam: eram
luzes distantes, eram guias de lenoes de linho escorridos de hombros
franzinos. E a briza que vinha dava gestos de azas vencidas aos lenoes
de linho, azas brancas de garas cadas por faunos caadores.
E o vento segredava por entre os pinheiros os mdos que nasciam.

E vinha vindo a Noite por entre os pinheiros, e vinha descala
com ps de surdina por mr do barulho, de braos estendidos p'ra
no topar com os troncos; e vinha vindo a noite cguinha como a
lanterna que lhe pendia da cinta. E vinha a sonhar. As sombras ao
v-la esconderam os punhaes nos peitos vazios.

A lua  uma laranja d'oiro num prato azul do Egypto com perolas
desirmanadas. E as silhuetas negras dos pinheiros embaloiados
na briza eram um bailado de estatuas de sonho em vitraes azues. Mos
ladras de sombra levram a laranja, e o prato enlutou-se.

Por entre os pinheiros esgalgados, por entre os pinheiros entristecidos,
havia gemidos da briza dos tumulos, havia surdinas de gritos
distantes--e distantes os ouviam os pinheiros esgalgados, os pinheiros
gigantes.

A briza fez-se gritos de paves perseguidos. E as sombras em
danas macabras fugiam fumo dos pinheiraes p'lo meu respirar.

Escondidas todas por detraz de todos os pinheiros, chocam-se
nos ares os punhaes acsos. Faz-se a fogueira e as bruxas em roda
rezam a gritar ladainhas da Morte. Veem mais bruxas, trazem alfanges
e um caixo. Doem-me os cabellos, fecham-se-me os olhos e quatro
anjos levam-me a alma... Mas a cigarra em algazarra de alm
do monte vem dizer-me que tudo dorme em silencio na escurido.

Veiu a manha e foi como de dia: no se via nada.




*CANO*


A pastorinha morreu, todos esto a chorar. Ninguem a conhecia
e todos esto a chorar.


A pastorinha morreu, morreu de seus amres.  beira do rio
nasceu uma arvore e os braos da arvore abriram-se em cruz.


As suas mos compridas j no acenam de alm. Morreu a pastorinha
e levou as mos compridas.


Os seus olhos a rirem j no troam de ninguem. Morreu a pastorinha
e os seus olhos a rirem.


Morreu a pastorinha, est sem guia o rebanho. E o rebanho sem
guia  o enterro da pastorinha.


Onde esto os seus amres? Ha prendas para Lhe dar. Ninguem
sabe se  Elle e ha prendas para Lhe dar.


Na outra margem do rio deu  praia uma santa que vinha das
bandas do mar. Vestida de pastora p'ra se no fazer notar. De dia
era uma santa,  noite era o luar.


A pastorinha em vida era uma linda pastorinha; a pastorinha
mrta  a Senhora dos Milagres.




*A TAA DE CH*


O luar desmaiava mais ainda uma mscara caida nas esteiras
bordadas. E os bambs ao vento e os crysanthemos nos jardins e as
garas no tanque, gemiam com elle a advinharem-lhe o fim. Em rda
tombvam-se adormecidos os idolos coloridos e os drages alados.
E a gueisha, procelana transparente como a casca de um ovo da Ibis,
enrodilhou-se num labyrinto que nem os drages dos deuses em dias
de lagrymas. E os seus olhos rasgados, perolas de Nankim a desmaiar-se
em agua, confundiam-se scintillantes no luzidio das procelanas.

Elle, num gesto ultimo, fechou-lhe os labios co'as pontas dos dedos,
e disse a finar-se:--Chorar no  remedio; s te peo que no
me atraioes emquanto o meu corpo fr quente. Deitou a cabea nas
esteiras e ficou. E Ella, num grito de gara, ergueu alto os braos a
pedir o Ceu para Elle, e a saltitar foi pelos jardns a sacudir as mos,
que todos os que passavam olharam para Ella.

Pela manh vinham os visinhos em bicos dos ps espreitar por
entre os bambs, e todos viram acocorada a gueisha abanando o morto
com um leque de marfim.


A estampa do pires  igual.


JOS DE ALMADA-NEGREIROS.





*POEMAS*

DE

CRTES-RODRIGUES




_ABERTURA DO "LIVRO DA VIDA"_


Transcendencias nubloticas, metaphysicas raras,
Modelei a minha Obra com minhas mos avaras.
Litanias liturgicas de febre de paixo,
Crepusculos de fogo ardendo em sentimento,
Columnas de Alm-Sonho, arcos de commoo,
Claustros de Archi-Tristeza aonde o Pensamento
Vive longe do mundo, em funda adorao...

         Castello esguio
            Sobre o rio
            Do Amr.
      Armei-me cavalleiro,
      Quebrou-se minha lana de guerreiro
         No combate da Dr.

Architectonicas theorias de Belleza,
Transfiguraes, resurreies, e a Natureza
No fundo longo, sensitivo da emoo,
Bysantinos jardins onde a Tarde agonisa,
Fluidicos aromas em mystica asceno,
Emanaes d'Amor que a alma divinisa
Em Alma de outra Alma--eterna communho...

         Praia to desconhecida
         Do mar da vida vivida
         Onde o luar nunca vem,
         De onde a nau da minha Alma
         Parte pela noite calma
         A caminho do Alm.

E eis a grande rota seguida em Mim smente,
P'ra que parta do mundo e chegue at aos cus,
E onde Tu e Eu iremos lentamente
         Da Vida para Deus.


_Lisboa--1914._




_POENTE_


As minhas sensaes--barcos sem velas--
Erram de mim. Occaso rxo. Scismo.
Meus olhos de No-ver-me so janellas
         Dando sobre o abysmo.

Abysmo d'Outro Ser. E a Hora chora
Nostalgica de Si, mas eu de v-las
Erro de Ser-me, e a noite sem estrellas
         Apavora.

Delirio rxo d'agonia. Prece.
Poente feito noite. Escurido.
Perturbo-me de mim em sensao
      E dentro em mim desfallece
         E anoitece
A sombra do meu Ser na solido
         Do dia que morreu
         E se perdeu
      E jmais amanhece.


_Lisboa--1914._




_AGONIA_


Ergo meus olhos vagos na distancia
      Da sombra do meu Ser...
Pairam de mim Alm, e a minha Ansia
      Cana de me viver.

Meus olhos espectraes de comoo,
Olhos de Alma olhando-se a Si,
Nimbam de luz a longa escurido
      Da Vida que vivi.

Aurola de Dr que finalisa
Na noite do abysmo do meu nada,
Silencio, prece, communho sagrada,
Sonho de luz que em Ti me divinisa,
      Tortura do meu fim,
         Alma ungida
         E perdida
Na grandeza de Si. E j sem ver-me,
Macerao crepuscular de Mim,
      Agoniso de Ser-me.


_Lisboa--1914._




_S_


O mar da minha vida no tem longes.
 tudo gua s! E o horisonte
Funde-se no cu. Por sobre a ponte
Marcha sinistra a procisso dos monges.

Velas accsas, opas, ladainha,
E o rio deslisando para o mar,
E e as raparigas veem  tardinha
Buscar  fonte a gua sem cantar.

      Ermida branca sobre o monte.
      Nossa Senhora da Paz...

Peregrino voltei sem ser ouvido.
Rasguei os meus ps pelo caminho ido.
Ai, a calma de tudo quanto jaz
No frio esquecimento! Sobre a ponte
A procisso caminha. Sob o arco
      Singrou sereno um barco
      A caminho do mar.
 perdida viso da minha Ansia!
Vejo-me s na lugubre distancia,
Cadaver dos meus sonhos a boiar.


_Lisboa--1914._




_OUTRO_


Passo triste no mundo, alheio ao mundo.
Passo no mundo alheio, sem o ver,
E, mystico, ideal e vagabundo,
Sinto erguer-se minh'Alma do profundo
      Abysmo do meu Ser.

Vivo de Mim em Mim e para Mim
E para Deus em Mm resuscitado.
Sou Saudade do Longe d'onde vim,
E sou Ansia do Longe em que por fim
      Serei transfigurado.

Vivo de Deus, em Deus e para Deus,
E minh'Alma, somnambula esquecida,
N'Elle fitando os tristes olhos seus,
Passa triste e ssinha olhando os cus
      No caminho da Vida.

Fui Outro e, Outro sendo, Outro serei,
Outro vivendo a mystica belleza
Por esta humana frma que encarnei,
Por lagrimas de sangue que chorei
      Na terra de tristeza.

Espirito na Dr purificado,
Ser que passa no mundo sem o ver,
Em esta pobre terra de peccado
Amor divino em Deus extasiado,
O meu Ser  No-Ser em Outro-Ser.


_Lisboa--1914._


CRTES-RODRIGUES.





*OPIRIO*

E

*ODE TRIUNFAL*

DUAS COMPOSIES DE

ALVARO DE CAMPOS

PUBLICADAS POR

FERNANDO PESSOA




_OPIRIO_

AO SENHOR MRIO DE S-CARNEIRO


 antes do pio que a minh'alma  doente.
Sentir a vida convalesce e estila
E eu vou buscar ao pio que consla
Um Oriente ao oriente do Oriente.

Esta vida de brdo ha-de matar-me.
So dias s de febre na caba
E, por mais que procure at que adoa,
J no encontro a mla pra adaptar-me.

Em paradoxo e incompetncia astral
Eu vivo a vincos d'ouro a minha vida,
Onda onde o pundonr  uma descida
E os prprios gosos ganglios do meu mal.

 por um mecanismo de desastres,
Uma engrenagem com volantes falsos,
Que passo entre vises de cadafalsos
Num jardim onde ha flores no ar, sem hastes.

Vou cambaleando atravs do lavr
Duma vida-interior de renda e lca.
Tenho a impresso de ter em casa a fca
Com que foi degolado o Precursr.

Ando expiando um crime numa mla,
Que um av meu cometeu por requinte.
Tenho os nervos na frca, vinte a vinte,
E ca no pio como numa vla.

Ao toque adormecido da morfina
Perco-me em transparncias latejantes
E numa noite cheia de brilhantes
Ergue-se a lua como a minha Sina.

Eu, que fui sempre um mau estudante, agora
No fao mais que ver o navio ir
Pelo canal de Suez a conduzir
A minha vida, camfora na aurora.

Perdi os dias que j aproveitara.
Trabalhei para ter s o cansao
Que  hoje em mim uma especie de brao
Que ao meu pesco me sufoca e ampara.

E fui criana como toda a gente.
Nasci numa provincia portugusa
E tenho conhecido gente inglsa
Que diz que eu sei ingls perfeitamente.

Gostava de ter pomas e novlas
Publicados por Plon e no _Mercure_,
Mas  impossivel que esta vida dure.
Se nesta viagem nem houve proclas!

A vida a brdo  uma coisa triste
Embora a gente se divirta s vezes.
Falo com alemes, suecos e inglses
E a minha mgoa de viver persiste.

Eu acho que no vale a pena ter
Ido ao Oriente e visto a India e a China.
A terra  semelhante e pequenina
E ha s uma maneira de viver.

Porisso eu tomo pio.  um remedio.
Sou um convalescente do Momento.
Mro no rs-do-cho do pensamento
E ver passar a Vida faz-me tedio.

Fumo. Canso. Ah uma terra aonde, emfim,
Muito a leste no fosse o oeste j!
Pra que fui visitar a India que ha
Se no ha India seno a alma em mim?

Sou desgraado por meu morgado.
Os ciganos roubaram minha Sorte.
Talvez nem mesmo encontre ao p da morte
Um lugar que me abrigue do meu frio.

Eu fingi que estudei engenharia.
Vivi na Escssia. Visitei a Irlanda.
Meu corao  uma avzinha que anda
Pedindo esmla s portas da Alegria.

No chegues a Port-Said, navio de ferro!
Volta  direita, nem eu sei para onde.
Passo os dias no smoking-room com o conde--
Um escroc francs, conde de fim de enterro.

Volto  Europa descontente, e em sortes
De vir a ser um poeta sonamblico.
Eu sou monarquico mas no catlico
E gostava de ser as coisas fortes.

Gostava de ter crenas e dinheiro,
Ser varia gente insipida que vi.
Hoje, afinal, no sou seno, aqui,
Num navio qualquer um passageiro.

No tenho personalidade alguma.
 mais notado que eu sse criado
De brdo que tem um belo modo alado
De _laird_ escossez ha dias em jejum.

No posso estar em parte alguma. A minha
Patria  onde no estou. Sou doente e fraco.
O comissrio de brdo  velhaco.
Viu-me co'a sueca... e o resto le adivinha.

Um dia fao escndalo c a brdo,
S para dar que falar de mim aos mais.
No posso com a vida, e acho fatais
As iras com que s vezes me debrdo.

Levo o dia a fumar, a beber coisas,
Drogas americanas que entontecem,
E eu j to bbado sem nada! Dssem
Melhor crebro aos meus nervos como rosas.

Escrevo estas linhas. Parece impossivel
Que mesmo ao ter talento eu mal o sinta!
O facto  que esta vida  uma quinta
Onde se aborrece uma alma sensivel.

Os inglses so feitos pra existir.
No ha gente como esta pra estar feita
Com a Tranquilidade. A gente deita
Um vintm e sai um dles a sorrir.

Perteno a um genero de portuguses
Que depois de estar a India descoberta
Ficaram sem trabalho. A morte  certa.
Tenho pensado nisto muitas vzes.

Leve o diabo a vida e a gente t-la!
Nem leio o livro  minha cabeceira.
Enoja-me o Oriente.  uma esteira
Que a gente enrla e deixa de ser bla.

Caio no pio por fora. L querer
Que eu leve a limpo uma vida destas
No se pode exigr. Almas honestas
Com horas pra dormir e pra comer,

Que um raio as parta! E isto afinal  inveja.
Porque estes nrvos so a minha morte.
No haver um navio que me transporte
Para onde eu nada queira que o no vja!

Ora! Eu cansava-me do mesmo modo.
Qu'ria outro pio mais forte pra ir de ali
Para sonhos que dessem cabo de mim
E pregassem comigo nalgum ldo.

Febre! Se isto que tenho no  febre,
No sei como  que se tem febre e sente.
O facto essencial  que estou doente.
Est corrida, amigos, esta lebre.

Veio a noite. Tocou j a primeira
Corneta, pra vestir para o jantar.
Vida social por cima! Isso! E marchar
At que a gente saia pla coleira!

Porque isto acaba mal e ha-de haver
(Ol!) sangue e um revlver l pr fim
Deste desassossego que ha em mim
E no ha forma de se resolver.

E quem me olhar, ha-de me achar banal,
A mim e  minha vida... Ora! um rapaz...
O meu proprio monculo me faz
Pertencer a um tipo universal.

Ah quanta alma haver, que ande metida
Assim como eu na Linha, e como eu mstica!
Quantos sob a casaca carateristica
No tero como eu o horrr  vida?

Se ao menos eu por fra fsse to
Interessante como sou por dentro!
Vou no Maelstrom, cada vs mais pr centro.
No fazer nada  a minha perdio.

Um inutil. Mas  to justo s-lo!
Pudesse a gente despresar os outros
E, ainda que co'os cotovlos rtos,
Ser heroi, doido, amaldioado ou blo!

Tenho vontade de levar as mos
 bca e morder nlas fundo e a mal.
Era uma ocupao original
E distraa os outros, os tais sos.

O absurdo como uma flr da tal India
Que no vim encontrar na India, nasce
No meu crebro farto de cansar-se.
A minha vida mude-a Deus ou finde-a...

Deixe-me estar aqui, nesta cadeira,
At virem meter-me no caixo.
Nasci pra mandarim de condio,
Mas faltam-me o sossego, o ch e a esteira.

Ah que bom que era ir daqui de cada
Pr cova por um alapo de estouro!
A vida sabe-me a tabaco louro.
Nunca fiz mais do que fumar a vida.

E afinal o que quero  f,  calma,
E no ter estas sensaes confusas.
Deus que acabe com isto! Abra as eclusas--
E basta de comedias na minh'alma!


_1914, Maro._

_No canal de Sus, a bordo._




_ODE TRIUNFAL_


 dolorosa luz das grandes lmpadas elctricas da fbrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fra para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

 rodas,  engrenagens, _r-r-r-r-r-r-r_ eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fria!
Em fria fra e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fra,
Por todas as papilas fra de tudo com que eu sinto!
Tenho os lbios scos,  grandes rudos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a caba de vos querer cantar com um excesso
De expresso de todas as minhas sensaes,
Com um excesso contemporneo de vs,  mquinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Naturesa tropical--
Grandes trpicos humanos de ferro e fgo e fra--
Canto, e canto o presente, e tambem o passado e o futuro,
Porque o presente  todo o passado e todo o futuro
E ha Plato e Vergilio dentro das mquinas e das luzes elctricas
S porque houve outrra e fram humanos Vergilio e Plato,
E pedaos do Alexandre Magno do sculo talvez cincoenta,
tomos que ho de ir ter febre para o crebro do squilo do sculo cem,
Andam por estas correias de transmisso e por estes mbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um excesso de carcias ao corpo numa s carcia  alma.

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma mquina!
Poder ir na vida triunfante como um automvel ltimo-modlo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de lios e calores e carves
Desta flora estupenda, negra, artificial e insacivel!

Fraternidade com todas as dinmicas!
Promscua fria de ser parte-agente
Do rodar frreo e cosmopolita
Dos comboios estrnuos,
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
Do giro lbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fbricas,
E do quase-silncio ciciante e montono das correias de transmisso!

Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazres teis!
Grandes cidades paradas nos cafs,
Nos cafs--osis de inutilidades rudosas
Onde se cristalisam e se precipitam
Os rumores e os gestos do til
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas s docas,
Ou a sco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos!
Actividade internacional, transatlantica, _Canadian-Pacific_!
Luzes e febrs prdas de tempo nos bares, nos hoteis,
Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots,
E Piccadillies e Avenues de l'Opra que entram
Pela minh'alma dentro!

H-la as ruas, h-l as praas, h-l-h _la foule_!
Tudo o que passa, tudo o que pra s montras!
Comerciantes; vadios; escrocs exageradamente bem-vestidos;
Membros evidentes de clubs aristocrticos;
Esqulidas figuras dbias; chefes de famlia vagamente felizes
E paternais at na corrente de oiro que atravessa o colte
De algibeira a algibeira!
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!
Presena demasiadamente acentuada das cocottes;
Banalidade interessante (e quem sabe o qu por dentro?)
Das burguezinhas, me e filha geralmente,
Que andam na rua com um fim qualquer;
A graa feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos;
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra
E afinal tem alma l dentro!

(Ah, como eu desejaria ser o _souteneur_ disto tudo!)

A maravilhosa belesa das corrupes polticas,
Deliciosos escndalos financeiros e diplomticos,
Agresses polticas nas ruas,
E de vez em quando o comta dum regicdio
Que ilumina de Prodgio e Fanfarra os cus
Usuais e lcidos da Civilisao quotidiana!

Notcias desmentidas dos jornais,
Artigos polticos insinceramente sinceros,
Notcias _passez -la-caisse_, grandes crimes--
Duas colunas dles passando para a segunda pgina!
O cheiro frsco a tinta de tipografia!
Os cartazes postos ha pouco, molhados!
_Vients-de-paratre_ amarelos com uma cinta branca!
Como eu vos amo a todos, a todos, a todos,
Como eu vos amo de todas as maneiras,
Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto
E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!)
E com a inteligncia como uma antena que fazeis vibrar!
Ah, como todos os meus sentidos teem cio de vs!

Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura!
Qumica agrcola, e o comrcio quase uma scincia!
 mostrurios dos caixeiros-viajantes,
Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indstria,
Prolongamentos humanos das fbricas e dos calmos escritrios!

 fazendas nas montras!  manequins!  ltimos figurinos!
 artigos inteis que toda a gente quer comprar!
Ol grandes armazens com vrias seces!
Ol anncios elctricos que veem e esto e desaparecem!
Ol tudo com que hoje se constroi, com que hoje se  diferente de ontem!
Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!
Progressos dos armamentos gloriosamente mortferos!
Couraas, canhes, metralhadoras, submarinos, aroplanos!

Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.
Amo-vos carnivoramente,
Pervertidamente e enroscando a minha vista
Em vs,  coisas grandes, banais, teis, inteis,
 coisas todas modernas,
 minhas contemporneas, forma actual e prxima
Do sistema imediato do Universo!
Nova Revelao metlica e dinmica de Deus!

 fbricas,  laboratrios,  _music-halls_,  Luna-Parks,
 couraados,  pontes,  docas flutuantes--
Na minha mente turbulenta e encandescida
Posso-vos como a uma mulher bela,
Completamente vos possuo como a uma mulher bela que no se ama,
Que se encontra casualmente e se acha interessantssima.

Eh-l-h fachadas das grandes lojas!
Eh-l-h elevadores dos grandes edifcios!
Eh-l-h recomposies ministeriais!
Parlamentos, polticas, relatores de oramentos,
Oramentos falsificados!
(Um oramento  to natural como uma rvore
E um parlamento to belo como uma borboleta).

Eh l o interesse por tudo na vida,
Porque tudo  a vida, desde os brilhantes nas montras
At  noite ponte misteriosa entre os astros
E o mar antigo e solene, lavando as costas
E sendo misericordiosamente o mesmo
Que era quando Plato era realmente Plato
Na sua presena real e na sua carne com a alma dentro,
E falava com Aristteles, que havia de no ser discpulo dle.

Eu podia morrer triturado por um motor
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuda.
Atirem-me para dentro das fornalhas!
Metam-me debaixo dos comboios!
Espanquem-me a bordo de navios!
Masquismo atravs de maquinismos!
Sadismo de no sei qu moderno e eu e barulho!

Up-l h jockey que ganhaste o Derby,
Morder entre dentes o teu _cap_ de duas cres!

(Ser to alto que no pudesse entrar por nenhuma porta!
Ah, olhar  em mim uma perverso sexual!)

Eh-l, eh-l, eh-l, catedrais!
Deixai-me partir a caba de encontro s vossas esquinas,
E ser levantado da rua cheio de sangue
Sem ninguem saber quem eu sou!

 tramways, funiculares, metropolitanos,
Roai-vos por mim at ao espasmo!
Hilla! hilla! hilla-h!
Dai-me gargalhadas em plena cara,
 automveis apinhados de pndegos e de putas,
 multides quotidianas nem alegres nem tristes das ruas,
Rio multicolr annimo e onde eu no me posso banhar como quereria!
Ah, que vidas complexas, que coisas l pelas casas de tudo isto!
Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,
As dissenses domsticas, os deboches que no se suspeitam,
Os pensamentos que cada um tem a ss comsigo no seu quarto
E os gestos que faz quando ninguem o pode ver!
No saber tudo isto  ignorar tudo,  raiva,
 raiva que como uma febre e um cio e uma fome
Me pe a magro o rsto e me agita s vezes as mos
Em crispaes absurdas em pleno meio das turbas
Nas ruas cheias de encontres!

Ah, e a gente ordinria e suja, que parece sempre a mesma,
Que emprega palavres como palavras usuais,
Cujos filhos roubam s portas das mercearias
E cujas filhas aos oito anos--e eu acho isto belo e amo-o!--
Masturbam homens de aspecto decente nos vos de escada.
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa
Por vielas quase irreais de estreitesa e podrido.
Maravilhosa gente humana que vive como os ces,
Que est abaixo de todos os sistemas morais,
Para quem nenhuma religio foi feita,
Nenhuma arte criada,
Nenhuma poltica destinada para les!
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
Nem imorais de to baixos que sois, nem bons nem maus,
Inatingveis por todos os progressos,
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!

(Na nora do quintal da minha casa
O burro anda  roda, anda  roda,
 o mistrio do mundo  do tamnho disto.
Limpa o suor com o brao, trabalhador descontente.
A luz do sol abafa o silncio das esferas
E havemos todos de morrer,
 pinheirais sombrios ao crepsculo,
Pinheirais onde a minha infncia era outra coisa
Do que eu sou hoje...)

Mas, ah outra vez a raiva mecnica constante!
Outra vez a obsesso movimentada dos mnibus.
E outra vez a fria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios
De todas as partes do mundo,
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,
Que a estas horas esto levantando ferro ou afastando-se das docas.
 ferro,  ao,  alumnio,  chapas de ferro ondulado!
 cais,  portos,  comboios,  guindastes,  rebocadores!

Eh-l grandes desastres de comboios!
Eh-l desabamentos de galerias de minas!
Eh-l naufrgios deliciosos dos grandes transatlnticos!
Eh-l-h revolues aqui, ali, acol,
Alteraes de constituies, guerras, tratados, invases,
Rudo, injustias, violncias, e talvs para breve o fim,
A grande invaso dos brbaros amarelos pela Europa,
E outro Sol no novo Horizonte!

Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao flgido e rubro rudo contemporneo,
Ao rudo cruel e delicioso da civilizao de hoje?
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
O Momento de tronco n e quente como um fogueiro,
O momento estridentemente rudoso e mecnico,
O Momento dinmico passagem de todas as bacantes
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.

Eia comboios, eia pontes, eia hoteis  hora do jantar,
Eia aparelhos de todas as espcies, frreos, brutos, mnimos,
Instrumentos de preciso, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos, brocas, mquinas rotativas!
Eia! eia! eia!
Eia electricidade, nervos doentes da Matria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metlica do Inconsciente!
Eia tneis, eia canais, Panam, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro j dentro de ns! eia!
Eia! eia! eia!
Frutos de ferro e til da rvore-fbrica cosmopolita!
Eia! eia! eia! eia-h--!
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.
Engatam-me em todos os comboios.
Iam-me em todos os cais.
Giro dentro das hlices de todos os navios.
Eia! eia-h! eia!
Eia! sou o calor-mecnico e a eletricidade!

Eia! e os _rails_ e as casas de mquinas e a Europa!
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, mquinas a trabalhar, eia!

Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-l!

Hup-l, hup-l, hup-l-h, hup-l!
H-h! H-h! Ho-o-o-o-o!
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!

Ah no ser eu toda a gente e toda a parte!


_Londres, 1914--Junho._


ALVARO DE CAMPOS.


Dum livro chamado _Arco de Triunfo_, a publicar.





End of the Project Gutenberg EBook of Orpheu N1, by 
Lus de Montalvor and Mrio de S-Carneiro and Ronald de Carvalho and Fernando Antnio Nogueira Pessoa and Jos Sobral de Almada Negreiros

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both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

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effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
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or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


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editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


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