The Project Gutenberg EBook of A Morte Vence, by Joo Jos Grave

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org


Title: A Morte Vence

Author: Joo Jos Grave

Release Date: December 3, 2007 [EBook #23687]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MORTE VENCE ***




Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online
Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net






     *Nota de editor:* Devido  quantidade de erros tipogrficos
     existentes neste texto, foram tomadas vrias decises quanto 
     verso final. Em caso de dvida, a grafia foi mantida de acordo com
     o original. No final deste livro encontrar a lista de erros
     corrigidos.

     Rita Farinha (Dez. 2007)




Obras de JOO GRAVE


Os Famintos
A Eterna Mentira
O ltimo Fauno
O Passado
Gente Pobre
Jornada romntica
Reflorir
Reinado trgico
A Inimiga
O Mutilado
A Morte Vence
Vitria de Parsifal
Paixo e morte da Infanta
Os Sacrificados
Os que amam e os que sofrem
Cruel Amor
Fogueiras de Santo Antnio
Vida do Esprto (pensamentos).

_No prlo_:

Almas nquietas.




JOO GRAVE

DA ACADEMIA DAS SCINCIAS DE LISBOA


A MORTE VENCE

_ROMANCE_


     _S leal a ti mesmo_...
     SHAKESPEARE.


SEGUNDA EDIO, EMENDADA


PORTO
Livraria Chardron, de Llo & Irmo, L.^{da}
editores--Rua das Carmelitas, 144
Aillaud e Bertrand--Lisboa-Paris

1922





A MORTE VENCE




I


A criana dormia tranqilamente, deitada no seu pequenino bero vaporoso
de rendas e resplandecendo de brancura, por sse glorioso meio-dia de
calor e de luz, no grande e benfico silncio que envolvia a vivenda
feliz. A sua carne viriginal e transparente, ainda mal formada, parecia
exalar claridade e tinha a colorao suave de certas rosas plidas e
orvalhadas. A cabeleira anelada e loura espalhava-se, como uma ligeira
nuvem de ouro, na alvura da almofada, macia e ffa, que servia de
travesseiro; e sbre essa fronte anglica no profanada por impuros,
venenosos pensamentos, baixava um halo de inocncia luminosa e de graa
imaterial.

Havia no quarto uma penumbra sedosa e frouxa que refrescava o ambiente
inefvel e que tornava mais imprecisas, mais vagas, as linhas e as
formas do mobilirio. Na pacificao deleitosa tudo repousava docemente.
Em cima do mrmore do toucador, em frente dum largo esplho em que se
reflectiam imagens baas e indecisas, floriam perfumados ramos de cravos
brancos em jarras de cristal cheias de gua lmpida; e da parede alta
pendia, como a proteco celeste da infncia adormecida, uma cpia a
leo da Virgem, de Murillo, que, entre anjos alados, extasiava os puros
olhos nos fulgores siderais. C fra, o sol--um ardente sol de
junho--rutilava e ardia na atmosfera pesada e abafadia.

Brandamente, na ponta dos ps para no fazer barulho, Jlia entrou no
compartimento solitrio, aproximou-se do casto leito do filho, que tinha
apenas meses de vida, contemplando-o com enlvo e ternura. Ela contava
ento vinte e quatro anos, estava em pleno esplendor da sua beleza e do
seu encanto de mulher, a alegria reflectia-se-lhe no rosto e a ventura
iluminava-se-lhe na alma. Duma elegncia natural e sbria, vestia um
amplo roupo de cassa creme apertado na cinta por laos de veludo preto.
O curto decote deixava a descoberto a pele do colo que era setinosa,
dourada e sem o mais ligeiro vinco. Um pente de tartaruga com embutidos
de ouro segurava a massa dos seus cabelos castanhos enrolados no alto da
nuca. Os seios direitos e rijos formavam uma delicada curva sob os
tecidos flexveis, ao arfarem. Dois anos antes, em Vizela, apaixonara-se
sriamente por Nuno Arago, para quem fra levada por um forte impulso
de sentimento; e com le casara ao fim dum romntino idlio em que os
seus sonhos de felicidade deram flor. Essa unio ntima que a fizera
espsa e me e a que se devotou com um admirvel esprito de abnegao,
completou-a. Os dias do seu noivado tam doce fugiram de leve sem que
dles ficassem resduos de tdio...

Absorvida na viso do frgil sr que lhe trouxera, com a sua pureza e a
sua formosura, uma revelao  inteligncia e  subtileza emotiva, Jlia
ajoelhou junto do bero, compondo a roupa  volta da cabecinha ideal,
que a virgindade aureolava, com dedos mais geis do que asas--e nem
sequer notava a presena de Nuno que a seguira de perto e que, por
detrs dela, sorria comovido. Houve um momento em que Jlia se curvou
sbre a face gorda e picada de cvinhas do filho, roando-a com os
lbios.

--Cautela, no vs acord-lo!--murmurou o marido em voz de segrdo.

Ela voltou a cabea, sorridente: e, fitando-o com uma emoo que o olhar
traa, interrogou:

--Estavas a?

--Quis acompanhar-te na tua amorvel visita--respondeu.

--Olha, vem c!...-- pediu Jlia. No  verdade que  lindo?

Nuno aninhou-se tam perto dela que lhe sentia o sussurro brando da
respirao, passou-lhe um brao  volta do pescoo, puxou-a tda para o
peito e ambos se embeberam na adorao da criana que continuava
dormindo com a gracilidade e a poesia dum boto de rosa, fazendo um
pequeno volume sob as ls quentes e as cambraias tnues.

--No  lindo?--insistiu Jlia. Fala!...

--Como no havia de ser lindo, se veio de ti, da tua purificao, do teu
amor!...

--Do nosso amor!--emendou ela, com palavras de mimo e de queixume,
beijando-o demoradamente na bca.

--Do nosso amor, dizes bem!--confirmou Nuno, enleado.

--E  curioso como j na sua carinha se desenham as tuas feies. V...
O nariz, a testa, o queixo...

--So os teus...

--No! So os teus!--atalhou Jlia, indicando com o dedo os traos
fisionmicos do filho. Ora observa com ateno...

--No lhe toques, que podes mago-lo, coitadinho!--exclamou le. A sua
carninha  tam tenra, que at tenho mdo de amolg-la, quando a beijo.

--Que tolice!...--exclamou Jlia, rindo.

Por um instante, as cabeas de ambos, unidas, fizeram um docel animado
sbre o bero inocente que agasalhava, embalava, um destino misterioso
para o qual aspiravam tda a grandeza, todo o gnio, tda a bondade,
todos os favores generosos da sorte enigmtica, nessa hora bemdita e
proftica em que os seus coraes palpitavam com o mesmo ritmo e a mesma
nsia, as suas vontades se fundiam numa s vontade e as suas ambies se
irmanavam. Depois, com os olhos humedecidos de lgrimas de gzo
interior, ergueram-se, sempre estreitados num apertado abrao,
fitaram-se com enternecimento, emmudecidos, penetrados por idntico
jbilo, com a imaginao perdida no encanto das mesmas idealizaes.

--Abenoada sejas!--disse Nuno.

--E tu tambm, por esta paz, esta certeza, esta confiana, esta ba
fortuna que comunicaste  minha vida--atalhou Jlia com convico,
afagando-o no rosto.

Saram do quarto, mirando ainda o filho--que fra como que a visitao
duma divindade propcia  adorao que nunca deixara de aproxim-los
mais desde o instante admirvel em que pela primeira vez se conheceram e
que, entre os ternos cuidados dos dois, cresceria, se faria homem,
prolongaria as suas existncias, iria para as ras vindouras, cantando
um hino de esperana. le representava a expresso definitiva e tangvel
do amor que os identificara, do desejo puro que os fizera vibrar e que
alvoroara a sua carne, da simpatia fsica que os juntou. Nas suas veias
corria um sangue que era de ambos; no seu corpo latejava uma carne que
lhes pertencia; e, mais tarde, quando fsse grande, teria a mesma f, as
mesmas crenas, as mesmas ideias, as mesmas piedades, as mesmas finuras
de sentir, a mesma nobreza de aspiraes.

--Estou hoje tam contente!--afirmou Jlia j na sala, dispondo um
_bibelot_ sbre a mesa do centro, coberta com um largo pano pintado,
enquanto Nuno acendia um charuto. E ste contentamento vem-me de ti, da
tua fidelidade, da tua delicadeza, e vem tambm do nosso filho. A luz e
a ventura que esta criancinha veio trazer  nossa casa, Nuno! Pois no 
assim?

--, querida!

--Parece um milagre! s vezes, nem quero acreditar!...

--Um milagre que merecamos.

--Antes dle nascer, tudo em mim eram sustos, receios, hesitaes. Em
certos momentos, tinha dvidas que me faziam chorar!...

--Dvidas?

--Sim, dvidas! Que queres? Aterrava-me o pensamento da morte, do
abandno em que ficavas... No era de ti que eu duvidava, isso no; mas
no sei que tristeza me pungia, ennegrecendo, obscurecendo o meu
crebro... Agora, porm, tudo se apaziguou, serenaram as inquietaes,
tranqilizaram-se os sobressaltos...

Foi para o marido, que a esperava no meio da sala, com um sorriso de
fadiga que a tornava mais graciosa e mais bela, as plpebras meio
cerradas, os braos cados e sem aco, e, encostando-se-lhe ao ombro
forte, acrescentou:

--E sempre te direi que o nosso filho me inspira uma venerao maior por
ti e me fez melhor, mais compadecida por todo o infortnio, por tda a
humana desgraa, por todo o vasto sofrimento.

--Se tu s uma santa!--disse Nuno, abraando-a novamente e com uma
comoo imperceptvel na voz.

--No! Sou apenas mulher e me. E  por isso que me lembro
constantemente da desdita das outras mulheres e das outras mes. Ainda
ontem, por exemplo, no pude reter o pranto--oh! um pranto que me
desoprimiu!--ao ver brincar na quinta os filhos do caseiro, descalos e
tam rotinhos, com as faces chupadas e macilentas e uma funda melancolia
no olhar... Antigamente, stes espectculos lamentveis passavam-me
despercebidos, Nuno...

--O mundo est cheio de desigualdades, com efeito.

--Mas  doloroso que haja fome ao lado da nossa abundncia!...

--H de fazer-se alguma coisa, sossega...

--Porque a verdade  que o nosso filho, se fssemos pobres, andaria por
a tambm faminto e n como os outros, os que nada teem!...  le que me
pede pelos deserdados...

--No digas isso!--acudiu Nuno, de repente, muito perturbado... O nosso
filho esfomeado e rto!... Bem sei que no pretendes acusar-me de
injustias que no pratiquei... Eu mal conhecia esta quinta e a gente
que a habita; ainda hoje no conheo o caseiro e ignoro as suas
misrias. Antes do nosso casamento, s uma vez vim aqui, porque a
existncia tumultuosa das cidades solicitava-me, reclamava-me e
aturdia-me. H uma semana apenas que nos encontrmos neste sitio e
nestas terras, que so nossas. No tive tempo para familiarizar-me com a
sua populao, para tudo saber minuciosamente...

--Oh! meu amor, quantas palavras inteis!

--No!...  que me fizeste vislumbrar, de repente, possveis castigos,
terrveis calamidades, abatendo-se sbre criaturas sem culpa!...

--Eu no queria...--atalhou Jlia, perturbada.

--Certamente, certamente!--disse Nuno, beijando-a na fronte e nos olhos.
 escusado defenderes-te... Mas  que as palavras das mulheres que amam
como tu amas e que no seu amor abrangem tda a vida consciente, teem uma
profundidade, uma vastido e uma inflexo que conturba... De resto, tu
s foste justa:--e esta noo exacta da justia significa a
superioridade das almas femininas sbre os homens, duros, scos,
implacveis. Com efeito, para sermos absolutamente felizes,  necessrio
que  nossa volta s haja felicidade...

--Ento, bem vs!...

--Pois est claro, querida... Obrigado pela tua lio tam digna e tam
eloqente. A tua elevao moral sublima o que em mim ainda existe de
grosseiro e de egoista. Sem o teu aviso, continuaria a haver, perto de
ns, privaes e amarguras. Eu nada via; tu, com a subtileza dum amor
materno incomparvel, viste tudo, num relance. Ensina-me sempre. No sou
mau, com certeza, mas incompleto: felizmente, tu completas-me e por isso
a minha gratido subir perptuamente para ti como o perdo dos crentes
sbe para o cu...

Tinham-se sentado num amplo sof de molas flcidas que, a um canto,
convidava ao repouso. O sol vivo que se filtrava pela vidraa da janela
respirando para o jardim, batia, j atenuado pelo _store_ de linho cru e
pelo tule dos cortinados, sbre as rosas que morram nos solitrios,
falhava sbre os mveis, dourava fugidiamente o papel verde que forrava
as paredes. De longe chegava o som duma nora rangendo no meio dum imenso
campo de milho e produzindo um rudo especial e ritmado de tear. Jlia,
encolhida perto de Nuno, com as mos esquecidas no regao, tornava-se
mais pequenina, mais humilde, como se temesse pesar demasiadamente sbre
aquele amor que pressentia isento de tda a mcula, perfeito de
dedicao e de constncia--um amor que era a razo do seu sr e o seu
maior orgulho. As expresses carinhosas de Nuno faziam-na crar,
causavam-lhe uma sensao de inexprimvel bem-estar e de pacificao
interior. No seu sobressalto, nem sabia que responder, no encontrava os
termos precisos com que manifestar a sua gratido.

--Que maravilhosa manh eu passei hoje na tua companhia, minha
preguiosa!--exclamou Nuno, quebrando a monotonia dum silncio que se ia
prolongando.

--Estou tam cansada!--afirmou Jlia, pousando-lhe a cabea no ombro. E
olha que no tenho feito nada.

--Anunciar sse cansao alguma doena?

--No, que ideia! Nunca me senti com tanta sade. stes ares campestres
teem-me feito muito bem. Por mim, no saria mais daqui!

--Ento, encontramo-nos na mesma ambio, o que no me surpreende,
porque j nos havamos encontrado no mesmo sentimento.

--Pois queres, na verdade?...--perguntou ela, fitando-o com infinita
meiguice. Que prazer me ds com isso!...

Arrependendo-se, porm, dum contentamento que no soubera esconder e que
lhe parecia impuro, atalhou prontamente:

--No, no!... Que loucura! Na cidade, tens os teus amigos, os teus
passatempos, as tuas conversas, as tuas distraces. Aqui no h nada
disso. Terminarias por aborrecer-te, por enfadar-te...

-- necessrio que saibas que no h coisa que me cative, longe de ti,
fra do nosso lar, para alm do bero do nosso filho. Nem sequer tenho
pensamentos que no sejam os teus.

Jlia, no entanto, teimava na certeza de que a permanncia constante na
quinta seria o sacrifcio de Nuno, segura de que se no pode romper sem
violncia com hbitos contrados e fundamente enrazados: e, para que a
sua teimosia encontrasse vibrao no marido, asseverava:

--Eu mesma viria a sofrer neste rmo, mais tarde. Enquanto durar o
vero, isto ser, realmente, bonito. H luz, h horizonte, podemos dar
largos passeios, admirar tda essa paisagem deliciosa, sentir tda a
poesia rural... Mas depois, quando aparecer o inverno, com os seus dias
e as suas noites de chuva, a sua desolao, os seus frios, as suas
tempestades, a cidade, que  o movimento, a variedade, a sociabilidade,
voltaria a apetecer-nos...

Falando assim, Jlia estava intimamente convencida de que defendia a
continuidade da adorao de Nuno, a sua felicidade permanente, a
inaltervel placidez de relaes conjugais que um mal entendido seria
capaz de comprometer irremedivelmente. A ternura que sentia pelo marido
e que se lhe apoderara do sangue, da substncia nervosa, de todo o seu
organismo psquico e material, afinava-lhe a inteligncia, tornava mais
arguta a sua capacidade de analisar e de compreender. No aspirava,
nicamente, ao amor de Nuno, mas tambm  sua gratido e ao seu
respeito. Residir para sempre na quinta, distante dum bulcio que a
desgostava e de episdios sociais que a no interessavam, sera o seu
supremo desejo--um desejo a que Nuno acederia alegremente: mas
considerava que o isolamento, a ausncia de convivncias e de amizades,
a falta de ocupaes recreativas, viriam fatalmente a deprimir e
entristecer aquele homem que era o mais fiel dos homens e que, para a
amar mais puramente e mais intensamente, renunciara a tudo o que fsse
estranho  sua paixo.

--Ah! se  por isso!...--disse Nuno. Na verdade, no te habituarias a
ste deserto, minha filha... Eu sim, porque gosto da solido, porque as
multides fazem-me mal. Mas, o que eu no permito  que te
sacrifiques...

Uma criada entrou, trazendo o correio que acabava de chegar. Eram
jornais e cartas que Nuno comeou a abrir distradamente, enquanto Jlia
continuava a arrumar com mais ordem e mais elegncia as peas do
mobilirio, a deitar gua nas jarras das flores, a espanejar o p leve
que maculava o verniz das _tagres_.

--Tu no tens quem faa sse servio?--perguntou Nuno, parando um
momento de lr a sua correspondncia.

--Oh! filho! Deixa-me ocupar em alguma coisa... Depois,  uma sca. Por
mais que recomende e que ralhe, nunca me atendem, no fazem nenhum caso
do que digo. Isto de criadas...

--Procuram-se outras melhores.

--Ora! So tdas piores!...--exclamou Jlia, rindo.

--Mandam-se fabricar por um modlo que tu escolhers  tua vontade, com
molas vindas das oficinas de Londres, movendo-se por um sistema de
relojoaria... E tu vers ento como obedecem, como so atenciosas e
pacientes...--respondeu le, rindo tambm e reencetando a leitura
interrompida.

A vlha habitao, onde outrora tinham vivido os avs de Nuno, que eram
abastados proprietrios rurais, parecia cabecear de sono sob o dourado,
fascante banho do sol, sem que o menor rudo perturbasse a sua
sonolncia. Altas roseiras de trepar subiam pelas paredes cobrindo-as de
vermelhas e mudinhas rosas de toucar. No pombal, que ficava ao lado,
perto da capoeira, arrulhavam as pombas aos pares. Errava no ar um
dormente zumbido de moscas.

--E esta?--bradou Nuno, de sbito, pousando sbre uma cadeira a carta
que tinha entre as mos.

--Que ?--inquiriu Jlia, aproximando-se. Alguma novidade?

--Uma novidade estupenda. Nem tu calculas. Sabes quem vem a, fazer-nos
uma visita?

--No sei, no posso adivinhar...

--Pois devias, para seres absolutamente perfeita, dispor dsse dom...
Quem vem a visitar-nos  Frederico, aquele rapaz que foi meu camarada e
que  o meu, o nosso melhor amigo!...

--Tinha-lo convidado?... E no me dizias nada!...

--Escrevi-lhe, antes de partirmos para aqui, como me obrigava o meu
afecto. Ofereci-lhe, na nossa casa, uma enxrga e uma tigela de caldo, 
severa moda de Esparta... E le aceitou. Bom, excelente Frederico!...

--Quando chega le?

--Estar, entre ns, manh ao romper do dia. J almoa. D as tuas
ordens para que se arrange um quarto a ste vagabundo que tam
amvelmente se lembra do nosso exlio... Ser uma companhia.

De dentro, da alcova, veio um dbil vagido que deteve repentinamente a
conversa de Nuno e de Jlia.

--Sua ex.^a despertou e reclama, naturalmente, o _lunch_--disse le,
levantando-se. Onde est a ama?

--L em baixo, a brunir. Vai cham-la, enquanto eu entretenho a
criana--murmurou Jlia, dirigindo-se ao quarto.

Nuno pegou nos jornais e nas cartas apressadamente lidas e desceu ao
pavimento inferior, gritando pela ama do filho, que acudiu tda
afogueada do calor do ferro. Era uma rapariga na fra da vida,
sadavel, bem constituda, de fortes seios estalando de seiva sob o pano
do colete, braos gordos e estriados de rija musculatura.

--Corra l acima  senhora. O menino acordou agora mesmo.

Ela galgou logo as escadas gilmente, num rumor de saias engomadas,
exclamando jovialmente:

--A vou, meu amorsinho, a vou!...

Nuno, satisfeito com as suaves emoes daquela clara e plcida manh
familiar, sau para o jardim que,  roda da vivenda tranqila, rescendia
e refrigerava, com os seus canteiros coloridos onde desabrochavam os
cravos rajados e as derradeiras rosas do estio. Estava um tempo
maravilhoso. O cu luzente e translcido arqueava-se sbre a quinta como
um enorme plio de sda azul sem uma ruga. Os negrilhos, as tlias, os
amieiros e os pltanos deixavam car das suas espssas folhagens a
consolao afvel das sombras. Pelas ramagens que sussurravam  brisa
adejante, cantavam as aves. A cada passo, amplos bancos de cortia, que
as copas dos vetustos arvoredos amenizavam de fresquido, solicitavam ao
descanso e s sstas aprazveis. Nuno, passeando vagarosamente, ia
pensando que por ali se teriam sentado outrora, nas tardes de calor, as
senhoras da sua casa com os livros dos poetas esquecidos no regao,
sempre que de vero vinham procurar ao campo a sade e as bas cres que
a cidade lhes roubava. Aquele retiro estava cheio de recordaes, de
sadosas memrias dos antepassados. Sua me, que havia falecido dois
anos antes de le se casar com Jlia, passara no doce refgio--em que
agora se encontrava com a famlia que constituira e que era todo o seu
enlvo--a primeira infncia, saltando pelos arruamentos que o Jacinto
jardineiro trazia sempre bem areados, regados e varridos. Evocando
piedosamente a figura de mam, que fra tam gentil e que uma doena
cruel bem cedo arrebatara, Nuno concentrava-se, recolhia-se para com
mais intensidade sentir. Pobre, pobre me precocemente morta e que com
tanto fervor lhe queria! Revivia-a na imaginao, reconstituia-a com
nitidez. Parecia-se ainda um pouco com Jlia na bondade, na afabilidade,
nas maneiras, no timbre da voz, na candura e na meiguice materna.
Existiam nelas mesmo determinadas semelhanas exteriores que o
surpreendiam--nos olhos que, em ambas, eram negros, profundos e hmidos,
na finura das linhas plsticas, na brancura da pele, na nobreza da
expresso fisionmica que reflectia conjuntamente a paixo, a gravidade
e a graa. Sobretudo, quando observava o sorriso de Jlia--um sorriso em
que havia qualquer coisa de castidade infantil, de seriedade ponderada e
de ternura ingnua, Nuno assistia, deslumbrado, a uma verdadeira
ressurreio. E foi por isto, de-certo, que amou desvairadamente a
espsa desde a primeira noite em que a viu, no salo dum hotel de Vizela
onde se danava, e que ainda a amava e amaria sempre com o mesmo
transporte e a mesma firmeza. A me, que no fra feliz no
casamento--porque o marido desertava do lar conjugal para correr atrs
doutros amores, para atirar ouro aos punhados sbre as bancas do jgo,
para dissipar uma existncia que nunca encontrou sossgo seno na
sepultura--ressurgia na mulher admirvel que era a sua doce companheira
e que, com geito divino, devotando-se-lhe, lhe fizera a revelao da
felicidade!...

Continuando o passeio e embebendo-se em lembranas, que aviventava para
seu gzo espiritual, Nuno chegou, insensivelmente, a meio da
propriedade, que era de vastas dimenses. Para l do parque frondoso,
com uma rica decorao de troncos nodosos e recobertos de musgos
parasitrios, ficava o pomar que vergava de frutas pelos outonos
elegacos, quando as flhas amarelas caam como asas que cessassem de
bater: e mais abaixo, espraiavam-se as terras de cultura, as pastagens
para o gado, abundantemente regadas por guas espertas e vivas que
desciam, cantando, das bcas negras das minas, frias e saborosas: o
casebre dos caseiros pegado aos currais: a eira todo o dia batida de
sol. Ao fundo, um pinheiral cerrado de rama verde-negra, que dava a
lenha para o lume, fechava  vista a linha do horizonte. Das bandas do
norte, elevavam-se espinhaos de serranias escarpadas, correndo dum
extremo a outro e azulando-se, no crepsculo, com os nevoeiros que, como
um fumo ligeiro e branco, ascendiam das profundidades do vale, afogado
em vegetaes exuberantes. A quinta, situada nos arredores de Guimares,
pertencia j a Nuno ainda em vida dos pais. Legara-lha seu av materno,
aterrado certamente com as dissipaes do genro que fundia em orgias, em
viagens que no tinham fim, em ligaes ilicitas, o dote da mulher
legtima e que ameaava deixar na misria, aos acasos incertos do
destino, o filho nico. Ah! sse pai! Nuno no queria mal  sua memria,
que venerava, recordava-o com sadade e com mgoa, no invejava o
dinheiro que le espalhara estrilmente com mos perdulrias.
Desculpava-o. Era fogoso, irreflectido, embrenhava-se em aventuras
arriscadas, perseguindo uma iluso dos sentidos que jmais alcanou,
tinha um irnico desdm por tdas as convenes, caracterizava-se por
uma rebeldia de temperamento que nenhum conselho prudente e fecundo
conseguia apaziguar; o seu egosmo de _jouisseur_ no admitia restries
naquilo que julgava essencial ao seu gzo prprio; fra, talvez, um
doente, uma organizao enfrma expiando sucessivas acumulaes de
hereditariedade mrbida que vinham de longe, prolongando-se em geraes
taradas e denunciando um doloroso fim de raa. Obedecera passivamente,
por ausncia de vontade, aos secretos e vertiginosos impulsos do seu mal
interior--do mal que insacivelmente o roa, lhe debilitava o carcter,
o esgotava de energia para tdas as reaces nobilitantes...

O amor tornava Nuno generoso. S lamentava que sua me tanto tivesse
sofrido sem se queixar, transida, conformada com o infortnio,
agarrando-se ainda nervosamente ao seu verdugo como as heras se agarram
a uma rvore carcomida, negando-se com obstinao a separar-se dle e a
voltar para o lar paterno, onde seria recebida em festa e onde a sua
existncia atribulada encontraria suavidade e conslo--porque,
a-pesar-de tudo, continuava a am-lo com ansiedade, com loucura, com uma
constncia que nunca afrouxou. Pensando neste caso singular de devoo e
de sacrifcio, Nuno julgava que havia herdado da me as virtudes
afectivas, a rectido, a lealdade, a sensibilidade aguda--e
considerava-se feliz por isso...

Meteu-se resolutamente por um fechado milheiral, onde amadurecia ao sol
de Deus o po sagrado que daria alento e fartura s bcas famintas e
plidas. Largas flhas compridas como espadas roavam-lhe o rosto,
aoutavam-lhe as mos; as suas botas atolavam-se no terreno remexido de
fresco e humedecido das regas que levavam o alimento s razes; um
cheiro acre de seivas e de ervas esmagadas impregnava a aragem. Nuno
aspirava-o a fundos haustos, murmurando, regalado:

--Ah! isto vigoriza, tonifica!

Da banda do nascente, uma poeira de luz flutuava sbre os pncaros das
montanhas escalvadas que, por vezes, na sua imobilidade, tinham atitudes
quse humanas, sugerindo formas gigantescas e animadas, curvando-se
sbre a sombra, o vazio dos abismos. Enquanto caminhava e admirava ste
maravilhoso trecho de paisagem, Nuno ia recebendo uma lio de coisas
ignoradas. Com efeito, era aquela a primeira vez que visitava tam
minuciosamente a quinta, que fra a morada pacfica e venturosa dos seus
avs, da sua gente. S ali tinha vindo uma vez, de fugida, para conhecer
uma parte dos domnios territoriais de que era senhor, mas no passara
do jardim, onde por sinal havia colhido um cravo branco com que floriu a
lapela do seu casaco de casimira inglesa. Ao cabo duma curta hora, logo
abalou para o Prto, onde nascera e onde vivia, alarmado com tanta
solitude, penetrado de melancolia e de desalento, sem compreender como
certas criaturas podiam permanecer longe das cidades, do seu movimento,
das suas sedues, dos seus aliciantes espectculos. Nesse tempo, estava
ainda solteiro, completava na Academia Politcnica o curso de
engenharia, era revolucionrio como todos os seus camaradas, freqentava
com assiduidade as renies polticas em que se conspirava contra a
Monarquia, tinha rixas com a polcia e namorava as costureiras. Agora,
porm, via com olhos diferentes dos dessa poca, possua uma compreenso
mais lcida, tudo nle se havia modificado, existia na sua alma um
sentimento mais equilibrado e mais justo. A inquietao antiga apenas
servira para transmitir um grato sabor  paz actual: a reflexo e o
estudo tinham-lhe revelado o mundo e as sociedades por um outro aspecto.
Para le, as _urbs_ onde se agitam os densos formigueiros de seres
conscientes, gritando os seus desesperos e as suas cleras,
representavam a tentao corruptora, a deliqescncia, eram as sinistras
geradoras da dor e dos pessimismos modernos: e o campo, a aldeia,
constituam os reservatrios da vida salubre, os ltimos santurios da
crena religiosa e da felicidade onde os rprobos deviam retemperar-se
anualmente. Como a sua mocidade fra inconsiderada! Em compensao, como
os seus trinta e cinco anos eram sbios e estavam na verdade!... Ao
romper do milheiral em que se perdera, encontrou uma clareira buclica
de terra que andava a horta, onde cresciam e enconchavam as couves
tronchudas, verdejavam as tiras das alfaces e os talhes de feijoal
ondulavam ao vento brando. Um homem, em mangas de camisa, magro, esguio,
de rosto queimado pelos ardentes bafos das soalheiras, cavava, com uma
grande tristeza na face, em que se emmaranhava a barba crespa e negra, e
nos olhos que fulguravam. Nuno foi direito a le, sadando-o
amigvelmente. O cavador, tirando o chape esburacado e sujo, murmurou
com humildade:

--Salve-o Deus, meu senhor.

Durante um momento Nuno entregou-se  contemplao do pobre trabalhador,
de cara macilenta e mos calejadas e nodosas, em que os dedos deformados
lembravam negras razes. A camisa aberta no peito deixava a descoberto
uma pele macerada, repuxando sbre os ossos salientes: e uma grande
piedade comoveu Nuno por tanta misria.

--Vocemec--perguntou le-- que  o caseiro?

--Saiba vossa senhoria que sim. J l vai um ror de anos depois que para
aqui entrei, e tenho pago honradamente as rendas.

--Bem sei, bem sei! Eu sou o dono da quinta...

--Pois vossa senhoria  que  o netinho do snr. Vicente, que Deus haja?

--Sou eu mesmo...

--Oh! meu senhor! Desculpe, que eu no o conhecia.

--Mas, desculpar o que, bom homem?...

-- que eu nem sequer fui v-lo l acima, ao palcio... No podia
adivinhar... Tinha-me dito o snr. Jos, procurador, que vinham viver na
casa grande por algum tempo uns senhores, mas eu no contava... Sempre
uma assim! A gente anda c nas nossas apoquentaes, no tem vagar para
nada...

E imediatamente, vergado ao hbito da obedincia, submetido ao jugo da
escravido que sempre, no decurso duma vida trabalhosa e amarga, o
coagia a rojar-se, a fazer-se mais pequeno diante dos poderosos,
atirando a enxada para a leiva revolvida, aproximou-se de Nuno, baixando
a cabea descoberta como para receber o justo castigo duma grande falta.

--O senhor perde... Eu no sabia...

--Homem, j lhe disse!... No tenho que perdoar. Est claro que a sua
visita era-me agradvel:--mas como amigo e no como dependente.  boa...
Ponha o chapu.

--Como amigo, como amigo!...--mastigou o caseiro, com a lngua
embrulhada na bca e os olhos rasos de gua, conservando o chapu nas
mos.

--Como amigo, certamente... E ponha o chapu. Agora, mando eu. Ponha o
chapu, avie-se.

--Isso  que no... O respeito no fica mal a ningum.  um dever...

-Se no pe o chapu, zango-me e vou-me embora...

--Ora essa!... Pois!...

--Afirmo-lho! Ou faz o que lhe peo ou retiro-me...

--Ento, com sua licena, fidalgo...

--E vamos conversar  ba paz... Est contente com os terrenos que traz
arrendados?

--Eu no me queixo... Vo dando para viver, com a ninhada dos filhos e a
mulher entrevada, melhor ou pior, como Deus  servido.

--Pois, no tira lucros?

--Umas vezes pelas outras tiro, sim, senhor, que a terra anda bem
tratada. No lhe roubo ao sustento preciso... Mas l vem um ano mau em
que parte das colheitas se perde, l morre um boi, e vo-se as economias
escassas, para uma pessoa no ficar envergonhada... Adeus, minhas
encomendas! Percam-se os aneis, mas conservam-se os dedos, como o outro
que diz...

--Ah! eu julgava que a lavoura era remuneradora.

--A terra  quse sempre ingrata para os que dela vivem, senhor... Alm
disso, para recolher  necessrio semear e o dinheiro no me sobra...
Mas isto no  chorar-me. No quero aborrec-lo. Vive-se com o muito e
vive-se tambm com o pouquinho...

--E a mulher entrevada, disse?

-- verdade, coitada! Fiquei dum dia para o outro sem o brao que me
ajudava, e ando consumido, c por dentro, de v-la sofrer. Depois que
teve o ltimo filho, nunca mais se ergueu...

--Infeliz!... E os mdicos?!...

--Os mdicos... So muito caros. Veio a um algumas vezes, para me dizer
que o mal no era de morte mas que no tinha cura!... E o que mais me
custa, meu senhor,  que a pobre de Cristo est sempre a pensar na
labuta, na canseira do trabalho, e quando vou para comer a migalha,
costuma dizer:--Oh! meu homem, que te matas... Oh! criatura que no
tens um momento de descanso e eu para aqui a curtir a minha doena, sem
poder auxiliar-te... Que Deus me leve!... Enfim, corta o corao,
coitadinha... E foi sempre tam minha amiga, Senhor do cu! Estamos
casados h anos e damo-nos como Deus com os anjos...

Enquanto falava, o cavador limpava as lgrimas, que lhe corriam em fio
dos olhos, s costas da mo negra e cheia de terra. Nuno, condodo,
desviara a vista.

--Quantos filhos tem?

- Em casa tenho seis. Quatro, trs raparigas e um rapaz, j casaram.

--So grandes, os que vivem consigo?

--Dois l me vo ajudando a levar a cruz ao Calvrio. Os outros so
pequeninos... Teem a fatia do po, mas falta-lhes a me para olhar por
les...

--Pois, est bem! Creio que a renda anda um pouco elevada... Hei de
falar com o meu procurador... E oua...

--Oh! meu fidalgo, eu no pedi que me baixasse a renda...--acudiu o
caseiro, de fronte erguida por uns restos dsse orgulho que existe
tambm no corao dos desgraados.

--E oua--continuou Nuno--disse h pouco que, se tivesse dinheiro, faria
com que a terra produzisse mais. Ter sse dinheiro. Sou eu que lho
empresto... Nada de agradecimentos. Pagar-mo h quando o tiver... Quanto
 entrevada,  preciso tratar dela. Minha mulher h de ir v-la--porque
as mulheres entendem-se umas s outras. E adeus!--concluiu,
estendendo-lhe a mo.

O caseiro olhou com espanto a mo aberta, franca e leal de Nuno, cravou
depois no rosto do seu senhorio os olhos atnitos e fulgurantes como
carves acesos, muito enleado, sem nada compreender, sem fazer um
movimento, sem murmurar uma palavra.

--Adeus, bom homem!--insistiu Nuno. No se acanhe. Tenho apertado a mo
a criaturas muito menos dignas do que vocemec !

Ento, o caseiro, entalado de soluos, rendido de admirao diante de
tanta grandeza de alma, apoderou-se daquela mo purificada que se
baixava bondosamente para levantar os que sofriam e que eram humildes,
gaguejando, com a voz entaramelada:

--Ah! meu amo, que isto  o fim do mundo! Um fidalgo como vossa senhoria
a tratar assim um ningum como eu!... Bemdito seja o Senhor, que ainda
h tanta gente ba!

E, na sua exaltada gratido, queria beijar a mo que Nuno lhe dava.

--No, isso no! H maneiras de reconhecimento que se no aceitam,
porque melindram quem as pratica e quem as recebe...

--Deixe-me, meu senhor!... Ainda h pouco disse: meu amigo! Um
lagalh, como eu, amigo de vossa senhoria!...

Nuno, por fim, desembaraando-se do cavador, despediu-se e afastou-se
dle, enternecido e murmurando entre dentes:

--Creio que realizei hoje a melhor aco de tda a minha vida... E devo
a sua inspirao a Jlia... Que horror! Tanta misria, mulher entrevada,
criancinhas com fome e eu a alimentar a minha opulncia com o esfro
desta penria!...

Dirigindo-se novamente para o jardim, meditava que, para as almas
sensveis, as transfiguradoras alegrias de bem pouco dependem. Bastava
para conquist-las, um gesto mais espontneo de bondade... Como o seu
dia fra proveitoso, efectivamente! Vivera momentos inolvidveis junto
do bero do filho, que dormia como uma doce flor por desabrochar com
tda a alma inocente reflectindo-se-lhe na face, que era inconsciente,
que mal reparava ainda nas coisas que o cercavam e que, no entanto,
enchia tda a casa, tda a sua vida, todo o seu amor de encanto, de
esperana e de perfume! Depois, a adorao da espsa dera-lhe uma lio
de magnanimidade e fizera-lhe sentir a branda promessa duma ternura
eterna, duma inaltervel dedicao que o iluminaria pelos anos fra. Em
seguida, recordara a memria venervel da me, no seu passeio pelo
parque--essa me que tanto o tinha amado e que, mesmo morta, era uma
radiante luz de que lhe vinha claridade e beleza moral, e corrigira
nobremente desigualdades sociais, decidido a conceder um pouco mais de
bem estar a sres desditosos que activamente lidavam, acrescentando a
sua riqueza. Para que nada faltasse  formosura dste dia magnfico, at
o seu nico amigo e seu companheiro de estudos e de bomias romnticas,
acabava de anunciar-lhe que viria passar junto dle uma semana, um ms!
Levantara-se com sorte, certamente. H horas predestinadas para a
ventura, como h outras predestinadas para a desgraa...

Entrou em casa, trazendo debaixo do brao jornais que no abrira e
cartas a que no ligara ateno, exceptuando a de Frederico, que era
sumamente grata  sua amizade. Subindo ao primeiro andar, foi encontrar
Jlia com o filho, gordo, robusto, de cabelo muito louro e uns olhos
muito azis, nos braos amorosos. Nuno beijou a criana com mais devoo
do que beijaria uma imagem religiosa, beijou tambm a espsa longamente
na testa e na bca, para agradecer-lhe a felicidade de que transbordava.

--Que  isso, que  isso?--perguntou ela, sorrindo com aquele sorriso
que lhe fazia evocar a me.

-- que te amo, que te amo, e que no sei dizer-te por outra forma o meu
amor!




II


Frederico chegou, com efeito, na manh seguinte e foi efusivo o abrao
que trocou com Nuno, ao saltar do automvel, diante do porto do jardim
que um grande ramo de jasmineiro em flor cobria de sombra, de frescura e
de aroma. Enquanto os criados conduziam as malas de viagem, do carro
para casa, le, compondo a roupa desmanchada e alisando, com a mo, os
cabelos despenteados, dizia para o amigo:

--Menino, o que eu agora mais desejo, antes do almo, que ficarei
devendo  tua generosidade,  um banho frio que me restitua a
elasticidade aos membros entorpecidos e me purifique da poeira da
jornada--uma poeira corrosiva que me morde a pele.

--Pois ters sse banho purificador, homem!--prometeu Nuno, alegremente.

Foram andando pelos arruamentos que corriam junto dos canteiros
rescendentes, no inspirador silncio matinal.

--Tu tens isto lindssimo, na verdade. Sente-se a ventura, o encanto de
viver  volta desta habitao que eu creio bem que seja a morada da
Fortuna!... E como vai a sade da famlia? Prspera, no  assim?...
Desculpa. Tinha-me esquecido de cumprir ste elementar dever de
cortesia.

Do lado que dava para o parque havia uma escada de pedra com grade de
ferro pintada de verde, subindo, entre redouas de trepadeiras que a
bucolizavam, at ao primeiro andar, sob a folhagem fechada duma accia.
Tinham les galgado o primeiro lano, quando Jlia apareceu no alto,
vestida com simplicidade e gsto. Frederico, tirando o chapu, exclamou
logo, ao avist-la:

--Oh! minha senhora!...

E avanou, mais apressado, de mo estendida, acrescentando:

--Venho pedir um pouco de repouso, de tranqilidade espiritual, s
divindades protectoras dste lar, que  o Palcio da Ventura...

--Seja ento bemvindo--acudiu ela, tda risonha.

--No o acredites, Jlia!  um rprobo e tem o sentimento
derrancado--gritou Nuno. Ainda agora me dizia da aldeia coisas
pavorosas. No te admires se le, logo  tarde, bocejando o seu
aborrecimento e renunciando a uma converso de alma, nos fugir para a
cidade...

Frederico, voltando-se para o amigo, murmurou com ar cmico e
foradamente constrangido:

--, ento, assim que o afecto fraternal compreende e pratica as
obrigaes sagradas da hospitalidade, mentindo para me comprometer? Com
franqueza! Isso no  leal...

Jlia, crada e encantadora no seu pudor e no seu recato de espsa e de
me, ria enlevada.

--Deixe-o falar!

--Pois se eu, s de atravessar a pacificao campestre, embebendo-me,
impregnando-me da sua doura, at j me sinto outro e me parece que
dentro de mim um outro corao renasce!...--disse Frederico.

-- que o Esprito Santo estava  tua espera para baixar-te sbre a
cabea em lngua de lume e iluminar-te--zombou Nuno.

Entraram na sala que as flores das jarras incensavam. Por tda a parte
se notava logo o cuidado e a subtileza duma diligente _mnagre_, tal
era a ordem, a elegncia, o claro aceio daquele atraente lugar de
repouso. Sentaram-se um momento, conversando.

--Quis, ento, dar-nos por algum tempo o prazer da sua companhia,
abandonando as alegrias da vida citadina?--perguntou Jlia.

--Nuno assim mo imps. E creia V. Ex.^a que nunca imposio alguma foi
mais brandamente acatada por um rebelde como eu sou--afirmou Frederico.

Um relgio de bronze dourado, montado em colunas de alabastro cr de
rosa, marcava as horas sbre o mrmore do fogo, quebrando com o ritmo
do seu _tic-tac_ a paz do compartimento: e evolava-se de tudo o que os
cercava essa serenidade, sse divino mistrio inspirador, essa graa
imaterial que s existem nos ambientes calmos em que as almas de _lite_
fazem a troca mtua das suas afeies puras, das suas emoes delicadas,
das suas aspiraes nobres.

--De-certo que no encontrar aqui as distraces que um grande centro
de populao pode oferecer--exclamou Jlia. No entanto, haver para o
snr. uma sincera amizade.

--Eis tudo de quanto eu preciso, minha senhora, porque a amizade  o que
ainda vale no egosmo e na tristeza da nossa poca.

--Mas, no terias perdido a virtude, o dom e motivo de
senti-la?--interrogou Nuno, com ironia afvel. ste homem  um perdido,
Jlia. Vamos a ver se conseguimos lev-lo de novo para a luminosa vereda
da verdade... E vai-te arranjar, criatura, que aqui, na aldeia,
almoa-se cedo, janta-se cedo e deita-se a gente ao anoitecer...

--Bem! Comea a minha regenerao--murmurou Frederico, erguendo-se. Se
me concede licena, minha senhora, vou tratar da _toilette_. Vejo que
Nuno, antes de me servir o alimento, pretende servir-me um mtodo. 
justo. Quem d o po, d o pau...

--Se precisas dle!...

--Do pau?

--No, desgraado, do mtodo!...

Nuno acompanhou-o ao quarto, enquanto Jlia descia  cozinha. A
tranqilidade envolvente era tam profunda que os menores rudos
adquiriam uma prolongada vibrao. Ouvia-se a voz dos carreteiros ao
longe, excitando os bois nas subidas e as cantigas dos ranchos de
mulheres que trabalhavam nas terras de cultivo, sob o banho fluido e
louro da luz. Nuno, deixando Frederico, veio um instante para a varanda
envidraada exposta ao sol, sentando-se numa cadeira de encsto, perto
dos vasos com avenca e com begnias de estufa, de largas flhas
espalmadas e ferruginosas, onde costumava passar as tardes com Jlia,
contemplando a ondulao dos milheirais que se estendiam por todo o
vale, a ramaria dos pinheiros vasta como um mar de verdura, a mancha
azulada das montanhas de perfil irregular e que formavam, das bandas do
nascente, uma rica, prodigiosa scenografia natural. Estava contente, a
vida tinha para le um grato sabor, nesse momento. Por mais absorvido
que andasse na sua feliz, plcida existncia conjugal, no podia
subtrair-se a determinadas influncias que certos factos produziam. A
vinda de Frederico tinha acordado, para seu regalo, um mundo de
sensaes longnquas, de recordaes adormecidas. Com a presena do
amigo, ressuscitavam tambm a sua mocidade distante, os anos consagrados
ao estudo,  conquista duma posio social que lhe imprimisse maior
relvo  personalidade, as iluses que fra tecendo, as esperanas
sonhadas em prometedoras horas de confiana. Relembravam-lhe episdios
h muito olvidados, uma tumultuosa onda de sadade e de indecifrvel
ternura invadia-o. Ah! sse bom Frederico! Havia perto de dois
anos--desde o seu casamento, a que le assistira--que no tornara a
v-lo. Nos primeiros meses de casado, como o seu forte amor por Jlia
reclamasse um absoluto recolhimento, isolou-se inteiramente das suas
relaes, duma sociabilidade que o no interessava. Fizera, com ela, uma
longa viagem de npcias por pases que nunca visitara e que muito
desejava conhecer, encantado pelo anonimato da sua individualidade no
meio das ruidosas multides. Estiveram em Itlia, em Frana, na Sua,
observando uma civilizao que se denunciava radiosamente em tdas as
manifestaes da actividade humana, na sumptuosidade de capitais que so
resumos lcidos do mundo consciente, passando as manhs nos Museus, indo
 noite aos teatros, aparecendo nos stios preferidos pelo mundanismo
para a exibio maravilhosa da esplndida flor do luxo e da beleza,
ofertando  adorao que os estreitava a surprsa de espectculos
constantemente novos e cativando pela sua variedade infindvel. Depois,
quando regressaram ao Prto, amando-se mais porque entre os dois se
tinha feito uma perfeita unidade moral e afectiva, Frederico havia
partido igualmente para uma confortvel vadiagem por sse bemdito
Portugal como dizia numa carta a Nuno, porque, mesmo separados, nunca
deixaram de estar juntos em esprito, correspondendo-se com
regularidade, comunicando-se as impresses recebidas, as opinies, os
pensamentos, os pontos de vista, por uma necessidade imperiosa, que
provinha de identidades de inteligncia e simpatias de temperamento.

Frederico nada ocultava ao amigo e ao camarada, confessava-se-lhe
sinceramente. Uma casualidade singular os aproximava ainda mais:--eram
ambos ricos, sem famlia, fizeram o mesmo curso, manifestavam as mesmas
predileces. Nuno conhecia-o minuciosamente no seu carcter, na sua
psicologia, nas suas tendncias, nos seus hbitos. Um pouco leviano e
volvel, por certo. No havia em Frederico estabilidade de sentimentos,
fixidez, reflexo. Os seus actos quse nunca estavam em concordncia com
as suas ideias. Abandonava inconsideradamente, como futilidades sem
razes na realidade universal, projectos no dia anterior aceitos com
entusiasmo e fervor, como se representassem a verdade irredutvel. Era
um dsses homens estranhos que, possuindo um grande orgulho de si
prprios, ou pela superioridade mental ou por dons puramente exteriores,
so incapazes de contrariarem a sua espontnea vontade, de se
sacrificarem na satisfao do seu sonho, muito embora sigam por caminhos
errados, de renunciarem ao que, para les, encerra um efmero minuto de
prazer. Foi por isso mesmo que no quis jmais reduzir ou comprometer a
sua liberdade, conservando-se solteiro com mdo s responsabilidades
duma famlia, ao jugo dos deveres contrados. Nuno lembrava-se, enquanto
reavivava um passado ainda recente, do desgsto que em Frederico
provocara a sua deciso de casar-se com Jlia. le ouvira-o friamente,
com uma expresso de sarcasmo na bca--um sarcasmo em que havia
compaixo e desdm.

--E tu devias fazer o mesmo. Arranjavas, assim, uma ocupao
sria!--dissera-lhe Nuno.

--Ah! obrigado pela inteno--respondera Frederico, scamente e
encolhendo os ombros.

--Homem, parece que estou a aconselhar-te uma aco m!...

--No! Apenas me aconselhas a loucura, o absurdo...

le, casar-se, efectivamente! Nunca sentira vocao para a vida
conjugal, sempre que se consultava sbre sse complicado e perigoso
problema. Julgava que o casamento destruiria tda a sua paz, tda a sua
felicidade--se  que essa felicidade significa mais alguma coisa do que
uma rima frvola em poesia ou do que uma imagem literria.

--Tu bem sabes, Nuno, que no sou um inexperiente em amor--asseverou
Frederico.

No era um inexperiente, na realidade. Nuno conheceu-lhe, durante muitos
meses, uma ligao sentimental ntima com uma linda rapariga que le
seduzira e de quem mais tarde, saciado, fatigado, desiludido, se
afastou, oferecendo-lhe um forte punhado de oiro. E, nessa ligao, que
foi mais do que um capricho, a princpio, porque a sua alma nela teve
interferncia, encontrou Frederico a certeza de que, para o seu
organismo, para a sua individualidade psquica, as veneraes eternas e
conservando perptuamente a mesma intensidade, as afinidades da carne e
da emoo que estabelecem para sempre uma estreita comunidade fsica e
ideolgica entre dois seres de sexos diferentes, pelo lao do desejo
insacivel, que incessantemente se renova, e das semelhanas
espirituais, representam uma engenhosa mentira.

--A no ser--concluiu le--que para alm da minha experincia haja um
mundo por mim ignorado.

--Porque no hs de tentar a sua descoberta?--insinuava Nuno.

--Porque no quero enliar-me em aventuras arriscadas... Se falhasse, o
mal seria irremedivel.

Nuno casou, entregou-se s meigas preocupaes do seu amor, no tornou a
falar com Frederico, a no ser por cartas: mas ste facto nunca mais lhe
esqueceu. Permaneceria ainda o amigo dentro dos apertados limites das
mesmas ideias, prevaleceria no seu esprito o terror ao casamento? Era
provvel que assim fsse: mas Frederico seria uma testemunha da sua
felicidade, que era imperturbvel e perene: e podia muito bem acontecer
que modificasse raciocnios falsos. Felicitava-se por le haver aceitado
o seu convite, porque talvez a permanncia naquela casa o convertesse--o
que seria sumamente grato ao afecto que lhe consagrava.

--Porque no? Porque no?--monologava Nuno.

A aridez da existncia de Frederico entristecia-o, porque o estimava
profundamente. A-pesar da sua leviandade, duma ponta de cinismo que a
vida lhe transmitira, do pessimismo que tornava estreis os seus anos
alacres e improdutiva a sua actividade, le era um excelente moo duma
lealdade firme, afvel, encantador por mais dum trao da sua
personalidade: e s por isto, lhe abrira alegremente a porta da sua
vivenda onde com sobressalto, quse com cime, guardava quanto possua
de mais querido e de mais puro...

Um berro sbito interrompeu o fio do scismar de Nuno. Frederico, j
lavado do p da viagem, j perfumado, j mudado de roupa, entrou
inesperadamente na varanda, exclamando:

--Tenho andado a procurar-te por tda a parte inutilmente.

--Estava aqui a reviver coisas extintas que a tua chegada me sugeriu. E
sabes o que evoquei? No sabes? Pois foi a ltima conversa que tivemos
nas vsperas do meu casamento. Lembras-te?

--Perfeitamente...

--E ainda pensas da mesma forma?

--Pois que razo havia de desviar-me dsse pensamento?

--Vejo que s um convicto no rro.

--Como tu o s na verdade...

--Bem, bem. No falemos mais nisso!... Ocupemo-nos de coisas
proveitosas. Nem sequer viste o meu morgado... Vou mostrar-to. Anda
comigo.

Enquanto se dirigiam ao quarto da ama, que comunicava com o de Nuno por
uma ampla porta, le ia-lhe fornecendo esclarecimentos sbre o filho:

--Oh!  um respeitvel senhor com as pernas e os braos s roscas de
carne, uma cara rabugenta e uns olhos negros como contas de vidro que,
a-pesar-de ser ainda pequenino,  j um dspota. Manda em mim, manda na
me, que o adora, e, como os prncipes, tem servos atentos  volta da
sua importante pessoa. Todos ns somos seus escravos.

Atravessavam um corredor quando Jlia apareceu com a criana ao colo,
entre rendas, cambraias, laarias de sda.

--Aqui o tens. V que figuro!

Frederico curvou-se para uma carinha rosada, emergindo da brancura
imaculada das roupagens, tocou-lhe levemente com a mo na face, esteve
um momento a contempl-lo.

--Hein? Que te parece?--perguntou Nuno, beijando, com ternura, o
pequenino.

--Admirvel!... Com certeza que a estas horas, j elegeste, para le, um
destino incomparvel, j meditaste na situao que mais lhe convm.  o
primeiro dever dos pais.

--Coitadinho!--murmurou Jlia, enlevada.

--E V. Ex.^a tambm, minha senhora. Ah! as mes! Se elas forem tdas
como a minha, que era uma santa, nunca se sentaro  beira dum bero sem
sonharem quimeras para os seres que l dormem.

--No, no! Eu apenas quero que le viva, para o meu amor, para o amor
de Nuno.

--C por mim--atalhou Nuno--decidi.

--Sim? Ento, conta l...

--Resolvi faz-lo rei, dar-lhe um trono...

--Oh! Nuno, que disparate!...--interrompeu Jlia.

--Disparate? Ora essa!... Que dizes tu, Frederico?

--Eu digo que, na verdade, um trono  uma grande comodidade para os
mortais, mesmo por stes speros dias de democracia, de revolues, de
indisciplinados movimentos polticos e religiosos. Sim, minha senhora.
Nuno est na sapincia. Uma cora, uma rialeza, milhes de vassalos
vergados e sem vontade sob o poderio dum scetro , entre tdas as
vaidades humanas, a mais invejvel vaidade. Resta saber...

Jlia ouvia saborosamente as palavras de Frederico, afagando o filho,
aconchegando-o mais nos braos, encostando-o ao seio com infinitas
cautelas.

--Resta saber o qu?--interrogou Nuno.

--Resta saber se o pequerrucho ter uma decidida vocao para tirano...

Riram com alarido, dando alguns passos no corredor que a meia-tinta da
luz refrescava.

--Se sair  me, ser um tirano de primeira ordem!--concluiu Nuno, rindo
ainda.

--No creia, Frederico--replicou Jlia, jovialmente. Quem aqui sofre um
domnio tirnico, sou eu!... Nem pode calcular...

--Imagino, imagino, minha senhora. E lamento-a. Em outras pocas, nos
sculos mortos da cavalaria, eu ofereceria a V. Ex.^a uma espada
libertadora. Mas, desde D. Quichote que os cavaleiros andantes no so
bem vistos pela polcia. Tudo quanto posso fazer  recomendar-lhe
resignao...

--Sou j uma resignada--disse ela, envolvendo Nuno num inexprimvel
olhar de afecto.

A ama veio pegar na criana, que agitava os bracinhos, que levava os
punhos fechados  bca e galrava, quando em baixo, no rs-do-cho, uma
sineta de estridente timbre, tocou para o almo, assustando as pombas
no pombal.

--Ora, graas a Deus! Pensava que nos querias hoje matar  fome,
Jlia--disse Nuno.

--Que horas so?

--Meio-dia. E Frederico deve estar com um apetite igual ao de Ugolino na
sua priso. Desde alta madrugada que rolou, atravs de estradas
poeirentas, para nossa casa, animado na sua tortura pela nica esperana
duma farta mesa...

--Nem s de po vive o homem--exclamou Frederico. Mas l apetite h,
bemdito seja o Senhor que nos fez assim glutes e terrestres.

Foram caminhando pelo corredor, ao lado de Jlia muito elegante no seu
vestido de sedinha branca--um vestido que lhe modelava ntidamente as
linhas corpreas, ondulantes e flexveis, e em que havia harmonia, graa
e ritmo--entrando, por fim, na sala de jantar, que era espaosa, clara,
aprazvel, com o seu mobilirio de nogueira americana, as suas trs
janelas abrindo para o jardim, os seus cortinados de renda inglesa, os
seus _brise-bise_ de tule bordado. Nos aparadores, as pratas
resplandeciam, iluminando-se de sbitas claridades; o esmalte das
porcelanas pintadas fascava de brilhos metlicos; os cristais
dardejavam a um raio de sol que incidia nas vidraas e se prolongava
como um delgado fio de ouro, ardendo, fulgurando, tremendo sbre o
verniz dos mveis. Uma perturbante fragrncia vinha de fora, exalando-se
das corolas, subindo na aragem.

-- agradvel, esta sala!--louvou Frederico.

--Como situao...--alvitrou Nuno.

--Por tudo:--pela situao, pelo aspecto ornamental, pela simplicidade,
que logo revela o solcito cuidado e o bom gsto feminino... Os meus
cumprimentos, minha senhora.

--Ora! Amabilidades de hspede amvel!--disse Jlia.

--Mas no, mas no! Digo a verdade, digo o que sinto.

A larga toalha da mesa, do linho mais puro e mais fino, alvejava entre
os solitrios com cravos e avencas e espalhava frescura; largas cadeiras
de couro lavrado, de alto espaldar e pregarias de metal amarelo,
ofereciam repouso; dos pratos cheios de fruta evolavam-se vivos aromas;
os morangos, colhidos de manh, no morangal, por Nuno, perfumavam o
ambiente. Sentaram-se: e Frederico, desdobrando o guardanapo
vagarosamente, afirmou:

--Pois, senhores, adorvel retiro para uma doce convalescena de
espritos doentes, para um perfeito exame de conscincia! Aqui  o
El-Dorado que o dr. Pangloss em vo procurou na terra.

--Tu o dirs!--retorquiu Nuno. Mas mais tarde. Por enquanto,  cedo para
julgamentos ousados. No te precipites, no arrisques opinies
temerrias que podem ser erradas... Chegaste h trs horas apenas.

--H trs horas j? Nunca, para mim, o tempo fugiu tam ligeiro...

Jlia sorria sempre, muito rosada, muito animada, diante de tda aquela
efuso do amigo da casa, que viera trazer com o seu afecto por Nuno mais
movimento e mais vida  tranqilidade inefvel da vivenda rural. Os
cabelos abundantes, enrolados no alto da cabea e apenas presos por
travessas guarnecidas a ouro em que fulguravam pequenos brilhantes
talhados em rosa, caam-lhe em madeixas at ao lbulo das orelhas, onde
duas prolas dum belo ris reluziam em fogos surdos. Na sua testa
ebrnea havia toques de luz. Frederico olhou-a um momento, assim
envolvida de claridade, satisfeita na sua ventura de mulher, numa
atitude que dava a tda a sua pessoa um extraordinrio poder de seduo.

--Quem tem feito uma grande diferena, para melhor,  a snr.^a D.
Jlia--disse.

--Sinto-me bem, com efeito!--respondeu ela.

--Eu, de resto, apenas a vi no dia do casamento, e j l vo dois
longos, fastidiosos anos. Mas parece-me que tem mais cr e mais sade,
que est um pouco mais nutrida.

--Pois, olha que veio para aqui adoentada, muito fraca--esclareceu Nuno.
Meses depois do nascimento do filho, chegou a inspirar-me cuidados. Os
mdicos mandaram-na sair da cidade a tda a pressa: e, com efeito, na
aldeia, curou-se. No h como o campo, para stes milagres.

--Visto isso, minha senhora, por gratido, deve ficar aqui, esquecer as
grandes aglomeraes, que so o veneno, a indigncia orgnica, a
morte...--comentou Frederico.

--Por mim, ficava. Mas Nuno no se acostumaria  solido,  tristeza, ao
isolamento...

E, como le protestasse, acudiu logo:

--E nem eu, tambm. J outro dia falamos nisso... O inverno, neste
destrro, deve ser medonho...

O almo decorreu alegre, no calor constante das palestras a que
Frederico imprimia vivacidade e graa, com a sua _verve_ fascante. 
sobremesa, a conversao derivou para as questes sensacionais do dia,
motivadas pela guerra que, dum extremo ao outro, pegava fogo  Europa,
sepultando em runas uma civilizao que levara tantos sculos a
construir. Nuno achava-a necessria, pois s por ela seria possvel
restituir a liberdade aos povos e a independncia s nacionalidades
dbeis. Jlia, pensando no filho, na desdita das outras mes, nas
torrentes de sangue e de lgrimas que corriam nos campos de batalha e
nos lares lutuosos, horrorizava-se com uma carnificina que imolava 
morte as primaveras humanas. No compreendia a ferocidade dos homens e
das naes, despedaando-se por ambies de domnio, de hegemonias
polticas, de conquistas de territrios e de mercados comerciais, quando
para todos havia um lugar ao sol e um direito  existencia. Falava com
uma verbosidade que Nuno no lhe conhecia e que encantava Frederico.

--V. Ex.^a, minha senhora,  uma das poucas mulheres que assim pensam e
eu creio que, como mulher, est na lgica e na verdade. Mas quer saber o
que faz o gentil mundo feminino das potncias envolvidas no conflito?
No pensa nas modas, no luxo, o que at agora parecia impossvel.
Trabalha nas fbricas de munies, faz granadas, engenhos de
destruo!...

--Por isso mesmo, essas mulheres so admirveis!--atalhou Nuno, com
entusiasmo.

--Admirveis? Oh! Nuno, que heresia!--contrariou Jlia.

No seu critrio simplista, ela compreendia que as mulheres, seres de
abnegao e de sacrifcio, destacando-se mais intensamente pela emoo
do que pela inteligncia, mais pelo esprito do que pelo crebro,
amassem as suas ptrias; mas era-lhe doloroso pensar que mos de afago e
de carcia, feitas para apaziguarem o sofrimento, para enxugarem com
infinita doura os olhos que choram, para sararem feridas, se
ennegrecessem na plvora, destinada a devastar homens que vo para os
combates, passivamente, como as rses para um matadouro. A sua
colaborao nas pendncias guerreiras nunca devia ir alm dos hospitais
de sangue, onde acalmariam dores e tranqilizariam delrios.

--Pois, no  assim, Frederico? Diga! Seja imparcial.

--Na realidade, minha senhora, atravs de tda a histria, nunca vi as
mulheres associadas s lgubres matanas. Pelo contrrio, tenho-as visto
sempre dispostas a lutar para conseguirem tudo o que signifique
elevao, nobreza, bondade, amor. Elas foram, positivamente, os melhores
arautos de Jesus para a vitria do Cristianismo, que redimiu o mundo;
elas impuzeram, com as religies, a arte e a poesia.

--Ento, a est!--disse Jlia, com um sorriso triste.

--Vejo que tu no eras capaz de dar o teu filho, se ele fsse grande e
pudesse manejar uma arma, para a defesa do pas--exclamou Nuno.

--Com certeza que no!--asseverou ela resolutamente e com uma grande
convico na voz. E digo-to:--para o defender da morte, eu era capaz de
tudo, de tudo, mesmo dum crime.

--Pensa, portanto, no herosmo das outras mes...

--Nenhuma delas os dar de ba vontade... Arrancam-lhos  fra,
cruelmente !

--Repara, Frederico! Aqui tens uma compatriota de Brites de Almeida, a
padeira de Aljubarrota, de D. Filipa de Vilhena, doutras criaturas
hericas!--zombou Nuno.

--Ela est na razo, pensa como mulher--e as mulheres, verdadeiramente,
s vencem pelo sentimento.

Acenderam os charutos e continuaram a discusso, enquanto Jlia,
levantando-se, dava ordens  criada para que o caf e os licores fssem
servidos no jardim. Nuno, que a guerra apaixonara, ia agitando ideias,
condenava o pacifismo que estava fra da sua aco eficaz:

--Positivamente, por melhor intencionado que seja, o pacifista  um
produto nocivo do nosso estado de perturbaes e de ameaas. At hoje,
imaginou erradamente que a maneira mais prtica de realizar-se a paz
seria odiar e condenar todos os movimentos armados dos povos, sem
distinguir lcidamente entre o justo e o injusto, entre a honra e a
cobardia. Quando a tranqilidade do mundo entrava numa fase precria,
sse pacifista aconselhava a transigncia dos menos poderosos, o que era
uma vileza.

--Mas que outra coisa poderia le fazer?--inquiriu Frederico,
interessado e soprando baforadas de fumo.

--Que outra coisa poderia fazer? Homem, desconheo-te, perdeste a
sagacidade antiga! No domnio espiritual, a felicidade resulta da
filosofia e da religio; e no domnio material, da scincia e do
trabalho. Igualmente, e nesta ordem de raciocnios, a paz deriva do
equilbrio das potncias e das precaues a tomar contra aqueles que
pretenderem destruir sse mesmo equilbrio. A misso til e nobre do
pacifismo, se le no andasse transviado, seria esta, portanto.

-- ainda impotente para isso--opinou Frederico.

--Porque lhe falta organizao--respondeu Nuno.

Jlia reentrou na sala para dizer que o caf j fumegava sob as rvores
e entre as flores,  espera.

--J l vamos, minha senhora!--informou Frederico. Estvamos aqui a
desenvolver coisas muito srias de sociologia e de poltica. Nuno 
terrvel. Tem uma argumentao, uma dialctica!...

-- porque estou na verdade.

Depois, debaixo dos arvoredos, o dilogo sbre o mesmo assunto ainda
continuou, caloroso, vivo, na tarde serena como a doura e a melancolia
duma rosa de luz e de sda que se desfolhasse lentamente. A sombra,
cando, despregando-se molemente das ramarias, espalhava na areia das
ruas movedias manchas rxas. Um ar esperto e vitalizador circulava. O
sol, descendo para o poente, refulgia e dourava tudo aquilo em que
tocava.

Nuno surpreendia uma beleza nova nas vastas massas de homens que
avanavam para as batalhas altivamente, sem o temor no corao, sem a
palidez nas frontes--nesses soldados que conheciam a embriaguez do
sacrifcio total a um pensamento grande e nobre e que, no _lan_ supremo
das cargas, por entre o ciclone fulgurante da metralha, tinham a viso
ntida e simples das coisas, sentindo a divina claridade das almas
hericas, a alegria prodigiosa da nica verdade, que  a de lutar at 
morte por uma liberdade mais ampla, por uma vida melhor, pelo esplendor
das nacionalidades a que pertencem.

--Porque, no tenhas dvidas! Desta convulso sar uma liberdade
luminosa.

--Isto --explicou Frederico--maior extenso do privilgio. Eu no sei,
realmente, em que consiste essa liberdade que tam calorosos hinos te
merece...

--No sabes? Pois  fcil sab-lo. A liberdade perfeita consiste na
absoluta adaptao dos intersses, das actividades e das energias
humanas. No nosso tempo, a adaptao de que falo  essencial entre os
indivduos; entre a colectividade e as instituies; entre as
instituies e os governos. Quando isto se conseguir, a existncia ser
mais suave e mais bela...

Na espessura dum caramancho de madre-silvas e clematites, um melro
assobiava a sua cano em louvor do claro dia; no parque, a solido
tornava-se mais profunda; perto da varanda da casa, sob a accia, um
gordo gato rebolava-se ao sol.

--No creio que esta guerra nos d uma liberdade mais dilatada. Quando
muito, far apenas com que a tirania empregue uma subtileza
maior--contestou Frederico.

--No crs em nada. Perdeste a f--replicou Nuno, bebendo o seu caf a
pequenos, espaados goles.

--Penso, porm--continuou Frederico sem o ouvir--que dela sar alguma
coisa de indito. Com efeito, uma parte do culto ocidente sossobra e
afunda-se com a hecatombe. Tombaram, sucessivamente, como as messes
diante da fouce do segador, as mocidades da Europa, que era a renovadora
do mundo consciente pelo gnio artstico e scientfico. Essas mocidades
haviam sido educadas pelos antigos, pelos vlhos, pelas personalidades
formadas em ideias j conhecidas, semente de que germinariam as searas
futuras. Deu-se, portanto, com ste salto brusco para o mistrio, uma
soluo de continudade. Do saber guardado e arquivado nos livros, pouco
subsistir. A Europa nova tem de educar-se por si, de refazer uma
conscincia e uma sensibilidade, um esprito e uma razo, em bases
tambm novas...

--H talvez alguma verdade nas tuas palavras--atalhou Nuno,
surpreendido.

--Quem me diz que a Europa de manh no ter de ir outra vez, como na
Renascena, s civilizaes extintas a procurar as suas inspiraes?

--No se anda para trs. A vida evolute numa progresso
ascendente...--exclamou Nuno.

--No falo em retrocesso: falo na busca duma fonte geradora de outros
ideais. No entanto, se esta peregrinao dos povos doloridos ao passado
se fizer, muitas coisas hoje decadentes reconquistaro o seu prestgio.

--Por exemplo...

--O Catolicismo que, depurado das suas imperfeies e das mentiras com
que os homens o desfiguram, ter belos e gloriosos dias.

--Que fantasia!

--Homem, contempla a febre, a ansiedade, com que as naes que o tinham
repelido, novamente se voltam para le, procurando uma consolao, uma
alegria interior que o racionalismo no lhes oferecia. Em Frana os
templos transbordam de fiis. Nas trincheiras, os padres combatentes
pousam as espingardas para dizerem a missa aos seus camaradas que vivem
debaixo da tempestade das granadas e da fuzilaria. No ser isto uma
profecia? Nas terrveis calamidades, Deus  preciso para que o
sofrimento seja menor...

Jlia voltou a aparecer com o filho ao colo. O seu perfil, de linhas tam
delicadas, recortava-se lmpidamente no disco, na aurola luminosa de
que a claridade lhe envolvia a fronte.

--Santo nome de Maria! Pois ainda discutem a guerra?!...--interrogou
ela.

--Sim! Temos feito,  volta de duas chvenas de caf e de dois clices
de _cognac_, uma enorme quantidade de filosofia, minha senhora!--disse
Frederico, levantando-se e indo ao seu encontro. Nuno tem sido duma
eloqncia notvel... Nem V. Ex.^a calcula.

-- Eu sei, eu sei! Quando le se apaixona por uma questo,  um falador
incorrigvel.

Nuno, que tambm se aproximara do grupo, todo afogueado do calor da
controvrsia, acrescentou:

--Demos  lngua, efectivamente. Desforrei-me da minha mudez consecutiva
de meses. Frederico estava interessante...

Parou, um momento, absorvido na adorao do pequenino, que mostrava os
olhos espantados e que incessantemente abria e fechava as mosinhas
rosadas. Todo le cheirava a perfumes, como uma flor humana.

--Oh! l,  seu fidalgo!... Pst!...--acariciava Nuno, pousando-lhe um
dedo na cvinha do queixo. Bem disposto, hein?

--Tomou agora o seu banho, sente-se feliz--disso Jlia, baixando os
olhos pensativos sbre a fronte do filho.

Ouvindo-a falar naturalmente, Frederico notava nas suas palavras uma
vibrao, um timbre, um enlvo que no podia definir e que o
perturbavam. Na histria da sua alma fazia-se uma pgina de poesia e de
ternura, que lhe comunicava gzo, pacificao interior. Como Nuno era
feliz! E bem merecia le essa felicidade, pelos puros dons do seu
carcter, pela sua bondade, pelas suas virtudes de homem. Encontrara a
mulher ideal que o completou e que,  sua volta, fazia a graa, a
serenidade, a confiana, o repouso.

--E aqui tens tu, Frederico--disse Nuno--a minha ptria grande.

--No! A tua famlia... A famlia  apenas a unidade da ptria, como o
individuo  a unidade da famlia.

--Bem! Que seja ento a minha pequenina ptria. No quero outra. E tu,
homem, porque no procuras uma?

Frederico olhou o amigo demoradamente, fitou depois Jlia, agitado por
sentimentos, por inenarrveis sensaes que lhe pareciam
incompreensveis porque, na sua perturbao, no conseguia explic-los,
determinar-lhes a gnese e o carcter. Por uma revelao fulminante, via
nessa doce mulher uma imagem venervel e qusi religiosa para que o seu
respeito e o seu reconhecimento subiam. Reconhecimento de qu? No o
sabia.

--Tenho a certeza de que a no encontrava--respondeu le. No possuo o
gnio das descobertas.

--No ser isso egosmo, Frederico?--interrogou Jlia.

--Egosmo? V. Ex.^a  injusta com um homem que resolveu sacrificar-se s
a le para no sacrificar os outros...

--Temos S. Francisco de Assis em nossa casa, Jlia!-- afirmou Nuno,
afagando distradamente o rosto do filho... Mas, se dssemos uma volta
pelo parque? A sombra, a amenidade do dia so convidativas. E temos
palrado tanto, justos cus!

Entraram vagarosamente na solitude dos troncos e das folhagens onde
corria uma fresquido vitalizante, na tarde pesada e quente. Atravs dos
ramos entrelaados, num azul muito alto, flutuavam farrapos esparsos de
nuvens. Por tda a parte, sob a imensa abbada de verdura, floriam
cheirosos arbustos que punham na suavidade da penumbra uma atenuada e
bela nota colorida. Por vezes, roseiras, bracejando junto das rvores,
trepavam s ramagens, enroscavam-se nelas, rompendo depois para o espao
livre em festes, em grinaldas, desenhando originais movimentos
decorativos. Os seus aromas harmonizavam-se, fundiam-se num s aroma,
que era excitante. No grande silncio vespertino, apenas se ouvia o
canto medroso das aves que fugiam, assustadas, da torreira do sol.
Frederico e Nuno caminhavam ao lado de Jlia, emmudecidos para melhor
sentirem e compreenderem a beleza envolvente. A criana palrava entre as
rendas e as cambraias vaporosas; e uma bica de gua, correndo perto dum
macio de cedros e pltanos enlaando, casando os seus ramos, cantava e
brilhava na fina paz vesperal.

--Isto  a delcia das delcias--disse, por fim, Frederico. H muito
tempo j que no me reconciliava tanto com a vida.

Enquanto les se detinham numa clareira, reencetando a conversa, Jlia
adiantou-se alguns passos, indo sentar-se num banco rstico de cortia
que ficava por baixo dum docel formado por mosqueteiras ainda em flor.
Ao vento brando que passava, arripiando as flhas, um colorido e
perfumado orvalho de ptalas desprendia-se do alto, tremendo como asas
de borboletas, caindo sbre Jlia e o filho. Ela ria, com um riso mais
contente, ditosa pela idlica oferta que as trepadeiras faziam  sua
gracilidade,  sua pureza feminina, ao seu amor de espsa,  sua divina
maternidade, e Nuno e Frederico admiravam ste espectculo imprevisto.

--As flores, para serem justas, deviam-lhe essa homenagem, minha
senhora--declarou o hspede.

O chuveiro das ptalas continuava sempre, cobria duma geada aromtica os
cabelos de Jlia, o rosto da criana.

--As bas fadas sadam a princesa, sua afilhada, e o principe
dilecto!--observou Nuno, enternecido.  como nos contos de Perrault, nas
lendas doutras idades.

Por fim, Jlia levantou-se, tda florida, com as faces rosadas por uma
ponta de sangue mais vivo, enquanto Frederico a considerava,
deslumbrado. Como era encantadora e linda, na verdade!... E outra vez
louvou a felicidade de Nuno, do amigo fraterno, para quem o destino
tinha sido propcio e generoso, pondo no seu caminho, bem junto do seu
corao, aquela mulher incomparvel.

--Vou-me embora. Faz aqui frio. Tenho mdo de que a criana se
constipe--disse Jlia.

--Vai. Ns ainda por aqui nos conservaremos, filosofando. Quero iniciar
Frederico na formosura da solido!...--exclamou Nuno.




III


Os dias deslizavam serenos, para Frederico, no encanto da simplicidade
campestre, no ntimo convvio de Jlia e de Nuno. Nenhuma imperfeio da
vida dolorosa e amarga alterava a pacificao dum ambiente que se fazia
mais doce  volta de tanta ventura humana. Ao contacto permanente das
coisas e dos sentimentos puros, o corao de Frederico purificava-se
tambm, como se fsse um pouco sua a felicidade dos outros. Vivia numa
espcie de esquecimento, no se lembrava de ter sofrido moralmente,
parecia-lhe que, na sua existncia rida, no seu sentimento estril,
desabrochava, por fim, uma rara e ditosa flor. As faculdades emotivas
subtilizavam-se nle; as tristezas, os desesperos que o haviam
atormentado em horas inquietas e febris, dissipavam-se na sua alma.
Passava por uma funda renovao, penetrava-o uma fra estranha,
formava-se-lhe na inteligncia e na moral um novo princpio: e uma
prodigiosa multido de sensaes espontneas, que no sabia interpretar,
convertiam-se, para le, num intenso fenmeno psicolgico.

--Parece-me que vou renascendo, Nuno!-- dizia Frederico ao antigo
companheiro de estudos. A alegria que existe em tua casa comunica-se-me
tambm aos nervos,  sensibilidade. E  curioso! A minha confiana no
futuro, uma confiana que nunca foi grande, aumenta agora
sucessivamente. Porqu? Porqu? Que elemento operou ste milagre
estupendo?

-- porque s agora desperta em ti a capacidade mental para a
compreenso das coisas belas--afirmava Nuno, zombando. O sr pensante
anda inconscientemente perdido no turbilho do mundo, at ao momento
singular em que acorda para a verdade. Tu nunca leste o drama de
Ibsen:--_Quando dentre os mortos ns ressuscitarmos_?

--Nunca li sse nebuloso escandinavo, na realidade...

--Fizeste mal, porque Ibsen ensina-nos a analisarmo-nos com lucidez...
Eras um morto. Comeas a ressuscitar. E olha que  dstes bons ares,
desta claridade purssima, da paz rstica, da singeleza que nos rodeia.

Frederico, em momentos de solitude, concentrava-se, para melhor observar
o seu caso, que era bizarro: e tinha a impresso de que convalescia duma
doena de esprito e de corpo. Nesta convalescena, surpreendia-o um
facto enigmtico. Com efeito, alvorecia nle um encanto desconhecido que
o absorvia todo, que o exaltava e lhe perturbava os sentidos.
Levantava-se cedo, quando ainda a casa dormia na frescura da luz, na
ternura matinal, tomava o seu banho bem frio, que o tonificava, descia
ao jardim que o orvalho nocturno tornava mais vioso, passeava nas ruas,
fumando, entregando-se ao prazer contemplativo, parando ingnuamente
junto dos arbustos floridos. Depois, Nuno levantava-se tambm, vinha ao
seu encontro, ambos encetavam uma animada palestra, que se demorava
pelos inefveis recantos de sombra--por onde circulava um ar estimulante
e ligeiro--at ao almo. Perto de Jlia Frederico principiava a
sobressaltar-se, experimentava uma ansiedade confusa que o angustiava.
Nem sequer pretendia investigar a origem dsse sobressalto, por temer
que dentro dle se fizesse uma revelao assustadora e terrvel... Via-a
andar dum lado para o outro, nas ocupaes caseiras, tda sorridente e
natural. A luz difusa imprimia-lhe mais nitidez e destaque s linhas
plsticas, dava uma irradiao maior  sua beleza de mulher
completamente formada.  mesa, sentada em frente dle, perto de Nuno, os
seus olhos pensativos, iluminando-lhe o rosto, pousavam, por vezes,
sbre Frederico, que se sentia feliz sob aquela muda carcia em que nada
de impuro existia: e o tempo ia fugindo, leve e animado, sem deixar
resduos de fadiga.

Nas horas de solido e de calor, Nuno, cansado, recolhia-se ao quarto
para dormir a ssta: e Frederico, pegando num livro, que escolhia na
pequena biblioteca do amigo, ou num jornal, dirigia-se ao parque, indo
sentar-se no banco de cortia, sob a mosqueteira que, na tarde da sua
chegada, peneirara uma chuva colorida de floraes sbre Jlia e sbre o
filho: e ali, fazendo esforos para recordar-se, evocava com sadade um
passado que j ia muito longe, quando a sua existncia era inconsiderada
e o seu pensamento no tinha inquietaes. Na solido, no isolamento,
estudava-se. Fra sempre um afectivo, por necessidades de temperamento,
talvez por vcios de educao: e, justamente, essa afectividade levara-o
outrora para as aventuras de amor, em que procurava o infinito para a
sde ardente que o devorava e em que sempre encontrou o desengano, a
desiluso, o aborrecimento, o desgsto. Certas imagens femininas que
mais forte impresso lhe tinham produzido, despertavam um momento nas
suas recordaes. Lembrava-se, sobretudo, de Adelaide, uma pobre e linda
costureira por quem se apaixonara e com quem fez um idlio saboroso que
durou seis meses. O alvoro com que para ela fra impelido, como se
essa mulher pudesse oferecer-lhe a verdade nos seus beijos!... Mas,
sossegada a animalidade dum sensualismo grosseiro, apaziguada a febre
carnal, viu que se havia iludido, mais uma vez, e que a crdula rapariga
que nle confiara, entregando-se-lhe, nenhum gzo emotivo e intelectual
lhe daria para assim prolongar uma voluptuosidade que a posse arrefeceu.

Nuno reconhecera ste seu romance, tinha-o mesmo reprovado, dizendo-lhe
que le andava a gastar, em caprichos banais da fantasia e da luxria, e
em desvairamentos romnticos, a reserva de energia sensitiva de que
precisaria mais tarde para uma adorao sria que lhe enchesse tda a
vida, que o transfigurasse. S depois, quando o desalento surgiu--e com
le o cansao, o enfado, a saciedade--Frederico verificara que Nuno
estava na razo... Que seria feito de Adelaide? Em que lamaais
profundos teria cado? Por que despenhadeiros a iria conduzindo a mo
implacvel do destino? Frederico, na noite em que decidiu separar-se
dela--uma noite tempestuosa que decorreu entre lgrimas e
lamentaes--deixara-lhe sbre a roupa desfeita do leito uma carteira
com dinheiro. Fra a sua primeira aco vil, porque nenhum ouro pagaria
a felicidade para sempre destruida duma alma que era virginal quando o
seu egosmo a encontrou; mas, nesse procedimento, reprovvel de-certo,
guiara-o ainda a generosidade. Parecia-lhe que um punhado de notas de
Banco atenuaria o seu abominvel feito--e s agora reconhecia o seu rro
e a sua ignomnia...

Com o livro ou o jornal, que no lia, abertos sbre o joelho, scismando
ininterruptamente, seguindo com os olhos vagos as espirais de fumo do
charuto, que se esgaravam e ascendiam na atmosfera luminosa, Frederico,
durante longas horas, revivia os seus fantasmas inertes e experimentava
a sensao dum pso contnuo que o esmagava, que esmagava tda a sua
vida. Oh! a bela quimera dum amor eterno, conservando sempre a mesma
intensidade, a mesma fra superior de atraco, uma fonte inexaurvel
de sentimento, uma novidade que jmais, jmais, se banalizasse para os
coraes que fizesse palpitar! Existia le, na verdade? Ou no seria
mais do que uma mentira entre o acervo de mentiras de que o mundo estava
cheio e que os homens criavam conscientemente para se iludirem a si
prprios?...

Mas, quando o seu scepticismo era mais devastador, o exemplo da unio
feliz de Jlia e de Nuno surgia-lhe como a imagem tangvel dsse amor de
que duvidava. Ento, para explicar a contradio que lhe exacerbava o
sofrimento, construa teorias originais.

--O que h  almas completas e almas incompletas. Umas, possuem uma
finura sensvel que as torna perfeitamente aptas para a vida amorosa.
Outras no teem uma receptividade que as faa vibrar sob as influncias
dessa vida, e da deriva todo o mal, que vai espalhando nas sociedades a
funda melancolia contempornea. A alma de Nuno pertence s primeiras...

De resto, Frederico entendia que as verdadeiras mulheres so as
admirveis educadoras do sentimento, as inspiradoras sublimes de tudo o
que pode fazer os homens grandes dentro do lar. Jlia era uma dessas
mulheres excelsas, pelas graas do corpo e pelas graas mais puras e
elevadas do esprito: e a ventura de Nuno provinha de le a ter
encontrado no seu caminho. Por sua parte, em vo buscaria uma criatura
assim, que fsse a companheira ideal e perptuamente desejada, a amante
incomparvel, a espsa atenta, a me solcita! Com ela, a sua existncia
improdutiva entraria numa fase diversa e activa, numa realidade que
nunca se extinguisse...

Lembrando-se insistentemente de Jlia, Frederico era assaltado por um
sentimento curioso. Tinha a sensao especial de estar encerrado num
crculo muito estreito, em que nada havia de claro, de definido, de
preciso. Tdas as impresses da natureza exterior passavam por le,
velozmente, sem lhe provocarem uma simpatia mais demorada. Apenas lhe
ficava, na intimidade moral, a noo profunda do seu prprio isolamento,
entre a vastido e o tumulto das aspiraes indecifrveis. Sofria essa
fascinao estranha que um desejo veemente--que se no abandona, porque
o abandno excitaria o padecimento, e se no procura realizar tambm,
porque a realizao teria conseqncias funestas--produz nas almas!...
Por cima da sua cabea, a mosqueteira, ramalhando ao vento, sacudia os
seus cachos aromticos que se desfolhavam numa nuvem loura; ao seu lado,
a fonte, correndo no jrro fascante da gua entre musgos verdes e
veludosos, cantava sempre, exalando-se em frescura e murmrio.
Frederico, extenuado de imaginao pelas suas infindveis _rveries_,
erguia-se, fechava o livro intil, o jornal mais intil ainda, e
recomeava o passeio por entre os arvoredos, por entre os canteiros de
flores, onde umas abelhas, tam douradas como as do Hymeto, procuravam o
mel. Nuno, s vezes com os olhos inchados de sono, uma preguia que lhe
comunicava lassido, um pouco crado, descia ao jardim, perguntava-lhe:

--Em que passaste o tempo?

--Meditando, sentado num banco do parque--respondia Frederico.

--Procuras, como S. Bruno, os logares solitrios para pensares nas
felicidades do cu?

--Homem, ando a tratar da minha converso e S. Bruno, efectivamente, 
um modlo desejvel.

--E se fizssemos uma jornada mais larga, por sses campos, por essas
amplides? Jlia podia ir tambm...

--Acho o teu alvitre muito digno de ser aceito.

Iam acima chamar Jlia, calar luvas que lhes resguardassem as mos dos
bafos da soalheira e do p custico dos caminhos, e na suavidade
maravilhosa da tarde, rindo, conversando, sensveis ao mais fugidio
eflvio do ar ambiente, metiam pelos atalhos escorregando por entre
sbes que as madre-silvas perfumavam, por azinhagas onde havia repouso e
penumbra, por congostas que os ervaais reverdeciam. A essa hora do dia,
no delquio da luz que principiava, tudo era gracioso, jovial. Dos
casais disseminados pelas terras cultivadas, subiam colunas delgadas e
direitas dum fumo branco, que algodoava o espao. Nas eiras secava o
milho, que lembrava pequeninas bolhas de sol cristalizado. Errantes, nas
pastagens, os bois erguiam um instante a cabea, para os ver passar,
fitando-os com uns grandes olhos de infinita melancolia. Jlia que
marchava  frente, na elegncia dum vestido de tecidos leves que lhe
modelava puramente as formas corpreas, assustava-se, tinha mdo,
soltava pequeninos gritos, acolhia-se  proteco de ambos. A palha do
seu chapu em que, entre laos de veludo negro, destacava a cr
sugestiva de plidas rosas de toucar, fazia-lhe uma sombra doce no rosto
adorvel. Nuno animava-a:

--Que mulher! Que criana! Tem mdo dos bois, que so tam mansos. Oh!
tla! Olha que no fazem mal!...

Frederico ria-se e achava-a encantadora.

Cortavam atravs das pradarias, das lezrias, das veigas, ao acaso, sem
fim. s roupas de Jlia prendiam-se os perfumes dos fenos atravessados,
que as suas saias roavam, as seivas vitalizadoras das ervas esmagadas.
Sentiam uma grande e nobre pacificao interior. O gzo ntimo
emmudecia-os.

--Hein, Frederico? Como isto  diferente da cidade! Era preciso que
conhecesses a aldeia, homem. A aldeia  a verdade--dizia Nuno,
entusiasmado.

Frederico no conhecia a aldeia, com efeito, e nunca imaginara, vendo-a
atravs das janelas de combios lanados a tda a velocidade, que
pudesse seduzir sres civilizados; mas, eis que ela se lhe revelava,
totalmente, por uma feio atraente, que o cativava. Louvava, com
sinceras palavras, a fertilidade dos extensos domnios, que so o
Calvrio da gente humilde e que a sua dor, o seu suor, a sua misria,
fecundam; as casas dos camponeses, duma arquitectura rudimentar; os
milheirais de longas flhas j scas, ondulando e rangendo  aragem; a
pasagem que a luz, fulva e rutilante, espiritualizava, transmitindo-lhe
animao, uma vida quse supersticiosa, insuflando-lhe uma alma. De
quando em quando, Jlia, batendo as palmas de contente, detinha-se para
observar de perto as trepadeiras silvestres que se cobriam de
florescncias cheirosas, e as suas mos, que eram tam lindas, tinham
delicadezas extrmas ao tocarem nas folhagens, nas corolas rescendentes.

--Veja que beleza, Frederico!--convidava ela.

E fazia um ramo que prendia, com alfinetes, na blusa de sda--uma sda
transparente que o tom sadio e casto da sua carne rosava.

A cada momento deparavam vergeis em que os frutos apetitosos
amadureciam. Nos ramos mais altos, as mas cravam ao calor como faces
humanas; as laranjas, no meio das flhas, redondas e amarelas--dum
amarelo brilhante,--ofereciam-se s gulodices. A terra mostrava-se
hospitaleira e generosa, e Frederico, j iniciado, sob o cu que tinha a
meiguice dum amoroso olhar humano, compreendia, enfim, que essa terra,
me piedosa e inexaurvel, comunicasse s criaturas um pouco da sua
bondade clemente, da sua energia vigorosa, inspirando-lhes uma regra
justa da vida. Diante dos casebres pobres, Jlia, compadecida, parava,
contemplando com piedade as crianas rotinhas e sujas que brincavam
pelos portais e pousando-lhes os dedos sbre as cabeas. Elas
fitavam-na, espantadas, com um secreto temor no olhar.

--A vossa me?--perguntava.

--No est c--respondiam elas, com modos agressivos.

Dava-lhes moedas de cobre, amimava-as com essa ternura que s as
mulheres felizes conhecem, enquanto Nuno, enojado da porcaria em que a
gracilidade daquela infncia murchava, dizia:

--Nas aldeias h, de-certo, muita pobreza, muita penria. Mas tambm h
muito desleixo. Oh! senhores, uma tina de gua transformaria em flores
stes pequeninos selvagens!

--Que queres tu, Nuno?--atalhava Jlia, condoda. As desgraadas mes
trabalham um dia inteiro e quando chegam a casa o que querem  repousar.

Vendo-a assim, luminosa, pura e branca no meio das meninices desditosas,
Frederico tinha a viso deslumbrante duma apario celeste baixando do
azul, num vo brando, para consolar aflies, acolher no seu desamparo
as plebes lacrimosas, sarar feridas, suavizar torturas: e cada vez a sua
admirao por Jlia mais crescia. Nela tudo era perfeito, seduo,
perfume, ritmo, claridade: e o encanto que derramava  sua volta
penetrava-o at ao mago da conscincia. Pensando na sua beleza, na
uno da sua bondade, abstraa-se por tal modo que at chegava a
esquecer Nuno, marchando ao seu lado: e era-lhe necessrio fazer um
esfro violento para reentrar na realidade das coisas.

Nestes instantes, analisando-se, espavorido, perguntava a si prprio se
no estaria interessando-se demasiadamente por essa mulher tam digna e
tam cndida que, legtimamente, pertencia ao seu melhor, ao seu nico
amigo. No esprito passava-lhe confusamente a recordao doutros dias j
extintos em que, entre le e Nuno, se fra consolidando uma camaradagem
nunca interrompida; e, por isso mesmo, julgava que a fra secreta que o
impelia para Jlia era uma traio... Uma traio? A esta ideia, ficava
transido de terror e ansiosamente pretendia conhecer a essncia da sua
admirao, da sua simpatia, para ver se nelas surpreenderia qualquer
coisa de impuro: mas, a anlise minuciosa tranqilizava-o. No! No
existia nenhuma impureza no seu sentimento. Amava Jlia santamente, como
amaria uma irm mais nova.

--Em que diabo vais tu a matutar, Frederico?--interrogava Nuno,
intrigado com a sua prolongada mudez.

--Eu? Em nada! A paz rural mergulha-me num estado psquico de tal ordem
que me torna incapaz de sustentar uma conversa. Verdadeiramente, nem sei
o que hei de dizer. Custa-me a articular os vocbulos, a construir as
expresses.

Quando o crepsculo, descendo progressivamente, idealizava as
perspectvas e desdobrava sbre arvoredos, sbre outeiros, pelas
encostas, pelos vales mais fundos, uma sombra e uma nvoa que de
instante para instante se adensavam e gradualmente escureciam,
regressavam a casa, satisfeitos, reconciliados com a natureza que lhes
ofertava alegrias, prazeres nunca experimentados. Jlia, pousando os
ramos de flores silvestres, que sempre trazia das suas digresses pela
campina, corria para o filho, j sadosa da sua inocncia, da sua
formosura. Devorava-o com beijos, acariciava-o com meiguice, mostrava-o,
orgulhosamente, a Nuno, que sorria enlevado, a Frederico, que a fitava
num alheamento. Os _stores_ subidos das janelas deixavam entrar os
derradeiros fulgores da claridade expirante. Lentamente, o cu
embranquecia. Longe, as linhas dos montes tinham enredamentos
complicados que decompunham uma pasagem quse sem realidade,
fantstica, cheia de vago e de mistrio.

--E se tu tocasses alguma coisa antes do jantar, Jlia?--lembrava Nuno.
At nos abria o apetite...

--Pois sim! Que queres que eu toque? Prefere alguma composio,
Frederico? Ou tem horror  msica?

--Eu, minha senhora? Sou um guloso do som...

A delicadeza de Jlia, interrogando-o sbre as suas preferncias
musicais, encantava-o. No seria isto j uma correspondncia da simpatia
fraterna--oh! simplesmente fraterna--que sentia por ela? A suposio
alvoroava-o.

--Que eu toco mal, muito mal. No me julgue uma grande artista. H
dificuldades que nunca me foi possvel vencer. Preciso que me escute com
benevolncia...

--Deixa falar, Frederico.  exmia, por exemplo, em Chopin--nos
_Nocturnos_,--afirmava Nuno.

Jlia, protestando, sentava-se ao piano. O marfim das teclas reluzia
ainda no fulgor indeciso da luz moribunda. O verniz dos mveis perdia o
brilho. A sombra parecia prender-se molemente aos cortinados de renda,
amontoar-se aos cantos: e um _Nocturno_ soluava, em harmonias, sob os
dedos afusados de Jlia, em que as pedras dos aneis chamejavam fogos
mortios. Nuno e Frederico, sentados em poltronas de molas flcidas e
embalados pelo afago da msica, em que vozes ignoradas, vindas de muito
longe, das mais recnditas regies da alma, se lamentavam, narrando a
tristeza das aspiraes nunca alcanadas, os sonhos de amor trados, as
iluses nunca realizadas, fechavam os olhos para mais se absorverem no
segrdo, no mistrio espiritual dessa msica divina que pouco a pouco, e
por influxo da sua beleza, da sua potncia expressional, da sua doura
penetrante, extinguia todos os azedumes, acalmava, pacificava as
imaginaes sobreexcitadas, era como que uma simblica promessa de
aspiraes veementes que haviam de realizar-se e parecia conter em si o
sentido oculto da graa de viver. Fra, na noite silenciosa, a lua
branca e enorme flutuava no cu, entornava o seu luar suave como uma
carcia pelo jardim adormecido, sbre as ramagens dos arvoredos imveis
do parque, alongava as formas, transmitia s coisas inertes quse que
uma emoo.

Na cozinha, em baixo, a vlha Margarida terminava o jantar. O claro
vermelho do lume, que ardia no fogo, irradiava, reflectia-se em cheio
nos cobres e nos metais, que resplandeciam, enquanto dois belos gatos
ingleses, cinzentos e listrados de negro, ronronavam ao calor,
enrodilhados debaixo duma mesa. Depois, o piano calava-se, numa
derradeira vibrao de som: e na tranqilidade que envolvia a vivenda, a
sineta retinia, anunciando festivamente a refeio, que se prolongava
at tarde, entre as conversas.

Muitas vezes, se o tempo corria brandamente e a temperatura convidava,
Frederico e Nuno baixavam ao jardim, fumando e palestrando, ou, com
Jlia, iam sentar-se  varanda, entre as avencas, os ftos arbreos, as
begnias, contemplando a scenografia nocturna, que era surpreendente. Os
campos solitrios, sob o fulgor do luar, repousavam sem um sussurro. Um
lento nevoeiro elevava-se para o alto como uma tnue nuvem de algodo,
esfumando a paisagem. Os casais adormeciam na efuso luminosa,
extenuados da lide diurna. A paz que caa sbre a natureza, como uma
bno de Deus, era infinita e inexprimvel. De instante a instante, a
aragem desprendia das frondes flhas mortas que baixavam vagarosamente,
quse imperceptveis, que se demoravam um momento, no ar, trmulas,
hesitantes como asas de falenas. No seu recolhimento, Jlia dizia, em
voz baixa, para no perturbar o enlvo contemplativo em que os trs se
abismavam:

--Admirvel! Admirvel! S o campo ainda pode oferecer stes
espectculos aos que veem do rudo, da barafunda das cidades!...

O timbre da sua voz, que era muito puro, mais encanto imprimia ao xtase
do Frederico, sentindo que algum muito suavemente lhe falava  alma
para revelar-lhe sensaes nunca experimentadas...

       *       *       *       *       *

Nessa manh, Jlia, que estivera tocando a _Sonata Pattica_, de
Beethoven, descansava ainda os dedos fatigados sbre as teclas, enquanto
Nuno e Frederico, encostados ao peitoril da janela, espreitavam o
parque. Uma criada entrou, de repente, na sala, com o correio. Eram
cartas e jornais, de que les logo se apoderaram para conhecerem o que a
cidade, pela sua imprensa ou pelas suas epstolas, lhes revelaria de
mais importante. Em face da pressa com que ambos correram para a
correspondncia, Jlia riu saborosamente, comentando:

--As grandes aglomeraes ho de ser eternamente tentadoras para os que
um dia habitaram a sua perigosa confuso.

--Porqu?--interrogou Nuno.

--Ora! Ainda perguntas! A ansiedade com que todos os dias esperas o
correio! E dizes que te agradaria ficar aqui, para sempre...

--Viva! Viva!... Sim, senhor!--bradou Frederico, de sbito, concluindo a
leitura duma carta.

--Que , homem?

--Pois,  uma coisa estupenda. Nem podem imaginar!...

--Entrou a revoluo no Vaticano? Foi proclamada a monarquia na Sua?

--Santo Deus, no. sses factos considerveis no me causariam surprsa,
porque ho de dar-se manh, daqui a um ano, a dois sculos... O caso 
ste:--a Alice Trres fugiu ao marido.

--A Alice Trres? Quem diabo  essa Alice?--perguntou Nuno.

--Ora, tu conheces... A Alice, uma loura, casada h dois anos com o
Fernando Trres, que foi nosso condiscpulo na Politcnica e que no
concluiu o curso...

--Ah! sei, sei... Perfeitamente... Agora me lembro. E tu tambm
conheces, Jlia.

Voltaram-se ambos para ela, que ainda se conservava ao piano, muito
crada do pudor melindrado.

--Sim, eu conheo-a...  uma infeliz!

--Infeliz?... No, o nome que ela merece  outro mais violento.

--Oh! Nuno! Jesus!...

--Queres, talvez, desculp-la?

--No! Lamento-a... O seu acto no tem desculpa, mais inspira compaixo.

--O que le inspira, no meu entender,  bengaladas--atalhou Nuno,
brutalmente.

--O que, porm, torna mais reprovvel esta fuga  que o homem que ela
seguiu foi o Vaz de Sousa, o amigo ntimo, a inseparvel sombra do
marido--comentou Frederico.

--O que? Que porcaria  essa?--atalhou Nuno, com furor.

--Exactamente!... Com o Vaz de Sousa. Est aqui a coisa com todos os
pormenores, nesta carta que me escreve o Alfredo de Oliveira.

E, para dar s suas revelaes um ar mais solene e verdico, Frederico
leu alguns trechos menos escabrosos.

--Ouam, que tem graa:--O grande escndalo da semana forneceu-o a
mulher do Fernando Trres, a scismadora dos olhos ideais, que se safou,
com tda a semcerimnia e todo o descaramento, com o Vaz de Sousa,
visita permanente dste curioso ninho conjugal. Simpatia romntica?
Admirao pelo lho lbrico e pela melena do amante? No sei! Mas o
palerma do marido--que nunca percebeu que os dois h muito conjugavam o
verbo ingls _To flirt_--est como uma bicha. H miopias fatais e a de
Fernando foi uma delas... Aqui tens tu!...

Nuno, muito srio e sombrio, cofiava o bigode, enquanto Frederico lia.
Jlia, emmudecida, curvada mais sbre o piano, batia nervosamente com a
ponta da unha sbre um caderno de msicas. O silncio tornava-se
angustiado e embaraoso para os trs.

--Que far agora Fernando?--perguntou, finalmente, Frederico,
levantando-se da cadeira em que estava sentado e dando alguns passos
sbre o tapte.

--No faz nada!--replicou Nuno.  um imbecil e, alm disso,  um
grotesco. Ainda havemos de v-lo, outra vez, muito amigo da mulher,
depois de perdoar  Madalena arrependida. Coitado, tem bom corao, 
inultrapassavelmente cmico e a sua dignidade  uma hiptese...

--Crdo, Nuno!--interveio Jlia. Pois,  l possivel?

--Com ste idiota, tdas as vergonhas so possveis--afirmou scamente.

Ergueu-se tambm, torceu o bigode com fria e depois, de mos nos
bolsos, parando diante de Frederico:

--Se le fsse, na realidade, um homem, sabes o que fazia?

--Procurava uma soluo violenta...

--Tu o disseste... Porque esta traio carecia dum castigo tremendo,
exemplar, moralizador. Portanto, partia atrs dos fugitivos, com um bom
punhal ou uma ba pistola, corria at os encontrar, e, seguidamente,
frio, implacvel como a vingana, abatia-os a tiro como dois animais
malfazejos e imundos, retalhava-lhes as carnes srdidas  punhalada,
molhando bem as mos no sangue culpado, que escorresse das feridas, para
se lavar...

Nuno falava apressadamente, com uma raiva concentrada nos olhos, que
fulguravam. Jlia desconhecia-lhe aquela clera que de sbito irrompera,
costumada como estava a v-lo sempre afvel, sempre terno, cheio de
delicadezas e de tolerncias para tdas as fraquezas humanas.

--No h nada que mais me transtorne, que me perturbe at  loucura, do
que uma deslealdade--explicou le. E neste caso, Frederico, h
deslealdade e h vileza. O corao humano tem abismos de infmia
insondveis...

Jlia levantou-se, pensativa e atribulada. Pensava na doida que um
engano de amor fazia desertar do lar, para perseguir aventuras
ilusrias, obrigando-a a romper com o respeito e a considerao da gente
honesta, com as convenes sociais, a cobrir-se de lama, a preparar por
suas prprias mos um destino que seria doloroso e cruel. Tinha-a
conhecido no colgio, outrora, na mocidade, fra mesmo amiga dela at ao
momento em que a vida as separara. E compadecida com aquele
desvairamento, encontrava na sua bondade e na sua pureza um sentimento
para atenuar a sua culpa.

--Vais-te?--inquiriu Nuno.

--Tenho tanto que fazer, filho!--respondeu ela.

Nuno e Frederico ficaram ss, no salo que a luz, entrando pelas
vidraas descidas, alegrava. Sentaram-se em frente um do outro, reatando
a conversa momentneamente interrompida.

--Ela era uma cabea no ar--dizia Frederico. E o ludibriado no valia
mais do que a mulher.

--Todos os maridos--retorquiu Nuno com rancor--teem as mulheres que
merecem; e sse Fernandete, j depois de casado, continuava uma
existncia de devassides. Ora, o casamento  um acto de
responsabilidade que deve confinar-se na fidelidade mtua dos cnjuges.
Fra dstes limites de dignidade e de nobreza, transforma-se numa
misria. Mas o que me indigna no  a fuga da adltera. Caso banal...
Ocorre constantemente... E muitas vezes, mesmo, pode at justificar-se.

--Ento que ?

--Mais desprezvel do que Alice e do que Fernando  sse Vaz de Sousa,
abusando duma estreita amizade e da entrada num lar que o recebia
confiadamente, para praticar as suas odiosas faanhas...

--Sim, com efeito!...--aprovou Frederico.

-- reles,  dissolvente de tda a moral.

E puxando mais a sua cadeira para junto do amigo, para que s le o
ouvisse nas confidncias que ia fazer-lhe, Nuno continuou:

--O primeiro dever do homem justo  saber defender integralmente a
sinceridade dos seus afectos--porque para isso pensa--e saber dominar o
impulso das suas paixes bestiais--porque para isso difere dos brutos e
tem uma conscincia. Posso falar assim, porque j tive de repelir
speramente dos braos a espsa dum conhecido--um simples conhecido,
nota!--que por fra queria enxovalhar o marido comigo.

--E quem era essa interessante dama?

--Perdoa-me. No to digo--afirmou Nuno com energia.

--Desculpa-me... A minha curiosidade , na verdade, irreflectida...

--Foi no ltimo ano do nosso curso... Nunca te falei nisto, por
dignidade, porque me rebaixaria. H coisas que sujam... Mas, o mais
pitoresco  que sse marido e essa dama se transformaram, mais tarde, em
meus inimigos irreconciliveis!... No  encantador?... Embora! Ainda
hoje me louvo por esta aco, que  uma das mais belas da minha vida,
Frederico!...

--Efectivamente, h beleza, h coragem, h herosmo nela. S conheo um
acontecimento semelhante na Histria Sagrada--riu Frederico.

--Tu, que s justo e que s leal, v isto:--Mete a gente, ingnuamente,
na sua casa um homem que nos merece a maior confiana, para quem vai a
nossa dedicao, tda a nossa afectividade. E desde o primeiro dia em
que l entra, sse homem, sse amigo certo, comea a observar que a
nossa espsa  bonita e apetitosa, que deve ser tentador o sabor dos
seus beijos e doce a palpitao da sua ternura. Como goza de favores que
s se concedem s pessoas que verdadeiramente se estimam, h para le as
maiores deferncias. Surgem as ocasies propcias  traio, veem as
intimidades, as fraquezas da mulher confiante. Diz-se-lhe uma palavra
mais ousada, que lhe melindra a candura, mas que a no faz protestar. A
sua passividade d coragem ao sedutor para levar mais longe a audcia.
Depois, ambos cmplices no crime premeditado, encontram nle
solicitaes cada vez mais fortes. So os sustos perto do marido que se
engana abominvelmente, a suspeita de que le venha a descobrir tudo e
se vingue, os olhares medrosos que se trocam. Por fim, chega-se  quda
irremedivel, a maior injria com que se pode humilhar uma criatura. E
de quem parte essa injria? Duma pessoa indiferente ao nosso sentimento,
alheia aos nossos intersses morais,  nossa alma? De modo algum! Parte
dum amigo!...

-- horrivel, na verdade!--asseverou Frederico.

-- pavoroso!

--Mas, sabes o que eu ainda no consegui entender bem, Nuno? Pois, 
isto. Nos casos de adultrio em que a mulher prevarica, as ironias
insultantes da multido vo para o marido. Para a prevaricadora existem
a piedade e a absolvio!...

--Iniquidades sociais. A turba-multa  sempre impulsiva, injusta, no
raciocina, no procura ser equitativa nos seus juzos... Mas, por isso
mesmo, os trados teem de desafrontar-se com a maior ferocidade. Eu, no
logar de Fernando, matava-os! Matava-os, trucidava-os, despedaava-os
como bstas feras!...--concluiu Nuno, rilhando os dentes de furor.

Jlia, surgindo imprevistamente, veio surpreend-los ainda no comentrio
fatigante daquele escndalo clamoroso, que punha uma sombra mais negra
na fisionomia de Nuno e que no deixava expandir livremente a
jovialidade de Frederico.

--Ento, aqui fechados, com um dia que  uma delcia, um verdadeiro dia
de rosas?--exclamou ela, com uma extraordinria animao no rosto.

--Tens razo! sse animal do Trres, com as suas infelicidades caseiras,
veio estragar a nossa paz de esprito--murmurou Nuno. Queres ir at l
abaixo, ao fundo da quinta, onde trago obras importantes na habitao do
caseiro, Frederico?  uma diverso que nos h de fazer bem!...

--No! Se mo permites, aproveito o tempo para pr em ordem uma
correspondncia atrasada e desordenada. Olha que estou aqui, na tua
hospitaleira vivenda, h duas semanas e ainda no respondi a ningum!
Quem sabe se me julgaro morto ou exilado?

--Bem! Ento vou eu. Cumpre os teus deveres de bisbilhotice.

--E eu acompanho-te, Nuno--acudiu Jlia.

--Tu? Mas  admirvel a companhia. O prncipe e a princesa passaro as
horas fazendo _le tour du proprietaire_ e oferecendo-se  venerao dos
seus sbditos, dos seus vassalos, dos seus escravos... Ento, de-pressa!
Vem da.

--Ando h tanto tempo para ir ver essa pobre gente, essa entrevada de
quem me falaste, essas crianas desgraadas...--disse Jlia, comovida.

--_Au revoir_, Frederico. E s prolixo, homem... Olha...

Curvou-se ao ouvido do amigo, murmurou qualquer coisa que Jlia no pde
perceber, e riram ambos com alacridade. Descendo a escada, atrs da
espsa, Nuno ainda ria, jovialmente, enquanto Frederico se encerrava no
escritrio, diante dum tinteiro, de cadernos de papel de cartas e duma
jarra com rosas frescas que Jlia tdas as manhs renovava para que ali
houvesse continuamente graa, cr e perfume.

Sbre a escrivaninha de pau preto com ferragens amarelas e polidas que
refulgiam, brilhavam no banho fluido da claridade envolvente, havia um
soberbo retrato de Jlia, representando-a vestida de baile, em corpo
inteiro. A sua beleza, a-pesar-de morta na fotografia, tinira uma pureza
de linhas, uma opulncia de contornos, um relvo, um esplendor
indizveis. O decote deixava a descoberto o princpio do seio, que era
redondo e farto; o pescoo, desafogado da espuma das rendas, exibia uma
elegncia e uma nitidez impecvel de modelao, tendo a gracilidade e o
movimento de certos caules de flores, ondulando  aragem. Uma expresso
de felicidade sem nuvens animava todo o seu rosto; e uma grande rosa
prendia-se  _corsage_. Frederico esteve contemplando o retrato um
instante, perdido em vagas meditaes. Como ela era graciosa e divina,
efectivamente! Os seus olhos tinham um encanto virginal ainda--um
encanto que as lgrimas no haviam queimado. De tda ela se exalavam,
imperceptivelmente, a castidade, a seduo, a ternura. A casa estava
impregnada da sua personalidade, da sua virtude, do seu enlvo. Jlia
era a ba deusa familiar que enchia, com a sua alma, com a sua dedicao
de mulher, com a sua abnegao, com o reflexo da sua formosura, aquela
habitao em que um amor tam nobre vivia e se esquecia dos males da
existncia. E Frederico via-a sorrir ao lado de Nuno, mais presa do que
nunca  sua paixo, suavizando-lhe os dias, acalmando-lhe as
inquietaes, assistindo  formao das suas vontades, dos seus desejos,
das suas ideias, para imediatamente obedecer-lhe, oferecendo-lhe a bca
num beijo. Experimentava uma inexprimvel consolao interior, pensando
nela...

Ao mesmo tempo, e sem saber porqu, acudia-lhe  memria a clera
tempestuosa de Nuno, quando soube da fuga da mulher de Fernando Trres
com o outro--uma clera que se adensava no olhar, que ardia, que
coriscava, que chamejava... Os dois amantes iriam agora, entregues ao
ardor da sua volpia pecaminosa, impura, talvez para as cidades
estrangeiras onde melhor pudessem ocultar-se, na embriaguez dum gzo que
dura apenas um fugaz minuto e com que a desgraa fabrica a dor, que 
eterna. Mas ao menos, considerava Frederico, seriam felizes. A si mesmo
perguntava se sse minuto, de que restaria uma perdurvel recordao,
no constituir a felicidade duma vida, de duas vidas inteiras...

Para fugir ao curso mrbido das suas lucubraes, Frederico levantou-se,
aproximou-se da janela, na ponta dos ps, como se temesse que o
sentissem. Na radiao loura da manh, uma alegria esparsa flutuava
sbre as coisas. De baixo, do jardim, subia um arma adocicado. Nuno e a
espsa, de brao dado como dois namorados, afastavam-se ao longe,
atravs dos arvoredos do parque. Por entre os troncos musgosos alvejava
a brancura do vestido de Jlia--brancura que ficava pairando no ar
macio... Frederico voltou a sentar-se. Uma grande, confusa tristeza
abatia-se sbre o seu corao...




IV


As primeiras manhs de setembro tinham chegado. Emigravam as andorinhas
e as rlas bravas e no ar luminoso errava a melancolia vaga dum outono
prximo. Grandes nortadas sopravam rijamente, levando atravs do espao
densas nuvens de poeira. Pelos arvoredos do parque, na meia tinta de
luz, amareleciam as folhagens: e os crepsculos, tendo ainda, no
horizonte, reverbaraes imensas, eram j um pouco hmidos. Havia, por
vezes, cus brumosos que davam indeterminados longes  paisagem,
tocando-a de lentos nevoeiros.

Durante todo o tempo que Frederico passara na quinta afastado da
variedade e dos tumultos da vida citadina, estabelecera-se entre le e
Jlia uma estreita intimidade afectiva que mais gratas tornava as horas
doces que de contnuo fugiam. Nuno andava inteiramente ocupado com as
alteraes a que mandara proceder nas dependncias habitadas pelo
caseiro, para que nelas houvesse mais confrto e mais higiene.
Interessava-o, afinal, o pobre cavador que envelhecera precocemente, nas
dolorosas labutas da terra, vendo crescer  sua volta outras vidas
louras, frescas e inocentes, tambm condenadas  escravido da gleba, e
enchera-o de piedade a misria da entrevada que no seu leito, escasso de
roupas, tinha um riso de resignao, absolutamente conformada com o
destino. Mesmo enfrma, enquanto o homem, o bom Mateus, se extenuava de
sol a sol, segurando entre as mos calejadas e firmes a rabia do arado
que rasgava o seio da leiva, para fertiliz-la, ou espalhando no hmus
revolvido as fecundas sementes que germinariam nas abundantes searas,
remendava as roupas e dirigia o _mnage_.

--A-pesar-de doentinha--dizia uma vez o caseiro a Nuno--ainda  uma
ajuda. Deus ma conserve mesmo assim, porque se morresse fazia-me grande
falta...

De quando em quando Nuno, comovido, abria vagarosamente a porta cerrada,
para a ver, para lhe falar. Jlia, com a sua bondade, melhorara muito a
sorte da paraltica, rodeando-a de bem-estar, mandando-lhe todos os dias
um alimento mais apetitoso e nutritivo: e ela, grata a estas
delicadezas, no se cansava de louvar, nas suas oraes ardentes, os
bons senhores que ao seu lar desditoso haviam levado uma clara luz de
alegria.

--Ento, como vai hoje, snr.^a Teresa? Melhorsinha, no 
assim?--perguntava-lhe Nuno.

--Para aqui estou  espera da minha hora! Pois, como hei de estar, se 
esta a vontade de Deus?... E curtidinha de padecimentos!--respondia ela,
com um fundo suspiro.

Mas logo, no seu rosto macerado e plido se iluminava a claridade dum
sorriso.

--E a senhora e o menino?--interrogava a doente.

--Esto esplndidos. No h mal que lhes chegue, neste paraso. les
qualquer dia por a voltam a aparecer.

--Ai! Deus os guie, que bem o merecem!...

Nuno, que no queria que  roda da sua felicidade existisse gente
desgraada, ordenou a construo duma casa nova ao lado da
primitiva--que se esboroava de vetustez e que vinha dos tempos
longnquos em que os seus antepassados tinham adquirido aquela
propriedade que constitua a parte mais vasta dos seus domnios
territoriais. Alargara os estbulos para o gado, dera maior amplitude ao
alpendre e  eira e procurara longe, na encosta dos montes que ficavam
ao fundo da quinta, um mais farto veio de gua de rega, canalizando-o,
com argamassa e pedra, para as terras alugadas ao tio Mateus, que
resplandecia de contentamento e que murmurava, com a face jubilosa e
enrugada em que as barbas crespas encaneciam:

--Isto  o poder do mundo! As colheitas futuras ho de encher-me
celeiros e tulhas!...

--Est contente?--inquiria Nuno.

--Ora! se estou contente!... Pois, o patro faz um milagre destes e
ainda me baixa a renda! Que hei de querer mais?

O caseiro, na sua gratido, comparava a generosidade do amo com a secura
do procurador, um unhas de fome que nunca lhe atendia as mnimas
reclamaes, que nem sequer lhe mandava concertar o telhado por onde,
nos invernos agrestes, entrava a gua das chuvas, e que, nos anos
hostis, no lhe perdoava um ceitil.

--Se quereis conhecer o vilo metei-lhe a vara na mo--dizia o tio
Mateus, lembrando-se dsse homem de expresso dura e corao empedernido
que um ms antes do pagamento do aluguer, o procurava, exclamando:

--Olhe que  daqui a trinta dias. Previno-o, para que no venha depois
com desculpas.

Agora, merc da magnanimidade de Nuno, a esperana renascia na alma do
lutador destroado que, durante uma longa existncia, em vo se
afadigara para que nas suas arcas o po fsse mais farto e que a vida
amarga vencera, acabrunhando-o de tristeza. E sse renascimento
palpitava por tda a parte, nos vergeis, nas hortas, que eram mais
viosas, nos espritos humildes, que adquiriam maior confiana!

Entregue ao entusiasmo das suas ocupaes de proprietrio rural, Nuno,
em certas manhs, abalava logo depois de almo, de charuto aceso e uma
cr de sade na face mscula, para vigiar os trabalhos. Esta actividade
nova tinha para le um grato sabor. A princpio, Frederico
acompanhava-o, interessando-se tambm por uma lide que desconhecia.
Depois, porm, enfadou-se: e, sempre que o amigo o convidava para ir at
ao fim da quinta, sse enfado acentuava-se, reflectindo-se-lhe no rosto
desconsolado. Acabou por desculpar-se, dizendo-lhe:

--No! Eu fico, se a minha companhia te no  indispensvel.

--Pois fica, homem. Fica e dorme!

--Eis um ideal que me encanta, Nuno. Sempre tive as melhores disposies
para o sono.

Ento, Frederico, penetrado pela quebreira que amolecia o ar, descia ao
parque, escolhia um recanto de sombra e l se demorava lendo um romance
ou evocando as suas recordaes e pensando no caso passional que o
trazia inquieto. O calor, a irradiao crua do sol, faziam pesar mais o
silncio. A atmosfera resplandecia, tinha uma vibrao especial no
esplendor matutino da claridade. At ao seu isolamento chegavam o chiar
dos carros de bois, vergando sob a carga e atravessando os caminhos
desertos, a cantiga idlica dum pastor distante, o sussurro das
folhagens estremecendo ao vento, sbre a sua cabea. Em certos
instantes, repousando das fadigas caseiras, Jlia, ao piano, tocava uma
pgina musical que embalava suavemente a solitude. O sol saa em ondas
pelas janelas abertas aos eflvios do jardim--e a msica, nesta solido
inspiradora, adquiria maior seduo e beleza. Frederico, pousando o
romance, analisava o estado particular dos seus nervos. Uma grande,
inexplicvel lassido prostrava-o. Sentia-se incapaz dum mais vivo
esfro de reflexo, dum metdico exame da sua sensibilidade.
Parecia-lhe que estava fra da sua personalidade psquica: a realidade
exterior produzia-lhe uma bizarra alucinao que o transtornava; mas,
neste sobressalto intimo havia, alternadamente, certos fulgores de
pensamento, relmpagos de inteligncia, que lhe aumentavam a angstia e
a opresso interior. Um elemento estranho, tendo qualquer coisa de
violento, de obscuro e de ntido, conjuntamente, invadia-o e
perturbava-o. A imagem de Jlia acudia-lhe, sem repouso,  imaginao--e
notava que essa imagem era muito diferente da mulher que le conhecia,
da espsa encantadora e virtuosa de Nuno, Atribua ste fenmeno
desconcertante a uma singularidade do seu organismo enfrmo. Monologava,
atribulado:

--Eu estarei doente, na verdade? Doente de esprito e de corpo?

Como os dias que ia vivendo, no meio duma confuso e duma agitao que
lhe no davam trguas, eram diversos dos que, dois meses antes, tinha
passado naquele refgio em que Nuno se abrigara com a sua ventura
conjugal imensa! Ento, tudo era paz, enlvo, serenidade no seu corao,
lucidez no seu crebro. Compreendia mais fcilmente o espectculo que o
cercava; era mais acessvel  bondade e  beleza; convalescia, sarava,
uma esperana floria no seu scepticismo, e o calor dos afectos
experimentados fundia dentro de si tda a frieza e todo o egosmo. E
agora, no! A tranquilidade emotiva dos primeiros dias perdera-se
completamente. Um agente mrbido, qualquer provocava nle, de-certo,
alteraes profundas, transformava-o num sr humano que o seu prprio
sentido ignorava. Que doena seria essa? Fsica ou espiritual? E se
fsse espiritual, proviria da influncia duma luz sbita, revelando aos
seus olhos uma felicidade possvel, ou da suspeita duma dor inevitavel?
Frederico fazia estas interrogaes a si prprio, sem encontrar uma
resposta que o esclarecesse. No entanto, observando-se minuciosamente,
era ditoso pensando em Jlia--e ste sentimento, ao mesmo tempo que o
iluminava interiormente, gelava-o de terror, como se representasse um
perigo imediato, uma catstrofe de que no pudesse j desviar-se. Ela
era a companheira purificada e terna de Nuno, via-a ao lado do marido
imersa na ventura que le lhe oferecia, como uma flor imersa em aroma,
surpreendia-os a cada passo beijando-se com transporte, apertando-se no
mesmo abrao, peito contra peito, face contra face, para mais
intensamente sentirem a pulsao dos coraes. Frederico, absorvendo-se
em ideias de que no conseguia emancipar-se e que eram a sua permanente
obsesso, em sensaes que o no abandonavam, ao estudar a sua
psicologia com pavor de chegar a alguma concluso que o aterrasse,
murmurava, para se iludir:

--Verdadeiramente, no a amo com um amor fsico. Sou-lhe apenas grato
pelo encanto que me transmite e devo-lhe um reconhecimento moral a que
no quero fugir.

Concentrando-se, calculava as consequncias que uma adorao menos pura
por Jlia provocaria fatalmente. Via-se perto de Nuno, escondendo, como
um remorso ou como um crime, essa adorao que nunca revelaria e que lhe
roeria a alma como os vermes roem os frutos podres, quando le, com uma
lealdade que se lhe espelhasse nos olhos e com uma amizade consolidada
por longos anos de dedicao, lhe confessasse o reconhecimento que
consagrava a Jlia, a claridade, o perfume, a graa que lhe trouxera a
vida, a ba fortuna que nela--na sua pureza, na sua beleza, na sua
devoo--encontrara; e, raciocinando assim, como se admitisse a
duplicidade do seu afecto por Nuno e do seu amor por Jlia, considerava
que seria infinitamente desgraado. Tinha mdo dum tal desfecho: e, para
se libertar de cogitaes dolorosas, tentava esquecer, espairecer,
distrair-se. Levantava-se, corria o parque a largos passos, sacudia com
as mos nervosas os arbustos floridos, fazendo cair nos musgos do cho
um luminoso e colorido orvalho de ptalas, monologando:

--Ah! no, que horror! No sinto ainda por Jlia uma paixo sensual, no
a desejo pela carne, no me impele para ela um fogo impuro, uma fra
abominvel. Quando essa paixo chegar--se  que ela tem de vir--saberei
ser enrgico, hei de dominar-me, fugir, esquecer...

Por nada traria Nuno, abusando da sua hospitalidade tam carinhosa e tam
franca. No queria imitar Vaz de Sousa; no mancharia, com uma
inapagvel mcula, a santidade daquele lar; no toldaria a pacificao
daquela morada em que se agasalhavam sentimentos perfeitos j abenoados
por uma inocncia anglica; no conturbaria a limpidez da sua
afectividade fraterna com um punhado de lama e de vileza. Era um homem,
um consciente, possua uma dignidade, uma irredutvel inteireza de
carcter. De resto, Jlia, que aos dons da sua formosura aliava os dons
mais nobres e elevados duma dedicao admirvel, seria a primeira a
repeli-lo com indignao, a execr-lo, intimando Nuno a p-lo fra da
porta como um ladro que ali penetrasse para roubar uma felicidade que
s a ela pertencia. E o amigo, sabendo de tudo, iria para le com uma
clera que a imensidade da traio praticada mais avolumasse,
ferozmente, as mos crispadas, os dentes rilhados, o desvairamento
homicida fulgurando nos olhos... No era, de-certo, o temor que o fazia
retroceder. Nunca fra timorato. O que o assustava mais era a torpeza
moral em que se afundaria para sempre.

--Quantos disparates a minha fantasia enfermia arquitecta!--diria
Frederico, zombando foradamente.

Com efeito, o irremedivel no se interpusera, por enquanto, entre le,
Nuno e Jlia. Podia estar absolutamente tranqilo, sem crar da
perversidade duma aco que nem sequer se esboava. Mas que infortnio,
o seu! O ardor dos sentidos conduzira-o a uma situao alarmante que j
o fazia sofrer com amarga crueldade. Entrando naquela habitao, pela
primeira vez, julgou que vinha encontrar o sossgo de esprito, a
calmaria, o repouso da alma: e, afinal, apenas encontrara uma angstia
maior, uma tortura mais lancinante! Como se operara no seu ser uma
transformao de tal ordem? O convvio de tdas as horas, a ambio duma
ternura igual quela, o renascimento de iluses que julgava extintas,
deprimiram-no, certamente; o encanto que da formosura e da pureza de
Jlia irradiava, penetrava-o subtilmente, contra a sua vontade, contra o
seu veemente desejo. Era le, porventura, culpado desta fatalidade?
Podia ser acusado com eqidade e justia, pela conscincia e pela
inteligncia que lhe formavam a individualidade psicolgica e mental?
De-certo que no! ste subterfgio apaziguava-o...

Continuava o passeio ou entregava-se, mais calmo,  leitura, olhando a
vida por aspectos menos carregados. Se Nuno se demorava, ocupado pelos
trabalhos que andava dirigindo, Jlia descia tambm, um momento, ao
parque, graciosa, adorvel de beleza e de simplicidade. Frederico via-a
avanar, com o corao pulsando desordenadamente, o sangue circulando
com mais pressa nas veias e uma grande palidez no rosto. O busto de
Jlia modelava-se ntidamente na leveza e na frescura duma blusa de sda
branca, deixando-lhe a descoberto o pescoo redondo, fino e alto, o
princpio do colo, em que a pele se dourava  luz, uma parte dos braos
que emergiam, admirvelmente contornados, da espuma de rendas das
mangas: e isto provocava uma atraco irresistvel, tornava mais spera
a sua nsia. Jlia, avistando-o, ia para le naturalmente, sem acelerar
mais os passos que obedeciam ao ritmo sempre igual dos seus movimentos,
falava-lhe:

--Ento, para aqui s, aborrecendo-se mortalmente?...

--Oh! minha senhora, que ideia!

--Nuno sempre tem um modo de compreender a hospedagem!...

--Mas, se fui eu que no quis acompanh-lo!... Hoje, apetece-me o
isolamento.

--Tem, talvez, conversas com os espectros das suas sadades...

--No. Sou um esquecido do destino, um abandonado da prpria sadade.
Ningum se interessa, por mim!

--Ningum?--interrogava Jlia, risonha e duvidosa.

--Ningum...!--afirmava Frederico, fitando-a.

Mas arrependia-se imediatamente da fixdez com que a olhava, no receio
de cometer alguma grosseria que a magoasse, no susto de que o seu olhar
revelasse coisas que le nem sequer se atrevia a formular, no confuso
turbilho dos seus sentimentos--e muito perturbado, desviava a vista.

--Creio eu l nisso!--acrescentava ela.

Numa destas ocasies, perigosas para a serenidade de Frederico, Jlia
sentou-se num outro banco, perto dle, quis saber que livro lia, quais
eram as suas leituras predilectas: e Frederico respondeu com um riso a
que pretendia imprimir naturalidade:

--As minhas leituras predilectas so as biografias, a correspondncia
dos grandes homens, as obras de psicologia.

--Porqu, porqu?

--Porque me interessam as almas superiores...

Jlia pegou no volume que Frederico folheava, viu o ttulo.

--Em todo o caso, l tambm romances!...

--Nos romances, h ainda almas, minha senhora...

--De que trata ste?

--Dum amor infeliz, dum amor que nunca se confessou, e que era
incomparvel de elevao, de fervor, de constncia...

--Bem sei! Dum amor absurdo, dum amor que apenas existe na emoo e na
ideia dos artistas... Um grande e puro amor confessa-se sempre.

--Sempre?... Eis um belo rro!

--Ora essa! rro?... No compreendo...

Para se furtar a um dilogo em que, irreflectidamente, podia trar-se,
Frederico deu novo rumo  conversao.

--A uma mulher  que nunca se deve perguntar quais so os livros da sua
preferncia, snr.^a D. Jlia.

--No sei porque no. Olhe, eu digo-lhe j o que prefiro, em
literatura:--so os poetas lricos.

--No se deve fazer uma tal pergunta indiscreta s senhoras, porque na
seleco das leituras os espritos femininos revelam-se.

--Ah!--atalhava Jlia. No sabia!...

E os seus olhos negros e imensos, banhados por um claro-escuro hmido e
misterioso, pousaram-se vagamente em Frederico, parecendo contemplar
aparies inefveis, longnquas, imprecisas.

--Talvez haja alguma verdade no que diz--exclamou ela.

--Creio que h tda a verdade...

De repente, levantou-se, pousou o livro, murmurou:

--Nuno demora-se tanto!...

E sorrindo, com um enlvo maior na voz, uma gracilidade mais animada nos
gestos:

--Coitado! Anda todo apaixonado por uma obra de generosidade e de
misericrdia.  um santo. A misria da famlia do caseiro atormentou-o.

--Um corao de ouro!--concordava Frederico.

--No  verdade?--atalhou ela, tda interessada e com o reflexo dum
grande contentamento na fisionomia.

--Um corao de ouro!--repetiu Frederico, pondo nas suas palavras a
convico e a sinceridade--uma alma como poucas existem!...

Jlia agradeceu-lhe com um olhar infnitamente meigo aquele justo louvor
ao marido e disse afectuosamente:

--Vou at l acima... Acompanha-me ou ainda fica por aqui, pelas
espessuras, como um namorado, com as suas lembranas?

--Ainda fico, minha senhora, mas s, sem recordaes, uno e indivisvel,
em corpo e em alma.

Soltando uma gargalhada, Jlia afastou-se vagarosamente, colhendo uma ou
outra flor no caminho, cantando entre dentes, voltando-se ainda para
trs e rindo sempre; e Frederico, seguindo-a com a vista, notava que
junto dela, respirando o mesmo ar, o envolvia a carcia dum ambiente em
que a brisa tpida e odorfera como que emanava a vaporizao duma
volpia tda esperitual em que no havia nenhuma instigao inferior da
animalidade, da substncia, do sangue, dos nervos. A notao fina desta
particularidade tranqilizava-o. Ah! admirava profundamente a mulher de
Nuno, mas apenas porque, entre a fealdade moral da sociedade que
conhecia de perto, Jlia era um dsses raros seres dispondo do condo de
reconciliarem com a espcie o homem de temperamento sensvel...

Neste devaneio infindvel, as horas corriam ligeiras, a tarde baixava,
um arrepio friorento passava no parque, entre os troncos, fazia tremer
as flhas pendentes. O azul, alto e brilhante, empalidecia: e Nuno,
voltando das obras, com a roupa em desalinho, despenteado, as mos
cheias de terra, veio encontr-lo ainda sentado no banco, meditando.

--Cheio de tdio, hein? Mas a culpa  tua, Frederico!--gritou le,
surgindo, de repente, do meio das rvores.

E contou-lhe ento, com entusiasmo, como fra ocupado e frtil em
resultados o seu dia, a sua actividade junto dos pedreiros e dos
carpinteiros, dando ordens, fornecendo indicaes, esboando projectos
de trabalhos mais vastos, pedindo esclarecimentos ao vlho Mateus sbre
a lida agrcola. At, para se exercitar, para desemperrar as
articulaes, tirara a enxada ao caseiro e cavara um bom bocado!
Mostrava as botas enlameadas, as mos vermelhas do exerccio violento.
Frederico, ouvindo-o e como se regressasse das regies longnquas,
irreais, por onde andara com a sua fantasia, atalhou:

--Pretenders tu fazer-te lavrador tambm?

--E porque no?--replicou Nuno, muito srio.

--Homem, isso  ainda literatura, poesia rural  maneira das
_Gergicas_...

Mas Nuno protestava, afirmava que ia pensando, realmente, em dedicar 
lavoura a sua existncia improdutiva, sendo assim til a si, aos seus, 
colectividade, empregando novos processos de cultura que duplicariam a
fecundidade da terra, fazendo experincias em que constantemente pensava
desde que se instalara na quinta.

--Porque, sabes tu? Os nossos agricultores seguem fielmente o caminho
trilhado por uma rotina secular. No querem afastar-se dle, desdenhando
as inovaes que, com menos dispndio de fras, aumentariam a produo
e ofereceriam ptimas compensaes.

--Santo Deus, como vais de-pressa!--contrariou Frederico. Mas isso  a
multiplicao dos pes de que nos fala uma doce pgina da Bblia. A
multiplicao dos pes? Que digo eu? Trata-se dum milagre, mais
considervel. Chegas, da cidade, vestido como um _dandy_, nada sabes de
agricultura, ignoras mesmo como se produz a torrada que comes ao almo,
com manteiga, mas isso que importa? Tens audcia para tudo! Pegas num
punhado de trigo, ao levantar do leito, tomas o teu caf, fumas o teu
charuto...

--No rias, Frederico! Olha que comeou, na verdade, para mim, uma vida
nova...

--Espera, deixa-me acabar!... Espalhas sse punhado de trigo ao raiar da
manh. Ao meio-dia, uma enorme messe de louras espigas ondula j 
aragem, como um mar de ouro fsco.  tarde, chamas os ceifeiros, fazes a
colheita e enches um celeiro!...  como nos contos do fadas...

-- Bem! No h maneira de nos entendermos--concluiu Nuno. Vamos jantar.
Isso  debilidade... A fraqueza excita o teu delrio.

Atravessando os arruamentos da floresta, que escureciam, o jardim, que
rescendia, Frederico ainda satirizava as intenes de Nuno, afirmando:

--Se, na realidade, pensas em fazer-te lavrador, em te consagrares 
terra, ento sempre te digo que h tdas as probabilidades de que venhas
a arrunar-te...

--Arrunar-me?

--No tenhas dvidas! Um simples po, que podes comprar por um vintm em
qualquer padaria, agricultado por ti, com mquinas para arar a leira,
mquinas para ceifar o trigo, mquinas para a debulha, adubos qumicos,
outras coisas requintadas e modernas, vir a ficar-te por cinto tostes,
o que , na realidade, barato, no te parece?

Entraram em casa, conversando e rindo. C fra, ao ar livre, anoitecia.
O ocaso, com sua tristeza elegaca e o vago das suas sombras, descia
apressadamente. As ramagens dos arvoredos imobilizavam-se na atmosfera.
Uma nvoa tnue subia da terra para o alto. Das coisas inertes parecia
elevar-se um confuso mrmurio que fsse como que a confisso da natureza
para Deus. As criadas acendiam as luzes, na vivenda, e as vidraas
lampejavam batidas por um sbito, inesperado fulgor de ouro. Nuno e
Frederico lavaram-se, vestiram-se para o jantar, aparecendo na sala j
quando os esperava Jlia--e a palestra reatou-se:

--Pois, minha senhora, dou-lhe os parabens!--exclamou Frederico,
sentando-se.

--Parabens, porqu?--interrogou ela.

--Nuno est decidido a integrar-se na simplicidade e na lavoura.  bem
provvel que esta habitao mundana venha a transformar-se em herdade,
brevemente.

--Est hoje impossvel, Jlia!--retorquiu Nuno. No compreende que um
janota como eu venha a ser um agricultor razovel, a fixar-se aqui
definitivamente, a despir-se de todo o artifcio por amor 
naturalidade.

--Ouve-o?  a renovao que comea. Teremos em Nuno, dentro de pouco, o
Jorge Brumell das colheitas.

--E porque no? Porque no?--perguntou Jlia, olhando demoradamente o
marido.

--Tambm V. Ex.^a?... Belo! J est convertida. A coisa  mais
importante e profunda do que eu julgava. Assisti, neste lar afvel, ao
nascimento duma religio nova...

A conversao alegrava-se, sob o reflexo da claridade que fazia
relampejar as pratas, scintilar os cristais, alvejar mais puramente os
linhos e brilhar com maior nitidez o verniz dos mveis e a colorao das
flores que morriam nos solitrios. A serenidade em que a vivenda
adormecia era tanta que se ouviam os menores rudos. A criada que servia
 mesa, no seu severo vestido preto com punhos e gola de bretanha
gomada, ia e vinha sbre a alcatifa do corredor longo, em passos
apressados e midos. Da cozinha chegava o rumor das palestras e da loua
que se entrechocava. Ces latiam ao longe, pelos casais silenciosos. De
vez em quando, o som duma viola passando para os seres ou para as
desfolhadas nas eiras, sob a lua branca, poetizava, bucolizava a
solido...

No fim do jantar, Jlia levantou-se, estendendo a face a Nuno para o
beijo costumado e apertando a mo de Frederico, para tratar da refeio
dos servos. Os dois conservaram-se ainda sentados, fumando e
divagando...

Depois, no seu quarto Frederico, sentindo um desalento inexprmivel
pesar mais duramente  sua volta, na imensa melancolia dos ideais
falhados, no desespro da ansiedade que o devorava e da incerteza que o
consumia, reencetou as suas lucubraes, sentando-se numa poltrona e
deixando correr as infindveis horas de pacificao exterior. O que
agora temia era que nle se viesse a dar o violento conflito do esprito
e do instinto, perto de Jlia--o que seria um suplcio que mais lhe
atribularia a amargura de viver. Observava que j ao lado de Nuno no
estava bem, que temia o desconhecido, que experimentava um
constrangimento inexplicvel. E porqu? De-certo que o amigo tinha para
le as mesmas delicadezas, as mesmas atenes, a mesma inefvel
simpatia; mas bastava que Nuno o fixasse mais detidamente para que logo
julgasse que o seu olhar penetrante pretendia expi-lo, ler-lhe na alma
surpreender os sentimentos impuros que l se geravam. Suspeitaria
dalguma coisa? Teria Frederico deixado adivinhar o seu drama, por uma
frase impensada, por uma palavra mais ardente de louvar a Jlia, por um
estremecimento de paixo irreprimvel que pusesse Nuno de sbre-aviso?
No! Claramente, no! Tdas as suas dvidas nada mais representavam do
que uma perverso da sensibilidade nervosa, uma alucinao dos
sentidos...

Ainda no sabia se amava Jlia--porque tinha mdo de interrogar-se; se a
desejava carnalmente; se a admirao que lhe dedicava era de essncia
espiritual ou sensual: mas se, com efeito, era maior a perturbao que o
alvoroava, ningum--nem le mesmo--conheceria sse amor insensato, que
ficaria para sempre secreto, que jmais seria revelado!...

Enquanto scismava, a casa, sob o afago da sombra nocturna, repousava
serena, como a felicidade que a habitava. Apenas do quarto, onde a ama
dormia com o filho de Jlia e de Nuno vinha uma claridade dbia da
lamparina acesa, filtrando-se atravs das bandeiras das portas, que eram
de vidro. E Frederico continuava os seus devaneios. Naquele momento, a
mulher admirvel para quem ascendiam, como um incenso, a sua crena pura
e a sua admirao exaltada, adormecia tranqilamente, junto do marido,
tendo ainda na bca o calor e o perfume dum profundo beijo apaixonado e
genesaco. sse calor rosava-lhe a pele da face, acelerava-lhe a
circulao do sangue, tornava-a mais linda. Reconstituia-a no sono, a
cabea pousada sbre a alvura do travesseiro por onde se espalhavam,
como uma nvem, os seus cabelos desmanchados, o peito arfando docemente,
a carne esplndida vibrando de desejos... Impaciente, Frederico
erguia-se, dava alguns passos irresolutos sbre o tapte ffo, e voltava
a sentar-se sem poder aquietar. Sentia subir das recnditas intimidades
do seu ser um cime horrivel pelo amigo, que frua uma indizvel ventura
com a posse da mulher esplndida (que tambm o aliciava a ele--e com que
formidvel intensidade! Ento, enclavinhando a mo trmula nos cabelos,
Frederico revoltava-se contra si prprio.

--Que inferno ste, hein? E que abjecta criatura desperta em mim!...

Na realidade, Nuno era para le o irmo, a amizade inquebrantvel e
fidelssima, a afeio cega. Abrira-lhe confiadamente as portas do seu
lar virtuoso, considerava-o como um membro da sua famlia,
devotara-se-lhe inteiramente, mostrara-lhe a alma. E le, correspondendo
a esta confiana, a ste afecto, a esta devoo, estava ali, naquele
doloroso momento de tortura, invejando-lhe criminosamente a espsa
legtima, odiando-o pelos beijos que com ela trocava, pela presena de
Jlia no seu tlamo--um tlamo que a adorao mtua santificava e em que
o ventre da mulher amada recebia o calor que faria germinar as vidas
novas e esperanosas.

--No! Isto  verdadeiramente infame!--exclamava Frederico, acusando-se
com rancor.

Deitou-se, mas no podia dormir. A imagem de Jlia perseguia-o; a
inquietao permanente irritava-lhe os nervos, exauria-o. Quse imputava
a Jlia a responsabilidade da dor fulgurante que sentia, da agitao que
o alucinava; mas logo caa em si, arrependendo-se. Era injusto,
inexorvelmente injusto! Ela no fizera nascer, por uma s palavra, por
uma atitude suspeita, por uma irreflectida _coquetterie_, o sentimento
funesto que o invadira. Frederico  que no pudera dominar-se, ser
casto, ser nobre, ser refractrio a um desejo vil. O culpado nico do
seu tormento era le, certamente. E julgava que, por mais que sofresse,
todos os seus sofrimentos no valeriam uma ligeira mgoa que pudesse
causar a Jlia, se lhe revelasse o fogo em que ardia; que tdas as suas
lgrimas no valeriam uma nica das lgrimas que Jlia choraria, se le
tentasse destruir-lhe uma placidez de que era tam digna, pela alma, pela
bondade, pela elevao moral, pela formosura, corprea.

Em determinados instantes, o seu crebro tinha uma estranha lucidez.
Lembrou-se, repentinamente, de factos, de acontecimentos h muito
olvidados. Ocorriam-lhe trechos de leituras feitas. Recordou-se, por
exemplo, de ter lido h muito tempo, num livro de que esquecera o
ttulo, esta sentena que agora solicitava particularmente a sua
ateno:--Elemento divino e principal, que a natureza produz mas que
apenas a vontade aperfeioa, a Beleza  uma simples exteriorizao da
forma. Tudo  susceptvel de beleza, do gesto ao acto, do olhar 
palavra. Se o primeiro passo perfeito fr o de concentrar tdas as
aspiraes de beleza num sr nico, o segundo ser o de preferir a
beleza da alma  beleza fsicamente afectiva do corpo. No delrio da
sua febre, Frederico construa teorias que lhe pareciam encerrar a
verdade total e que logo abandonava, como infantis: e s de manh,
quando uma luz ainda indecisa e fresca se coou atravs das frinchas da
janela, le conseguiu adormecer, cansado, extenuado pela viglia e pelas
emoes intensas. Ao levantar-se, estava plido, mal disposto, cheio de
tdio--e pensava ento que a vivenda de Nuno se lhe tornava insuportvel
de dia para dia...

       *       *       *       *       *

Uma tarde, o amigo abalou para as obras que continuavam activamente. Ao
passar no escritrio de Nuno, para escolher um livro, Frederico
encontrou l Jlia, que bordava um pano de mesa, sentada  janela
abrindo para o jardim e tda ensombrada por uma trepadeira j sem flor.
Frederico sentou-se tambm, vendo-a trabalhar. Tinha um vestido preto
que lhe imprimia maior destaque  brancura das carnaes. Na gola da
_corsage_, afogada ao pescoo, fulgurava um brilhante, irrizando-se 
luz. Os seus dedos magros manejavam gilmente a agulha. Como sempre, a
noite de Frederico fra tempestuosa, deixara-o doente e mais aborrecido.
Resolvera internar-se no parque,  procura do isolamento, do sossgo,
que apaziguavam o seu frenesi: mas, deparando Jlia, experimentou logo a
irresistvel atraco que ela exercia sobre o seu sentimento e achou um
doce sabor na sua companhia. Seguia mudamente o bordado, com a face
encostada  palma da mo; e, para interromper um silncio que lhe fazia,
mal, exclamou:

--S as senhoras teem pacincia para tais tarefas...

--Questo de hbito--respondeu Jlia, sem levantar a cabea.

--Eu era incapaz de chegar ao fim duma coisa dessas, que me parece mais
fatigante e difcil do que os dze trabalhos de Hrcules... Estragava
tudo, rasgava tudo...

--Jesus! Pois  assim impaciente?...--perguntou ela, fitando-o.

--Sou assim impaciente!

A radiao da luz fluida, que vinha de fra, batia em cheio na cabea de
Jlia, aureolando-a; sbre os ombros descados havia tambm manchas
luminosas. Frederico, perturbado, voltou-se para a estante, a escolher
um volume.

--Que va ler?--interrogou Jlia.

--Sei l! Talvez uma histria triste dalgum que nunca realizasse as
suas aspiraes. Estou hoje tam nervoso, tam melanclico!...

--Pois por isso mesmo, devia preferir as leituras alegres, para se
desanuviar... E diga-me: Cr que haja pessoas correndo continuamente
atrs dum ideal que nunca alcanam?

--Oh! de-certo que h!

--Eu julgo que essas pessoas esto fra da realidade, e eis porque no
encontram nunca o seu mundo...

A voz de Jlia tinha, no seu timbre de ouro, uma brandura acariciante.
Frederico, enleado, contemplava-lhe o busto, que era admirvel de
propores, a linha, a curva ondulante dos seios que se arredondavam sob
os tecidos leves, o pescoo esbelto, o lbulo das orelhas que o penteado
deixava a descoberto e que era cr de rosa.

--Mesmo dentro da realidade--exclamou le--nem sequer se podem atingir
certos ideais.

A solitude em que a casa estava mergulhada assustava-o. Desejava o
ruido, o barulho, tudo o que o aturdisse.

--Conhece alguns casos dsses?--perguntou ela, mirando-o com a face
tocada pela graa do riso.

Frederico sentiu uma perturbao instantnea, passou-lhe na mente uma
nvoa, tda a resoluo anterior se deteve no seu sr, fez-se-lhe uma
espcie de vcuo na conscincia, a sua timidez aumentou. Sem poder falar
claramente, gaguejava. ste sobressalto inexplicvel excitou ao mais
alto ponto a curiosidade de Jlia que o envolvia com a luz dos seus
olhos tam sinceros.

--Diga!...--insistiu ela.

--Talvez!--respondeu Frederico. Tenho-me entregado a stes estudos
especiais, porque o maior prazer duma alma  reconhecer outras almas
belas.

--Oh! mas essas almas escapam-se a tda a observao--atalhou Jlia.

--No. Quando muito, constituem um mistrio--mas mistrio que se
sente...

Desvairado, Frederico levantou-se, encaminhando-se para a porta.

--Tem que fazer?--interrogou Jlia.

--No... Absolutamente nada.

--Ento, sente-se, seja a minha companhia, se isso lhe no desagrada.

--Oh! minha senhora!...

As fontes latejavam-lhe, uma vermelhido febril afogueava-lhe as faces,
a sua respirao acelerava-se.

--E como se denunciam, s vistas perspicazes, as almas de que
fala?--inquiriu Jlia, baixando o rosto sbre o bordado.

--Pelo encanto que irradiam, pelo domnio que exercem, pela inspirao
que produzem.

--Julgo que est enganado. As almas femininas, por exemplo, furtam-se s
mais subtis anlises. Se um homem louvar a beleza duma mulher, ela
sorrir, no se defendendo, mas ocultando-se s revelaes ntimas...

--Mesmo quando ama? Sendo o amor a obra da alma, ela revela-se
totalmente sob a sua influncia...

Insensvelmente, o dilogo entre os dois tinha resvalado para um plano
perigoso, e Frederico empregava esforos violentos para subtrair-se s
tentaes, porque comeava a ter receio de dizer tudo a Jlia, de lhe
confessar o seu supremo segrdo, de lhe denunciar, com lgrimas, o seu
inferno, o seu tormento de tdas as horas. Ia-lhe fugindo a faculdade de
pensar, de reflectir antecipadamente na significao das suas palavras e
de calcular-lhes as conseqncias, porque erradamente supunha que o
interrogatrio de Jlia, tam natural, tinha qualquer cousa duma
provocao.

--Mas ainda me no disse francamente se conhece alguma dessas
almas--exclamou ela, de novo.

--No conheo, mas tenho a certeza de que existem...

--Nos romances?

--Ah! nos romances, h lenda daquele prncipe que se sabia perto da
mulher que amava, que lhe sentia as palpitaes do corao, mas que no
podia tocar-lhe nem v-la, porque uma cortina de nvoa opaca o separava
dela!...

Jlia, esquecendo as mos no regao, olhou-o ento longamente, como se
quisesse compreender alguma obscuridade psicolgica que pressentia: e
Frederico, comprometido, levantou-se logo, rindo um riso nervoso e
atalhando:

--Mas,  claro! O que os romances dizem no tem veracidade. E estas
nuvens s aparecem aos prncipes e s princesas...

Dirigiu-se para a porta, resolutamente, depois de tirar um livro da
estante.

--Sai?--perguntou Jlia.

--Sempre vou um pouco at ao jardim, tomar ar...

E desceu rpidamente sem se voltar, desgostoso consigo prprio,
excitado, ainda no pavor da leviandade irremedivel que ia cometendo.
Ah! no! Aquilo no podia continuar! Era muito duro, muito cruel para
le. Agora, compreendia que o temido conflito do seu esprito com o seu
instinto se daria fatalmente, se prolongasse por mais um dia, uma
semana, a sua estada perto de Jlia. Chegaria uma hora de fraqueza em
que a energia lhe faltasse para dominar-se. Antes de isso acontecer,
fugiria para longe, tentaria esquecer. Queria ser digno de amizade de
Nuno e do afecto da mulher de quem um amor infeliz o aproximara. Estava
ainda a tempo! E firmemente, nesse mesmo dia, ao jantar, anunciou a sua
partida inevitvel, pretextando a soluo urgente de negcios que no
deviam ser adiados...




V


Foi num inquietante estado de alma que Frederico deixou a vivenda
pacfica onde o seu sentimento fizera, inesperadamente, uma tam
alarmante descoberta, regressando ao Prto sem um fim determinado, sem
mesmo pensar na maneira de evadir-se duma intensa e amarga tortura. A
certeza de que amava a mulher de Nuno com um amor que poderia lev-lo,
violentamente, a todos os crimes e a tdas as degradaes da alma,
obcecava-o e obrigava-o a reflectir na impureza da argila de que 
formado o corao humano. Fugia de Jlia, do amigo, do repousado lar em
que vivera tam plcidos dias--antes da fatalidade duma adorao que
quisera evitar, a que tentou, em vo, resistir e que lentamente se lhe
apoderou de todo o sr consciente--em condies trgicas para a sua
emoo. Sentia-se enfeitiado por uma espcie de malefcio ao mesmo
tempo cruel e doce, que lhe causava sofrimento e sadade e que nle
abolia o senso moral sem, no entanto, lhe conturbar a lucidez da
inteligncia a ponto de no discriminar entre o bem e o mal...

Durante a jornada para o Prto foi sobressaltado, vrias vezes, por uma
singular diversidade de sensaes. Ia fugindo como um bandido, trmulo,
aterrado, com mdo de tudo--e porqu? Ningum conhecia o seu drama, bem
oculto, bem recalcado dentro de si prprio--a no ser que Jlia o
tivesse adivinhado, porque as mulheres; em coisas de sentimento, so
subtis. Aquela desero representava a cobardia dum homem incapaz de
afrontar altivamente o primeiro perigo que diante de si imprevistamente
se levantava, com a segurana de que venceria; mesmo incapaz de dominar
as instigaes da outra personalidade em que se desdobrava e que o
concitava ao rro,  deslealdade,  vileza, solicitando a imediata
satisfao dum desejo gerado no seu egosmo e na sua sensualidade; que
se mostrava impotente para conter a expanso vertiginosa do instinto.
Alucinava-o a quse eliminao da vontade--de que o ltimo lampejo se
exaurira com a resoluo de sair apressadamente da casa de Nuno,
inventando um pretexto ftil em que se traria, se o amigo no
depositasse nle a maior confiana. Raciocinando nesta leviandade,
Frederico monologava, encolhido a um canto do combio, sem mesmo
espreitar rpidamente a maravilhosa paisagem, que atravessava:

--Como fui imprudente, na realidade!

E agora, que estava mais sereno, aquela imprudncia atemorizava-o.
Reconstitua na imaginao sobreexcitada a surprsa de Nuno, quando lhe
comunicou a resoluo firme de voltar  cidade. Fixando-o com uns olhos
penetrantes que o devassavam at s recnditas intimidades da
conscincia, le exclamara:

--O que? Vais-te embora?

--Sim, vou!--atalhara bruscamente, com uma perturbao que o denunciava.
Assuntos complicados a liquidar, um inferno...

--Homem, s sincero. Tu o que ests  aborrecidssimo, odiando ste
crcere, abominando esta solido, morto por te veres de novo no rudo,
no tumulto urbano...

--Mas no, mas no! Que ideia!...

Jlia expiava-o tambm interrogadoramente, com um olhar em que 
vivacidade se mesclava uma pontinha de ironia amvel.

--Para que hs de negar?--insistia Nuno.

--Oh! filho, mas que impertinncia tamanha, a tua!... Frederico  um
homem do mundo e julga ter cumprido j os deveres da amizade para
connosco, dando-nos algumas semanas da sua companhia. Se quisssemos
ret-lo aqui por mais tempo, entre estas rvores, nesta solido, no meio
dste deserto, seria tirnico da nossa parte!--afirmara Jlia
benvolamente.

-- claro--acrescentou Nuno --eu no te imponho o sacrifcio de nos
aturares at  consumao dos sculos... O meu despotismo no chega a
tanto...

--Sacrifcio?... Mas que sacrifcio?... Se eu te estou a dizer...

--Bem, acabou-se!--concluiu Nuno. Parte...

--Quem sabe, de resto, se haver na cidade algum motivo superior que o
reclame a tda a pressa?--insinuara ainda Jlia com aquele riso que era
de graa, de bondade, de malcia e de doura e que tanto encantava
Frederico.

--Certamente, minha senhora... H um motivo!--respondeu le.

--Sentimental?--inquirira Nuno, rindo tambm.

--Cr que estou a falar a srio!--replicara Frederico.

Propositadamente, para desviar o rumo da conversa, que o fazia sofrer e
o forava a simular para esconder uma verdade que no podia ser
conhecida sem vergonha para le, sem dor para Nuno e sem clera
amargurada para Jlia, Frederico procurou ser alegre, mas inutilmente. A
intensidade da comoo experimentada crestou-lhe a florao do
humorismo, tornou-o fnebre; e as horas que se seguiram  sua deciso
foram montonas, tristes, cheias de fadiga. A cada instante, Nuno
murmurava, fumando um charuto e quebrando a cinza na beira do cinzeiro
de porcelana:

--Vais, ento, para o Prto, scelerado, reentras nos teus hbitos.

Frederico notava nestas palavras de afecto, que lhe doam como um
queixume, a vaga sombra dum desconslo, e dizia:

--Vou, de-certo... Deveres... As obrigaes primeiro e as devoes
depois. O mtodo  tudo... E tu? Ficas por aqui ainda?

--Fico. H uma infinita multido de factos que exigem a minha
presena... Alm disso, esta  que  a minha casa... Jlia d-se bem. Eu
passo ptimamente. Retirar-me, para qu?

--Pois olha que sou muito capaz de voltar ao calor das vossas afeies,
em concluindo os meus negcios!

--Que lisonjeira mentira!--acudiu Jlia, aconchegada na sua cadeira,
ainda  mesa do jantar, seguindo o dilogo com a face inclinada na mo.

--Oh! minha senhora, eu nunca minto, por princpio. Seria um pecado.

--No! Muitas vezes, mentir por amabilidade  uma virtude que denuncia
puros dons de alma.

Tornou-se impossivel animar a palestra em tda a noite. Frederico
pensava que o desalento se comunicara, como um fluido subtil e
dissolvente, a Jlia e a Nuno, destruindo o gzo espiritual daquele
momento: e foi para ele um grande alvio o instante em que pde
recolher-se ao seu quarto, isolar-se, concentrar-se nas suas meditaes.
Deitando-se e apagando a luz, reencetou a anlise da sua prpria
psicologia. A impresso que Jlia lhe produzia na sensibilidade era cada
vez mais forte. Por enquanto, a imagem da mulher amada iluminava-se
ainda de esplendor, movia-se num crculo de claridade e de pureza que o
coagia a uma adorao casta. No atravessaria a zona luminosa que o
separava dela, para tocar-lhe com mos profanas. Chegaria, porm, uma
hora de alucinao em que a generosidade e a grandeza moral que
prevaleciam na sua organizao desaparecessem, fundindo-se a um fogo de
voluptuosidade impetuosa, e em que a sua spera nsia carnal, numa
sbita e espontnea erupo de luxria, o impelisse s piores
injustias, s violentas rebelies, s brutalidades, s loucuras em que
nada se respeita. Frederico temia essa hora e libertava-se, pela fuga,
da sua terrvel influncia. Por enquanto, conservava tda a sua energia,
tda a sua lucidez mental, podia calar-se a tempo, encerrar o seu amor
secreto num silncio impenetrvel; mas no viria a perder essas
faculdades redentoras se prolongasse a sua estada junto da mulher que
inocentemente excitara a sua paixo? Era preciso cortar como flor
venenosa o sentimento vil que lhe germinara na alma, exilar-se para
longe, esquecer... Tam ardente era nle a imaginao que lhe parecia que
a voz de Jlia tremera ao ouvir-lhe anunciar a partida e que os seus
imensos olhos, negros e hmidos, fazendo-se mais lnguidos e
acariciadores sob as pestanas, cravando-se nos dle, lhe pediam que
ficasse, o aliciavam com promessas de tda a sorte. Resistir aos avisos
da dignidade, que o mandavam retirar sem demora, seria uma abjeco, um
acto inqualificvel. sse amor, apenas nascente, tinha para le a
sordidez, a vilania, a crpula dum incesto--porque Nuno era o seu irmo.
No reagir contra a voz secreta e criminosa do instinto puramente animal
que o tentava a no sair do lado de Jlia representaria a queda num
abismo insondvel, a submisso que o desonraria para sempre, o remorso,
uma dor futura que nem sossegaria sequer, mesmo que fsse possvel
satisfazer a ignomnia da paixo que o exasperava.

--No! No!--murmurava Frederico, revolvendo-se no leito. Partindo,
serei ainda nobre e bom.

E a bondade, para le, era a mais pura, a mais alta manifestao da vida
consciente. Alucinado por um sentimento que agitava tudo o que no seu
ser de homem havia de imperfeito, de inferior, de grosseiro, sofrendo
tdas as torturas que um amor impossvel e sem esperana pode fazer
experimentar a um temperamento ardentemente apaixonado, Frederico
sentia, como uma carcia de inexprimvel enlvo, essa bondade  sua
volta, naquele calmo lar tam digno. Ela irradiava da candura dum bero
onde dormia a inocncia sem culpas; denunciava-se numa adorao conjugal
que se perpetuava indefinidamente com o mesmo encanto do dia maravilhoso
em que principiara; emanava-se de Jlia como uma espcie de
imaterialidade visvel e penetrava-o a le mesmo fazendo-lhe transbordar
de ternura o corao, purificando-o de pensamentos maus. Por mais duma
vez--absorvido na sua meditao e louvando-se pela coragem, pela energia
que revelava, afastando-se dum enlvo que para le condensava, nesse
momento, a felicidade suprema--Frederico descobria uma desconhecida
frescura de emoes novas e apaziguadoras, passava-lhe na alma um spro
vital que o rejuvenescia. Mas ste entusiasmo era fugaz: e uma sadade
muito funda--a sadade de tudo o que perdia--continuava a exalt-lo.

Murmurava, na sua viagem para o Prto:

--Fiz, talvez, uma asneira. Desertando, demonstrei a mim prprio que sou
cobarde, que tenho mdo, que sou incapaz de resistir...

Ento, arrependido, levantava-se do banco em que ia sentado, dava alguns
passos nervosos no compartimento em que viajava s e assaltavam-no
tentaes de descer da carruagem na primeira estao e de voltar para
trs, regressando a casa de Nuno e de Jlia. Logo, porm, caa em si,
exclamando:

--Mas estou doido, doido! sse regresso seria uma revelao, uma
confisso completa pelo menos para Jlia, porque nada escapa 
sagacidade das mulheres, em amor.

Para se distrair, dissipar os sentimentos contraditrios que o
desvairavam, curvou-se  janela da carruagem, observando o panorama que
se desdobrava ao sol no esplendor das suas tintas. A manh resplandecia
como um cristal translcido; tdas as cres se aviventavam na radiao
da luz. As forfas elegantes das rvores, que donde aonde davam sombra e
manchavam de verdura os descampados, desenhavam-se com nitidez de linhas
e de contornos no azul claro, e a serenidade deliciosa do cu
cumunicava-se  natureza inteira. A largura infinita do espao, mais
branco para as bandas do nascente, mais anilado no alto, parecia
decorada, vestida como para uma festa voluptuosa e delicada. A
profundidade alvacenta e luminosa do ar que envolvia e vivificava tdas
as coisas tinha para Frederico uma novidade nunca surpreendida.
Parecia-lhe que Jlia, despertando-lhe a faculdade de amar, lhe
despertara tambm a faculdade de compreender.

Lentamente foi-se-lhe atenuando nos olhos a imagem feminina que sem
repouso acariciava. O fenmeno fisiolgico intenso que imprimira uma
completa modificao  sua conscincia em horas tam ardente e
dolorosamente vividas, dava agora um rumo diferente aos seus
pensamentos--e isto desanuviava-o um pouco. Caa numa dessas cogitaes
sem objecto definido que constituem verdadeiros e inefveis
desfalecimentos de esprito...

Desejava chegar depressa ao Prto, reentrar na serenidade da sua vida de
solteiro, mergulhar no tumulto citadino, entregar-se todo  satisfao
dos seus caprichos,  sua fantasia,  multiplicidade dos seus prazeres,
com a secreta esperana de esquecer completamente, de depurar-se, para
ser outra vez digno do afecto de Nuno e da confiana de Jlia. Enquanto
dentro de si vivesse aquele amor criminoso, julgava-se impuro:--e como
impuro, no deveria pensar no regresso  vivenda do amigo, que era um
templo e que a sua impureza profanaria. Foi nesta excitao que entrou
no Prto, num sbado  tarde.

       *       *       *       *       *

Comeou, ento, para Frederico um sombrio perodo do misria moral e de
sofrimento. Jmais a sua existncia lhe aparecera tam solitria, tam
intil, tam recuada das verdades construtivas e dos sentimentos
renovadores. Um inexplicvel desalento enchia-o de desgsto,
humilhava-o. Nunca, como nesses dias alucinantes em que, em vo,
procurava aturdir-se, afundar-se na embriaguez de tdas as excitaes,
Jlia lhe parcera tam desejvel. Um fogo sensual muito violento ia
secando nle tdas as fontes da virtude e da honestidade: e a sua
ausncia infligia-lhe fulgurantes torturas. Recordava, com uma
vivacidade que lhe aumentava o padecimento, a sua graa de mulher, as
perfeies do seu corpo, a doura que a sua posse lhe transmitiria. O
cime, que j por mais duma vez sentira por Nuno, intensificava-se. Como
se na evocao das coisas amargas houvesse para a sua alma um gzo
especial, Frederico imaginava a cada momento Jlia nos braos do marido,
fundindo-se ambos no mesmo beijo abrasador, dando-lhe tda a sua carne
latejante, todo o sangue das suas veias, murmurando-lhe ao ouvido tda a
sorte de meiguices em palavras entrecortadas e ternas. E via-a rolando a
cabea desfalecida no ombro de Nuno, cerrando as plpebras num delquio,
mais crada, com os lbios plidos, o peito arfando apressadamente.
Insurgia-se contra ste amor conjugal como se le representasse um
crime, como se exprimisse um pecado e como se fosse le o trado... Um
acesso de impacincia e de clera interrompia este delrio dos seus
sentidos. Reentrando novamente nos domnios luminosos da inteligncia,
Frederico exclamava:

--Preciso de reagir contra esta doena que me devasta, seno enlouqueo!

Esperava que a crise lhe concedesse trguas, e para apressar sse
instante que seria venturoso e afvel para le, ia aos teatros, aos
concertos, freqentava as renies das pessoas do seu conhecimento,
nunca faltava nos logares onde o mundanismo se d _rendez-vous_: mas,
nas salas de espectculos, nos sales de baile, nas _soires_
familiares, surpreendia-se a aguardar a entrada sbita de Jlia,
radiante no esplendor duma beleza a que a vida campestre tivesse
insuflado mais graa e maior poder de seduo, sem reparar em nada do
que  sua volta ocorria. As senhoras achavam-no muito mudado e
diziam-lho, entre ironias. No tinha a alegria antiga, a vivacidade
doutrora, era um outro Frederico sem a jovialidade que o caracterizava e
o impunha s admiraes.

Uma noite, em casa de D. Francisca de Medeiros, que s teras-feiras
renia algumas famlias ntimas, a sua tristeza foi notada pelas damas
com quem se entregara, em outras pocas, s suavidades do _flirt_. Uma
delas, D. Felismina Trigoso, que nutrira a esperana de ser por le
amada em tempos findos de que ainda conservava a lembrana doce,
surpreendendo-o a um canto a folhear uma revista ilustrada, no se
conteve.

--Sabe?--exclamou ela--tdas ns o estranhamos.

--E porqu, minha senhora?--inquiriu Frederico, fechando a revista e
erguendo-se.

--Estranhamo-lo por essa melancolia, pelo desintersse de tudo o que o
crca, pelo isolamento em que voluntriamente se encerra.

-- que ando a fazer um severo exame de conscincia. Fui um grande
pecador, e para ganhar a glria celeste, decidi fechar-me num convento,
ser monge, penitenciar-me--disse le.

--No disfarce, no finja!

--Mas sou sincero!

--O que pretende  ocultar qualquer coisa--insistia ela.

--Ocultar o qu?

--Que sei eu? Talvez alguma paixo infeliz, algum desgsto muito
profundo.

--Ah! como  errado o seu juzo! V. Ex.^a no sabe, ento, que as
criaturas que se recolhem, que se isolam, que se concentram, so
precisamente as felizes?

--As felizes?

--Certamente! S a felicidade  egosta, concentrada, e no gosta de
revelar o seu gzo interior. O sofrimento, pelo contrrio, precisa das
multides, das testemunhas, para dilatar-se.

--Paradoxos...

--No, minha senhora. V. Ex.^a no conhece, de-certo, Heraclito, um
filsofo da antiguidade clssica, que, quando sofria, procurava as
praas pblicas, as ruas das cidades, para chorar... Se eu fsse
desgraado...

D. Felismina ria saborosamente daquela abundante verbosidade que
incitava ao humorismo pelos efeitos do contraste.

--Se fsse desgraado?...--interrogava ela.

--Se fsse desgraado, rompia aqui num chro de tal ordem, que a policia
teria de acudir!...

--Venham c, venham c!--chamou D. Felismina--est hoje brilhante!...

As outras senhoras acudiram, num grande rumor de riso e de sdas
amarrotadas: e D. Felismina, voltando-se para a dona da casa, murmurou:

--Tem estado a dizer-me coisas monstruosas, no calcula!...

--Sim?--atalhou D. Francisca, com um sorriso afvel iluminando-lhe o
rosto simptico. Ento, de que falavam?

--De grandes verdades, minha senhora--respondeu Frederico. Afirmava eu
que as paixes amorosas mais srias, porque decidem de todo um destino,
so as que alvorecem nos coraes de cincoenta anos de idade. A snr.^a
D. Felismina, porm,  de opinio contrria e assevera que essas paixes
s podem ser sentidas aos vinte anos...

--No era de nada disso!--protestou D. Felismina.  um mistificador...

--E ainda no experimentou nenhuma, Frederico?

--No, D. Francisca. Encontro-me na infncia. Tenho apenas trinta e
cinco anos, estou muito longe da minha primavera!...

O riso animou-se mais nas bcas femininas, que louvavam tda aquela
alegria, tda aquela mocidade de esprito, e, por momentos, Frederico
atrau as atenes; mas foi um fogo-ftuo sse instante de jubiloso
alvoro, que se dessipou totalmente, quando D. Felismina, muito
solicitada, se sentou ao piano, tocando uma pgina de Mendelssohn, que
ela interpretava maravilhosamente.

De novo isolado e absorvido nos seus pensamentos dolorosos, folheando
outra vez a revista que o fatigava de tdio e que tinha aberta sbre uma
mesa de pau preto onde, em jarras de faiana antiga, brilhantes de
esmaltes e de coloridos, morriam e se desfolhavam lentamente ramos de
azleas brancas, Frederico observava aquele mundo ftil de
exterioridades encantadoras e recordava-se de Jlia. O ambiente era, na
verdade, elegante. O salo estava decorado com gsto. Um tapte de tons
suaves, rosa e verde-malva, amortecia o som dos passos e tornava mais
confortvel o compartimento; os mveis, leves e bem lanados,
destacavam-so pela forma e pelos estofos que os recobriam. Sbre um
fogo de mrmore, que resplandecia de brancura na crueza da luz
elctrica, um relgio de bronze, estilo Luis XIV, marcava as horas que
longos ponteiros dourados indicavam num mostrador esmaltado em que
corria, no esplendor das tintas, uma scena idlica, evocando as telas de
Antnio Watteau, com pares de namorados enlaando-se sob as rvores. Ao
fundo, um piano Bechstein com velas ardendo em serpentinas de prata e
acendendo fulgores de chama no verniz negro da madeira, tinha uma graa
ornamental pesada e imvel. Sbre a alcatifa, encostados dum lado e
doutro s paredes, que um papel cr de ouro fosco forrava, havia enormes
vasos do Japo, com figurinhas de mulheres abrigando-se do calor sob
largas umbelas de sda, penteados altos seguros por pregos de feitios
bizarros e cegonhas de bico vermelho adormecendo  beira de lagos, junto
de cerejeiras em flor. _Etagres_ de ricas talhas sustentavam
graciosamente cristais cheios duma gua que scintilava na claridade e em
que esplendia a graa duma rosa ou a beleza do ramos de violetas,
exalando-se em arma. O que mais seduzia Frederico era a harmonia, a
disposio bem achada de cada pea de mobilirio, contribuindo para o
equilbrio do conjunto, a correco das linhas plsticas e decorativas.
Por ste arranjo impecvel, reconstitua le a individualidade
psicolgica de D. Francisca, que se fanava na sua viuvez de longos anos,
que devia ser inteligente, ter um sentimento acessvel s emoes
produzidas pela arte, possuir uma alma feita de tdas as delicadezas e
de tdas as bondades. Para ela subiam o culto puro do seu afecto, a sua
ternura de homem. Sem saber porqu, D. Francisca fazia-o lembrar com
mais doura de Jlia, que havia de ter, mais tarde, uma velhice assim,
encantadora, um porte que inspirasse admirao e respeito, uns olhos em
que vivessem milagrosamente as imagens dos sonhos mortos...

Num gabinete ao lado, servindo de _fumoir_ e de sala de jgo, os homens
entregavam-se com intersse ao seu _bridge_, enquanto esperavam pela
hora da debandada, discutindo, em voz baixa, escndalos sentimentais ou
casos frustes de poltica. A atmosfera pesava, aquecida pela luz,
carregada de perfumes. E a msica de Mendelssohn ia dizendo, numa voz de
sortilgio, a aspirao das almas pelos finos amores idealizados, tudo o
que murmura nas florestas pelos crepsculos religiosos, tudo o que
suspira nas aragens, tudo o que sussurra nas fontes e nas folhagens.
Conturbado, Frederico fechou a ilustrao, levantou-se, deu algumas
voltas, sacudido por uma emoo muito viva e muito forte...

Aquela msica segeria-lhe uma outra que ouvira em casa de Nuno, por uma
noite inspiradora e silenciosa, pouco depois de chegar  aldeia e de
conhecer Jlia mais de perto. Nem um s pormenor lhe havia esquecido,
tam violenta fra a comoo experimentada. A sua inteligncia tinha uma
extraordinria argcia. Relembrava o enlvo daquela hora reveladora; a
graa ideal do busto de Jlia, sentada ao piano; o banho luminoso que
descia do candeeiro suspenso no alto e batendo em cheio na sua cabea,
aureolando-a; a ligeireza, dos seus dedos longos e brancos pousando
gilmente sbre as teclas de marfim; o seu olhar animado e brilhante; o
vio dos seus lbios vermelhos e hmidos; o jardim florindo ao luar; a
massa confusa de sombra formada pelo parque, ao longe...

Entrou na sala do jgo, parando durante minutos. A conversa banal dos
homems enfastiava, sufocava-o o cheiro do fumo. Veio novamente para
junto das damas que sonhavam ainda sob a influncia perturbante e
emotiva da msica. D. Felismina tinha acabado de tocar e sorria,
cansada, encostando ao piano um brao n, emergindo da alvura das
rendas, redondo, gordo e puramente medelado. Frederico, gentilmente,
cumprimentou-a.

--Sabe que  um nobre temperamento de artista?

--Ora! Gentilezas...

--Mas no, mas no!  perfeita. No lhe parece, D. Francisca?

--De-certo! Eu acho-a admirvel.

--E fica-lhe bem a modstia--acudiu uma outra senhora, D. Maria do Cu,
espsa dum magistrado, muito nutrida, entre duas filhas magras e
plidas.

--No  modstia, D. Maria.  sinceridade.

--A msica desperta em mim singulares comoes, fazendo aflorar tudo o
que na minha organizao h de mais elevado moral e mentalmente--disse
ainda Frederico.  por isso que eu a considero a arte superior, pelos
sentimentos e pelas ideias que inspira, quando os seus executantes lhe
transmitem uma alma. E  ste, justamente, o seu caso, minha senhora.

--Para que h de zombar duma _dilettante_ sem pretenes?--exclamou D.
Felismina.

--Mas ento, ningum me acredita, mesmo se digo a verdade! Arranja fama
de _blagueur_ e deita-te a dormir--comentou Frederico, risonhamente.

Demorou-se mais alguns momentos numa palestra que o aborrecia, pelo seu
ar de cortesia convencional; e, por fim, despedindo-se, sau, seguido
pelo olhar de D. Felismina, que outrora galanteara, fazendo nascer na
sua ternura feminina uma fina flor de iluso. A caminho de casa, pela
rua mergulhada numa meia obscuridade que mais o entristecia, Frederico
meditava na sua condenao atroz e monologava:

--Como custa ser honesto!

Efectivamente, a sadade de Jlia acompanhava-o para tda a parte, no
passeio, no teatro, nas ceias ruidosas com amigos, nas renies
familiares, velava-lhe os sonos inquietos, seguia-o sem repouso,
vigiava-lhe a formao das emoes e dos pensamentos. No podia
separar-se dela um s minuto. Sentia-a tirnicamente no corao como um
remorso conjuntamente aflitivo e suave, no sangue, como um fluido que o
incendiava, nos nervos. Em vo procurava libertar-se. Para a apagar no
crebro e na alma, torturava-se inutilmente. Julgava-se abandonado de
tdas as afeies, mesmo de Nuno, que nunca mais dera sinal de si, desde
que Frederico deixara a quinta, no terror de praticar uma vilania.
Escrevera-lhe para l uma longa carta, narrando-lhe o repouso
inolvidvel das horas que perto dle e de Jlia passara durante duas
semanas, pusera nas palavras mais vibrao e calor, por imaginar que
tambm ela leria essas linhas em que o seu sentimento transbordava de
gratido, dissera-lhe a solitude e a angstia dos dias que ia vivendo na
cidade, longe dum lar que lhe mostrra ntidamente a realizao da
felicidade terrestre--e nenhuma resposta recebera. Porqu? Traria le,
nessa confisso ardente, um segrdo que ningum devia conhecer?
Suspeitaria Nuno dalguma coisa? No teria a carta chegado ao seu
destino? Estas dvidas pungiam-no.

Enquanto caminhava, pelas ruas ermas que se esgueiravam como cobras na
sombra que as fileiras irregulares de prdios projectavam nas caladas,
Frederico sentia um grande desalento subir e invadi-lo todo. Como a sua
existncia era estril! Nem alegrias morais presentes nem confiana no
futuro. Evocava, por uma especial associao de ideias e de sentimentos,
a melancolia da sua vida desde os dias j remotos da infncia, e, por
instantes, todo o passado se iluminava aos seus olhos.

Aos oito anos, quando as outras crianas ricas brincavam e eram amimadas
pelas mos puras das mes, fra le metido num colgio como interno,
depois de lhe vestirem um fardamento. No internato onde a sua meninice
se enclausurara, deitava-se, levantava-se, ia para as aulas, para as
refeies, para a banca de estudo, para os cios do recreio, sempre ao
toque duma sineta. A sua individualidade passiva resumia-se em obedecer;
os deveres da disciplina vergavam-no, a le que era ento tam tmido,
sem vontade, incapaz de rebeldias. Com que lucidez maravilhosa se
lembrava duma poca para le desoladora! No lhe escapavam os mnimos
detalhes. Recordava, por exemplo, a ansiedade com que, tanto le como os
condiscpulos, esperavam a hora da folga, durante as lies enfadonhas
que um homem imensamente calvo e de bigodes brancos--o snr.
Justino--lhes professava. O snr. Justino tinha uma voz que soava falso,
uma face engelhada, vestia um vlho _frac_ muito coado na gola e nos
cotovelos. Os seus olhos, que eram vivos e pequeninos, fascavam por
detrs dos vidros das lunetas. Nunca se irritava, era fleugmtico,
pachorrento, as suas palavras arrastavam-se no silncio da sala--um
silncio tam profundo que, em junho, se ouvia o lento zumbido das moscas
descrevendo, no vo, movimentos giratrios incoerentes. Os rapazes
chamavam a ste pobre professor, que era a imagem dos lutadores
destroados, o _D. Ana_. Escondendo-se com os livros abertos e postos ao
alto nas carteiras, curvando o busto, deitavam a lngua de fra, faziam
momices, trejeitos humorsticos, protestando assim contra a priso nas
idades em que as infncias, como as flores, amam os grandes espaos
livres, o tumulto, as indisciplinas. Por vezes, das bancadas elevava-se
um murmrio confuso, estalavam risos abafados, as solas das botas
raspavam, impacientemente, o soalho frio e encardido. _D. Ana_,
interrompendo a sua vagarosa exposio, erguia a cabea, fitava um
minuto os colegiais, que logo emmudeciam, atemorizados, dizia, na sua
voz de falsete:

--Ento, meninos! Que  isso? Mais respeito e mais ateno!...

A tranqilidade restabelecia-se imediatamente, mas por pouco tempo.
Perto de Frederico, um estudante com raras aptides para o desenho fazia
a lpis a caricatura do snr. Justino, com as lunetas dependuradas
tristemente do nariz que sugeria o agudo e longo bico dum pssaro. A
semelhana dos traos era flagrante e j com uma notvel noo do
grotesco. O caricaturista dava a sua obra humorstica a Frederico,
dobrada em quatro. le abria-a e lia por baixo da figura ridcula do
mestre:--Veja e passe adiante. Frederico via e passava, sufocando o
riso na palma da mo com que comprimia a bca. A caricatura corria assim
tdas as bancadas dum extremo ao outro, despertando as hilaridades que
no podiam expandir-se e que espalhavam a inquietao, o nervosismo, a
impacincia, na aula. Por vezes, o prefeito, que era muito severo e a
quem os rapazes denominavam de _Mata e esfola_, surgia de repente 
porta. Na sua bochecha crada e gorda, tda rapada, barbeada de fresco,
como a dum padre, espelhava-se a indignao. Lanava um _schiu!_ muito
sibilado que fazia entre os escolares o efeito duma ameaa...

Os rapazes odiavam-no, imputavam-lhe a responsabilidade de todos os
castigos sofridos, a supresso da sobremesa e das liberdades do recreio,
as longas e fastidiosas pginas de escrita em que se repete um verbo cem
vezes--e prometiam vingar--se... Depois, _D. Ana_ terminava a lio, os
livros fechavam-se de estalo, com alarido formidvel, uma sineta
badalava na solido e os colegiais saltavam as carteiras, com o _bonet_
agarrado nas mos, corriam para o jardim que floria ao sol, no esplendor
das formas e das coloraes, pulavam por entre os arvoredos que
projectavam na areia branca do cho largas mculas de sombra oscilante.

Era a hora melhor e mais doce para os internos do Colgio. Formavam-se
grupos, organizavam-se jogos, a gritaria tornava-se ensurdecedora. Dum
cu muito ntido vinha uma luz muito loura que dormia pacficamente nas
clareiras. As mimosas enchiam-se de floraes de ouro. Os adolescentes
que pertenciam a classes mais adiantadas no se associavam aos
divertimentos dos mais novos--passeavam dois a dois, liam versos rimados
na solitude dos seus quartos, sonhavam com possveis glrias literrias
e tinham escondidos, entre o colcho e o enxergo das camas de ferro,
que recordavam tarimbas de caserna, romances de enrdo complicado e
sensacional, que devoravam s escondidas, no refgio dos momentos de
descanso. Alguns, mesmo, ocultavam-se com as ramarias das rvores, para
fumarem cigarros...

Frederico reconstitua com verdade surpreendente todos os episdios dos
seus longnquos anos de colegial, sem deixar esquecido o menor detalhe.
Relembrava que j nessa era remota era infeliz. Nunca pde criar amigos
entre os camaradas, que o miravam desconfiados, que se afastavam dle,
que o satirizavam. Uma vez, insurgindo-se contra estas inexplicveis
antipatias, que no provocava, teve uma grave questo com um estudante,
Pedro de Menezes, contundindo-lhe a face com um forte murro. Os guardas
acudiram, foi repreendido severamente pelo director do Colgio, que nem
sequer escutou as suas desculpas e privado dos folguedos do recreio por
tda uma semana. O conflito, que o tornou temido, mais o
incompatibilizou com os condiscpulos. Passou a ser designado pelo nome
irnico de _Ferrabrs_ e repelido amargamente pelos escolares, que o
detestavam...

Feitos os exames, vinham as frias, os descuidados meses de liberdade
por praias, termas, quintas rurais, sem a tirania dos livros, sem os
abominveis toques da sineta, que tinham para le o horror dum dobre a
finados, sem as reprimendas dos mestres, quando as lies se no sabiam.
A populao do Colgio debandava alegremente. As casas ricas mandavam
carros e automveis para levar os seus; os mais modestos mandavam
simplesmente um criado. Frederico ia, ento, para junto da me, j
viva, que andava sempre vestida de preto, rezando pelos corredores ou
ralhando, em voz baixa, com os servos. Chamava-se D. Isabel de Noronha e
havia casado, aos trinta anos, com o capitalista Simo de Noronha, muito
mais vlho do que ela e que fra fulminado por uma congesto cerebral
poucos meses depois do nascimento de Frederico, nico herdeiro da sua
abundante fortuna porque uma sua irmzinha morrera aos dois anos de
idade.

Dentro da casa, Frederico sentia-se mais s do que no Colgio. A mam,
absorvida nos fervores da devoo religiosa, nos ardores do seu
misticismo, mal reparava nle, e no ser para o admoestar pelo barulho
que fazia na vivenda, sempre de janelas cerradas  luz exterior, como se
l dentro se chorasse uma desdita permanente, como se a morte a
povoasse. De manh e  noite, ao levantar do leito e ao deitar-se,
Frederico aproximava, com indiferena, o rosto da bca materna e recebia
um beijo frio e rpido. No fim do almo, do jantar e depois do ch, ela
obrigava-o a rezar, de p, junto da mesa e de mos postas, pela glria
de todos os santos mencionados na _Legenda Dourada_, de Voragine, que
tinha sempre sbre a mesinha de cabeceira, perto dum castial de prata.

De vez em quando, vinham visitas, quse sempre senhoras idosas tambm
severamente vestidas de preto, com quem D. Isabel se fechava, no
oratrio da casa, durante horas seguidas. Nestas ocasies, Frederico
frua uma liberdade mais larga. Descia  cozinha, palrava com as criadas
que se riam muito das suas diabruras, jogava o arco nos arruamentos do
jardim... Depois, as frias acabavam, a mam reforava o enxoval,
puxava-o para junto do peito sco em que nenhum desejo profano
arfava--rosando-lhe as carnes duma ponta de sangue mais
vivo--despedia-se dle com o mesmo beijo frio que lhe causava arrepios,
murmurava em voz sumida:

--V se tens juzo... Porta-te bem.

Frederico regressava jovialmente ao Colgio, de que j tinha sadades, e
ouvia os seus condiscpulos, com inveja e tristeza, narrarem uns aos
outros o encanto das vilegiaturas por estncias de guas e estncias
martimas, das pequenas viagens recreativas com a famlia, das renies
e das danas nos Casinos, onde alguns tinham arranjado namoros.

--E tu, _Ferrabrs_, onde passaste o vero?--perguntavam-lhe.

Frederico, por vergonha, para no ser humilhado, tinha vontade de
mentir, inventando digresses maravilhosas; mas a mentira repugnava-lhe.
Calava-se, ruborizado, afastando-se dos camaradas...

Mais tarde, concluiu os preparatrios, a mam morreu duma doena do
corao, foi nomeado um tutor para administrar os seus bens, aumentados
considervelmente pela viva que vivia parcimoniosamente, que abominava
o luxo como se le representasse ou um pecado ou um escndalo.

Na Academia Politcnica travou conhecimento com Nuno, que como le
tirava o curso de engenharia, que era igualmente rico e rfo. As suas
relaes estreitaram-se mais de dia para dia, talvez por esta
coincidncia que os identificava. Aproximava-os uma singular semelhana
de infortnios, de temperamento e de carcter e foram, durante seis
anos, como dois bons irmos. Nunca no afecto de ambos se levantou uma
discrdia que os separasse um instante... E era ste o tempo mais doce e
mais feliz da sua existncia de homem, pelo menos aquele de que se
recordava com maior ternura. Mas Nuno, uma vez, anunciou-lhe o seu
casamento. Estavam, ento, em Vizela, tdas as noites se danava no
salo do hotel, e todos os dias se passeava no parque, se organizavam
merendas no alto das serras, gericadas, barcarolas, no rio, ao som de
guitarras romnticas. Frederico assistiu  lenta formao do amor que
encheu o corao de Nuno, que o levou para a felicidade conjugal, para
as bemditas alegrias da paternidade, para os deveres e para as srias
responsabilidades da vida familiar. A princpio, tomou a inclinao do
amigo por Jlia como um banal _flirt_, como um capricho de que nada
restaria quando cada um fsse para o seu lado. Depois, vendo-o
desinteressado de tudo quanto no fsse Jlia--que fielmente acompanhava
para tda a parte, com quem tda a noite valsava ou conversava, em quem
falava contnuamente como se ela representasse o smbolo das suas mais
belas aspiraes--sentiu que Nuno estava bem preso e bem apaixonado e
que o desfcho lgico daquele namro seria o casamento. A partir de
ento, a sua vida fez-se mais solitria e mais despegada, os seus
entusiasmos arrefeceram, perdeu tdas as suas galvanizadoras confianas.
Nesta solitude, porm, era ainda relativamente feliz, at ao momento em
que Nuno teve a m ideia de aproxim-lo de Jlia, j me.

--E aqui est--murmurou le com infinita desolao--o que um amor sem
esperana pode fazer dum homem!... Que sorte!...

No ermo da sua casa desabitada, Frederico, no enorme silncio que
invadia os longos corredores, as salas sombrias com um desagradvel
cheiro e bafio, sentia tda a imensidade da sua derrota. Era um vencido.
Para le, o futuro no tinha horizontes luminosos, desde que uma
adorao impura, penetrando-lhe insidiosamente na alma e incitando-o a
trair uma amizade fraternal, lhe cortara toda a possibilidade de vir a
amar com paixo e pureza uma outra mulher que no fsse Jlia.
Revoltava-se contra aquela adorao, acusava-se a si prprio por no ter
sabido manter uma absoluta impassibilidade de sentimento diante da
espsa de Nuno. A fatalidade pesava sbre o seu destino, sbre o seu
corao, que empolgava com mo de ferro.

--Mas serei eu o nico responsavel?-- monologava.

E, na sua dor, alucinado por uma perturbao que lhe toldava o crebro e
a noo da equidade, quse que responsabilizava Jlia pela sua beleza
aliciante, pela sua superioridade de mulher e pelas suas admirveis
virtudes.




VI


No podendo viver tranqilamente perto de Jlia, com o seu segrdo
sempre oculto, nem longe dela, com a angstia interior que o devorava,
Frederico procurou aturdir-se na febre duma vida em que se esquecesse,
que o consumisse lentamente e em que corrompesse a parte pura do
esprito, excitando a sua avidez de prazer nos delrios das paixes
voluptuosas. Queria libertar-se dum suplcio que tanto lhe atribulava a
existncia. A fatalidade retinha-o entre o amor e os deveres da lealdade
para com um homem que era, mais do que o seu amigo, a nica pessoa a
quem consagrava um afecto profundo. Se, numa alucinao, obedecesse aos
impulsos desordenados e abominveis do instinto carnal, mancharia a
limpidez do seu sentimento afectivo: e, s de pensar na possibilidade
dum arrebatamento que o levasse a confessar a Jlia a sua adorao
pecaminosa--que ela, de-certo, repeliria indignadamente, porque era
pura, honesta e refractria s tentaes criminosas--uma dor muito funda
agravava a sua exaltao fsica e o seu desequilbrio emocional...

Notava, em todo o caso, que se tivesse a coragem, a audcia e o cinismo
de praticar uma aco vil, no seria o padecimento de Jlia que mais
vivamente o pungiria, causando-lhe mgoa e comiserao. A sua piedade ia
tda para Nuno, tam leal, tam comovido de bondade, dotado dum carcter
do melhor ouro. Na sua perturbao, imaginava, por vezes, que todo o mal
estava feito, que a situao criada pela sua loucura amorosa era j
irremedivel:--e concentrava-se, transido, para melhor reconstituir a
figura de Nuno, no instante em que conhecesse o duplo ultraje  sua
dignidade de marido e  sua honra de homem, errando alucinado pela casa
erma, barafustando cheio de cleras vingadoras, ferido na sua alma e na
sua confiana, devastado, com a morte no corao e o calor da vergonha
nas faces, acusando-o a le com mais fulgurante raiva do que  espsa,
procurando-o por tda a parte para lavar com sangue a afronta e a
humilhao que o tinham maculado e coberto de escrnio. Ento, diante
dste sofrimento, Frederico, espavorido, passava a mo trmula pelos
cabelos, agitava-se violentamente para entrar na realidade das coisas,
murmurava:

-- horrvel, horrvel!...

Readquirindo a serenidade e a lucidez, considerava como o seu crime
seria monstruoso e sem perdo se le no soubesse reagir vitoriosamente
contra a fraqueza dos sentidos. Mas reagiria a todo o transe, muito
emhora a reaco o fizesse sofrer, afirmava Frederico a si prprio:--e
parecia-lhe que a sinceridade com que se defendia de desfalecimentos de
energia atenuava a imensidade da sua falta.

Foi numa destas crises fulgurantes, repetidas vezes provocadas pela
desordem da sua conduta, que Frederico decidiu fugir da inquietao e do
remorso, mergulhando na embriaguez dos gozos que a fonte impura dos
vcios lhe oferecia como consolao lgica e nica da sua singular
doena. Ainda a princpio pensou que entregando-se, com delrio, 
deliqescncia de todos os abusos, se tornaria indigno da amizade de
Nuno e do afecto de Jlia: mas, no seu romantismo, sentia um jbilo
ntimo em degradar-se por ela, em descer aos pntanos das misrias
morais, erguendo sempre os olhos em xtase para a mulher intensamente
amada atravs de tudo, como os ergueria para uma claridade purificadora
e divina.

Orgulhoso e curioso dos seus actos, havia de ir at ao fim, embora o
caminho fosse errado e nle se transviasse--porque era incapaz de
conceber abnegaes por si prprio.

Perturbado e cheio de confuso por esta ideia fixa, Frederico, que
durante muitas semanas viveu completamente isolado, comeou a aparecer
de repente em tda a parte, a freqentar os cafs e os Clubes. Era novo,
era rico, sabia insinuar-se, aliciar. Na roda dos seus conhecimentos
houve espanto.

A ressurreio foi sadada com ruidosa alegria, e logo alguns rapazes
resolveram solenizar o acontecimento extraordinrio com uma ceia em que
o _champagne_ festivamente estalasse e a _verve_ corresse com uma
scintilao dourada sob a brancura da luz elctrica. Alberto de
Sequeira, que trazia no dedo um grande anel brazonado e se vangloriava
de pertencer s raas finas, desejava um banquete srio e decente, em
que os convivas fssem de casaca, correctos e irrepreensveis, como para
uma mesa em que estivessem duquesas.

--Vejam que devemos isto a Frederico e a ns,  nossa classe social, 
nobreza das nossas estirpes--comentou le.

O Paiva, toureiro amador e guitarrista, insurgiu-se, porm, muito
desdenhoso de fidalguias e pragmticas, bradando:

--No, senhor! Nada disso. Trata-se duma festa pag, para comemorar a
volta  estrdia e  pndega dum companheiro. Temos, portanto, de
meter-lhe paganismo:--a rabona igualitria, a ninfa de gordos braos,
lnguidos olhos e saborosos beijos. Olha agora a casaca! No querem ver?
Palavra de honra,  escandaloso!...

--Sim,  claro! Devemos meter-lhe a ninfa ! A casaca  fnebre, e ns
vamos para uma calorosa manifestao de regosijo!--concordou o Taveira,
filho dum capitalista enriquecido na Argentina.

--Pois no  assim?--interrogou o Paiva.

--Mas...--atalhou Alberto.

--No, filho! No h mas nem meio mas. Venha o belo pagode, a bela
bacante agitando no ar o seu tirso e saracoteando um _maxixe_
desbragado...

--Muito bem!--acrescentou ainda o Paiva. A bacante e o _maxixe_,
primeiro... O resto,  silncio, como Hamlet dizia a Horcio.

Com efeito, a ceia realizou-se numa noite memorvel, depois do teatro,
durou at  madrugada do dia seguinte e ficou marcando uma hora triste
de desvio moral na existncia de Frederico. A conheceu le a mulher, a
intrusa, que havia de exercer uma influncia nefasta na sua vida e no
seu sentimento. Chamava-se Branca, tinha vinte anos, resplandecia duma
beleza capitosa que o fogo dos sculos impuros ia queimando lentamente,
era alta, loura, notava-se-lhe no rosto uma candura, uma espcie de
virgindade que certas criaturas femininas nunca perdem por mais baixo
que desam nos charcos da misria. Foi Paiva quem lha apresentou,
exclamando irnicamente:

--Aqui tens tu um regao de sda onde os prncipes gostariam de dormir
as suas sstas de amor. Infelizmente, pertence a um desgraado pas que
nem amar sabe e onde no h prncipes... Tem de contentar-se com os
filhos da nossa virtuosa burguesia! Mal empregada! Como o poeta clebre,
esta Musa da orgia chegou muito tarde a um mundo muito vlho, caro
amigo!...

Frederico apertou-lhe a mo friamente, rindo da apresentao.

--Na Grcia antiga--continuou Paiva--os filsofos da linhagem nobre e
genial de Plato repousariam e meditariam sob a luz doce dos seus olhos
com o respeito com que repousavam  sombra do Partenon. Branca seria a
inspiradora, a deusa. At talvez se lhe levantasse um templo, como 
vaca sis, no Egito!...

--Ora! O cavalheiro est a chuchar comigo!...--exclamou ela, amuada.

--Agora, o que Branca desconhece, meu filho,  a linguagem sonora e
harmoniosa em que falavam os Imortais... O cavalheiro est a chuchar
comigo! V tu que abominao. Se Pricles ouvisse esta Xantipa,
morreria com uma sncope cardaca ou correria a embriagar-se com o vinho
das doces colinas de Atenas. Perdoa-lhe tu, que s generoso...

--E que no sou Pricles!--atalhou Frederico.

A ceia correu tumultuosamente alegre, e os convivas do festim pago,
como havia anunciado Paiva, beberam mais do que os deuses de Homero.
Frederico tinha ficado junto de Branca, que constantemente o acariciava
com a suavidade do seu olhar cheio de promessas, que lhe floriu a
botoeira com uma rosa e que, durante tda a noite, revelou uma
melancolia que mais vivo destaque imprimia  sua graa dorida. Alberto
de Sequeira, toldado pelo alcool, com as faces escarlates, agarrado a
uma companheira de Branca, a Eugnia, tam conhecida nas _garonnires_
da mocidade elegante, dava-lhe beijos e oferecia-lhe os seus pergaminhos
com a mo de marido. Ela, rindo  gargalhada, recusava, dizia-lhe que
no tinha vocao para espsa.

--Vai para um convento, vai para um convento!--intimou Paiva, de p, ao
lado da mesa, erguendo o brao e apontando com o dedo.

--Sim! Talvez para um convento!--concordava Eugnia, enroscando os
braos  volta do pescoo de Alberto. E ento?...

A tristeza de Branca no meio da jovial estrdia impressionou Frederico.
Perguntou-lhe:

--Que tem?

--Nada! Estou hoje assim!... So dias.

--Tem telha,  o que tem--afirmou uma outra, Lusa, a quem Paiva fazia
ardentes confisses, prometendo-lhe um scetro, uma realeza.

--Ou um scetro ou um poema. Escolhe--gaguejava le. E pode ser que, para
a imortalidade, te convenha mais o poema. Ainda no morreram Beatriz,
Laura, Virgnia. Ainda nem sequer morreram aquelas loiras germnicas
cantadas por Gothe.

--Quem so essas damas?--inquiriu Lusa.

--So umas senhoras das minhas relaes... No  verdade, Frederico?

--Beatriz, Laura... Certamente! E damas muito finas!--asseverou
Frederico.

Novamente se curvou para Branca, pegando-lhe na mo, mirando-a nos
olhos, interrogando:

--E foi sempre assim triste?...

--Para que quere saber?

--Porque me interesso por si... A est!

--Acredito eu l nesse intersse!

Na mesa, onde brilhavam ainda nos cristais restos de vinhos e licores
que pareciam pedras preciosas lquidas, desfolhavam-se as flores. O
dourado fulgor da luz batia em cheio nos linhos, fazia reluzir o vidrado
das porcelanas. Os criados entravam o saam, cambaleantes de sono,
coando a cabea, com os guardanapos sbre o ombro. O ambiente aquecido
pesava e sufocava. Frederico subiu uma vidraa que dava para fra,
sentido-se reanimar por uma lufada de ar frio. Sbre a cidade,
arqueava-se um cu picado de estrlas, que j empalideciam no cerraceiro
da treva que devorava tda a vida. Por um momento, Frederico, encostado
ao peitoril da janela, julgou-se aviltado. Experimentava a sensao
desgostante de ter cado numa imundcie que o sujava, que o invadia dum
nojo profundo; e mentalmente comparava a frescura de impresses de que
um amor oculto e malfadado fizera vibrar a sua sensibilidade, a ventura
risonha entrevista em exaltaes de imaginao, o spro de alegria
eterna que respirou junto de Jlia, com aquela torpeza, em que se
afundava. A solido da rua que, em baixo, se escoava na sombra, a
frialdade do vento, tudo o que para le havia de novo, de desconhecido,
naquela noitada iniciadora, excitavam-no, sacudiam-no. Fumando, olhava
as alturas celestes que, no esplendor das constelaes scintilantes lhe
sugeriam arabescos de luz, uma estranha feeria que ardesse, rutilasse na
escurido. Dentro, os beijos arrulhavam. Branca, levantando-se,
aproximou-se de Frederico, encostou-se-lhe ao brao, dizendo numa voz de
mimo e de fraqueza:

--Estou tam fatigada!

le voltou-se bruscamente, irritado contra aquela interrupo importuna
que vinha quebrar-lhe o fio das lucubraes e faz-lo reentrar de
repente na realidade das coisas, mas logo se conteve diante da desdita
duma mocidade e duma beleza que tdas as brutalidades da luxria iam
contagiando e maculando; e, do fundo da sua bondade, ascendeu a emoo
compassiva para tanta fragilidade e tanto infortnio. A delicadeza de
alma de Frederico tornava-o incapaz de ser grosseiro e violento com uma
mulher, fsse ela quem fsse: e Branca, alm de dbil, tinha a graa
romntica duma formosura a suavizar-lhe o rosto, o aspecto doentio, uma
meiguice que parecia nascer da humildade dolorosa da sua vida e da
escravido do seu corpo. Isto amoleceu a dureza de Frederico, apiedou-o.
Pegando-lhe na mo que ela abandonou, disse:

--Cansada, hein?

--Oh! Muito cansada e morta por me ver longe dste logar,
acredite!--respondeu Branca.

--Ento, no gostou, no se divertiu?

--Eu?!... Estou para aqui!...

Enquanto falava, Branca olhava-o com uma expresso em que havia ternura
e sofrimento. Frederico pensou que aquela sensibilidade numa mulher
costumada a vender-se era exagerada. Talvez ela fingisse uma dor que no
sentia para o comover, para obter certas complacncias que lhe
agradavam, por clculo ou por outra circunstncia qualquer: mas,
fixando-a mais demoradamente, pareceu-lhe surpreender nos olhos um
sorriso que tremia e nos lbios plidos uma splica que no ousava
denunciar-se claramente, com mdo de ser repelida, e que no seu silncio
queria dizer:

--Leva-me contigo!... Sou uma companheira ainda desejvel para algumas
horas. Porque no experimentas? Farei tudo quanto me fr possvel para
te distrair, para ser amvel!...

Esta suposio comunicou-lhe aos nervos uma languidez sensual: e,
avanando para Branca, que se havia afastado alguns passos e que
aconchegava uma pele de repsa  volta do colo friorento, exclamou:

--Pois partamos. Eu acompanho-a...

Nesse momento, Sequeira, com o charuto meio queimado na bca, dormia com
os braos apertados na cinta de Eugnia; Lusa bebia caf com Paiva,
pela mesma chvena; outros convivas da ceia jovial, espalhados pela
sala, palravam, pesados e sonolentos. J atravs das vidraas se
filtrava uma claridade matinal indecisa e o ar era mais penetrante e
vivo. Frederico anunciou que se retirava e que levava Branca. Foi um
alarido.

--O qu? Antes do nascer do sol?--interrogou com estranheza o Andrade
estrbico.

--Certamente--afirmou Frederico. No nos encontramos num estado de alma
suficientemente puro para compreendermos e sentirmos a poesia da aurora.

-- uma perfdia!--gritaram muitas vozes.

-- sono! E eu tambm me saio e levo Lusa!--acudiu Paiva.

--Mas,  o rapto das sabinas!...--exclamou o Andrade.

--Oh! senhores, que chiste ste diabo tem!--aplaudiu Paiva, enquanto os
outros riam saborosamente.

Frederico vestiu o casaco, despediu-se, deu o brao a Branca, que o
esperava arrepiada e frioenta.

--Que Eros vos seja propcio!--disse ainda o Andrade, que nessa noite
estava em veia.

Frederico, que descia, j o no ouviu. Ajudou Branca a subir para o
automvel que o tinha trazido, acordou o _chauffeur_ que dormitava,
encostado ao volante, e partiu velozmente, envolvido na carcia tnica
da brisa matutina que o refrigerava e que rescendia s seivas de que se
impregnava, adejando por quintais e jardins. Quando entrou em casa, com
Branca, o sol elevava-se numa exploso de ouro, e uma leve poeira de luz
errava, ardia sbre os telhados, incendiava as vidraarias, que
relampejavam, irradiavam sbitos clares...

       *       *       *       *       *

s duas horas da tarde, ao despertar do seu profundo sono,
espreguiou-se, bocejou. Prostrava-o uma grande lassido, desgostava-o
interiormente um tdio como nunca havia experimentado, tinha mau gsto
na bca, sentia-se embrutecido. Branca dormia a seu lado, fazendo um
pequenino volume sob a roupa. Olhou-a atentamente. Estava ainda mais
plida do que na vspera;  volta dos seus olhos havia um grande crculo
arroxeado, a mo que tinha fra da roupa era exangue e tam magra que se
lhe adivinhavam todos os ossos. A pele da face e do colo, porm, era
duma brancura, duma transparncia que mostrava ntidamente a rde
azulada dos vasos sanguineos; e no seu perfil havia uma regularidade,
uma pureza, uma correco de traos incomparveis. Frederico esteve a
consider-la durante algum tempo, com uma piedade que a narrao da sua
vida atormentada e dolorosa--que Branca lhe fizera com os olhos rasos de
lgrimas--mais aumentava. A essa piedade mesclava-se conjuntamente um
desgsto muito profundo e que le no sabia explicar, uma vergonha
ntima, uma humilhante sensao de vxame. Arrependia-se j de ter
compartilhado o seu leito com uma criatura de acaso, que se alugava s
noites, que nunca tinha visto, por quem mal sentira um minuto de
intersse. Fra aquela a primeira vez! Resistira sempre a trazer para
casa as mulheres que na rua se ofereciam passivamente aos seus beijos,
por pudor, por dignidade, por altivez de carcter. Que alucinao o
afastara da honesta linha que traara  sua existncia de homem? Que
desvario lhe conturbara a lucidez da razo, no lhe deixando ver o que
no seu procedimento havia de srdido, de inferior?... Outra vez envolveu
Branca num olhar vagaroso. Ela continuava dormindo e arfando de leve no
ritmo da respirao. Frederico novamente se enterneceu. Teria ela,
porventura, culpa de andar de mo em mo como uma rosa a que se aspira
todo o perfume e que depois se abandona? Certamente que no. Era uma
vtima do egosmo dos homens que lhe apeteciam, por momentos, a beleza e
a frescura da juventude e que em seguida, enfastiados, saciados, a
repeliam. Cumpria o seu destino triste...

A obscuridade do quarto era cortada, de quando em quando, por claridades
inesperadas que se filtravam atravs das frinchas das janelas. Frederico
ouvia o rudo que vinha do exterior, do ar livre, da rua--murmrios de
conversas, de risos, de disputas, rolar de carros que passavam
arrastando-se nas pedras da calada.

--Deve ser muito tarde...--pensou.

Espreguiou-se com lentido. Tinha na cabea uma desordenada multido de
ideas que no chegavam a clarificar-se, a definir-se lmpidamente. Ia
reconstituindo a scena da noite anterior, a alegria da ceia com
mulheres--um espectculo inteiramente banal para le--os ditos
humorsticos e picantes do Paiva... Acudiam-lhe  memria os mais
apagados pormenores dessa festa de rapazes.

--E como hei de desfazer-me desta criatura, que tenho em casa, sem
provocar curiosidades escandalosas no bairro?--monologou de repente.

A estava, na realidade, uma coisa bem dificil! Morava num stio muito
povoado e muito indiscreto, havia mesmo, em frente  sua habitao, uma
outra com vizinhas bisbilhoteiras que passavam os dias por detrs dos
cortinados, espreitando, investigando, devassando. Uma delas, bem
galante no esplendor dos seus vinte e quatro anos, direita como uma
esttua, com uns olhos negros e perturbantes e uns seios que se
arredondavam sob a macieza, dos tecidos da blusa como os das patrcias
romanas sob o _peplum_, sorria-se com afabilidade sempre que o via
assomar  janela sadando-a cerimoniosamente... Durante muito tempo,
Frederico contemplou-a com encanto, como se quisesse surpreender-lhe no
rosto a revelao dum sonho de amor que, no seu corao virginal, se ia
formando e desabrochando com a inocncia e a beleza duma flor. Depois,
cansou-se e esqueceu-a... Se ela visse Branca sair da sua vivenda, em
pleno dia, alarmaria a rua, daria, da sua varanda, uma vasta publicidade
quela irreflectida aventura de Frederico:--e, quando mais tarde
passasse, tudo seriam risinhos abafados e irnicos nas suas costas,
segui-lo-iam todos os olhares escarnecedores, durante uma semana inteira
a sua reputao constituiria o tema obrigatrio e fundamental da
eloqncia da vizinhana!... Era um solteiro, era independente, tinha
um desdm absoluto pelos juzos e pelas opinies que os outros
formulassem a seu respeito:--no entanto, a perspectiva de andar durante
horas hilariantes exposto ao ridculo pblico e cheio de grotesco,
vxava-o. Precisava de ser prudente, de acautelar-se, no por Branca,
que nada perderia, mas por si. E decidiu conserv-la em casa, at 
noite, comer, mesmo, em sua companhia, um almo que o Bernardo, seu
criado de confiana, iria buscar ao restaurante que freqentava e, assim
que as sombras nocturnas descessem, despedir-se dela com um beijo--e
algumas notas de Banco. Aborrecia-o, porm, o facto de ter de ficar uma
tarde inteira fechado, diante duma pobre rapariga que fra o seu
capricho dum instante o que o no prendia nem pelas graas do esprito,
nem pelos dons da inteligncia e da cultura, nem sequer por uma beleza
que comeava a fanar-se, queimada pelo fogo da luxria.

--Olha que estopada eu arranjei por minhas prprias mos!...--murmurava,
desconsolado.

A inexprimvel sensao de desalento e de desgsto que o minava desde
que despertou intensificava-se na sua alma. Experimentava alguma coisa
de inconcebvel; a sua vida interior acelerava-se e fazia-o sofrer
amargamente. Julgava-se com severidade:--ia caindo de baixeza em
baixeza. At onde chegaria?...

A certa altura das suas divagaes, lembrou-se, subitamente, de Jlia: e
esta lembrana tam pura era como uma acusao muda, pela torpeza moral
em que principiava a debater-se. Se ela soubesse!... Se ela adivinhasse
algum dia, por uma extraordinria intuio amorosa, vulgar nas mulheres
de sensibilidade mais fina e de razo mais lcida, que Frederico a amava
e que, quando sse amor era uma alvorada de poesia na sua alma, longe de
o elevar, de o sublimar, de lhe inspirar as grandes bondades e as
grandes abnegaes, o impelia para os braos de criaturas que pertencem
a todos e lhe fazia apetecer os beijos voluptuosos de bcas femininas
que osculam os homens que lhes pagam!... Se Jlia pudesse assistir em
esprito ao espectculo do seu corao devastado diante da imagem
luminosa dela e duma cortes, que tdas as noites dormia em leitos
sempre diferentes! Absolv-lo-ia dessa misria? No se sentiria ela
salpicada tambm pela lama em que Frederico se atolava?... Mas Jlia
viveria na perptua ignorncia dos sentimentos impuros que acordavam no
seu organismo doente e, mesmo que viesse a conhecer tantos desvarios,
no se consideraria trada porque no queria dle mais do que uma estima
fraternal... Por entre a nvoa das emoes opostas que o faziam vibrar,
Frederico raciocinava ainda com certa clareza. A crise por que estava
passando sugeria-lhe palavras que um dia tinha lido em Taine.
Compreendia naquele momento que a vida humana--a do corpo ou a da
alma--era infinita e de uma imensa multiplicidade: mas que apenas certas
das suas pores, certos dos seus instantes, mereciam subsistir, como
expresses conscientes superiores. sses instantes, essas pores, a que
aludia o filsofo excelso, eram marcados pelas atitudes morais que
nobilitam o ser pensante. Fra disso, nenhuma grandeza existia!...

Levantou-se vagarosamente, para no despertar Branca no seu sono. Ha
quanto tempo--pensava Frederico--ela no teria uma hora tam sossegada,
tam calma como aquela! Nem sempre encontraria amantes condescendentes
como le!... Uma caridade igual e tranqila iluminava o quarto. Sbre
uma cadeira, amontoado e amachucado, estava o vestido da pobre flor de
todos, tendo por cima o espartilho de setim cr de rosa que le lhe
havia ajudado a despir, na pressa violenta de aspirar o perfume de amor
que a sua carne exalava. Sbre uma outra cadeira, pousava uma pele de
raposa preta do Japo e um chapu de palha de Itlia dum tom de ouro
fsco picado pelo colorido suave de dois ramos de lilases. Deu alguns
passos, com os ps nus, no tapte de Bruxelas, que espalhava uma nota de
confrto e de elegncia no compartimento; e, hesitante, voltou-se ainda
para olhar Branca. Sbre a alvura do travesseiro, destacava docemente a
mancha fulva duns cabelos louros desmanchados, emmoldurando um rosto
sereno e branco, de linhas muito finas. Uma colcha de sda escarlate
bordada a matiz desenhava ntidamente as formas correctas do gentil
corpo adormecido. Como Branca era linda e digna de piedade! E o que a
vida, com as suas impurezas e as suas terrveis degradaes, fizera duma
alma outrora virginal que poderia ter sido a graa divina dum lar, uma
adorvel espsa, uma admirvel me capaz de todos os sacrifcios e de
tdas as exaltaes da ternura!...

Passou ao quarto de banho, que ficava prximo, mergulhou vidamente na
cana de ferro esmaltado que Bernardo enchera, duma gua fria que o
tonificou, enxugou-se a um lenol felpudo e comeou a vestir-se
lentamente. Mais desanuviado, com a pele cheirando ao perfume do sabo
com que se lavara, Frederico contemplou novamente Branca e observou que
uma srie de sensaes antagnicas se sucediam umas s outras na sua
emotividade. A verdade apresentou-se diante dos seus olhos. Afinal,
Branca no era mais do que uma criatura trivial que se entregava a todos
os que a desejassem. O seu ventre estril era conhecido de muitos olhos
lbricos; a sua bca havia sido esmagada por milhares de bcas
masculinas, em beijos bestiais. Odiosas imagens fisicas interminveis
desfilavam diante dle. Que intersse poderia aquela mulher, profanada e
ultrajada, despertar-lhe? Como se arrependia de a ter trazido para a sua
habitao, para o seu leito! O contacto com ela manchara-o. E manchara
igualmente a limpidez do seu sonho, do seu ideal, deformara a
resplandecncia duma beleza vislumbrada que nunca atingiria, de que no
queria mesmo aproximar-se, mas que, a-pesar disso, mesmo de longe o
iluminava e lhe causava orgulho! Esperava agora ansiosamente a hora em
que lhe fsse possivel desembaraar-se de Branca, para se dar com prazer
 recordao de Jlia. Parecia-lhe que essa recordao o purificaria,
como uma gua lustral...

A um movimento mais brusco de Frederico, devorado por impacincias que o
agitavam, Branca acordou, abriu os olhos inchados de sono, sorriu-se
para le, com um sorriso em que havia gratido, lassitude,
contentamento.

--J a p?...  curioso. E eu que no o senti levantar!...--murmurou
ela, quebrada por uma fadiga feliz.

--Pudera! Se dormias profundamente!...--respondeu Frederico.

--Quantas horas so?

--Duas e meia!...

--Ih! meu Deus!... Que preguiosa!--exclamou, sentando-se no leito.

As longas tranas do cabelo envolveram-na tda at  cintura. Atravs da
tnue nuvem de ouro que formavam, alvejavam brancuras da camisa de
bretanha fina, de rendas vaporosas. O bafo morno que se emanava dos
lanis amolecia-a. Tinha as faces cradas pela circulao mais
apressada do sangue, e os seus olhos azis iam-se enchendo duma luz que
mais os azulava, quse os espiritualizava. Frederico aproximou-se da
beira do leito, acariciou-a levemente, passando-lhe os dedos pela face.
Admirava-lhe a formosura, qualquer coisa de virgneo, de inocente que
ainda existia nela. Uma comoo estranha perturbava-o. Ah! Aquela linda
rapariga--uma primavera em flor--erguendo-se do seu leito que sempre
fra casto, que nunca agasalhara corpos alheios, comuncava-lhe a
impresso singular dum noivado:--e esta ideia subtilizava-o, tinha para
o seu sentimento uma venturosa novidade, fazia-o esquecer de que Branca
era a noiva de quem a queria.

--Ainda nem sequer me deu um beijo!--queixava-se ela, prendendo as mos
nas mos de Frederico... Bons dias!

le beijou-a, sorrindo tristemente, e notou a delicadeza de Branca, que
no ousara trat-lo por tu. Abraando-o, suspirava.

--Ests triste?--inquiriu Frederico.

--Estou. E, no entanto, nunca nenhum outro homem me tratou com tanta
bondade...

--Ento, como se explica essa tristeza?

Branca, repelindo-o brandamente, quis levantar-se.

--Responde!...

--Eu no sei responder... Queria ficar sempre aqui, perto do senhor... 
talvez por isto, por ter de ir-me embora... Naturalmente, nunca mais nos
tornaremos a encontrar...

--Porque no?

--Eu sei l!...  sempre assim. Os amantes duma noite nunca mais se
encontram...

--Mas, eu no sou como os outros--afirmou Frederico, fixando-a
demoradamente.

--Ora! Tantas vezes tenho ouvido isso!...

Nas palavras de Branca havia uma frieza misturada de desalento que fazia
mal a Frederico. Enquanto ela se penteava, sorrindo-lhe sempre--num
sorriso cansado e automtico--le considerava-a mudamente, sendo
invadido, de repente, por uma averso instintiva, por uma repugnncia
inexplicvel. E sob a influncia de impresses opostas, observava a
incoerncia das suas sensaes que umas vezes lhe tornavam apetecida
aquela beleza que ia morrendo como uma rosa cortada e outras o foravam
a uma grande violncia sbre si prprio, para a no repelir brutalmente,
aos empurres, causar-lhe sofrimento, obrig-la a chorar. De que razo
psicolgica oculta derivaria tudo o que nos seus sentimentos havia de
ilgico, de inconseqente? Com mdo de soffrer mais, Frederico nem
sequer ousava interrogar-se, procurando definir a laborao tumulturia
da sua vida ntima.

Branca, acabando de vestir-se, sentou-se, extenuada, numa cadeira.
Frederico, acendendo um charuto, passeava no quarto, a largos passos,
enquanto ela o seguia com o olhar inquieto. Esperava... O qu?
Naturalmente que le a mandasse embora, pagando-lhe o amor duma noite.
Na sua atitude, na expresso do rosto macerado, em que punham fundas
manchas escuras as olheiras de bistre, havia resignao e melancolia.
Frederico parou junto dela, encarando-a.

--Ests pronta, hein?...--perguntou.

--Estou pronta--repetiu Branca.

--Queres ir-te embora?... Mas,  que no pode ser j! Tens de demorar-te
at  noite...

--No tenho que fazer...

--Ainda bem! Almoas comigo, se isso te no desgosta. Irs depois...

Um claro de alegria, que Frederico surpreendeu, fascou nos olhos de
Branca. Suspirou, fundamente, murmurou como se falasse para a sua
conscincia:

--Tenho sido tam desgraada!...

Este grito sincero duma alma que espontneamente se confessava chocou
Frederico, que se sentou junto dela, tomando-lhe a mo que Branca
abandonou o que le efusivamente apertou entre as suas, pensando nas
criaturas que incessantemente corriam atrs da iluso duma felicidade
sem nunca a alcanarem. Tambm le era desgraado! Tambm le aspirava a
uma irrealizvel ventura que s um amor impossvel poderia oferecer-lhe.
Um destino malfadado irmanava-os na tristeza e no infortnio:--e, talvez
por isso, a sua piedade transbordou.

--Branca, queres ser a minha amante?--exclamou de repente, aturdido.

--Quero!--acudiu ela prontamente e tda alvoraada.

--Medita!... Se aceitas, sers s para mim... Na tua situao, isto no
 fcil. Mas, eu  que no me conformarei com partilhas. Ouve bem!...
No terei rivais.

--Aceito--afirmou ela, novamente, com firmeza na voz.

E, como Frederico a envolvesse num olhar perscrutador, que se demorava a
investig-la, Branca, levantando-se, foi para le, abraou-o
esteitamente, dizendo:

--Oh! meu filho, como eu te agradeo esta hora de paz e de consolao
que me vem da tua oferta... Olha para mim... Assim, no!... Nos olhos...
Isso mesmo! Agora, repara... Juro-te que serei s tua e que te no
trarei, enquanto tu me quiseres!...

Enternecido, Frederico beijou-a longamente, como se o seu beijo fsse o
princpio duma doce e jubilosa festa amorosa que principiava. Almoaram
e, durante a refeio, Branca, que a intimidade que se ia estabelecendo,
tornava audaz, contou-lhe os seus infortnios e as suas amarguras,
crando muitas vezes por ter de ferir o secreto pudor da sua alma. A sua
histria era inteiramente igual  histria de tdas as mulheres
perdidas. Uma paixo absorvente e cega em que se confia e a que tudo se
sacrifica, a queda, o abandno, a misria final duma existncia passando
de mo em mo, enquanto vicejam a florescncia e a beleza da mocidade.
Ouvindo-a, Frederico compadecia-se, prometia-lhe da para o futuro uma
vida serena e uma emoo pura que a aurorizasse.

--No me enganes!--suplicava Branca. Se depois de tudo isso hs de
deixar-me, ento, o melhor  separarmo-nos de vez...

--No crs na minha sinceridade?... No tens f em mim?--interrogava
Frederico.

--As desiluses teem sido tantas!...--respondia ela, duvidosa.

E baixando os olhos, na voz humilde e baixa de quem revela uma vida de
vergonhas, foi dizendo tudo o que deixara pelo mundo fra:

--Em minha casa, quando eu de l sa, havia criancinhas pequeninas, que
eram minhas irms e que eram puras. Nunca mais as tornei a ver...

Ao baixar da noite, desdobrou-se sbre a cidade um denso lenol de
sombra. Branca sau contente, com a esperana de que Frederico se
encontraria com ela, volvido pouco tempo, para a continuao dum
capricho sentimental que ainda lhe parecia absurdo, tanto a havia
surpreendido a resoluo inesperada do seu amante dalgumas horas; e le,
ficando s no imenso casaro de treva e de silncio, experimentou uma
sensao de tdio mais fundo. Tda a vida lhe parecia deserta,
especialmente a vida emotiva; e, recolhendo-se, a si mesmo perguntava se
valeria a pena viv-la, sem encontrar nas almas e no mundo exterior
alegrias puras e intersses morais. Sentado numa cadeira de braos,
junto duma mesa de pau preto sustentando jarras com flores que Bernardo
tdas as manhs substitua, ia sofrendo o seu permanente suplicio.
Verificava que, em certos momentos, ideias claras, fceis, luminosas, o
obrigavam a obedecer-lhes alegremente, e que, em outras, essas ideias
eram sombrias, indecisas, indecifrveis, e o assustavam. Encontrava-se,
precisamente, num dstes ltimos instantes em que as inquietaes
interiores o consumiam, como as brasas se consomem no fogo intenso.
Justos cus! Como o seu desamparo era grande! E cada vez a solido mais
pesava  sua volta e mais insuportvel lhe tornava a carga que trazia
sbre os ombros. Naquela vivenda em que a conhecer, o da me, que morreu
na sua infncia, o duma irm, Maria das Dores, que era afilhada de Nossa
Senhora, com quem brincara na meninice e que tambm se sumira nos negros
boqueires da morte. Da sua casta, que se extinguia, era le o
derradeiro representante directo: e entrava no outono da existncia sem
ter a coragem e a abnegao de criar uma famlia. Porque no procuraria
uma doce mulher que fsse capaz de fazer um luar de ventura  sua roda,
de oferecer-lhe o peito para le repousar a cabea nas horas de
angstia, em vez de levar para o leito criaturas que transformam o
divino sentimento do amor numa mercadoria e numa torpeza? Ah! como Nuno
lhe era superior! sse sim! Havia seguido, na sua marcha para os tempos
vindouros, o caminho da verdade e da beleza, de que le se afastara--de
que se afastava ainda mais, de dia para dia!...

Com a imaginao perdida na melancolia destas evocaes aflitivas, via
novamente a imagem de Jlia erguer-se, radiante de luz, ante os seus
olhos: e, ento, lembrava-se com infinita saudade do lar inefvel e
calmo de Nuno, da felicidade perene que o envolvia, radiosa como uma
nuvem dourada. Enquanto le para ali estava curtindo o seu padecimento,
desgarrado de tudo quanto fsse humano, fecundo, produtivo, sob o ponto
de vista psquico e material, Nuno, no seu escritrio, e depois de um
dia frtil em trabalho til, em inteligncia, repousaria lendo um livro,
perto de Jlia, que a claridade aureolava e que pousaria de momento a
momento a agulha da costura para colhr um beijo na bca nobre e risonha
do marido. E no haveria acidez, clera, impurezas, nos coraes dum e
doutro, unidos pelo mesmo afecto, nutrindo-se de idnticas aspiraes,
enlevando-se numa confiana ilimitada... Ou talvez que Jlia, ao piano,
no sossgo nocturno, tocasse uma bela pgina em que vozes enigmticas
narrassem, numa linguagem de som e de harmonia, a ascenso dos espritos
subtis para a purificao e para a graa. Dentro do seu bero, o filho
de Nuno, ainda pequenino, dormiria inocentemente, lindo como um boto de
rosa, e tda a casa adormeceria tambm ao embalo suave da msica. Isto
sim! Era viver! Mas le, que com tanta ansiedade buscava a ternura, no
passava dum esquecido do destino, dum foragido...

Fra, na rua, comeavam a acender-se os candeeiros de iluminao
pblica. A chama do gs, torcendo-se  ventania, projectava sbre as
vidraas sombras oscilantes e fantasmagricas. O rudo afrouxava.
Bernardo, entrando de sbito na sala, perguntou:

--Para que horas quere V. Ex.^a o jantar?

--Eu no janto hoje, criatura--afirmou Frederico, erguendo-se e
dirigindo-se ao criado.

--Santo nome de Maria! No janta?

--Ou por outra, janto fra. Arranjem-se l vocs, tu e a Rosalina.

--Ento, est bem!--disse Bernardo, retirando-se, sem estranhar j as
excentricidades do amo, desde que nessa manh o vira almoar com uma
mulher da vida airada, em sua prpria casa.

Que fatalidade o perseguia!--pensava Frederico, reatando novamente o fio
das suas meditaes. A ambio duma famlia estava agora para sempre
comprometida, porque le no poderia ligar-se a uma mulher que no
amasse, que havia de ser-lhe odiosa, sempre que se lembrasse de Jlia,
sua nica e infeliz paixo... Nesse instante, Frederico via-a bem real,
duma personalidade bem determinada, diante de si. A sua beleza era
perigosa. Nos seus olhos existia um ardor secreto que denunciava a
amorosa. Parecia-lhe que ela tinha uma dessas expresses pensativas que
nunca se definem com nitidez e que tanto seduzem, porque denunciam almas
de indizveis delicadezas. Frederico sentia-a em si, consagrava-lhe a
adorao perseverante, o culto absoluto, o amor que se bastava a si
prprio e que duraria, veemente, vivaz, enquanto le tambm durasse. A
esta certeza, revoltava-se mais uma vez. Com efeito, que maus fados o
tinham levado para casa de Nuno! E que fraqueza lamentvel a sua,
apaixonando-se pela espsa do seu melhor amigo, sem que reagisse
violentamente contra o amolecimento da vontade, o desfalecimento do
corao!

Jlia insinuara-se--sem querer, porque era honesta--na sua admirao, no
seu desejo, na sua carne, em todo o seu ser de homem: e, sendo tam pura
e tam santificada de bondade, envenenara-o para sempre, fizera dle
alguma coisa de vil e de abjecto que entrava num santurio familiar no
para purificar-se ao contacto das grandes virtudes, mas para trair.
Porque j traa Nuno, no por actos irreparveis, mas pelo
sentimento!...

Sb a influncia mrbida dste raciocnio, exasperou-se. Sufocava. Os
olhos dardejavam-lhe um brilho especial. Sentia a necessidade de
aturdir-se, de bestializar-se, de apagar tda a claridade da
conscincia. Outra vez evocou Branca. Iria para ela, embora se
afundasse; havia de procurar nos speros delrios da sensualidade ou nas
alucinaes do alcool o sossgo indispensvel que lhe fugira, com o
desespro com que Alfredo de Musset procurava nos copos de absinto o
reflexo verde dos olhos da Quimera! O que le pretendia era esquecer
Jlia, por todo o preo--mesmo  custa da sua dignidade...

Como as noites fssem j frias, vestiu um sobretudo, ps o chapu, pegou
nas luvas e na bengala e sau, mergulhando no movimento exterior, que o
acalmava. Ao chegar  porta da rua, viu, na casa fronteira, as vizinhas
que, por detrs dos vidros da janela, o espiavam. Irritado, no as
cumprimentou, seguindo em passos nervosos pela calada. Tinha feito uma
promessa a Branca. Ia cumpri-la, com o corao tranzido e com a certeza
de que se dirigia para o mal e para uma nova dor...




VII


Certa manh, ao entrar em casa depois de tda uma noite passada com
Branca--j instalada numa luxuosa e recolhida vivenda que Frederico para
ela escolhera numa rua solitria da Foz e onde renira tudo quanto
pudesse oferecer bem estar ao seu egosmo e encanto aos seus olhos
saudosos de beleza artstica--encontrou uma longa carta de Nuno que o
correio trouxera e que Bernardo solicitamente pousara sbre a larga mesa
do seu gabinete de trabalho, num stio bem visvel. Durante muito tempo
conservou-a, hesitante, nas mos, sem ter a coragem de rasgar o
envelope. Mirava-a, remirava-a, voltava-a entre os dedos nervosos,
estudava a letra mida e firme do amigo, como se quisesse perscrutar nas
particularidades exteriores o oculto sentido do que ela dizia, das
revelaes gratas ou dolorosas que iria fazer  sua inquietao de
esprito cada vez mais violenta e que os delrios da sensualidade carnal
no apaziguavam, ao seu sofrimento moral de dia para dia mais veemente,
roendo-o com a lentido com que um acido corrosivo ri certos metais.
Era a primeira vez que Nuno lhe escrevia, desde que Frederico deixara a
quinta rural, afastando-se duma atmosfera mrbida que fazia mal aos seus
nervos, que lhe desgastava a energia, que lhe amolecia a vontade,
fugindo  permanente adorao de Jlia--uma adorao criminosa que
inutilmente se esforava por abafar dentro do corao e que subtilmente
crescia sempre, invadindo-o todo, cegando-o, alucinando-o, vivaz como
uma planta daninha que se quere destruir e que constantemente surge, com
teimosia,  superficie da terra. Que iria Nuno dizer-lhe?
Inconscientemente, na ignorncia do seu amor impuro, o amigo trabalhava
contra si prprio, avivando coisas que Frederico pretendia, em vo,
esquecer para que mais de-pressa curasse os seus nervos doentes, a sua
alma enfrma!...

Passeando agitadamente, com a carta apertada na mo trmula, Frederico
notava que, por uma singularidade inexplicvel, tda a gente, mesmo as
pessoas que mais estimava, conspiravam, contra a sua paz, contra a sua
ventura. Nuno, por exemplo, havia de falar-lhe da sua felicidade
conjugal, da ternura de Jlia, da sua perfeio como mulher e como
espsa, o que o atormentaria, agravaria excepcionalmente o padecimento
que trazia consigo. Os beijos de Branca, a graa, a formosura esplndida
do seu corpo n vibrando dos desejos voluptuosos que le acendia, s lhe
avivavam na imaginao ardente o fogo da paixo alucinante pela outra,
por Jlia--uma complexa paixo em que havia conjuntamente delicadezas,
mimos, aspiraes, purezas quse msticas e as impulsividades grosseiras
duma luxria que maculava as emotividades mais castas. Vivia, por isso
mesmo, numa perptua ansiedade, sobressaltado de temores contnuos
diante dos insignificantes factos que pudessem recordar-lhe a mulher que
a todo o transe deveria olvidar para seu sossgo, por imposies da sua
dignidade ainda no totalmente amolecida. Estava reduzido  necessidade
de procurar a calmaria interior, aturdindo-se nas orgias sensuais com
Branca, nas noitadas com os conhecidos pelos teatros e pelas mesas dos
restaurantes, em que bebia at perder a lucidez da conscincia, ou a
fugir ao seu semelhante, acolhendo-se ao isolamento da sua fria casa de
solteiro, onde no encontrava nada daquilo que o sentimento
imperiosamente lhe reclamava e onde, frente a frente, o encarava o seu
pior inimigo, que era le prprio. Estas rudes emoes, de que lhe era
impossvel emancipar-se, iam-lhe aviltando o carcter, extenuavam-no
fsicamente. A fra, a resistncia, a sade, escapavam-se-lhe do corpo
como a tranqilidade se lhe havia escapado da alma. Durante horas
seguidas, nada mais sentia do que o pso esmagador do infortnio que
teimava em acabrunh-lo; e, se tentava reagir era para se crivar de
sarcasmos, de ironias cruis e fulgurantes, sbitamente avassalado pelo
prazer secreto de destruir-se, de se afundar mais nas torpezas que
dilaceram e matam, de acabar, com um golpe feroz e rpido, aquela
contnua tortura de todas as horas, fermentando nas impurezas
emocionais, de que era feito o seu abjecto sr de homem. Em Frederico,
exauriam-se as fontes psquicas de que brotam as seivas criadoras que
engrandecem e nobilitam as criaturas. O seu aniquilamento tinha
comeado: mas, por cobardia moral ou por orgulho, evitava tudo quanto
pudesse sobressalt-lo neste vagaroso trabalho de desagregao, e lhe
perturbasse a alegria feroz com que assistia  sua devastao
desordenada...

Ao cabo de demoradas cogitaes, aproximou-se duma janela e olhou para
fra. A manh corria serenamente, iluminada por um fulvo sol de inverno
que caa do alto sbre a cidade como o plen duma imensa flor de ouro.
Na rua, curvada sbre a carga do seu gigo cheio de hortalias frescas,
passava uma mulher lanando nos ares um prego vibrante, com a saia rta
embrulhando-se-lhe nas pernas. Bernardo entrou de repente, perguntando a
Frederico se tinha visto a carta que o homem do correio trouxera.

--Vi. Tenho-a aqui. Vou l-la--respondeu.

E, quando o criado sau, fechando a porta, Frederico, vencendo, por uma
deciso sbita, tdas as irresolues que o alanceavam, rasgou com
desespro o envelope, desdobrou a larga flha de papel ennegrecida de
tinta e encetou a leitura. Logo s primeiras palavras se lhe desenrugou
a face que envelhecia e se abaixou a curva das suas sobrancelhas
contradas. Nuno narrava-lhe a labuta constante a que se entregava na
quinta, sob as soalheiras de vero, que lhe tisnavam a pele, sob as
chuvadas de outono, que lhe enrigeciam a fibra, comunicando-lhe mais
elasticidade. As obras da vasta propriedade, alugada ao caseiro, estavam
quse terminadas. Instalara o vlho Mateus e a famlia num palcio, s
para que perto dle no houvesse o espectculo dissolvente da misria
humana; rompra mais minas que, de muito longe, da encosta dos montes
prximos, traziam em levadas uma gua muito clara e cantante que, pelos
estios calcinadores, regariam as terras, levando o alento e o vigor s
culturas benficas: transformara tudo. Entusiasmado, confiava-lhe os
seus projectos futuros. Andava com ideia de se fazer lavrador, de
abandonar para sempre a cidade, que s visitaria de fugida, para tomar
um banho de civilizao, regressando logo  simplicidade do campo, 
placidez rstica. Se esta vontade vitalizadora, que o galvanizava, no
viesse a esfriar, teria, mais tarde, em estbulos bem cuidados, manadas
de vacas que lhe dariam o bom leite, o queijo, a manteiga. Exploraria a
indstria, tam atrasada entre ns, dos lacticnios, concorrendo para a
riqueza do pas com uma parte da sua frtil actividade...

Frederico interrompeu a leitura da carta, para murmurar
humorsticamente, como se conversasse com o amigo:

--E nas horas vagas, como Verglio, podes fazer versos, escrever as
_Gergicas_ ou as _Buclicas_!...

Sorrindo com a sua observao, reencetou a longa epstola de Nuno que ia
desenrolando outras empresas que lhe pareciam fabulosas, esquecido
completamente de que Jlia lra aquelas linhas que lhe eram dirigidas,
que os seus olhos pensativos haviam pousado em cada palavra, que ela
fra mesmo composta a seu lado, num daqueles demorados e pacficos
seres que constituiam um dos maiores encantos da vida familiar do
amigo. Nuno falava agora, sempre com o mesmo jbilo, em granjas,
espigueiros, eirados, tulhas e celeiros para os cereais que colheria,
adegas para o vinho, apetrechos de lavoura.

Quero--dizia le--trabalhar para aumentar assim a fortuna do meu
filho--que est um figuro, um grande senhor de olhos espantados e cara
rabujenta, que se ri de tudo com uma alegria a que as misrias da
existncia ainda no comunicaram o seu veneno e a sua dr--de outros
filhos que venham, porque me no satisfao com ter nicamente por
descendente e representante um sr pequenino e frgil que a menor doena
pode arrebatar ao meu afecto. Jlia  da minha opinio...

Esta ltima frase transtornou Frederico como um insulto  pureza do seu
amor, como uma maldio que tornasse estril o seu sentimento.
Parecia-lhe que Nuno o ofendia e o escarnecia, confiando-lhe a esperana
que alimentava de Jlia lhe dar mais filhos--filhos que seriam seus,
gerados no calor genesaco dum beijo profundo em que duas bcas, que se
queriam, se transformavam numa s bca, em que dois corpos, latejantes e
convulsionados pela febre da fecundidade, se fundiam num s corpo! Uma
clera absurda subiu do seu corao por essa mulher que se lhe apoderara
da alma e que ao marido entregava tudo e ao amante ignorado nada
oferecia que o tranqilizasse. Para Nuno, para a sua satisfao, para a
sua vaidade, para a sua felicidade completa, a vida jorraria
ininterruptamente do flanco de Jlia, o seu ventre geraria os sres
quse divinos pela graa e pela inocncia--sres admirveis em que
ambos, atravs do tempo, se prolongassem, se perpetuassem. Para le, que
tanto a amava, e que, por isso tanto sofria, no havia mais do que uma
amizade certamente sincera, mas que no bastava  sua ansiedade dolorida
e que repelia com amargura! Irritado por stes raciocnios, Frederico
nada mais via em Jlia do que o facto brutal que derivava da sua ligao
legtima, com Nuno--facto que manchava a purificao do amor impossvel
que lhe consagrava, sem que ela sequer o soubesse. Considerava que o seu
drama passional se transmudava em comdia. Sentia-se ridculo e
exagerava o que na sua situao havia de grotesco, para conseguir
desdenh-la, j que a no podia olvidar. Estava, certamente, fra da
equidade, da razo, da justia, mas achava que a sua revolta era
natural... Por fim, reagindo sbre si prprio, reentrou na realidade das
coisas, monologando, revoltado:

--J no haver ento limites para a minha misria?

Com que direito, efectivamente, se insurgia le contra a ternura de Nuno
pela espsa? E com que direito tambm a reclamava para si, como se ela
lhe pertencesse, sem se lembrar do que devia  sua dignidade,  sua
afeio fraternal, ao respeito por um lar sagrado onde entrara como um
amigo e donde sara enxovalhado, ennodoado por um sentimento criminoso
que fra impotente para sufocar,  nascena, no corao? Estaria por tal
forma perdido para a vida moral sadia, honesta, elevada, que no
compreendesse a vileza suprema da aco que praticava? Mas a sua
libertinagem--a libertinagem em que esperava consumir-se, matar a
sensibilidade, endurecer, embrutecer--era recente...

Arrependido, pedindo ntimamente perdo a Nuno da sua loucura, pegou
novamente na carta que tinha pousado sbre o peitoril da janela,
continuando a l-la. O amigo anunciava-lhe que o inverno havia chegado,
com as suas interminveis noites de treva, os seus cinzentos dias de
vento e de chuva. As rvores do parque j no tinham flhas, a pasagem
dos arredores da quinta parecia morta ou embebida num sonho inerte em
que as vidas futuras germinavam, preparando-se para ascender  luz. Nuno
e Jlia levavam agora uma existncia mais recolhida e montona, porque
no podiam sair de casa. A gua, descendo em torrentes das serras,
alagava a plancie, transformava caminhos, crregos, azinhagas,
barrocais, em rios lamacentos, tornava intransitveis aquelas estreitas
veredas, entre densos silvados, que pelas primaveras romnticas floriam
e se perfumavam com o aroma das madre-silvas e das roseiras bravas e
onde, nas manhs de vero, amadureciam as negras amoras silvestres...

Mas--concluia Nuno--eu tenho os meus livros, que leio e releio para
colhr alguma humilde parcela da verdade e da beleza que atravs dos
sculos os crebros e as sensibilidades mais finas nunca deixaram de
perscrutar; Jlia tem o seu piano, o seu Beethoven, o seu Liszt, o seu
Schubert, o seu Debussy; e ambos temos ainda, para prender a esta casa
solitria um encanto sempre novo, o nosso amor e o nosso filho. E
estamos com uma infinita curiosidade de passar aqui todo o inverno,
assistindo  ressurreio primaveril,  aleluia das flhas e das
floraes... E tu? Se te aborreceres por a, com os teus teatros, os
teus romances de corao, mais efmeros do que as rosas de Malherbe, os
teus conhecimentos, os teus tdios, faz as malas e vem. Sers recebido
com a afabilidade e a alegria que, no vasto mundo, apenas nesta cabana
amiga encontrars...

As ltimas linhas da carta enterneceram-no. Bom, admirvel Nuno! Como a
sua afectuosidade perene se recordava dle e de tam longe o chamava!...

Havia ainda um _post-scriptum_. Frederico, alvoroado, leu:

--Jlia, que est aqui ao meu lado, depois de ter adormecido ao colo o
nosso morgado, recomenda-se, manda-te muitas sadades e pede-te que te
lembres de ns. Anda a estudar, com intersse, uma sonata de Beethoven,
que ser para ti e que, na tua volta  quinta, hs de ouvir...

Por um momento, estas palavras tam naturais e tam simples,
conturbaram-no, excitaram-lhe a imaginao. Jlia pedia-lhe para se
lembrar dela, estudava pra le uma das mais belas sonatas de Beethoven,
talvez inspirada ao maior poeta de msica por uma profunda,
transfiguradora paixo, tinha consigo delicadezas do que apenas so
capazes as almas que amam em silncio. Quem sabe se essa doce mulher
fra tocada pelo fluido invisvel do amor que o abrasava, se tambm o
amaria em segrdo, escondendo sse sentimento, ao mesmo tempo pecaminoso
e divino, bem no fundo do corao, para que nem Nuno nem mesmo le
sequer o pressentissem? Quem poderia adivinhar, decifrar o drama oculto
naquela alma tam requintadamente feminina?... Depois dalguns minutos de
reflexo, porm, o seu desvairado scismar pareceu-lhe vo e sem sombras
de realidade. Com efeito, se Jlia lhe consagrasse um afecto que, por
sua essncia, tivesse de esconder cautelosamente, no pediria a Nuno
para acrescentar  carta que acabava de receber um _post-scriptum_ em
que se denunciaria. O amor obrigado a esconder-se  sempre assustado,
supersticioso, teme mesmo os actos mais inocentes com mdo de revelar-se
a olhos perspicazes. No! Que ideia a sua! Jlia era, para le, apenas
uma ba, sincera amiga, e nada mais do que isso. E esta virtude
nobilitava-a para Frederico!...

Sbre a sua alma passou, nesse momento, uma nuvem da tristeza que, por
um instante, o deixara para de novo voltar a deprimi-lo; no seu esprito
manifestaram-se alternativamente as crises contraditrias, a desiluso
que o pungia pela secura e as aspiraes indefinidas que sossegavam a
intervalos o seu mal estranho. Amarrotou nervosamente nas mos a carta
de Nuno, atirando-a para cima da mesa, e, concentrado e sombrio,
recomeou o seu passeio. Voltar  quinta, ser uma testemunha da
felicidade de Jlia e do marido, tam estreitamente unidos por um amor
que incessantemente refloria, que ao fim de dois anos mantinha a mesma
febre, a mesma ansiedade, o mesmo calor, a mesma infinita, inextinguvel
adorao? No tinha coragem para isso, porque no podia conservar-se
impassvel, ao menos, diante do espectculo duma ventura que
ardentemente desejava para si e de que, conjuntamente, fugia como
fugiria dum pavoroso crime. O amor de Jlia e de Nuno era sagrado pela
sua pureza; no entanto, tomava-o, no seu egosmo, como um insulto, como
um sarcasmo de fogo que o queimava, como um escrnio ao seu infortnio.
No! Nunca mais! No queria presenciar a florescncia maravilhosa e
suave duma ternura que tam ardentemente apetecia para si e que um outro,
legitmamente, frua. A sua pessoa no era necessria em casa do amigo
para que le fsse feliz: e Frederico, sse carecia de estar longe de
ambos para ser menos desgraado... O que existia de paradoxal no seu
caso singular! Sabia que Jlia e Nuno o estimavam fraternamente; que, se
a sua alegria de viver, a sua placidez interior, dles dependessem,
seria absolutamente ditoso; que no tinha, no tumulto vertiginoso da
existncia, mais seguros e nobres afectos; e, no entanto, era justamente
de Nuno e de Jlia que para si vinha a maior dor, a mais intensa
amargura!...

E o que tambm havia de bizarro, de incompreensvel, de insensato, no
seu sentimento! Amando Jlia alucinadamente, querendo-a acima de tdas
as coisas, no odiava agora Nuno, que a possua. Pelo contrrio, a sua
afeio crescia cada vez mais por sse belo rapaz que a uma dignidade
inquebrantvel aliava os brilhantes dons de carcter, de inteligncia,
de grandeza moral. Tudo aquilo lhe parecia confuso, baralhado,
incoerente, fra da realidade humana, obedecendo talvez a leis
psicolgicas ainda ignoradas...

Cansado de se debater sem trguas na mesma agitao rida, nas mesmas
angstias e nas mesmas perplexidades, chegava a desejar que uma
catstrofe se abatesse de repente sbre le e o aniquilasse ou
esclarecesse uma situao que no podia sofrer por mais tempo. Tudo o
que viesse imprevistamente, luminoso ou sombrio, irremedivel ou ditoso,
suave ou amargo, seria prefervel quela tortura lenta em que o seu ser
de homem se dissolvia aflitivamente. A casa parecia-lhe deserta como
nunca e duma solitude apenas comparvel ao ermo do seu corao. O
silncio constrangia-o. Queria o rudo, as conversas, a animao, o riso
 sua roda; desejava tudo o que o aturdisse, que desviasse o rumo das
suas cogitaes, que o insensibilizasse por instantes. Tirou o relgio
do blso, viu as horas. Era ainda muito cedo para o almo. Daria uma
volta pela cidade, iluminada por um sol plido de inverno que ardia num
cu claro como se fsse feito de cristal, almoaria mesmo em qualquer
restaurante onde houvesse gente, barulho, tinir de louas e de metais,
onde entrassem homens apressados e respirando fortemente, ocupados por
uma actividade que os movimentasse, por um intersse que os impelisse
para a frente, sem repouso. Nesse logar, estaria melhor do que  sua
mesa, diante dum fresco ramo de flores orvalhadas, de porcelanas, de
esmaltes brilhantes, de pratas scintilando  luz, de toalhas de linho
muito branco, tendo por companhia nica o respeitoso Bernardo que o
servia com a solenidade de quem celebrasse um rito e que respondia por
monosslabos s suas perguntas... Ps de novo o chapu, pegou nas luvas
e na bengala, dobrou a carta de Nuno, que guardou na gaveta, e chamou o
criado para dizer-lhe que no almoava.

--Mas, o almo est quse pronto!--informou Bernardo.

--Pois, come-o tu e que te saiba bem!...--atalhou, risonho.

Bernardo considerava-o com espanto, envolvia-o num olhar de surprsa; e
quando Frederico sau, descendo as escadas com rapidez, murmurou:

--Umas vezes no almoa, outras no janta, deu agora em ficar fra de
casa, como um vadio, le que era tam regular na sua vida... Est
estragado... Enfim, eu nada tenho com isso. Sou servo, le  patro, tem
dinheiro, tem sade... Adeus, minhas encomendas...

Frederico, a quem a carcia do frio ar circulante refrigerava e
desoprimia, encaminhou-se para a Praa da Liberdade, cortando ao acaso
atravs de ruas ruidosas de multido, coloridas, cheias de pitoresco,
exibindo uma fisionomia caracterstica. Nos bairros pobres, secava roupa
atada em cordas por varandas e trapeiras. Ranchos de crianas sujas e
rtas erravam nas caladas, brincando. Criadas de servir regressavam dos
mercados e dos talhos com grandes cabazes de vrga enfiados no brao. As
lojas estavam apinhadas de compradores que, aos balces, regateavam com
os caixeiros. Desfilavam soldados, aos pares e de mos dadas, com o
_bonet_ de vivos vermelhos sbre a orelha e um ar obtuso nas frontes
assimtricas e inexpressivas.

Perto de mercado do Anjo, duas peixeiras, de roupas descompostas e de
gigas  cabea, jogavam o brao furiosamente e insultavam-se nos termos
mais duros e obscenos, entre um enorme ajuntamento de populares que
riam, de bca escancarada e de face contrada e vincada de rugas. A
trre dos Clerigos subia na diafaneidade do espao, projectando uma
esguia mancha de sombra no ambiente luminoso e sereno.

Era a um sbado, vspera de festa. Para os lados do Bomfim, sbre os
telhados em que o sol caa a prumo, estralejavam foguetes que subiam,
rechinando, no ar e que ao explodirem deixavam pequenas nuvens dum fumo
branco e denso pairando na limpidez da atmosfera, como novelos de
algodo que se esfiassem ao vento, sob o cu azul e fino.

Frederico marchava apressadamente, absorvido em emoes e cuidados
ntimos, sem reparar na scenogrfia exterior. A vida envolvente com as
suas variadas formas, os seus coloridos, violentos ou ternos, a sua
particular expresso, passava-lhe inteiramente despercebida, tam fundo
era o recolhimento do seu esprito no drama sentimental de que no
conseguia separar a personalidade psquica. Sempre aquela obcesso a
persegui-lo, sempre a venenosa flor dum venenoso desejo por Jlia--pela
sua carne, pela sua beleza fsica, pela sua candura, pela sua graa
fresca e luminosa--renascendo dentro de si, perturbando-o, embriagando-o
como um perfume deletrio! A luta--uma luta contnua de tdas as horas,
de todos os dias--extenuava-o. J no podia, no desfalecimento de
vontade que o esmagava, conduzir-se com firmeza pela prpria razo ou
pela parte incorruptivel e intacta do seu sentimento:--era conduzido
pelo instinto sensual, sem dispr de energia para uma reaco alacre e
vitoriosa que o emancipasse da tortura intensa, que lhe restituisse 
natureza espiritual o divino encanto perdido e a pacificao deleitosa.
Nuno, ignorando a sua agonia secreta, chamava-o de longe, colaborando
assim no monstruoso crime que pretendia evitar, concitando-o a uma
traio que Frederico, no seu delrio, julgava j consumada porque lhe
ardia na alma o lume dum amor impuro pela espsa do amigo de tda a
vida, do camarada de estudos, do irmo com quem fizera, em plena
concrdia, metade da jornada da existncia. Era terrvel! A fatalidade
abatia-se inexoravelmente sbre le, encarniava-se contra o seu
infortnio, exacerbava-lhe a dor. Frederico notava, com subtileza, a
pequenez, a impotncia do homem--mesmo quando ele fr culto e dipuser
duma sensibilidade--para dominar-se, para conter-se em face do mal,
sempre que nesse mal houver a satisfao spera dum gzo, dum intersse
moral ou material. Nestes momentos, que incessantemente se repetem, o
que no organismo humano, tam imperfeito, se impe  a revolta da
animalidade grosseira, apagando-se no ser consciente tudo quanto nle h
de superior!...

Mas, Frederico tentava ainda lutar contra essa animalidade, vencer a sua
impetuosa paixo, conservar-se num estado de alma que o tornasse digno
da afeio fraterna de Nuno, sem que tivesse de crar de remorsos ou de
vergonha, quando diante de Jlia le lhe chamasse amigo e o apontasse
como um exemplo de lealdade. Como no tinha confiana em si mesmo, como
suspeitasse de que junto da mulher adorada em silncio no pudesse
esconder um amor que no devia revelar-se para poupar sofrimentos e
afrontas, como temia que um instante de fraqueza e de desvairamento o
levassem a cometer desatinos que no teriam remdio, caminhando
aceleradamente nas ruas, cada vez se aferrava mais  ideia de no voltar
a casa de Nuno e de esquivar-se a um encontro com Jlia. Longe dela, o
perigo seria menor.

Pensando assim, enquanto  sua roda a multido indiferente ria e
palestrava, circulando activamente, Frederico chegou  Praa da
Liberdade e entrou numa tabacaria a comprar charutos.  sada,
encontrou-se face a face com algum que avanava para le, de mo
estendida, que o sadava com uma exclamao jovial.

--Oh! Frederico, oh! ladro!... Que feliz casualidade!... H quanto
tempo eu andava por estas acidentadas e sujas ruas portuenses  procura
duma figura conhecida e sem a encontrar!...

--Oh! Duarte!... Duarte de Alarco e Atade, dos Atades do Alentejo!
Como diabo vieste tu parar mais uma vez a esta nobre cidade de trfico e
de negcios?

--Coisas estupendas, quimeras... Cheguei de Lisboa hoje, no correio da
manh e aqui me encontro.

Apertaram efusivamente as mos, contemplaram-se por alguns momentos com
simpatia.

--Ests mais forte e mais moreno, digno Alarco e Atade!

--E tu mais corcovado e triste, D. Frederico!

--Que queres, amigo?--atalhou Frederico, desalentado. _a ne marche
pas!_...

Duarte havia sido seu condiscpulo, no segundo ano da Academia
Politcnica, onde no concluira o curso de engenharia por ter armazenado
j, segundo confessava, a quantidade do scincia suficiente para viver
saborosamente a vida, com a abundante pecnia herdada. Era, ento,
ruidosamente alegre, brilhante de vivacidade, tocava na guitarra, que
gemia entre os seus dedos, o fado do Conde de Vimioso, com que acordava
os coraes namorados das trapeiras em noites de luar e de serenata e
que, no seu entender, constituia a pgina de msica mais nacional e
poderosamente expressiva que Portugal havia criado, desde que entrara
nos horizontes maravilhosos da civilizao.

--Verdadeiramente--asseverava le, fazendo a _blague_--a nossa Ptria
possue duas coisas grandes e de gnio:--a descoberta do caminho martimo
para as ndias, que definiu os nossos compatriotas como marinheiros e
perseguidores de aventuras, e o fado do Conde de Vimioso, que os definiu
em tudo quanto nles existe de elegaco, de lrico, de subjectivo.
Estamos diante de duas epopeias, meninos!...

Aquele admirvel Duarte! Caa do cu, providencialmente, no meio das
tristezas de Frederico, das suas derrotas, dos seus desconslos, para os
dourar com uma rstea de alegria transitria como o sol doura uma
pasagem, depois da chuva.

--Tens estado sempre em Lisboa, desde que abandonaste o Prto?

-No, criatura! De vez em quando, sempre que o pas me satura de enfado,
e, com as suas eternas faras, o seu entremez permanente, me comunica um
fastio de Tibrio exausto, fao as malas, viajo, desbestializo-me,
tomando um banho de elegncia, de lucidez mental, por essas bemditas
nacionalidades cultas da Europa. E tu? Que fazes? Que tens feito?

--Nunca sa de Portugal, Duarte! Vou murchando, por patriotismo, no
nosso torro natal, como uma couve tronchuda. Sou assim patriota...

--E selvagem!... Tambm razovelmente selvagem.... E agora, para onde te
dirigias, a passos largos, encurtando o caminho da sepultura, como
afirma o _Eclesisastes_?...

--Deambulava por a fra,  procura dum stio onde almoasse sem
escndalo. Porque no vens comigo, Alarco e Atade? Faramos um
pequenino gape, celebrando ste acontecimento festivo!

--Pois, aceito!... Que diabo, estou com debilidade, com fome. E nem
sequer me lembrava!...

Atravessaram, lentamente, a Praa da Liberdade, em direco  rua de S
da Bandeira, parando a cada instante para relembrarem episdios
passados, incidentes humorsticos da mocidade h muito olvidados. Os
carros elctricos corriam velozmente sbre os _rails_, num incessante
retinir de campanhas de alarme, os automveis fugiam no fio do vento,
entre nuvens de fumarada, atroando os caminhantes com as suas _sirnes_;
das tlias altas que, nos dias ardentes de vero, espalham sbre a
calada ndoas rxas de sombras afagadoras, desciam as derradeiras
flhas. Duarte, enfiando o brao no de Frederico, evocava scenas
hilariantes dos anos extintos.

--Tu ainda te lembras do Martinho, homem terrvel da Beira e da batota,
que numa noite de azar, vendeu a alma ao Diabo por dez tostes?

--Perfeitamente!... Foi para a frica. Nunca mais se soube dle.

--Por sinal que o Diabo, cansado de comprar almas inteis para os seus
fins de regenerar o mundo pelo espectculo da tortura, no aceitou a
oferta em condies excepcionais de preo, e Martinho, despeitado,
pregou-lhe a maior descompostura que le tem apanhado, desde Santo
Agostinho!

Riram com satisfao, na beleza gloriosa da manh que os remoava.

--Pobre camarada!--continuou Duarte. Ao dr. Fausto, o Diabo deu ainda,
com a juventude, a virgindade e a beleza de Margarida. Ao nosso
companheiro, no deu nem dinheiro para cigarros. Era por isso que le
dizia, com rancor, que Satans, depois que Gothe o descobriu oculto na
conscincia, tinha perdido todo o prestgio... E que  feito de Nuno,
sse encantador conviva das ceias de S. Mamede de Infesta, com bacalhau
e guitarras?

--Est casado... E j tem um filho.

--Oh! O srdido burgus!... E talvez feliz, hein?

--Enormemente feliz.

--O animal!... Tu, solteiro.

--Sim, homem! Solteiro...

--Como eu!... Como os heris de Tyrso de Molina, sempre  caa de rlas
assustadas. Fazes bem.  assim, justamente, que procedem os homens
decentes.

Tinham chegado  esquina do Caf Portuense. Duarte estacou, exclamando:

--No meu tempo, havia aqui uma fonte e um tanque. Uma noite, o Andrade,
o de medicina, quis afogar-se nesse tanque, porque acabava de saber que
a costureira que amava o trara com um oficial de barbeiro. Suicidava-se
no por orgulho ofendido, mas por esttica. Tive um trabalho para
evitar que le se molhasse... O que foi feito de tda essa gua?

--Secou, desapareceu.

--Como a f nas almas!... Oh! os tempos modernos so iconoclastas.

Frederico, afagado por todo ste riso que se irisava de jovialidade como
uma espuma tnue e branca se irisa  luz, sentia-se desoprimido das suas
inquietaes anteriores, e abenoava aquele encontro inesperado, que o
distraa, que lhe tornava mais leve e desanuviada a vida. Por momentos,
tudo lhe esquecia, tudo adormecia na sua memoria e no seu sentimento:--a
carta de Nuno, o amor de Jlia, a luxria em que se afundava com Branca.
Do fundo do seu corao subia o reconhecimento para aquele bom Duarte em
quem a jovialidade era perene e espontnea...

Em frente do teatro S da Bandeira, ainda se detiveram. Frederico,
riscando gestos no ar com a ponta do dedo enluvado, dizia:

--Na parede dste edificio j havia aquele mesmo buraco, quando eu era
estudante. Caram tronos depois disso, morreram dois Papas, houve trs
guerras fulgurantes, o Imprio Celeste mudou as suas institues
polticas, nasceram-me na cabea os primeiros cabelos brancos e o buraco
l est. S le no evolucionou porque  um documento histrico e
representa o amor, o carinho, com que o Prto defende a sua fisionomia
secular.

--No zombes, Duarte--atalhou Frederico. Essa tendncia conservadora do
Prto  uma das suas primaciais virtudes.

--Mas, no zombo! Primeiro que tudo, o amor  tradio. S le
engrandece os povos, no sbio e verdico dizer de Fustel de Coulanges...

Foram andando vagarosamente, meteram pelas ruas prximas, dando uma
volta, porque Duarte tinha curiosidade em ver certos logares que lhe
evocavam os dias distantes da mocidade, que lhe relembravam certos
factos, determinados acontecimentos. A cada instante, chamando a ateno
de Frederico, lhe fazia revelaes, dizendo:

--Tive antigamente por aqui um namro. Ela chamava-se Faustina e eu
considerava-me o seu Marco Aurlio... Bons tempos!

Mas Duarte, nas suas vagas observaes, ia verificando que a cidade
envelhecia, que a idade a deformava, lhe comia a cr e o vio, como se
fsse um rosto feminino em que a beleza da juventude fsse morrendo.

--Tudo envelhece, afinal--murmurava tristemente--o corpo humano e as
prprias pedras inertes que fendem, ennegrecem, se cobrem de musgos
parasitrios. Que formidvel poder de destruio, o da morte! Nada 
eterno!...

Voltaram, novamente,  Praa, entrando por fim num restaurante. Duarte,
enquanto Frederico, depois de tirar as luvas e o sobretudo, escolhia na
lista os pratos, coando a ponta do queixo numa grande, embaraosa
irresoluo, lamentava-se por no ter encontrado mais nenhum dos seus
condiscpulos ou dos seus conhecidos doutrora. A vida era uma
infatigvel dispersadora de almas. Mesmo num pas tam pequeno como
Portugal, os que uma vez se separam, geralmente no tornam, a falar, a
no ser por acaso.

--Homem, a tens a lista. V se preferes algum cozinhado--exclamou
Frederico.

--No quero ver a lista! Escolhe tu, Brillat-Savarin. Mas, mete no
festim alguma iguaria bem portuguesa, bem portuense, por causa da cr
local, sempre necessria a romnticos como eu sou, como tu eras...

Ao passo que esperavam, esfregando os garfos e as facas nos guardanapos,
diante dos copos vazios e das porcelanas que reluziam sbre a toalha da
mesa, continuaram a conversa.

--Ora, tu pelo Prto, Duarte!... Que bela surprsa!

-- verdade. Por aqui me trazem, durante algumas horas, os meus
pecados...

--Aventuras amorosas, aposto...

--Efectivamente, trata-se duma mulher que amo e que me quere. O marido
teve a triste lembrana de vir ao Norte, nesta ocasio em que Lisboa
est tam bonita, o trouxe-a com ele, para amenizar a jornada.

--Oh! devasso!...

--Que remdio! O corao humano  assim... E nada de lies de moral,
porque no me convertes.

Lies de moral! E com que autoridade?--meditava Frederico. Tambm le
amava profundamente a espsa do seu maior amigo, pensando nela
constantemente como se Jlia fsse o centro de tdas as suas
recordaes, da sua prpria existncia. Quem tinha ensinado a essa
mulher o caminho do seu corao? Por sse amor sofria, por le se via
condenado a viver num permanente sonho doloroso, na agitao contnua
das lutas indomveis e estreis, oscilando entre o desejo, a noo do
dever a cumprir, a agonia e o desespro.

--No tens dstes saborosos casos na tua histria lrica,
Frederico?--atalhou Duarte.

--Eu?... Que ideia!--respondeu le, perturbado.

O criado surgiu, de repente, com uma travessa de peixe frito na palma da
mo. Serviram-se, encetaram o almoo vagarosamente. Tentando desviar o
fio duma conversa que lhe desagradava, avivando-lhe sentimentos amargos,
Frederico, suspendendo o garfo e voltando-se para Duarte, inquiriu:

--Tens viajado muito, no  assim?

--Bastante. Sou mesmo uma espcie de Judeu Errante muito razovel para
uma nao do tamanho da nossa. De resto, as viagens so os melhores
mestres. S elas nos ensinam essa fina scincia de sociabilidade tam
til na nossa poca.

--Sabes que estou resolvido a viajar tambm? Vieste despertar-me o
apetite.

--Ainda bem que te forneci uma ideia excelente.

A cada momento entravam na sala homens com as golas dos _pardessus_
erguidas at s orelhas roxas de frio, que respiravam com fra,
tossiam, se punham  vontade, abancando pelas mesas e comendo com
sofreguido, por entre o rudo montono das conversas e o barulho dos
talheres e da loua, entrechocando-se. ste tumulto irritava Frederico,
j desgostoso com a promiscuidade. Curvado sbre o mrmore cr de rosa
do mostrador, um empregado pachorrento, gordo, vermelho, com uma
calvcie enorme e a cara tda rapada  navalha de barba, que lhe deixara
na face uma sombra azulada, olhava maquinalmente a rua, atravs dos
vidros das portas.

--S viajando, a gente se instrue--afirmava Duarte, devorando o seu
_beef_ com ovos... Diabo, ste vinho  uma peste...

Ouvindo o amigo, Frederico ia pensando, a srio, num longo passeio pela
Europa, numa viagem de esquecimento e de purificao em que sarasse o
seu corao enfrmo e acalmasse a sua imaginao exaltada. As grandes
capitais, com os seus vibrantes espectculos desconhecidos, as suas
multides, as suas sumptuosidades, as suas ardentes, imperiosas
solicitaes a pouco e pouco lhe comunicariam a tranqilidade espiritual
que tanto desejava. Porque no? Veria outros povos, outros costumes,
outras civilizaes, misturar-se-ia, contente,  onda duma vida
complicada que faria por analisar e compreender na sua essncia e na sua
expresso; encontraria, por alguns meses, uma ocupao que lhe enchesse
a alma, o distrasse, lhe serenasse a febre que o queimava. No
isolamento em que se confinara, o seu amor por Jlia, longe de
dissipar-se, havia de precisar-se mais, de difinir-se, de fortificar-se,
por influxo da paixo que o devastava e que o esgotava de tdas as
fras vitais, sem deixar-lhe sequer o cuidado pelas banalidades
prticas... Talvez que noutros pases, noutras cidades, longe de Nuno,
longe da sua adorao, esta violncia sentimental que o pungia
diminuisse, pela multiplicidade de diverses e de intersse em que se
absorvesse...

Tinham chegado  sobremesa, e Duarte, estranhando o silncio de
Frederico, perguntou:

--Em que profundos problemas cogitas tu, criatura?

--No problema de atulhar o estmago. A minha animalidade assim o
reclama.

--Ests na verdade cartesiana. Comes, logo existes...

Sempre que no seu sentimento despertava o amor por Jlia--amor que no
podia adormecer perptuamente--Frederico verificava que le lhe
transmitia uma extraordinria abundncia de impresses novas e intensas
que terminavam por fatig-lo, por deprimi-lo at  tristeza e ao
desalento. Precisava subtrar-se a ste trabalho interior em que o seu
ser se abismava. Viajaria, pois, e levaria Branca.

--Est decidido, Alarco e Atade... Dentro em breve, ters um servo
humilde para a Europa.

E voltando-se para o criado, pediu a conta que pagou.

Levantaram-se, acenderam os charutos, calaram as luvas e saram para a
rua, aspirando consoladamente o ar vivo.

--Demoras-te por esta ptima cidade, D. Duarte?

--No, menino. Parto ainda hoje  noite. As doces exigncias do corao
cumpriram-se. De novo me afasto.

--Que pena!

--E at peo desculpa, por te abandonar tam cedo, depois do almo e do
afecto. Enfim, outro poder mais alto se levanta, como disse o nosso
pico.

Pararam um instante na rua, apertando as mos.

--Quando vires sse Nuno, d-lhe um grande abrao, por mim. _Au
revoir!_...

At  noite, Frederico vagabundeou pela cidade, detendo-se diante das
_vitrines_, seguindo com a vista alguma linda mulher que passava, num
forte e aristocrtico rumor de sdas. A tristeza que de manh, com a
carta de Nuno, o invadira, acentuou-se, adensando-se cada vez mais. Que
suplcio!... Por muito que quisesse alhear o pensamento de Jlia,
surpreendia-se constantemente a reconstru-la na fantasia, a recordar os
seus suaves olhos langorosos e profundos--uns olhos que diziam tudo o
que dentro dela se passava...

A lembrana dessa mulher renovava-lhe incessantemente o sofrimento, mas
era-lhe muito grata.

Cansado da sua interminvel vadiagem, meteu-se num carro elctrico com
destino  Foz, maldizendo a esterilidade do seu dia sem uma emoo de
beleza moral superior, sem um acto nobre.

--Como isto acabrunha! -- monologava, sentado em frente duma inglesa
esgrouviada, alta e sca, com uns cabelos dum louro sco e uns culos de
ouro na ponta do nariz, que lia um jornal de Londres.

Foi nessa noute, jantando com Branca, que Frederico lhe disse:

--Sabes? Ando com vontade de ir at Madrid, at ao inferno.

--E ento eu? Deixas-me?--perguntou ela com voz de mimo.

--No! Levo-te comigo, para nos aborrecermos ambos. O tdio, dividido
por dois, deve ser menos pesado...




VIII


O inverno tinha chegado, com efeito,  quinta onde Nuno e Jlia ainda
permaneciam, sem pressa de regressarem  confuso e ao alarido da
cidade, de que se esqueciam na paz, na beatitude da sua vida de
recolhimento e de simplicidade, no enlvo cada vez maior da sua ventura.
Como viviam nicamente um para o outro, sentiam-se bem naquele
isolamento de que nenhum sobressalto exterior quebrava o ritmo.
Parecia-lhes que os seus pensamentos e as suas emoes ganhavam, na
solitude, maior nitidez e mais intensidade e que um amor, de instante
para instante mais forte, os aproximava tanto pela beleza moral como
pela beleza fsica, enriquecendo os matizes afectivos da sua intimidade
espiritual.

A hostilidade do tempo retinha-os quse sempre dentro de casa. Grossas
cordas de gua fustigavam com violncia as janelas, escorregando
lentamente nos vidros, alagavam o jardim, davam, um aspecto lgubre a
pasagem que se divizava ao longe, atravs duma cortina de nvoa
cinzenta e triste. Dos montes prximos, onde densos pinheirais ondulavam
e ramalhavam  ventania furiosa, despenhavam-se as torrentes, descendo
entre caches de espuma at ao vale. Por vezes, dos telhados dos
casebres, que donde a onde branquejavam na desolao campestre, subiam,
colunas de fumo que se torciam, se esfarrapavam, dissipando-se na
atmosfera baa. Grandes nuvens negras corriam no ar, do sul para o
norte, impelidas pela rajada dos furaces. No cume das serranias havia
uma claridade mais lmpida do que nas encostas e nas colinas onde um
espsso vapor se acumulava. As rvores sem flhas do parque rangiam,
gemiam ao vento. De noite, especialmente, o barulho que faziam era
sinistro e assustava Jlia. De quando em quando, um pedao de cu azul
rasgava-se no alto, muito puro e translcido, e uma plida claridade de
sol derramava-se docemente, como uma bno divina, por tda a aldeia,
dourando a verdura das relvas humildes e rasteiras que vestiam a terra
negra. Nestas horas, parecia que a natureza tinha uma alma de bondade e
meiguice a comunicar-lhe o encanto supremo duma poesia indizvel, e duma
infinita piedade pelos desgraados. Mas em breve o ambiente de novo se
toldava e a obscuridade dilatava as perspectivas.

Em certas manhs, Nuno, com o charuto na bca, as mos nos bolsos das
calas onde tilintavam chaves, bem agasalhado pelas roupas quentes,
assomava  varanda envidraada, espreitando atravs dos vidros
embaciados, e logo se refugiava junto de Jlia, murmurando:

--Que invernia brava hoje vamos ter!...

Ela olhava-o demoradamente, com sse olhar em que se reflectia tda a
pureza e tda a ternura do seu corao e que tanto o comovia, dizendo:

--Fizemos talvez mal em nos deixarmos ficar aqui. Devamos ter partido
nos fins do vero... Mas essas obras que nunca terminaram...

--Partir para qu?--inquiria Nuno, parando diante dela. O inverno  tam
fastidioso na aldeia como na cidade. E nota!  mesmo curioso ver cair a
chuva entre estas rvores, pelos flancos destas montanhas. Ao menos,
temos horizontes largos, desafogados, respira-se. Estamos a assistir a
um espectculo inteiramente novo para ns...

--Mas, na cidade...--contrariou Jlia, com timidez.

--Eu sei. Na cidade, h os cafs, os cinematgrafos, os teatros, outras
diverses. Mas ela apenas se torna indispensvel para os que no teem
famlia ou para os que no fazem vida familiar. Para mim, que passo as
noites perto de ti, tanto me importa estar aqui como num centro
imensamente populoso...

Ela agradecia-lhe fervorosamete aquela doce devoo, aquela constncia
de afecto que nunca afrouxava, e experimentava um calor de ventura que a
penetrava tda, que amaciava  sua roda as asperezas da vida. A
confiana de ambos no futuro aumentava constantemente. Tinham olvidado
tudo o que se passava para alm da histria lrica da sua paixo--que
havia comeado anos antes e que ainda no terminara; nem um nem outro se
lembravam de ter padecido algum dia. As recordaes dos seus tempos
antigos diluiam--se, apagavam-se, fundiam-se na fluidez original. Uma
nova fra, uma energia prodigiosa, pulsava nos seus sres, renovando-os
a cada momento. Dentro de casa, nas alvoradas hostis ou nas tardes
tempestuosas, ocupavam-se na infinidade de coisas gratas que os cuidados
da habitao oferecem. Jlia, com o saco de costura no regao, bordava,
cosia, enquanto Nuno lia as suas revistas e os seus jornais ou cortava
as pginas dalgum livro recente que da cidade o seu livreiro lhe
mandava. No abandno ntimo dstes saborosos instantes, se se
contemplavam, subiam-lhes da alma  memria as longnquas recordaes da
sua adorao revivida, com extraordinria lucidez. Encontravam, ento,
um fino prazer emotivo em relembrar tudo o que mais de perto com essa
adorao se prendia:--os logares idlicos em que ela tinha nascido,
certos objectos e certos episdios que lhe imprimiam relvo. A
elaborao interior destas lembranas emmudecia-os longamente,
abismava-os numa espcie de silncio que temiam interromper e que
voluntriamente prolongavam, para que o seu gzo espiritual fsse mais
duradouro.

Nuno conservava tam ntidamente na memria sses acontecimentos, que
podia reconstitu-los com facilidade, sempre que quisesse. No lhe
esquecera ainda, o mnimo detalhe do seu primeiro encontro com Jlia,
que chegara certa manh a um hotel de Vizela, com o pai, a me e o
irmo, o excelente Roberto, que fra educado em Londres, que tinha nas
maneiras, na franqueza, na correco do porte e no crte do vesturio,
acentuados traos britnicos e que partira para a America do Norte, como
empregado superior duma casa bancria, dois meses depois do casmento de
Jlia. Viram-se a primeira vez no parque, por uma tarde de luz e de
alegria. Ela trazia um vestido de fusto branco muito justo que lhe
desenhava claramente as formas plsticas, ondulantes e de linhas puras.
O seu busto era perfeito de curvas e de contornos: a sua mocidade tinha
a graa subtil duma flor plenamente desabrochada. O seu chapu de palha
cr de ouro com duas rosas vermelhas presas por uma laada de gaze de
sda branca, fazia-lhe uma discreta sombra sbre a testa, suavizava-lhe
mais a luz dos olhos suaves, iluminando-lhe o rosto dum oval delicado,
imprimia-lhe maior destaque  pele das faces e do colo, que parecia
alumiada por uma claridade interior e que no tinha um vinco, uma ruga.
Nas suas mos, que eram magras, pequeninas e de dedos delgados, fulgiam
pedras de aneis.

Cruzaram-se no passeio, trocaram um simples olhar e foi como se ficassem
compreendendo-se para sempre--porque o amor casto d aos olhos uma
inteligncia especial, um admirvel poder de entendimento e de
expresso. Da em diante, nunca mais Nuno deixou de a seguir dcilmente
para tda a parte, indo aos chs a que Jlia se associava, s excurses,
em grandes ranchos, s serras prximas, para a contemplao dos
panoramas que se vislumbram dos pncaros mais altos:--a ondulao
ininterrupta e irregular do dorso das cordilheiras, que evocava um
colosso fulminado, tocado a espaos por manchas de folhagem verde,
alteando e deprimindo a sua ossatura monstruosa na base, elevando-se
bruscamente em saltos e galges de terreno. Em baixo, ao fim da escarpa
abrupta dos montes, a natureza rebentava numa torrencial exploso de
arvoredos, de milharais, de pomares, de videiras de compridos braos,
enroscando-se nos troncos de olmos e de cerejeiras, como as serpentes no
corao do Lacoonte, subindo at s copas e vergando de cachos.

Uma frescura e uma abundncia de cloga latina, que Vergilio cantaria,
em estrofes immortais, corriam alacremente nos fundos vales que se
almofadavam de ervaais e sombras; e em tda a extenso panormica, as
serranias sucediam-se umas s outras constantemente, como um mar de
enormes vagas terrosas que a tormenta aoutasse. As senhoras, assustadas
com a grandeza do espectculo, sentiam deslumbramentos e davam gritinhos
de susto; os homens riam. E Jlia e Nuno, um pouco afastados dos grupos
palradores, teciam as horas de sda e ouro do seu amor que comeava e
que, no sendo j segrdo para ningum, provocava risinhos maliciosos,
ditos picantes ou de despeito.

Ao cair da tarde, quando regressavam ao hotel para jantar, nos olhos de
Jlia havia uma extraordinria fascinao e, Nuno trazia uma alvorada na
alma. Depois,  noite, no salo, organizavam danas, enquanto os homens
de idade se reniam s mesas dos jogos improvisados, para as suas
fastidiosas partidas de _bridge_, e as damas, sentadas pelo salo, se
emaranhavam em banais conversaes sem fim:--e Jlia era sempre o par de
Nuno, nas valsas...

Uma vez por outra, a colnia da estncia balnear levava mais longe as
suas digresses, ia at Guimares, visitando as vlhas igrejas que
resplandeciam das talhas douradas, at s Taipas, at Braga, seguindo em
automveis atravs de estradas cortando campos onde crescia o milheiral
e os feijes se cobriam de flor, onde verdejavam os linhos tenros, onde
um murmrio de aragem passava nas messes j maduras, procurando as tiras
de sombra veludosa e mole caindo das rvores que, duma banda e doutra,
orlavam o macadame. Era uma festa para a vista e para o sentimento dos
excursionistas tda essa larga e incomparvel pasagem do Minho, tmida
de seivas, de fra, de vigor e duma tam rara e prodigiosa vegetao. A
cada instante se detinham  beira duma fonte que gorgolejava no jrro
cristalino das suas linfas, oferecendo fresquido e conslo pelos dias
trridos, perto duma levada de gua de rega vinda de longe, rolando
pedrinhas alvas, grossos saibros reluzentes, cantando misteriosamente
nas espessuras discretas dos musgos ou das ervas e transmitindo uma
gloriosa vitalidade s razes. Incessantemente topavam, trotando no
cascalho da calada, as caractersticas diligncias que rangiam aos
solavancos, levando nas imperiais abades rubicundos com guarda-sis de
paninho vermelho entre as pernas e dentro tda uma populao em trajos
domingueiros. No meio do estrpito das ferragens, o cocheiro praguejava,
fazendo estalar o chicote sbre o lombo dos cavalos cansados. Os melros
assustavam-se pelas balsas floridas, voando para longe; erguiam-se
nuvens sufocantes duma poeira custica e mordente. s portas dos casais
que davam para as estradas, sob ramadas onde as uvas amadurciam, iam
acudindo, ao rudo dos automveis que fugiam no fio da aragem, mulheres
com grosseiras mos escondidas debaixo dos aventais de riscado, crianas
em camisa, com ventres enormes e a palidez de doena na cara suja. Ces
ladravam, ameaadoramente, por debaixo dos portes vermelhos das
quintas: e a ranchada jovial dos excursionistas continuava a sua marcha,
rindo, palrando distradamente. Nuno lembrava-se de que--numa destas
escapadas encantadoras, por um meio-dia de soalheira abrasadora em que
foram ver o castelo de Guimares, com a sua trre de menagem, os seus
fossos cheios de ervas parasitrias, as suas seteiras, os seus
travejamentos carcomidos--Jlia, ao passar por um quintal onde um alto
damasqueiro, esgalhando ramagens para todos os lados, mostrava os seus
frutos dourados e penugentos, teve de repente um desejo guloso de comer
damascos; e logo le, mandando parar o carro, bateu  porta da granja,
pedindo que lhos vendessem. Imediatamente, uma voz de mulher veio de
dentro, convidando-o a entrar, a escolher, a fartar-se, porque aquela
fruta no se vendia:--dava-se.

--No quero isso, no quero. Venda-ma...

--Oh! meu senhor, graas a Deus no precisamos. Olha agora levar
dinheiro por uma misria assim!...--teimou a alde, que era linda e
ainda nova, acudindo ao limiar. Entre, entre...

E reparando em Jlia, que tinha ficado com o irmo no autmvel, a
mulher acrescentou:

--E a menina e outro senhor tambm!... Com tda a franqueza!

Por fim, entraram alegremente e merendaram, com delcia, sob o
damasqueiro acolhedor, enquanto a alde, sorridente e com uns dentes
brancos brilhando no seu esmalte entre uns lbios muito vermelhos, os
incitava a comerem mais.

--E podem levar, se quiserem!--oferecia ela.

Chamava-se Maria da Luz, era casada havia seis anos com um lavrador
abastado e j trs criancinhas, de olhos muito espantados, belas como a
me, se lhe agarravam s saias. Nuno, enlevado, deu uma moeda de prata a
cada uma, para comprarem doces.

--No! Isso  que no!--acudiu a alde, tda crada. Ficava-lhe por bom
preo a fruta, meu senhor!

--Ora essa!--atalhou Nuno. Coitados dos pequeninos, que so tam
simpticos. Deixe, deixe...

As crianas estenderam a palma das mos cr de rosa, apertaram, muito
contentes, as moedas, enquanto a me lhes gritava:

--Ento, como se diz?!... Como se diz?!... stes mafarricos que me
consomem, no aprendem a ba educao nem  mo de Deus Padre!...

Todos stes inefveis episdios duma poca distante e bem feliz se
tinham gravado fundamente no crebro de Nuno; e diante de Jlia, que era
sua espsa, que era me do seu filho, sentia um prazer infinitamente
doce em reaviv-los. O casamento fra combinado ainda em Vizela, ao fim
dum curto namro, com grande desespro de Frederico que tambm estava
nessas termas, que ia espairecendo os seus tdios entregando-se a um
meigo _flrt_ sempre novo em cada dia e que julgava severamente a
imprevista evaso, do amigo, da vida despreocupada de solteiro...

Nas longas horas que agora passavam ss, dentro de casa, Nuno e Jlia
gostosamente evocavam o seu passado, que era de dois anos--porque apenas
comearam a viver uma existncia sria desde que se conheceram e se
ligaram por laos que nenhuma dor ou nenhuma fatalidade romperiam--e que
lhes pareciam do dia anterior, tam rpidamente o tempo lhes fugia sem
que les o percebessem e sem que na sua emoo deixasse resduos de
amargura e de tristeza.

--Tu lembras-te?--perguntava le, fechando o livro que tinha nas mos,
enquanto Jlia esquecia sbre o regao a agulha do bordado.

--Lembro!--afirmava ela com um sorriso que a espiritualizava e
transmitia maior encanto  sua beleza. Lembro-me, como se tudo isso
fsse de ontem...

--Frederico no queria que eu casasse, dizia-me horrores da vida
conjugal, procurava afastar-me de ti por todos os processos, teimava em
que eu o acompanhasse numa viagem que tencionava fazer. Creio mesmo que
chegou a ser teu inimigo, o pobre rapaz...

--Meu inimigo?... Que ideia! E porqu?

-- claro, no te tinha dio, no te queria mal, mas no perdoava 
mulher que lhe arrebatava o amigo de sempre, o camarada, o
companheiro... Era s por isto!

Ah! sse bom Frederico! Ambos pensavam um pouco nle--Nuno com sadade e
com uma secreta pena daquela vida tam fecunda pela inteligncia e pelo
carcter, que se esterilizava, que era improdutiva, como um pragal
spero em que nunca, por acaso ao menos, casse uma semente frtil;
Jlia, com o encanto, com a afeio que lhe merecia o homem tam idntico
ao marido pelo corao, e de tanta grandeza de alma, de tanta finura de
esprito...

--O que far le por sse Prto, neste desabrido inverno?--interrogava
ela.

--Aquilo que todos os rapazes, livres de responsabilidades caseiras,
fazem, naturalmente. le no quis estar connosco, havia coisa que o
chamasse, que o seduzisse... Mas, ouve! No sei que singularidade
descobri em Frederico nos ltimos dias. Parecia-me mais desalentado,
mais triste do que o costume, amava a solido, quse que me fugia...
Apenas despertava da sua melancolia quando tocavas, no piano, essas
pginas de Schubert que sempre admirou.

--le no tinha, para estar alegre, as mesmas razes que ns temos, bem
sabes.  s, no ama, no  amado, anda  procura dum destino que ainda
no encontrou...

--E que no encontrar jmais. Aparentemente enrgico,  um fraco de
vontade, sofre de preguia de sentimento, tem os defeitos da raa a que
pertence...

--Oh! Nuno! Que severidade!

--No! Que amizade! Porque eu estimo profundamente Frederico. No h
alma tam leal como a dle, dedicao mais capaz, de sacrifcios pelas
pessoas a quem se devotar! Mas, minha filha,  incompleto como eu, como
todos ns...

--Como tu?

--Como eu, no digo bem... Frederico foi mais infeliz...

As horas deslizavam apressadamente, nestas conversas em que ambos se
entretinham e em que melhor se estudavam... Por vezes, discutiam juntos
o mesmo romance, o mesmo poema, ou ento Jlia ia para o piano e Nuno,
de p proximo dela, ia-lhe voltando as flhas do caderno de msica. Nos
momentos de repouso, enquanto a chuva caa, montona e aborrecida,
chamavam a ama, que acudia com a criana ao colo e um grosso grilho de
ouro ao pescoo. Jlia pegava no filho, com ternura e delicadeza,
beijava-o num transporte, amimava-o, passava-o ao marido, que o embalava
nos braos. O pequenino sorria, com a face cheia de covas, agitando as
mos, galrando, espalhando por tda a casa uma grulhada infantil.
Depois, Nuno beijava-o tambm longamente, picando-lhe a carinha tenra
das faces com a barba crespa, o que o fazia chorar.

--D-o c! Coitadinho!... Tem mdo dos teus bigodes de turco--dizia
Jlia, sorrindo.

--No!  que  j mais teu amigo do que meu, o ingrato...

 noite, em seguida ao jantar, quando a treva temerosamente afogava
todos os aspectos na mesma confusa massa negra e o sossgo envolvia a
vivenda com as vidraas douradas pela luz, o criado, o Manuel, soltava
os ces de fila durante o dia amarrados a fortes cadeados de ferro; as
portas do rs-do-cho fechavam-se com estrondo; a Francisca, uma vlha
cozinheira, arrumava a cozinha, que ficava em baixo, que era revestida
de azulejos e que se iluminava com a fulgurao dos metais e dos
esmaltes fascando, relampejando sob o claro da fogueira. Os molossos,
de afiados colmilhos sando-lhes da bca babujada como pontas de
punhais, latiam, uivavam no jardim e no parque,  ventania que sacudia
vertiginosamente as rvores; outros latidos ouviam-se ao longe, vindos
das granjas e das herdades; o pequenino adormecia ao peito farto da ama,
ainda com o bico rosado do seio que o amamentava na bca sem dentes, e
era levado com mimos e cautelas para o bero, aquecido antecipadamente
com botijas de gua a ferver: e Nuno e Jlia continuavam ainda os seus
seres, conversando, lembrando-se piedosamente dos pobres que no teriam
roupa nos leitos, por aquele frio, enregelado, hostil inverno, e
experimentando uma ternura doce e secreta no isolamento rural em que se
confinavam com a sua felicidade--almas satisfeitas e contentes que nada
mais queriam da vida...

Uma vez por outra, o cu desanuviava-se, as manhs raiavam lmpidas como
uma imensa e pura flor azul que desabrochasse iluminada por um sol muito
louro que dourava os outeiros, os cimos dos montes, tocava as altas
ramarias dos arvoredos dum fulgor vivo que parecia arder, scintilar no
esplendor da atmosfera. Ento, a alegria ressuscitava na pasagem
soturna como uma ave que, pela primavera,  de repente surpreendida pela
alvorada gloriosa entre os ramos floridos e comea a cantar sob o
mistrio celeste de que vitoriosamente desce a luz. Envolvidas pelo
banho fulvo da claridade, as prprias coisas inertes pareciam
impregnar-se de alma, davam a iluso de serem dotadas de movimento.
Errava no ar uma beleza esparsa; as perspectivas, na nitidez do
ambiente, prolongavam-se indefinidamente, cheias de poesia e de vago. A
vivenda, elevando-se no meio do jardim, com as suas grossas paredes, as
suas varandas, os seus telhados de largo beiral onde as pombas
arrulhavam em certos instantes, as suas escadas de pedra com grades de
ferro pintadas de verde, em que as roseiras de trepar se enroscavam,
animava-se tambm com o jbilo triunfal daquela festa da natureza. Mais
satisfeitos e expansivos, os criados palravam na cozinha,  volta da
mesa do almo.

Uma temperatura morna que fazia inchar os gomos das rvores e das
madre-silvas dos valados--que em maio se cobriam de floraes e
ofereciam embalo e perfume aos ninhos inocentes--convidava aos lentos,
agradveis passeios. Nuno, sentindo o corao desopresso e ligeiro,
corria a levar a Jlia a ba nova, em palavras comovidas e risonhas,
interrompendo-a no seu trabalho.

--Que linda manh, meu amor!--exclamava le. Vem da! Faremos uma
pequena digresso pela quinta... At nos abrir o apetite e nos renovar
a sade. Ao mesmo tempo, desentorpeceremos as pernas emperradas por tda
uma semana de cativeiro.

--Pois vamos!--concordava ela com jbilos e ingenudades quse infantis.
Gosto tanto de passear matinalmente!

Animada e sorridente, Jlia vestia a tda a pressa um casaco de
agasalho, calava as galochas sbre os pequeninos sapatos de verniz,
punha na cabea um gorro de l branca, feito por ela nos seus seres, e
saam ambos, de brao dado, aspirando o cheiro acre da terra molhada,
internando-so pelas sombrias e ermas alamedas do parque onde as mimosas
comeavam a florir na pompa dos cachos de ouro plido, tremendo
brandamente  aragem e a que o sol imprimia mais brilho e cr, desciam,
por caminhos empedrados, s terras de cultivo j verdejantes de pastos
para o gado, dos trvos, torneavam as extensas vinhas que enchiam
tonis, em setembro, dum vinho aromtico e leve, passavam pelos vergeis
bem tratados onde, em abril, as pereiras, os pessegueiros e as macieiras
vergavam de florescncias multicres que lembravam irisados enxames de
borboletas levantando vo, e paravam, enfim, diante da habitao
destinada ao caseiro e que era o orgulho de Nuno.

--Vs tu o que se fez, hein? E a planta foi minha. Para alguma coisa
havia de servir-me o curso de engenheiro. O vlho Mateus est aqui
ptimamente instalado com a sua gente--dizia le. No parece?

Jlia aprovava, com um gesto afvel da cabea, enquanto Nuno
minuciosamente lhe ia fornecendo mais indicaes:

--Aqui--explicava le-- a casa de moradia; alm, ficam os estbulos
para os bois, os currais para os porcos, os alpendres para a guarda dos
apetrechos de lavoura... Dste lado, mandei construir as adegas, a eira,
o espigueiro e os celeiros. Que me dizes a tudo isto? Olha que foi obra
minha!

Na graa luzente da manh, as paredes caiadas de branco alvejavam sob o
tom vermelho dos telhados. Ao fundo, para l dos terrenos agricultados,
rumorejavam pinheirais e cresciam os matos aromticos que o rosmaninho,
no estio, pintalgava de manchas rxas. Jlia, enlevada, contemplava o
marido com ternura, afagava-o com o olhar.

--E agora--continuava Nuno, depois de terem avanado mais alguns
passos--aqui est o grande tanque que me deu que entender e em que tanto
te falei, durante todo o vero findo, no sei se te recordas.

--Recordo!--afirmava ela.

--Servir de reservatrio das guas de rega que fui buscar longe, por
meio dum cano,  encosta daquele monte de pinheiros. Oh!  uma gua
maravilhosa, muito pura, filtrada por camadas sobrepostas de rocha, e
saibro grosso. Quando, nos dias quentes, a colhia para beber, o copo
ficava logo nevado.  saborosa e frigidssima. Porque no mandas a
Francisca busc-la  bca da mina para o nosso ch? Ando h tanto tempo
para dizer-te isto e esquecia-me sempre!...

--Est bem, mandarei--prometia Jlia.

--Pois, essa gua corre para ste tanque. Quando se quiser regar,  s
soltar a levada e ei-la por sses campos, fluindo, fecundando, dando
alento s plantaes e s sementeiras!

--O que tu sabes j das lidas agrcolas, Nuno!--exclamava ela com
admirao.

--Minha filha, tem-se estudado um pouco o pelo processo prtico, que 
ainda o melhor--respondia le, jovialmente. O meu vero, ste ano, foi
til!

O caseiro, o tio Mateus, se os pressentia, vinha logo para les, de
chapu na mo, com o seu rosto enrugado que o bom riso sadio, vindo da
alma, espiritualizava de bondade, cumprimentando-os respeitosamente.
Nuno correspondia ao cumprimento, murmurando:

--Ol!  voc, Mateus? Ento, como vo os trabalhos, homem?

--Crdo, meu senhor! Com ste inverno de desgraa e de castigo, nada se
pode fazer. Tudo parado. As terras esto encharcadas, so lama...

--No que tambm ns nunca nos contentamos com o que temos. Se o bom
tempo e o calor se prolongam, pede-se, implora-se chuva com preces,
oraes, lgrimas. Afinal, chega a chuva, e a humanidade sempre
insatisfeita de novo deseja sol. Deus deve ver-se e desejar-se com
pedidos tam contraditrios, no  verdade, tio Mateus?--perguntava Nuno
alegremente.

--Deus  sbio,  justo, sabe o que faz, meu senhor--replicava o
caseiro, rindo. Mas tudo se quere em conta. Nem muito ao mar nem muito 
terra. Assim  que ...

--E a doente est melhorzinha?--inquiria Jlia.

--Melhor, coitadinha?... Vai vivendo!... As melhoras dela s na cova. E
tanto tem sofrido!...

--No fale dsse modo, tenha esperana...

--Pois esperana tenho eu. Esperana e pacincia, que ela tudo
merece--conclua le, com voz enternecida e trmula.

Comovida, Jlia fitava-o; e le, para desviar o rumo da conversa, que o
fazia sofrer, acudia:

--Ento, hoje a passear?

-Com ste bom sol, no podamos ficar fechados--dizia Nuno.

--Est de rosas, meu senhor, de rosas!...

Demoravam-se ainda a tagarelar por alguns instantes e depois;
vagarosamente, regressavam a casa, na imensa paz que envolvia a natureza
e que baixava sbre rvores, lameiros, casais e selvas, como uma bno.
Voltavam joviais, traziam a alma dilatada de encanto. Como o inverno era
lindo na aldeia! Na cidade, os grandes espectculos naturais
passavam-lhes despercebidos na agitao das atormentadas aglomeraes
humanas, nas atmosferas toldadas de fumo.

--Aquele Frederico, aquele doido!--bradava Nuno. Podia ter ficado aqui
connosco, a fazer um severo exame de conscincia, a rejuvenescer. Era
uma companhia e purificava o sentimento que agora talvez traga pelos
boeiros citadinos!...

--Jesus, Nuno! Que expresses tam duras!--repreendia Jlia.

--Sim! Pelos boeiros, pelas sargtas.  assim mesmo. Hei de dizer-lho
com esta ferocidade, numa carta terrvel... Enquanto que aqui era a luz,
era a pureza...

Lavavam-se, almoavam com saborosas lentides, conservavam-se  mesa por
muito tempo, conversando. E  tarde, ainda tornavam a sair, atravessando
pousios, congostas entre sebes, visitando a aldeia prxima, com um
intersse, uma curiosidade que nunca findava...

       *       *       *       *       *

Um dia, logo ao romper da manh, a ama foi tda aflita bater  porta do
quarto, chamando Jlia.

--Que quere?--perguntou, ela, de dentro.

--Era para contar  senhora uma coisa a respeito do menino, que no est
bom.

--Que diz voc, mulher?...--gritou Jlia, com voz angustiada. Tu ouves
isto, Nuno?...

Saltou da cama, vestiu um roupo, calou as chinelinhas de setim cr de
rosa, bordadas a branco e ouro, que estavam sbre o tapte, e correu
logo, assustada, inquieta, enquanto o marido, alarmado, se levantava
tambm, vestindo-se atarantadamente.

--Que tem o menino?--perguntou Jlia, abrindo a porta da alcva. Onde
est le, onde o deixou voc?

--Deitado no bero... Est um pouco desassossegado...

Jlia dirigiu-se ao quarto da ama, que ficava ao lado do seu, entrou
desvairadamente, fra de si, sacudindo, com irritao nervosa, as
madeixas do cabelo solto que lhe caam sbre a testa, ajoelhou junto do
bero da criana que ergueu carinhosamente nos braos. Encostou-lhe a
cabecinha inocente e desfalecida  sua face, amimou-a, passando-lhe
levemente as pontas dos dedos pela carne tenra do rosto, murmurando com
indizvel ternura:

-- Est doentinho, o meu amor?... Est?!...

Afastava-o de si, amparando-o com as mos amorosas, para melhor, mais
demoradamente o observar, espreitando, comovida, os seus olhos
amortecidos com um crculo arroxeado  volta, e achava-o, na verdade,
mais plido, mais abatido.

--Oh! minha Me Santssima! Mas isto que ser? Como notou voc a doena
do meu filho, ama?

-- que, durante a noite, tossiu algumas vezes, minha senhora.

--Tossiu?--perguntou Jlia, aflita. E a tosse era rouca?

--Pois era!...

--E porque no foi logo avisar-me?

--Pensei que no seria nada!...

Nuno, que tinha acudido tambm, curvou-se sbre o ombro de Jlia,
envolveu o filho num olhar de inquietao e de meiguice, inquirindo:

--Afinal, o que tem? Parece-me tam tranqilo!...

--De-pressa, Nuno! Manda j um criado a Guimares, a procurar um
automvel fechado. Que v a cavalo... E que se no descuide. Temos de
partir imediatamente para o Prto.

--Um automvel?... Partir imediatamente para o Prto?--interrogava Nuno,
maquinalmente, Mas espera!... Dize...

-Depois te digo... O criado que v sem prda de tempo... O nosso filho
tem uma tosse rouca. Sabes o que ?... No sabes?  a difteria,  talvez
a morte...

Nuno, empalidecendo, abalou, enfiado, pelo corredor, desceu a quatro e
quatro os degraus da escada, gritou:

--Manuel! Manuel!... Onde ests tu?

--Aqui, patro!--respondeu o servo, saindo dum canto e trazendo nas mos
um pedao de camura com que estava limpando e polindo metais.

--Pousa o que ests a fazer, monta na gua e vai a Guimares, onde
procurars um automvel fechado, por todo o preo. Que venha a tda a
velocidade.  um caso urgente.

--Sim, meu senhor.

--Mas vai! Deixa-te de cumprimentos, de mesuras, que diabo! Se te estou
a dizer que  urgente!...

O criado desapareceu de pronto, e Nuno, desorientado, ficou na cozinha,
passeando agitadamente, a largos passos, sbre os mosaicos. Justos cus!
A difteria! O seu filho tinha a difteria. le havia de assistir,
impotente, longe de todo o socorro da scincia, ao lento agonizar dum
corpinho sem culpa em cujas veias corria o seu sangue, em cuja alma
inocente se fundia tambm a sua alma! Havia de v-lo asfixiar, com o
rosto congestionado, os olhos saltando fra das rbitas, sacudido por
convulses horrveis e sem poder acudir-lhe! Era terrvel, terrvel! Do
seu corao de pai subia urna grande, avassaladora clera, contra tudo e
contra todos. Que mal faria aquele pobre sr de castidade e de luz que
nem sequer conhecia a vida e que tam cedo comeava a sofrer dos seus
males inevitveis para que fsse submetido a uma tal tortura?...
Esquecia-se de Jlia que em cima soluava, andava dum lado para o outro,
mudo, sombrio, puxando as barbas, arrepelando-se.

--Que foi, meu senhor? Que desgraa aconteceu?--perguntou a cozinheira,
que o contemplava, assustada, encostando-se ao fogo ainda apagado.

--Um horror, Francisca. Um verdadeiro horror. O menino est muito
doente.

--Santo Deus!--exclamou ela.

--E temos de ir j para o Prto, a senhora, o doente, a ama, eu e tu. O
Manuel e as outras criadas ficam ainda a pr tudo em ordem, e seguiro
mais tarde. Arranja as coisas, despacha-te.

Subiu, novamente, a escada como um autmato, governado mais pelo
instinto do que pela inteligncia. O padecimento alheio sempre o tinha
perturbado; mas agora o de seu filho era-lhe atroz... Sentada numa
cadeira de braos, com a criana aconchegada ao peito, Jlia chorava
silenciosamente. As lgrimas caam-lhe fio a fio dos olhos. Perto dela,
a ama repetia sem descanso:

--Uma destas, uma destas!...

Nuno parou diante da espsa, revolvendo com as mos chaves que tinha no
blso, entalado, sem poder articular as palavras, sem saber como havia
de consolar aquela dor inconsolvel.

--Que desventura a nossa, que desventura!...--gaguejava Jlia.

--Mas tranqiliza-te, por Deus! Pode ser que a doena no valha nada,
que te enganes--acudiu le, por fim.

--Tenho um pressentimento funesto! E olha que as mes nunca se enganam.

E voltando-se para a ama:

--Pegue no menino, mas com cuidado... Vou-me arranjar. E veste-te
tambm, Nuno, para estares pronto.

-Sim, menina!...

Uma hora depois, um automvel parava, em baixo, junto do porto do
jardim. Nuno chamou as criadas, deu-lhes ordens para elas transmitirem a
Manuel, mandou que, depois de tudo arrumado, seguissem para a casa do
Prto e entrou no carro com Jlia--que conduzia o filho ao colo, muito
embrulhado, agasalhado em ls quentes--com a ama e com a cozinheira,
dizendo ao _chauffeur_ que, at Guimares, largasse com a maior
velocidade.

Estava uma cinzenta e fria manh ameaando chuva. Pelos altos montes,
por vales tristes e plancies montonas, a pasagem azulava-se no ar
bao. Um vento glacial sacudia os ramos das rvores. Nuno e Jlia nem
sequer olhavam para fra, atravs das portas de vidro do automvel,
concentrados como iam no seu sofrimento.

Em Guimares, procuraram alvoroadamente um mdico, que logo os
tranqilizou, com um sorriso, acabando de observar o pequenino enfrmo.
No era caso para sustos--afirmou.

--Oh! doutor! Quanta alegria nos d!...--interrompeu Nuno, avanando
para le e apertando--lhe efusivamente a mo.

--Mas no  a difteria?--perguntou Jlia, ainda duvidosa. le tem tosse
rouca!

No! No era a difteria--asseverou o clnico, j vlho e ageitando os
culos de aro de ouro sbre o nariz. Uma simples bronquite sem
complicaes que a tornassem de mau carcter. Curava-se com resguardo,
num compartimento em que no houvesse oscilaes de temperatura, e com a
aplicao de revulsivos externos.

--Vs, Jlia?--disse Nuno. No  nada de cuidado. Eu bem o dizia.

--O alarme desculpa-se nas mes...  tam natural!--exclamou o mdico.

--E at podamos voltar para trs, continuarmos a nossa estada na
aldeia.

--No!--replicou Jlia com firmeza. Para trs, no voltaremos. J que
estamos aqui, seguiremos para o Prto. No ficaria sossegada.

-Pois, como quiseres...

O mdico receitou, deu instrues; Nuno pagou a consulta generosamente.
Despediram-se e reentraram, mais calmos, no automvel, continuando a
viagem--atravs de estradas, de campos melanclicos, de bosques que
rugiam  ventania--para o Prto, onde chegaram de tarde e j com uma
chuva desabrida fustigando as casarias, alagando, encharcando as ruas
negras duma lama viscosa, quse lquida. Moravam em Costa Cabral, numa
vlha casa apalaada de dois andares feita no gsto arquitectural das
antigas vivendas portuguesas, e que todo o vero estivera fechada. Foi
um rebolio na habitao deserta e cheia de treva. O automvel largara
velozmente, e, enquanto Jlia, com o filho nos braos, procurava, no
trio imerso em escurido, uma cadeira para sentar-se, Nuno, a ama e a
cozinheira, abriam portas e janelas com alarido, para que a luz diurna
entrasse e desse vida e alegria ao casaro ermo.

Outros mdicos vieram e receitaram, nesse mesmo dia, serenando temores
sem motivo. A pouco e pouco renasceu a confiana na alma de Jlia e de
Nuno que, todo ocupado com a sua reinstalao inesperada no palacete da
cidade, no saa, lidando activamente, dando ordens, substituindo na
vivenda a espsa que no deixava, ainda atribulada, o leito da criana.
E agora, outra vez no Prto, outra vez na sua morada citadina, sentia-se
bem, entre mobilirios que conhecia e que considerava como amigos
vlhos, entre paredes a que se afeioara, no meio dum ambiente de
quietao em que vivera desde a infncia, em que morara, a que tantas
recordaes inolvidveis andavam presas. Novamente a felicidade entrava
na sua alma, na alma de Jlia, que assistia amorosa e risonha 
convalescena do filho. A nuvem agoureira passara, dissipara-se
inteiramente. J se encontravam outra vez reconciliados com a vida que,
por momentos, os amargurara.

-- verdade, Jlia--dizia uma noite Nuno. Sabes de quem me lembrei
agora, repentnamente? Foi de Frederico! Ainda nem sequer apareceu!

--Pois tu no tens sado, nem sequer lhe escreveste! De-certo que ignora
o nosso regresso. Ningum o sabe, alm dos vizinhos... E pode ser at
que no esteja no Prto...

--Ah! no! No deixaria a cidade sem me avisar... E estou zangado com
le--concluiu Nuno, risonhamente. O corao dum verdadeiro amigo devia
adivinhar. Serei duro, quando o aviste. H de ouvi-las bonitas...

Fra, na rua, os candeeiros de iluminao pblica chamejavam ao vento,
sob um cu acarvoado. A patrulha da guarda deslizava como uma sombra,
sem rudo. A aglomerao das casarias ia adormecendo no silncio
nocturno...




IX


Frederico sentia-se cada vez mais esgotado de energias, mais fraco de
vontade,  medida que se gastava nos delrios da paixo carnal, nos
desvairamentos duma existncia que nem sequer procurava j equilibrar,
porque a vida, para le, perdera todo o intersse.  sua excitao
fsica, de dia para dia mais intensa, correspondia um desfalecimento
moral que constantemente se agravava, debilitando-lhe o carcter,
secando-lhe as fontes criadoras de sensibilidade. Convencido da sua
prpria impotncia, trazendo no peito um corao rido, invadido por uma
dolorosa melancolia que s os acessos da sensualidade, em horas letais
de luxria, conseguiam dissipar por momentos, levava uma existncia
desregrada de prazeres de tda a sorte, em que a luz da sua prpria
inteligncia, tam lcida outrora, principiava a vacilar. Contudo,
conservava-se no seu sentimento alguma coisa que no queria morrer, que
era vivaz, persistente, que se obstinava em persegui-lo, empurrando-o
violentamente para as maiores loucuras:--o seu amor por Jlia. Era uma
obcecao, uma ideia fixa que o aguilhoava sem repouso, por mais que
pretendesse esquec-la. Temendo que o isolamento, a solitude,
exacerbassem essa adorao perversa e abominvel, que o enxovalhava
sempre que espreitava, espavorido, a prpria conscincia, freqentava os
teatros e o jgo assduamente e perdia grossas quantias com absoluta
indiferena, porque apenas desejava aturdir-se: arranchava a comesainas
tumultuosas com os amigos e a depois, exaltado pelo alcool, passar a
noite com Branca, que definitivamente se apossara dle e que Frederico
considerava como um mal necessrio ao apaziguamento da sua tortura, como
uma iluso mentirosa de que derivava, para a sua inquietao permanente,
um pouco de tranqilidade. Os seus nervos enfermos careciam daquela
mulher, como certos doentes carecem de venenos para adormecer uma dor
fulgurante que os angustia. Consagrava-lhe por isso reconhecimento em
vez de dio. A casa em que a tinha instalado, com riqueza e luxo, era
para le, nas horas de maior atribulao, o logar que uma graa
consoladora habitava. Nestes momentos devastadores, submisso como um
crente, pousava sbre a fronte doce e plida de Branca um beijo quse
religioso, que ela lhe agradecia com um sorriso inexpressivo.

Em certos instantes mais calmos, porm, quando podia observar-se com
lucidez, julgava-se serenamente, acusava-se de se estar aviltando e
praticando uma infmia, procurando apagar com a febre duma lascvia
brutal a recordao dum amor purssimo. Alarmado, cheio de remorsos,
entregava-se a longas cogitaes, tentando encontrar uma explicao para
aquela anormalidade. Que natureza vulgar ou grosseira era a sua que, em
vez de ter uma origem de inspiraes divinas na paixo amorosa mais
elevada que at a o fizera vibrar, tinha nela, afinal, s um estmulo
que o impelia para as abjeces deprimentes? Como  que o amor por Jlia
no iluminava a cegueira da sua alma, o no sublimava de tdas as
imperfeies terrestres? E seria, na verdade, amor o que por ela sentia
ou apenas um desejo bestial:--o desejo do seu corpo tam perfeito, da sua
carne esplndida, da sua beleza perturbante? Duvidava da sua
sinceridade, e sofria mais amargamente por esta dvida.

O entusiasmo que a ideia duma demorada viagem pelo estrangeiro nle
despertara, em breve arrefeceu. No manifestava curiosidade por nada: a
alegria de viver havia fugido do seu esprito: e pensava, com terror, na
perspectiva de sair de sua casa, do seu pas, para meter-se, com um
monte de malas, em combios que rolassem montonamente por terras
desconhecidas, para viver na barafunda dos hoteis, entre multides
indiferentes e egostas. Que enorme alterao tudo isto representaria
para os seus hbitos rotineiros, que fadiga mesclaria ao seu cansao e
que tdio juntaria ao seu aborrecimento! E, afinal, para qu? Que lucro
positivo tiraria le duma vagabundagem a outras nacionalidades habitadas
por povos diversos do seu? No lucraria nada! De resto, s se deve
viajar em absoluta serenidade espiritual, em pleno contentamento de
alma: e Frederico no possuia nem essa serenidade nem sse contentamento
essencial. No! No abandonaria o Prto. Neste burgo se iria definhando,
consumindo, aniquilando!...

s vezes, Branca, abraando-o, amimando-o, com carcias em que se no
escondia o frio, a secura, o desintersse, relembrava-lhe a promessa que
Frederico lhe fizera de a levar ao estrangeiro. Gostava tanto de ir a
Paris! Ai! Paris era a sua ambio! E, para o convencer, apontava-lhe
exemplos de rapazes com dinheiro que tinham ido com as amantes, numa
jovial jornada, por essa Europa fra.

--O Gusmo, por exemplo! Levou a Adriana.

--O Gusmo?--inquiria Frederico. Quem  sse Gusmo?

--Ora! Tu conheces!... Um trigueiro, de grandes bigodes, que tem um
lindo automvel e que vive a para os lados de S. Roque. H quantos anos
le ps a Adriana por conta!  como se fssem casados. Aquela sim. Est
de grande!...--terminava Branca, fazendo beicinho.

--Pois tambm tu hs de ir ver a Europa, sossega. Mas mais tarde... Por
enquanto, no posso. Preciso primeiro de deixar umas coisas em
ordem--afirmava le, sentando-a nos joelhos e passando-lhe um brao 
volta de pescoo.

--Sim, sim! Bem acredito eu nisso!...

--No acreditas!... Olha para mim... Mas olha bem de frente. Dize l. Eu
tenho cara de quem mente?...

--No quero dizer que mentes...

--Ento, que queres dizer?...

Ela no respondia, fazia-se mais amvel entre os seus braos,
pousava-lhe a cabea no ombro, muito terna, muito quebrada, com geitos
estudados e pieguices; e Frederico, perturbado, beijava-a furiosamente,
exclamando:

--De resto, para sermos felizes, no precisamos de sair daqui...

Uma noite, de volta do teatro S da Bandeira, onde fra ver uma revista
deplorvel, sem vivacidade, sem esprito, sem arte, maculada por ditos e
situaes lbricas, encontrou na rua o jovial Paiva que passava, muito
embuado, rente s paredes.

--Pra a, criatura--bradou Frederico. H quanto tempo te no vejo!...

--Oh! menino! Pois s tu?--respondeu Paiva.

Cumprimentaram-se, trocando um demorado aprto de mo.

--Para onde diabo vais, a esta hora e com tanto mistrio, Paiva
magnfico?

--Vou para o namro.

--Para o namro?...

--Sim! Um caso de sentimento, uma inclinao irresistivel, com dilogos
de janela, noite alta--porque o pai  austero--com estrlas que se
contemplam tristemente, com suspiros. Coisa muito sria.

--Oh! Paiva! Tambm tu?

-- verdade, grande Frederico. Tambm eu! Que queres? Assim acabam todos
os romnticos. E adeus, filho. No posso demorar-me. J vou tarde. A
pequena espera-me... Olha! Aparece qualquer dia, para conversarmos.
Depois te direi tudo.

--Vai! S pontual como Romeu. No faas sofrer com a tua ausncia os
coraes ingnuos.

Partiram cada um para o seu lado, em sentido oposto; mas, apenas
Frederico tinha dado alguns passos, Paiva, voltando-se de repente,
chamou-o aproximando-se novamente dle:

--Ouve l,  Frederico... Ia-me esquecendo... Tu sabes quem est no
Prto, chegado h seis ou sete dias?

--No sei. No Prto est tanta gente!

--Pois,  Nuno, o teu amigo Nuno.

--O qu?--bradou Frederico, sobressaltado. Nuno? No pode ser.

--E porque no pode ser? Se eu te estou a dizer que est! Vi-o esta
manh na Praa da Batalha. Vinha do correio... Parmos um momento a
palestrar. At le me perguntou por ti.

--Essa agora! Nuno no Prto! E sem me dizer nada!

--Como no te disse nada? Tu  que lhe foges, ao que parece. J te
procurou em casa e no te encontrou. Deixou-te uma carta urgente e no
lhe respondeste! Foi o que le me asseverou, e at um pouco
ressentido... Aparece-lhe! Escreve-lhe... E adeus!

Com efeito, havia uma semana que Frederico no ia a casa. Branca
retinha-o, no seu leito de amante, uma parte da noite e uma parte do
dia, porque s muito tarde, s vezes de madrugada, lhe batia  porta, de
regresso das estrdias ou das bancas de tavolagem com a roupa em
desalinho, o olhar vago e ardendo dum brilho especial, numa secreta e
spera revolta contra si prprio. Ficava tda a manh deitado, dormindo
com as mos fechadas junto da cara, a pele humedecida por uma
transpirao lgida, agitado de sonhos pavorosos. Quando o sol ia j
muito alto, entrando no quarto em feixes de raios difusos e rutilantes e
inundando mveis, cortinados e taptes com a sua dourada cabelugem que
fascava, lampejava nos espelhos, Branca acordava-o, sacudindo-o com
fra, chamando-lhe dorminhoco, tirando a roupa da cama, entre
gargalhadas. Frederico espreguiava-se, bocejava. Ela, de
_robe-de-chambre_ de sda, cabelos soltos e despenteados caindo-lhe
pelas costas, um ar petulante e vicioso que punha uma desagradvel
mcula na sua meiguice mas que a tornava mais picante, aninhava-se nas
tapearias que alcatifavam o soalho, rolava a cabea na beira do leito
com lentides de gata amimada, ria-se da moleza de Frederico,
fazendo-lhe momices que le repelia, enfastiado. Sempre que despertava
dos seus desvairos sensuais, sentia um desgsto muito fundo pela misria
moral em que ia resvalando rpidamente, sem coragem para romper com
torpezas o reentrar numa existncia honesta. Branca amuava, dizia-lhe
que le j a no amava, que estava morto por desfazer-se dela, falava em
morrer.

--Mas, v l! Se me queres deixar, confessa-o
francamente!--acrescentava.

Frederico irritava-se, chamava-lhe douda, saltava do leito, tomava
banho, vestia-se, reconciliando-se com Branca; e, ento, volvidas horas
de repouso que le aproveitava para ler os jornais, para folhear
revistas estrangeiras ilustradas, almoavam muito juntos na pequenina
sala de jantar que as jarras de flores aromatizavam, o papel claro das
paredes alegrava e a que os mobilirios caros davam confrto, elegncia
e beleza ornamental. Pelos aparadores scintilavam pratas e reluziam
porcelanas; de grandes pratos cheios de fruta madura exalavam-se armas
aperitivos; os cristais irisavam-se  luz; e Frederico achava ento um
certo enlvo naquela vida comum, parecia-lhe que tinha um lar, uma
companheira solcita, que possuia no mundo uma alma para quem a sua
personalidade no era estranha. Muitas vezes, jantava mesmo com Branca,
saindo  noite para as suas vadiagens, que se prolongavam at horas
mortas. Seis dias seguidos assim foram deslizando, sem que le se
lembrasse, sequer, de ir a sua casa. E por isso Nuno o no encontrara,
por isso no tivera, mais cedo, notcias do imprevisto regresso do amigo
ao Prto--regresso de que s por acaso havia sido informado...

Enquanto caminhava pelas ruas j desertas e cheias de sombra, perdia-se
em suposies. Nuno dissera-lhe que passaria o inverno na aldeia, quando
se separaram, e voltara a afirmar-lhe, em carta, sse propsito. Que
facto, grave certamente, o teria feito mudar de tenes? Aborrecimento
da monotonia rural, da solido rstica? Saudades da animao, da
sociabilidade citadinas? No! Nuno no era mundano, abominava as
exibies, os convvios banais. Taciturno, misantropo, j na sua
mocidade s estava bem com uma ou duas amizades mais ntimas  sua roda.
Depois que se casara, meteu-se dentro da sua vivenda e da sua
felicidade, sequestrou-se de todo, gostosamente, s curiosidades
indiscretas da rua e das salas. Que razo forte, que motivo imperioso, o
teriam, pois, desalojado da solitude campestre, obrgando-o a
refugiar-se no Prto?

--E se Jlia adoeceu?--monologou Frederico, invadido por um sobressalto
repentino.

Uma comoo dolorosa apoderou-se de todo o seu ser; sentia um fundo
mal-estar interior, uma angstia que o atordoava, que lhe apertava o
corao, que o constrangia. Com efeito, a estava a explicao da volta
de Nuno ao Prto. No podia ser outra! Naquele momento, a mulher que le
amava com infinita doura, sofreria, queimada pela febre, ir-se-ia
fanando na sua beleza viosa, na gentileza do seu encanto supremo,
enquanto Nuno, apreensivo, assistindo transido a uma dor que no podia
sarar, nem ao menos tinha ao seu lado algum que o confortasse, que lhe
desse esperana.

--Com certeza que Jlia est doente!--pensava Frederico.

Um relgio dava, ao longe, duas horas. Era-lhe impossvel correr a casa
de Nuno, bater-lhe  porta, alarmar tda a vivenda, para saber o que
havia; mas le tinha-lhe escrito e, naturalmente, nessa carta,
contava-lhe tudo. Ento, dominou-o, espicaou-o o desejo de chegar
de-pressa  sua habitao, que ficava ainda distante. Acelerou o passo.
Ao dobrar duma esquina, um vulto de mulher sumido dentro do chaile
cruzado no seio, saindo repentinamente da sombra, disse-lhe em voz baixa
e ofegante qualquer coisa que no entendeu. Tirou do blso uma moeda de
prata e meteu-a numa lvida e magra mo que para le se estendia com um
gesto rapace de garra. Mais adiante, um polcia embuado no seu capote
fumava encostado a um candeeiro. Sbre as casarias pairava uma ligeira
nvoa. A cidade dormia profundamente...

Uma tipia surgiu, rolando lentamente na calada. Frederico fez um sinal
ao cocheiro, que esticou as rdeas e se endireitou na boleia,
exclamando:

--Pronto, meu patro!...

Os cavalos, extenuados e de cabeas pendentes, estacaram. Frederico
abriu a portinhola, entrou de salto.

--Para onde quere que o leve?--perguntou ainda o cocheiro.

Indicou o bairro e o nmero do prdio em que residia e o carro partiu
logo, mais velozmente, ao estalar sco do chicote. As ferraduras dos
cavalos, batendo violentamente nas pedras, levantavam falhas de lume
que scintilavam um momento para em seguida se apagarem. Devorado de
impacincia, Frederico, de quando em quando, espreitava atravs das
vidraas e apenas via ruas esgueirando-se na sombra, fileiras montonas
de casas, algumas ainda com luzes agonizando por detrs de _stores_
descidos nas janelas dos segundos andares.

--Como  triste uma grande cidade erma a horas avanadas da noite! E
essa tristeza envelhece a gente!--meditava.

E o maldito carro sem chegar ao fim daquela corrida que o estava
atormentando! Batia nos vidros da frente, com os ns dos dedos para que
o cocheiro fizesse galopar os cavalos mais apressadamente. Parecia-lhe
que j h muito tempo rolava, aos solavancos, dentro daquela caixa
fechada e sem ar, atravs do burgo solitrio, e isto excitava-lhe os
nervos... Por fim, o carro deteve-se de repente. Frederico, olhando para
fra, reconheceu o seu retiro, a sua vivenda; saltou para o passeio, deu
uma gorda gorgeta ao cocheiro que tirou o chapu agradecendo, sacou do
blso um mlho de chaves niqueladas, abriu a porta e sumiu-se na treva.
Depois, raspando um fsforo, subiu ligeiramente a escada, procurando no
fazer barulho para no despertar o criado que dormia, entrou no seu
escritrio, acendeu o gs que ardeu num leque de luz dentro da tulipa de
cristal, sibilando em surdina, e olhou para cima da larga mesa de pau
preto em que escrevia. L estava a carta de Nuno, efectivamente. Logo a
reconheceu pela letra que negrejava no _enveloppe_--uma letra de traos
finos e firmes em que se denunciava alguma coisa do carcter do amigo--a
sua franqueza, a sua energia, a sua vontade sem hesitaes. Rasgou o
sobrescrito com frenesi, como se le representasse um forte obstculo
com o poder de lhe demorar ainda durante muito tempo o conhecimento duma
verdade que queria saber imediatamente e logo encetou a leitura. Nuno,
como pensara, dizia-lhe o motivo do seu regresso  cidade, informava-o,
com pormenores, da doena do filho, j curado, do susto que tiveram, le
e Jlia, na aldeia, quando julgaram a criana atacada de difteria e da
sua viagem por um hostil, bravio dia de chuva aoutando em btegas o
automvel. Terminava, pedindo-lhe que o fsse ver, que lhe dsse ao
menos notcias suas.

--O Porto--escrevia Nuno irnicamente-- uma terra tam pequena que tda
a gente se conhece uma  outra. Pois bem; h trs dias que te procuro
por praas e cafs, logares onde se d  lngua, no boletim mundano dos
jornais, e--parece impossvel!--ainda te no encontrei, como se tu
fsses _la Belle au bois_ da lenda e se tornasse necessrio penetrar
numa vasta floresta encantada para chegar junto de ti! Aparece. Tanto eu
como Jlia, que est mais nutrida, que lucrou imenso com a sua
permanncia na aldeia, gostaramos de ver-te por esta casa que  tua.

Acabando de ler a carta, Frederico respirou. Jlia no estava doente,
no ocorrera na existncia, tam calma, tam feliz, tam igual do marido,
nenhuma fatalidade irremedivel, nenhum perigo ameaava criaturas a quem
a sua alma era dedicada. Fez-se a paz no seu sobressalto emotivo. Dobrou
a larga flha de papel que Nuno para le escrevera e atirou-a para cima
da mesa, sentando-se numa poltrona estofada em que o seu corpo molemente
se enterrou; e por muito tempo entregou-se a um longo scismar. Branca,
que naquele momento o estaria esperando com um chaile de l pelas
costas, estirada num ffo divan da sala em que passava os seus seres,
lendo romances sentimentais ou conversando com Amlia, sua criada de
quarto e sua confidente, esqueceu-lhe completamente. A sua recordao
estava cheia da imagem de Jlia, da sua beleza, da sua bondade, da sua
maravilhosa graa de mulher, que queria adorar com uma emoo purificada
de desejos inferiores, venerar como um crente, no ardor do seu
misticismo, venera as coisas de Deus e que afinal amava, para seu
tormento e sua angstia, com um amor lbrico que lhe acendia a febre no
sangue, que lhe toldava a lucidez do esprito, que maculava de crpula
os puros lirismos da sua paixo a princpio casta e que depois, pelas
solicitaes carnais que no pudera conter, se transformou em criminosa.
Como era que essa mulher, em vez de o tocar com o alvor da sua
santidade, de tudo o que nela havia de superior, de elseo, de
admirvel, de astral, s lhe comunicava uma estranha volpia que o
alucinava?

--A culpa no  dela, com certeza, mas da impureza da minha
organizao!--monologava.

E ali estava ela no Prto, perto dle, chamando-o para junto de si com
uma voz de amizade que Frederico, no seu delrio voluptuoso, julgava
carregada do fluido magntico da atraco voluptuosa. Um esprito oculto
e malfico impelia-o para Jlia, incitava-o a loucuras, a infmias.
Aterrado com a prpria conscincia--em que germinava a flor vermelha dum
impulso mau--fugiu-lhe, afastou-se dela, para a esquecer. Em vo. O
destino enigmtico aproximava-os novamente, e desta vez com a
particularidade de se conhecerem de perto, de no serem estranhos a um
afecto que em Jlia era digno e enternecido e que nle degenerara em
sensualidade animal; de haverem vivido sob o mesmo teto, de se terem
confessado as suas simpatias e as suas predileces, de se fazerem
mtuas confidncias em que notavam, rindo, um gsto idntico, uma
inteligncia que tinha pontos de contacto, modos de ver em que havia
semelhana. Iria a casa de Nuno? No iria? Flutuava entre estas duas
hipteses, sem se decidir. Tinha mdo...

--Deve ser j muito tarde!--pensou.

Viu as horas. Eram quatro. De fra no vinha o menor rumor. Tda a vida
parecia suspensa, perdida no silncio e na treva nocturna. Ento,
novamente se lembrou de Branca, mas esta lembrana sbita inspirou-lhe
uma repugnncia secreta. A lubricidade excitante que essa mulher
acordara nas profundidades do seu ser, apagava-se repentinamente como
uma brasa sob a gua e dela nada ficava--nem memria afvel nem doce
recordao. Jlia apoderava-se outra vez dle, com o mesmo imprio, com
a mesma intensidade, impregnava-se da sua substncia nervosa, do seu
sangue, da sua carne, dominava-o. No tinha pensamento, nem desejo, nem
aspiraes que no fssem para ela: e a exaltao que o sacudia era por
tal forma enrgica e absorvente que Nuno ou lhe esquecia e lhe aparecia
inteiramente desligado da espsa, como se fssem duas personalidades sem
nada de comum, inteiramente separadas moral e corpreamente uma da
outra. Era-lhe necessrio empregar um grande esfro para os associar de
novo, para entrar na realidade das coisas, para compreender com nitidez
que Nuno era o seu amigo, o seu sincero camarada e que, em vez de
tra-lo, lhe devia comovidos respeitos, lealdades fervorosas.

ste fenmeno psquico decidiu-o. No! No iria mais a sua casa,
enquanto no pudesse estar diante de Jlia com a serenidade com que
estaria diante duma irm. Desculpar-se-ia, inventaria uma piedosa
mentira com que pudesse justificar-se, cometeria mesmo grosserias,
contanto que a sua dignidade de homem consciente ficasse intacta--ainda
que para isso tivesse de romper abertamente com Nuno. Saria do Prto
sem delongas, para Lisboa, para o estrangeiro, para tda a parte onde se
soubesse longe de Jlia, embora a tivesse sempre presente na sua sadade
e na infinita sde de amor do seu corao. De Branca fugiria tambm com
a alegria com que se quebram cadeias tirnicas e se recupera uma
liberdade durante muito tempo perdida. O seu sentimento, agora
divinizado pela sagrada lembrana da mulher mais que tudo amada,
tornava-lhe insuportvel a presena da impura, que apenas lhe apagava as
ardentes solicitaes da animalidade carnal e que lhe no apaziguava as
inquietaes da alma, que acelerava a vibrao da sua febre voluptuosa
sem lhe fazer ascender no esprito uma pura, ideal aspirao.

Oh! de-certo que ela choraria, que o ameaaria com suicidar-se, com
provocar clamorosos escndalos: mas enxugar-lhe-ia as lgrimas com um
farto punhado de ouro que a tranqilizasse no seu desespro artificial.
De resto, nada lhe devia, a no ser a ternura de algumas horas, uma
ternura que ela costumava vender a todos os homens e que Frederico
tambm comprara, pagando-a por excessivo preo. Tinha-a encontrado numa
ceia com amigos, simpatizara com ela--porque a sua beleza e a sua
desdita o impressionaram e o comoveram--levara-a para casa, pedira-lhe
no inspiraes mas luxrias que o atordoassem. Reconhecido pela
relativa tranqilidade que Branca comunicara  sua dr, indemnizou-a
generosamente. No podia ir mais longe. Bem sabia que ela empregava
todos os recursos e toda a scincia da sua _coquetterie_ para lhe
agradar com mais intensidade, para se tornar mais desejada--no movida
por impulsos amorosos mas por clculos. Era amvel; mostrava, mesmo, nas
suas relaes com Frederico, delicadezas que eram meramente
superficiais. Por debaixo delas traa-se sempre a indiferena ou a
secura, o automatismo, a inconscincia. A castidade das emoes que
iluminariam a sua paixo primitiva no podia mais renovar-se em Branca.
Nos seus carinhos balbuciados havia qualquer coisa de convencional, de
estudado; nos seus beijos havia frio. Era apenas um corpo sem alma--um
lindo corpo, certamente,--que se entregava por dinheiro. E, nos
primeiros tempos, a posse dsse corpo chegou a interess-lo por
determinadas afinidades fsicas.

Mas agora, Jlia ressurgia; os cuidados de que era alimentada a adorao
que lhe consagrava reclamavam todo o seu ser; uma luz nova o alumiava,
invadia-o a tortura dum amor sem finalidade, que lhe era amargo mas em
que tambm os seus sentidos encontravam uma particular doura. Sentia-se
renascer, no para uma vida nobre de esperanas, de jbilos futuros, de
graas aurorizantes, mas para preocupaes e para comoes que lhe eram,
conjuntamente, deleitosas e aflitivas. A sua excitao sensual
arrefecia, extinguia-se--e por isso Branca desaparecia das suas
impulsividades orgnicas. Na sua intimidade moral e afectiva
resplandecia apenas a imagem aliciante do nico amor srio da sua
existncia de homem apaixonado e consciente: e Jlia assumia aos seus
olhos o esplendor de certas figuras maravilhosas e msticas, que andam
nas lendas sagradas com um fulgor de ouro  volta da fronte. Queria
entregar-se inteiramente  venerao silenciosa e oculta dessa mulher,
devotar-se-lhe--mas de longe, procurando evitar que esta devoo, ste
culto, se transformassem em crime. Era a fatalidade! Estava, portanto,
decidido. Iria a casa de Branca, pela ltima vez, trocaria com ela o
derradeiro beijo, deixar-lhe-ia, delicadamente, sbre o leito, um
_enveloppe_ fechado. Depois, escreveria a Nuno uma longa carta e
seguidamente partiria ainda no sabia para onde. Esta ideia calmou-o um
pouco: mas em breve, tudo o que na sua natureza havia de tmido, de
indeciso, de incaracterstico, imprimiu-lhe um rumo diferente aos
pensamentos. No! No romperia com Branca asim de repente. Dir-lhe-ia
que era forado a sair do Prto por alguns meses, por causa de negcios
que se prendiam com a administrao da sua fortuna, mas que voltaria
logo que isso lhe fsse possvel e que ento, como dois noivos,
realizariam essa prometida viagem  Europa. S de longe lhe comunicaria
a resoluo duma ruptura inevitvel, poupando-se por esta forma ao
espectculo, doloroso para a sua sensibilidade doentia, de prantos, de
soluos sufocados, de recriminaes sem fim.

Com Nuno, usaria do mesmo processo, servir-se-ia de igual subterfgio.
Havia de dizer-lhe que apenas em Lisboa, em Madrid, em Paris, recebera a
sua carta--que lhe fra mandada por Bernardo--e que por isso no pudera
correr, como a sua alma desejava, a dar-lhe um abrao. Anunciar-lhe-ia
at um breve regresso, para que le se tranqilizasse e no procurasse
saber da sua vida e das suas aventuras. Dste modo, sofreria menos!...

J pelas frinchas da janelas se filtrava uma fresca e pura claridade
matutina, quando uma quebreira o invadiu, serenando as suas violentas
agitaes. As plpebras, pesadas de sonolncia, cerravam-se-lhe; uma
doce lassido prostrava-o. Levantou-se na ponta das botas, foi buscar ao
quarto um _couvre-pieds_ e deitou-se, mesmo vestido, sbre a
_chaise-longue_ que estava na sala, no ngulo formado por duas paredes,
para repousar por algumas horas. Lentamente adormeceu, perdendo a noo
das coisas que o rodeavam, da sua prpria situao equvoca. S acordou
quando Bernardo, entrando no escritrio com o sol j alto, abriu uma
persiana, por onde a luz festiva e clara entrou a jrros. Frederico
sentou-se indolentemente, esfregando os olhos, bocejando com fra,
chamando a ateno do criado, que se voltou espavorido no receio de que
um desconhecido tivesse entrado em casa, para roubar.

--Sim, sou eu, homem! Que diabo de espanto  sse!--exclamou le para
Bernardo que o contemplava, intrigado.

--Crdo, patro! Que mdo me meteu! At pensei que eram ladres. Estava
tam longe de o saber por ca!... E no admira! No o senti entrar.

--Vim tarde, com efeito... Olha, desce  cozinha e diz  criada que me
faa o almo para o meio-dia. Por agora, quero uma chvena de caf...
Mas bem forte.

--Ento, o senhor hoje almoa?

--Pois  claro que almoo--atalhou, rabujento...

--Est bem!

Enquanto Bernardo cumpria as ordens, Frederico ergueu-se, entrou no
quarto de vestir para mudar a roupa, que estava amachucada e cheia de
vincos, para lavar-se... Que desordem, a da sua existncia! Como  que
le se emmaranhara em tanto tumulto, enxovalhando-se, perdendo a noo
da decncia, do alinho exterior, da rectido moral, de tudo quanto pode
nobilitar o ser consciente! Ai! dle que no conseguira encontrar uma
actividade til e um ideal dignificador, derivava todo o
mal--considerava Frederico, enquanto banhava, regalado, a fronte em gua
fria. No acusava ningum. O culpado era le, exclusivamente le e da
sua culpa amargamente se arrependia. Estaria ainda a tempo de recomear
uma experincia, de regenerar-se? No haveria na sua alma, no seu
sentimento, estragos irremediveis? Consultava-se, analizava-se
minuciosamente e notava em si uma ausncia de coragem, uma falta de
incentivos renovadores, que o apavoravam. Com a face branca da espuma do
sabonete, que exalava um leve arma de narcisos em flor, levantou um
instante a cabea diante do esplho e teve a noo lgubre de que estava
vlho e morto para todos os actos elevados. E como tudo, igualmente,
envelhecia e morria  sua roda, sem um lampejo de beleza, numa desolao
que mais ennegrecia o seu desconslo... Remergulhou, furiosamente, na
gua: e, depois, enxugando as mos e a cara a uma toalha felpuda bem
sca, maldizia-se por no ter sabido construir uma outra vida nobre e
fecunda, por se haver deixado arrastar sem reaces, ao sabor das
correntes do acaso ou do destino... Mas agora, implacvelmente,
reagiria, limpar-se-ia de impurezas, tentaria ganhar o tempo perdido,
trabalhando sem repouso para rejuvenescer-se, para ressuscitar, para se
emancipar duma apatia amolecedora. A resoluo anterior fortalecia-lhe o
corao. Apegava-se a ela com desespro. Mais algumas horas, que lhe
eram necessrias para pr em ordem vrios papeis, para dar algumas
instrues aos criados, para escrever a Branca, para arranjar as malas,
e uma outra existncia se iniciaria para le... A esta ideia,
avivou-se-lhe o sofrimento interior. Ia afastar-se, talvez para sempre,
de Jlia, que era a sua sadade, a sua doura e a sua dor. Idealizava-a
mais uma vez. Ela tinha o encanto altivo unido a uma simplicidade
encantadora. A palidez espiritual das suas faces e a meiguice dos seus
olhos boiando numa luz que brilhava, tocavam-lhe a alma. A sua bca
apaixonada, que a mentira nunca maculara, tinha a dupla seduo do
silncio e da palavra--como as mulheres cantadas em sonetos de ouro por
Dante Rossetti. E deixava-a, porque no corao de Jlia, transbordante
dum outro amor, no cabia o seu, que era um intruso...

Mas Frederico, que ainda momentos antes se julgava com tanta energia
para a separao, comeava a vacilar. Como poderia viver sem ela e longe
dela? Que novas formas de tortura atingiria o seu padecimento? A
tristeza e o desespro, que j o pungiam, davam-lhe a medida exacta da
paixo que por Jlia sentia.

Acabou de vestir-se mais deprimido, mais acabrunhado, e voltou ao
escritrio, murmurando entre dentes:

--Embora! No retrocederei!...

Bernardo bateu  porta, perguntando se poderia entrar.

--Entra!--ordenou Frederico.

O criado entrou, trazendo uma chvena de caf, quente e aromtico, numa
bandeja de prata, que pousou em cima da mesa, informando:

--Est l em baixo uma senhora ainda nova.

--Uma senhora?

--Sim, patro. Uma senhora, que chegou de automvel. Diz que lhe quere
falar sem demora.  um caso urgente.

--E porque lhe no afirmaste que eu no estava?--gritou Frederico,
irritado, na suspeita de que Branca o procurasse.

--Pois eu afirmei, meu senhor...

--E ento?

--Ento, ela duvidou das minhas palavras, asseverou que bem sabia que o
senhor estava, que era escusado eu negar. E falava alto, parecia
agastada... Diz que  um momento...

--Olha que estopada!--bradou Frederico. Bem! Passa-me o caf, e manda-a
entrar para a sala de visitas... L irei ter daqui a pouco.

Que audcia! No faltava mais nada seno essa criatura--flor do vcio--a
agarrar-se com ansiedade aos seus braos, a colar-se ao seu corpo, a
manch-lo com uma ndoa, a fazer scenas pblicas da sua paixo, como se
Frederico lhe devesse reparaes, como se de si tivesse partido o lgro
que a despenhou para sempre no ldo e na desgraa! Com que direito vinha
ela procur-lo a casa, denunci-lo  criadagem como seu amante, sair dum
automvel  sua porta, em pleno dia, diante de tda a vizinhana rindo
sarcsticamente? E que lhe quereria? Talvez pretendesse queixar-se pelo
abandno duma noite, lamentar-se, mostrar as suas lgrimas e os seus
cimes. Ah! no! Isso, no lho permitiria...

Tomou  pressa o resto do caf que esfriava na chvena de porcelana
fina, acendeu um cigarro, soprou algumas baforadas de fumo e
encaminhou-se para a sala de visitas. Logo de entrada reconheceu Branca,
que se sentara numa cadeira sem mesmo erguer o espsso vu preto que lhe
cobria o rosto. Com as mos esquecidas no regao, estava pensativa. O
seio arfava-lhe apressadamente.

--Ento, que loucura  esta? Para que vieste aqui?--interrogou
Frederico, de mau humor.

--Ah! s tu!...--respondeu ela.

Ergueu nervosamente o vu, dirgiu-se para le de braos abertos. Tinha
os olhos vermelhos de chorar.

--Pensei que te no tornava a ver, que me tinhas fugido, que estavas
fatigado de mim. Porque no apareceste ontem, como de
costume?--interrogou ela.

Falava sacudidamente, muito excitada. O seu rosto plido rosava-se duma
ponta de sangue mais vivo.

--No apareci porque no pude.

--E porque no pudeste? Dize! Tiveste outros amores, outras mulheres?
No sou j nada para ti, ento?... Responde!... Mas responde!...

Frederico deteve-se um momento a consider-la com um olhar mau, de rosto
sombrio e contrado. Branca teve mdo e acudiu logo, para se desculpar
da sua impertinncia:

--No repares nas minhas palavras, que eu no sei o que digo. No dormi
nada em tda a noite. S chorei! Se conhecesses os meus tormentos, at
tinhas pena... Mas, porque no apareceste, Frederico?

Outra vez a impertinncia! Aquele inqurito exaltava-o, enchia-o de
clera. Tinha vontade de conclui-lo repentinamente, pondo Branca fra de
sua casa, com imprecaes duras e empurres brutais. E, azedado por uma
sbita fria, atalhou:

--Se tu me vens com sses ares de que eu sou uma coisa que te pertence e
de que tenho de dar-te conta dos meus menores actos, no te respondo...
Que tal est a petulncia? No apareci porque no quis. E olha! Nunca
mais apareo... Acabou tudo entre ns! Tudo, entendes?

Atirou violentamente a metade do cigarro que ainda ardia entre os seus
dedos para um cinzeiro, e comeou a pessear excitado, desvairado pela
irritao sempre crescente. Branca abateu-se sbre o sof, vencida,
ofendida, soluante, abafando o chro no seu leno de rendas.

--Agora temos prantos!...  escusado. No me comoves!

Mas olhou-a novamente, viu-a enrodilhada, ennovelada, destroada sbre o
sof, emmudecida na sua dr, teve d daquele pobre corpo frgil, daquele
corao que todos calcavam, comoveu-se. Aproximou-se dela,
impressionado, chamou-a carinhosamente:

--Branca!

Ela fitou-o na humildade dum olhar que implorava e que as lgrimas
tomavam mais brilhante, murmurando:

--Eu vim aqui porque me parecias diferente dos outros, porque me
trataste com alguma bondade, porque julguei que tinhas piedade de mim.
Bem sei que nada me deves, que no tenho direito de ser exigente e de
meter-me nos segredos da tua vida... Mas que queres? Costumaste-me mal.
Pensei que no me empurrasses com violncia... Desculpa-me!... Eu vou j
embora. Deixa-me sossegar um instante...

--E quem  que te empurra?--exclamou le, comovido. Escuta... Eu  que
te peo perdo da minha brutalidade... Mas, minha filha tu ignoras as
minhas crises ntimas, os desgostos que me enfurecem. Fui arrebatado, 
certo. Mas, se soubesses a razo do meu arrebatamento, absolvias-me.

Branca enxugou os olhos, levantou-se vagarosamente do sof, foi para le
com um sorriso dolorido e risonho, j esperanada.

--O qu? Pois no me repeles? Queres ento um pouco a uma mulher como
eu, que se devota como os ces e que todos enxotam, queres? Ento, que
Deus te pague!... Mas que tens? Que desgostos so sses em que falas?
Oh! se no podes diz-los, guarda-os para ti s, que eu no fico
ressentida...

--Pois  o diabo, filha... Maadas...

Gaguejava, sem saber o que havia de dizer, muito confuso, temendo que
ela descobrisse as suas mentiras, incapaz duma atitude resoluta.

--At estava agora para ir a tua casa, dizer-te tudo, explicar-te
tudo...

E de repente, o subterfgio que procurava iluminou-se-lhe na
inteligncia. Concluiu, perturbado e contente:

--Tenho de sair do Porto, hoje, infalivelmente.

--E demoras-te?

--Algumas semanas. Imagina! Ontem  noite, inesperadamente, recebi um
telegrama de Lisboa chamando-me a tda a pressa para junto duma tia
minha que est a morrer!...

--Ah! ento!...

--Pensa na minha angstia! Esta tia,  a nica pessoa que me resta duma
famlia que se extingue... E nem sequer posso levar-te comigo... Bem
vs!  caso de gravidade... Mas volto. Volto logo que seja possvel,
para a continuao do nosso amor.

--Se eu pudesse acompanhar-te, Frederico!--exclamou ela resignada.

--Mas no podes. Como queres tu?...

--No! Estou doida, efectivamente... Mas no me deixas?... No ests
zangado comigo?

--Zangado, eu? Que ideia... Espera um momento.

Foi dentro, ao escritrio, abriu o cofre, tirou um mao de notas,
felicitando-se pelo ardil encontrado, satisfeito na sua covardia por
cortar com Branca mais suavemente do que pensava; e, reentrando na sala
meteu-lhe o dinheiro na saquinha de mo, murmurando:

--Leva! Podes ter preciso dle, enquanto eu no regresso...

--Mas!...

--Nada de recusas. Ordeno eu. E agora vai, e s-me fiel. Mandar-te hei
noticias minhas. D-me um beijo e adeus!

Quando Branca desceu a escada e entrou apressadamente no automvel, que
largou numa corrida vertiginosa, Frederico soltou um suspiro de
alvio...




X


Dois, trs vagarosos meses decorreram com uma lentido cruel para
Frederico, que sentia por vezes a impresso do tempo se ter imobilizado,
de tudo cair  sua volta numa inrcia que o apavorava, inspirando-lhe um
terror mais forte pela vida, exaurindo-o totalmente de vontade. Sara do
Prto na inteno de partir para o estrangeiro, de se demorar por l, em
cidades ruidosas ou sossegados logarejos onde encontrasse algum repouso,
at que o seu amor impuro se lhe apagasse no corao como se apaga uma
luz que muito tempo espalhou claridade; mas, desde que chegara a Lisboa,
encontrou-se mais s, mais desalentado e mais inquieto, arrependendo-se
amargamente de haver deixado a rua em que vivia, a casa em que nascera,
perseguido por um mdo absurdo e quse infantil, por uma cobardia
deplorvel, e por uma fraqueza de alma que o envergonhava...

As sensaes sucediam-se-lhe com rapidez assombrosa no sentimento. Na
capital, parecia-lhe que entrara numa regio de imensa solitude--uma
solitude que o oprimia, que lhe constrangia, apertava o corao. Como se
tinha enganado! Imaginava que a distraco das viagens lhe curaria ou,
pelo menos, atenuaria o extraordinrio mal que tanto o fazia sofrer:--e
agora ntidamente via que, quanto mais se afastasse de Jlia, mais sse
mal se agravaria. A doena estava inteiramente dentro de si:--na sua
imaginao, nos seus nervos, na sua sensibilidade, no seu sangue! A dor
que o atormentava nada mais era do que um dos variados aspectos do
padecimento humano, a eterna misria dos sres conscientes. Provinha das
tiranias implacveis da carne, da animalidade, da tristeza infinita dos
destinos, das fatalidades a que ningum pode eximir-se! Fugir para onde?
Esconder-se em que stio? A sua tortura permanente havia de acompanh-lo
para tda a parte, como certas enfermidades que no perdoam e que sem
descanso, noite e dia, devoram o organismo de que se apoderam...

Pensando constantemente em Jlia, formara no esprito uma imagem dessa
doce mulher muito mais viva do que a personalidade real. Dste fenmeno
derivava a sua excitao, o seu frenesi. Era essa imagem, precisamente,
que nle activava a luta entre a dignidade, a elevao moral e o desejo
lbrico, entre a noo do dever e o cego instinto. Considerando como
absolutamente intil para a sua paz--a paz de que tanto carecia--a
vagabundagem pela Europa em que durante dias pensara, decidiu ficar em
Portugal, conservar-se em Lisboa, envelhecer a um canto do seu pas,
respirando o mesmo ar que vivificava Jlia, alumiar-se com a luz do sol
que tambm a iluminava a ela. Para a infinita melancolia do seu amor,
havia um grande encanto nestas pequeninas coisas. Aquela adorao sem
esperana comuncava, em todo o caso, a radiao da sua beleza
intangvel a tudo o que o cercava, penetrava-o de suavidade, tinha o
condo misterioso de lhe ressuscitar na memria figuras queridas em que
lhe era grato meditar. O vulto de Jlia andava ntimamente ligado, na
sua recordao, s pasagens rsticas que ambos tinham contemplado num
mudo xtase, a certas pginas de msica que Frederico lhe ouvira tocar
ao piano, aos plcidos seres na casa de campo onde vivera dias
inefveis, antes da tempestade emotiva em que agora se debatia.
Lembrar-se dela era lembrar-se tambm dos episdios ocorridos durante as
horas iniciais duma paixo que comeara, insidiosamente, por admiraes
comovidas de virtudes e de bondades que a ennobreciam e que, depois, sem
saber por que secretas elaboraes de sentimento, se transformara em
delrio, em loucura. Fsse para onde fsse, havia de aguilho-lo a
agitao que lhe no dava um minuto de trguas, continuaria a queim-lo
a febre em que se gastava, se consumia, como os troncos secos se
consomem numa fogueira. Afastar-se ainda mais para qu? Separava-o j de
Jlia uma grande distncia e nem por isso a sua angstia afrouxava. No
dispunha de coragem para atravessar a fronteira, correr nacionalidades
estranhas, observar outros povos, outros costumes, outras civilizaes.
No seu presente estado de alma, nada veria, nada compreenderia. Em
Lisboa, estava entre a sua gente, tinha relaes, poderia conviver,
procurando o esquecimento. Foi-se deixando ficar, num dissolvente
abatimento, sem formar projectos de vida futura, incapaz de resolues,
de actos enrgicos em que a sua vaga individualidade se afirmasse.
Fechava-se dias inteiros no quarto do hotel em que se instalara,
ruminando o seu tdio, folheando livros que se arrastavam
indefinidamente por cima das mesas e das cadeiras, fumando.  noite, ia
aos teatros, encontrando uma vez por outra algum conhecido com quem se
entretinha em palestras sem intersse. O seu gsto era estar s, para
relembrar, no silncio, coisas que lhe eram inefveis. Reentrar na sua
paz antiga, sentir de novo a alegria de viver, seria a libertao: mas,
para isso tinha de esquecer, e o esquecimento era-lhe impossvel.
Bastava o facto mais insignificante para lhe despertar na emotividade as
sensaes da sua primitiva ternura, para lhe dilatar amorosamente o
corao. A depresso constante e progressiva da vontade que em si
desfalecia levava-o a acusar-se duma fraqueza que o aviltava: mas no
empregava esforos para reagir. Deixava-se governar dcilmente por uma
atraco misteriosa.

Em certos momentos, julgava-se pueril. Com efeito, porque sofria le
tanto? Que crime havia praticado? Que falta grave era a sua, para que
assim se entregasse passivamente a um desespro que o devastava? No
poderia le amar Jlia, a espsa do seu maior amigo, sem se manchar de
ignomnia, sem se envilecer? Talvez. Mas, se o corpo, a grosseira
matria de que era constituido, o empurravam para sse amor, a sua alma,
que era a essncia, que representava a poro de divindade que cada
homem digno traz dentro de si, opunha-se tenazmente. ste antagonismo
entre a carne e o esprito que dentro dle se fazia no era uma ntida
prova da sua nobreza moral? Pecava pelos sentidos mas purificava-se pela
razo. E o seu pecado todos o absolveriam. Experimentava alguma doura
em relembrar Jlia, porque no podia viver sem a recordao sadosa dum
amor de que s le sabia e que representava o facto dominante da sua
existncia. Ningum conseguir, fcilmente, desabituar-se da
felicidade--e amando Jlia em segredo, considerava-se relativamente
feliz. Na desolao duma existncia sem outro ideal, essa adorao tinha
a graa duma flor e mergulhava-o na beatitude dum quimrico sonho que
lhe dava a iluso da ventura. Mas no iria mais alm, no ultrapassaria
os limites estreitos em que a sua desgraada paixo se confinara. Para
que havia de atormentar-se com tam sombrio ardor?

       *       *       *       *       *

A primavera veio, outra vez, cobrir os arvoredos de folhagens tenras e
verdes, reflorir os jardins, tocar as pasagens de maravilhosas tintas.
A luz era j mais lmpida e vibrante; o sol trespassava o azul da
atmosfera como uma enorme flecha de ouro. Uma vida mais jovial renascia.
Nuno, que contnuamente escrevia a Frederico, na ignorncia das mentiras
por le inventadas para se afastar e do conflito moral e sentimental em
que se debatia, anunciou-lhe, numa longa carta, o propsito em que
estava de regressar  quinta novamente, ficando por l a fortalecer e a
renovar-se, entre a beleza rural e as coisas simples, at que o filho
crescesse e o obrigasse a residir na cidade, para lhe vigiar de perto a
educao. Preparava tudo para uma longa ausncia do Prto, onde s
voltaria, em rpidas visitas, de fugida, quando negcios urgentes a isso
o forassem. E pedia-lhe que se no demorasse mais, que no prolongasse
um afastamento inexplicvel que justificava com pretextos sempre fteis
e que o intrigava.

--Com efeito--acrescentava Nuno--eu e Jlia temos pensado muitas vezes
que existe na tua vida um segrdo. Qual? No o sei nem quero sab-lo,
pois se na verdade me no iludo e tu o escondes,  porque me no julgas
digno de o conhecer. Mas, seja como fr, vem da assistir, na aldeia, 
ressurreio das flores e  aleluia da graa!...

Esta carta despertou violentamente tdas as ideias e reminiscncias que
existiam no seu crebro. Outra vez viu iluminar-se-lhe diante dos olhos
deslumbrados aquela tarde em que a beleza de Jlia pela primeira vez o
impressionou vivamente, quando ela, debaixo da mosqueteira que vergava
de corolas, se cobria das floraes que caam de alto como uma chuva
loura e lhe evocavam docemente a lenda pag de Jpiter, descendo num
orvalho dourado sbre o corpo branco de Danae. Outra vez recordava a
angstia--que nunca mais deixou de pungi-lo--com que fizera a descoberta
dum amor que devia morrer, porque era impuro; a noite de perturbao e
de terror que se seguiu a esta revelao singular; a ansiedade com que,
logo ao raiar da alvorada, fugiu para o Prto  procura duma serenidade,
duma pacificao que nunca mais encontrou--recriminando-se pelo facto de
haver-se abrigado sob um teto, que afectuosamente o acolhera, para
manchar uma honra, para trair uma amizade, para roubar uma ventura que a
outro legtimamente pertencia, para violar no seu prprio santurio
emoes castas, para cometer, na alucinao da sua luxria, um
sacrilgio. A intensidade da venerao consagrada a Jlia tornava-o
excessivo na fria com que se acusava: e as evocaes eram por tal forma
ntidas que o seu padecimento agravava-se, excitando-lhe a cobardia,
aumentando-lhe o temor de voltar a aproximar-se duma mulher que, por
muito respeitar, no queria tornar a ver. Sofria duplamente pela certeza
evidente da sua paixo e pelo enfraquecimento duma dignidade que sentia
escapar-se-lhe, deixando-o  merc de impulsivos desatinos. A prpria
alma se lhe dissipava a esta recordao. Perdia a confiana em si mesmo.
A sua situao surgia-lhe perante a conscincia como um abismo--cheio de
idntica sombra, de idntico mistrio, de igual silncio enigmtico.
Outrora, pensava que todos os homens podiam dominar-se, mesmo no confuso
turbilho das emoes desencadeadas, porque para isso dispunham da fra
que deriva do raciocnio e da sua superioridade de conscientes; e agora,
pretendendo exercer sobre si prprio sse domnio, no o conseguia, por
mais que o tentasse. E porqu? Porque a sua vontade no era ntegra e
suficientemente enrgica? Porque as paixes eram mais fortes do que o
carcter, tendo o poder de comunicar  razo,  inteligncia, aos
sentimento elevados, o seu fogo criminoso? Parecia-lhe que sim. E tambm
lhe parecia que apenas os homens que sassem vencedores das lutas em que
le impotentemente sucumbia, deviam ser considerados os verdadeiros
heris...

Sucedesse, porm, o que sucedesse, estava decidido -----File:
245.png---\\\\\\------------a nunca mais entrar em casa de Nuno. Ao cabo
de pacientes e dolorosas anlises, pressentia que, em face de Jlia, no
se conteria, deixaria transparecer o seu drama oculto, se denunciaria. A
fuga era a salvao! Mas regressaria ao Prto, certamente, agora que
Nuno o informava da sua mudana para a aldeia onde ia instalar-se
durante anos. Lisboa enfastiava-o j at  fadiga. Julgava-se
estrangeiro dentro dessa cidade, entre uma populao tam diversa da do
norte, pela ndole, pela origem, por diferenciaes de casta. Tinha-se
libertado definitivamente das complicaes que a episdica e transitria
ligao com Branca trouxera  sua atribulada existncia. Rompera para
sempre com ela, embora se separassem como amigos que, juntos, correram
atrs duma iluso irrealizvel e de cujo encontro ficaria alguma coisa
de doce. Como era um fraco de temperamento, um indeciso, pensou em
prolongar com ela uma triste mentira que seria cmoda para o seu egosmo
e para a sua indeciso. Temeu, porm, as futuras consequncias dessa
mentira e sentiu a necessidade do mostrar-se sincero. O mais leal, o
mais concordante com uma bondade que o nobilitava era desengan-la com
uma franqueza resoluta:--e assim procedeu, penalizado com a lembrana
das lgrimas que a sua deliberao provocaria. Mas era preciso! Branca
aparecia-lhe como uma atroz mancha na sagrada brancura do seu nico e
verdadeiro amor. No podia mais aceitar-lhe os beijos sem repugnncia
instintiva, sorrir s suas carcias sem um desejo muito fundo de
repeli-la com rancor, com dio. Perguntava mesmo como esta
incompatibilidade carnal entre le e a sua amante dalguns meses s agora
se definia claramente, sem encontrar uma explicao para sse
fenmeno...

Escreveu-lhe, de Lisboa, anunciando-lhe o fim duma aventura que tinha de
acabar, pedindo-lhe que lhe no quisesse mal, que dle conservasse uma
lembrana afvel:--e quando, perturbado, inquieto, imaginava que Branca
no aceitaria a ruptura sem clamorosos escndalos, soube que ela se
resignara inteiramente, procurando e encontrando logo outras ligaes.
Esta certeza desanuviou-o.

Um domingo, por acaso, passeando tristemente na Avenida da Liberdade,
onde j floriam as olaias sob a doura e o afago da luz primaveril,
deparou, inesperadamente, o jovial Paiva, que descia o passeio em
sentido oposto, fitando com enternecimento as belezas femininas que
passavam na festa esplndida do sol. Foi para le cheio de
contentamento, apertando-lhe efusivamente a mo, interrogando-o com
afabilidade:

--Oh! scelerado!... Tu por aqui?

--Oh! admirvel Frederico! Que feliz encontro!...  verdade, por aqui,
nesta doce e morena Lisboa.

--E sse Prto, sse namro?...

--O Prto, creio que est no mesmo stio, com a sua monotonia, a sua
tristeza de burgo histrico inamovvel. Quanto ao idlio, findou como
tudo finda:--Roma, Bizncio, Cartago!...

E pousando a mo magra, em que fulgia a pedra fina dum anel, no ombro de
Frederico, acrescentou, sorrindo:

--_Tout casse, tout lasse et tout passe!_ Os franceses teem razo.

Deram uma larga volta, conversando, recordando episdios esquecidos,
espairecendo. Paiva achava que as mulheres de Lisboa eram lindas e
perturbantes, com uma graa, uma distino, um ar encantador:

--V a elegncia com que elas pisam, menino! E que corpos, que harmonia
de formas, que ritmo! Sobretudo, que ritmo!...

--Tu vens obsceno do Prto, homem--comentou Frederico.

--Pois como diabo querias tu que eu viesse? Sim! Como querias?!...

Voltaram ao Rocio, entraram no Martinho, sentaram-se a uma mesa, pedindo
cerveja; e ento, Paiva informou Frederico do desfcho grotesco do seu
curto romance com Branca. Estava agora com um capitalista--o Lus
Tavares--que h muito cobiava a sua formusora, o seu encanto decadente.

--Um capitalista, hein?--perguntava Frederico, bebendo o seu _bock_.

--De-certo. Um capitalista... O Tavares... Tu conheces. Ora! No
conheces tu outra coisa.

--Com franqueza, no me ocorre... Mas estimo! Coitada da pequena. Tam
ba rapariga!... Um anjo.

-- gentil, da tua parte, esse desejo de faz-la entrar nos cros
celestes. Mas no vs mais longe, no a metas entre as Onze Mil
Virgens...

Paiva, acendendo um charuto, deu mais esclarecimentos:

-- babadinho por Branca, o Tavares. Oferece-lhe quanto ela quere.

--Ests ptimamente informado!

--Foi Lusa que me contou tudo.

-- verdade:--ainda dura essa paixoneta?

--No, caramba! Eu gosto da variedade. A igualdade assusta-me... Lusa
tambm se colocou--e entre a magistratura. Est por conta dum
desembargador que, no seu doce regao, esquece as leis, os cdigos,
pousa a severa espada da justia e humaniza-se. Mas,  claro,
encontrmo-nos de vez em quando. s vezes, por fantasia, por
capricho--ela  caprichosa--sobe  minha trapeira romntica de bomio,
como uma Musa... E narra-me, entre beijos, a crnica mundana dos amores
envergonhados.

--Que progresso, o dessas damas! Uma com o capital, outra com a
jurisprudncia, ambas influindo, talvez, na vida nacional, governando-a
como Aspsia governava Atenas!

--Meu rico! Ambas nos devem muito. Fomos ns que as ensinamos a ter
linha. Praticamos uma aco meritria--acrescentava Paiva, cnicamente.

Frederico bateu as palmas, pagou a despesa. Levantaram-se, saram.

--Queres tu hoje jantar comigo,  Paiva magnfico? Ando tam s, tam
desalentado!...

--No posso. Muito que lidar, uma tia rica e vlha de quem sou o melhor
dos sobrinhos e o mais necessitado dos herdeiros, outros casos de
conscincia. Jantar contigo era uma bela ideia. Mas no posso... No sei
mesmo quando poderei. Acho que tenho de seguir com minha adorvel tia
para o Alentejo, onde vamos visitar uns domnios territoriais que viro
talvez a pertencer-me!...

Separaram-se. Paiva enfiou pela rua do Ouro, soberbo de petulncia,
fitando insistentemente as mulheres que passavam, e Frederico, mais
aborrecido e mais triste, reentrou no hotel, fechando-se no seu quarto e
estirando-se num sof, farto at  saciedade de Lisboa, onde nada o
prendia, e ansioso pelo regresso ao Prto, donde tantas recordaes o
chamavam. O seu terror, a sua inquietao moral desvaneciam-se, pois que
Nuno e Jlia iam partir--talvez mesmo j tivessem partido--para a
aldeia. Fumando uns cigarros atrs dos outros, entregava-se com mais
subtileza crtica  observao do caso singular que o trazia em alvoro
permanente, que de-certo derivava da exaltao nervosa, duma violenta
paixo--mais lasciva do que espiritual--insatisfeita, das speras
solicitaes da carne bruta, da infinita misria fsica do amor, de tudo
o que faz do homem um animal vivendo pelo instinto grosseiro e no pelas
finuras, pelas delicadezas da alma. A sua anlise escolhia de
preferncia os sentimentos da intimidade moral, porque as imagens da
vida exterior exasperavam-no. Comeava a achar ridcula aquela
desvairada fuga diante da mulher para quem um ardente desejo e uma
invencvel simpatia o impeliam e de quem a razo e a dignidade o
afastavam, intimidando-o como se le fosse uma criana, um
irresponsvel, e no dispusesse duma inteligncia. Reconheceu, no
entanto, que perdera a confiana em si mesmo, que era mais um autmato,
dirigido por fras ocultas, do que um ser moral, governado por ideias e
emoes prprias...

Levantou-se, caminhou para uma janela aberta, curvando-se um momento
sbre o peitoril. A populao atulhava as ruas que o sol dourava; os
carros elctricos desfilavam uns atrs dos outros, abarrotados de gente;
pelos passeios erravam janotas ociosos, e oficiais do exrcito
arrastavam espadas nas pedras. Era a scenografia de todos os dias, que
j o fatigava; surpreendeu-se a apetecer, mais do que nunca, o
isolamento da sua casa do Prto, longe de tdas as curiosidades, como um
cenobita, entre livros e entre recordaes suaves. Com que prazer
comeou a fazer as malas, para abalar no dia seguinte, sem mesmo
prevenir os criados da sua volta! E como foi consoladora para a sua
sadade a hora em que reentrou na vivenda pacfica e cheia de lembranas
familiares que o enterneciam! Tinha a iluso de que em tudo o que o
rodeava havia uma parte da sua personalidade, alguma coisa do seu
corao, uma beleza indecifrvel que para le se iluminava. Bernardo,
que o recebeu com um riso satisfeito e que o achava mais magro, mais
mirrado, pareceu-lhe um amigo venervel. As rvores do jardim, cobertas
de flhas que o sol tocava de luz, ramalhavam alegremente  aragem,
sadando-o.

--Venho arrasado, Bernardo, arrasado!--disse le para o criado.

--Pois assim, sempre nessas idas e vindas, nem pode medrar, meu senhor.

--Tens razo. Tu  que tens razo. No posso medrar, dizes bem. Oh! mas
agora, vais ver. Vou repousar, recuperar o perdido. Engordarei, no
sarei de casa, como os gatos.

--Santo nome de Maria, com que o patro se compara!...

--E ento? Haver porventura nada mais caseiro, mais apegado ao
borralho, do que um gato?

Nos primeiros tempos, com efeito, Frederico, todo ocupado no arrumo das
suas coisas, passava os dias encerrado na habitao, sando apenas de
noite, depois do jantar, quando a cidade comeava a ficar deserta e le
no corria o perigo de encontros importunos. Dava longos passeios, como
se pretendesse extenuar-se, acalmar a agitao permanente do seu
esprito. Foi precisamente numa destas caminhadas nocturnas que uma vez,
insensivelmente, se surpreendeu defronte da morada de Nuno, mergulhada
em sombra e mudez. Parou a olh-la como se quisesse lobrigar nas
vidraas reflexos de luz interior que denunciasse a presena de sres
vivos. No viu nada e ste facto comunicou-lhe alegria e tranqilidade.
Depois, como uma polcia se aproximasse a passos lentos, mirando-o com
desconfiana, reencetou a marcha, murmurando:

--Bem! J c no est!

E sentia contentamento pela sua descoberta--um contentamento quse
infantil. A ausncia de Jlia e de Nuno garantia-lhe uma quietude
relativa. Isto animou-o. Absolutamente certo de que o amigo estava agora
longe, comeou a aparecer de dia, a freqentar os centros de conversa, a
mostrar-se. Reatou convivncias durante muito tempo interrompidas, para
se distrair, para atenuar a violncia do seu mal, que, no entanto, ia
crescendo com o desalento que o minava. Mas, uma tarde, ao descer os
Clrigos, vago, alheado, viu-se inesperadamente diante dalgum que
gritava o seu nome, que para le avanava, de braos estendidos,
berrando:

--Ora ainda bem que te encontro. Que diabo tens tu feito? Por onde tens
andado? Que mal te fiz eu? Dize!...

Era Nuno! Frederico estacou, empalidecendo um pouco, muito comprometido,
gaguejando desculpas, interrogando-o:

--Pois, ests no Prto?

--Justamente! Estou no Prto. Tive de vir aqui a tda a pressa, buscar
coisas que nos eram essenciais, a mim e a Jlia, ao nosso brando retiro.

--E ela como est, tua espsa? E sse querido herdeiro?--perguntou
Frederico, j mais sereno.

--Magnficos. Gozam duma sade de ferro.

--Como j te disse em carta, s em Lisboa tive conhecimento da doena de
teu filho e tu tranqilizavas-me...

Nuno contemplava-o com intersse. Estava mais abatido, mais gasto, havia
fundos vincos na sua face, cabelos brancos na sua cabea, tristeza no
seu rosto e era cansado o riso da sua bca.

--Demoras-te por c?--inquiriu Frederico.

--No. Sigo daqui a horas, em automvel. Ah! J me esquecia dizer-te...
Tenho agora automvel na quinta, introduzi no meu viver pacato esta
comodidade. E era preciso. No estamos livres duma sbita doena, do
imprevisto... E  verdade:--essa visita? Quando te resolves? A no ser
que a nossa companhia te desgoste...

--Oh! Nuno! Pois acreditas?...

--No afirmei nada. Exprimi apenas uma dvida. E olha que, na realidade,
tanto eu como Jlia te temos estranhado... Para que hei de esconder-te a
nossa surprsa?

--Tolices... E podes crer que no falto... Mas mais tarde. Ainda tenho
prises. Hei de ver...

--No hs de ver nada. Quero saber o dia, a semana, ou ento o motivo
dessas hesitaes...

--Bem! Por todo ste ms, contem comigo... Para onde vais?

--A Carlos Alberto, fazer umas encomendas. O meu automvel deve l
estar. Acompanhas-me?

--No posso. Desculpa. Coisas urgentes a resolver... Mas, espera-me em
breves dias.

--Esperarei.

--E recomenda-me l em casa... Beijos ao morgado.

Despediram-se, seguindo em direces opostas. Nuno, gilmente,
Frederico, mais acabrunhado. Santo Deus! O facto que tanto temera
sempre, dera-se, afinal. E agora? Como poderia fugir mais uma vez,
libertar-se, sem levantar suspeies? Como julgaria Nuno uma nova fuga,
que j no poderia justificar honestamente? Era-lhe impossvel prolongar
por mais tempo uma tam cmoda mentira, continuar iludindo. A fatalidade
empurrava-o, definitivamente, para o desconhecido e com uma fra a que
no conseguiria resistir. O que iria acontecer? Que rudes formas de
tortura adquiriria o seu desespro? Vacilava, sem encontrar uma evasiva
tam profundamente desejada.

Tudo o que no seu ser existia de tmido, de cobarde, de dbio,
despertava, exacerbando-lho o terror. Deambulando na rua, a largos
passos, falava szinho, em voz alta e numa tal excitao que parava
gente intrigada a observ-lo.

--Com certeza que no vou!--afirmava.

Mas se no fsse, o que pensaria Nuno? Que desastrada ideia tivera em
deixar Lisboa, em no ter ido para o estrangeiro, para tda a parte onde
a vida lhe oferecesse um pouco de sossgo! Para que voltara ao Prto?
Recordava-se de haver lido em Dostoiewsky que os criminosos andam  roda
do seu crime--de que no podem afastar-se--como as borboletas  roda da
chama em que se queimam. Era sse fenmeno psquico que se dava com le,
naturalmente...

Cruzou com um carro que fugia na calada. De dentro, uma graciosa cabea
de mulher inclinou-se, espreitando e sorrindo irnicamente. Frederico
reconheceu Branca. At aquela o desdenhava. Que vida, que misria!
Encontrava-se numa encruzilhada, completamente desnorteado. Que caminho
tomaria? Apressou a marcha, aguilhoado por uma inquietao muito ntima
e muito funda. Passavam-lhe na mente tentaes tenebrosas. nicamente de
si prprio, duma instantnea fulgurao de coragem, dependia a quietao
perptua. A soluo pareceu-lhe ba, por instantes; mas logo,
raciocinando mais detidamente, monologou:

--Era a mesma coisa, a mesma denncia... E, depois, sou um poltro...

Nesta dvida permanente, que tornava mais cruel o seu sofrimento, viveu
Frederico todo o resto do ms, cado numa misantropia que o assustava,
nos raros momentos em que lcidamente podia reflectir. Tinha-se outra
vez encerrado em casa, fechando a porta a tdas as curiosidades
importunas, e levava os dias num desespro que apenas a imagem serena de
Jlia a espaos larizava. A sua irresoluo era maior, mais tormentosa
a sua angstia. Sentia a necessidade duma f religiosa que lhe
iluminasse o esprito rido, que o apaziguasse. Assaltava-o o receio de
enlouquecer. Bernardo aterrava-se. com a fixidez do seu olhar em que
brilhava alguma coisa de bizarro e de mau...

       *       *       *       *       *

Um dia de manh, o correio trouxe-lhe uma carta--a carta a tdas as
horas esperada. As mos tremiam-lbe, quando lhe pegou. Rasgou o
_enveloppe_, abriu-a e leu, com um rubor de vergonha na face, estas
linhas scas e curtas de Nuno:

Na verdade h uma razo secreta que te afasta desta casa, da minha
amizade, da minha confiana. Desconheo-te e a tua atitude inexplicvel
preocupa-me. Existe entre ns um equvoco que no deve continuar por
mais tempo e de que tu, francamente, me informars. O teu procedimento,
que me intriga, parece mais uma provocao do que outra coisa; e o nosso
antigo afecto de tda uma mocidade d-me o direito de exigir-te
explicaes.

A carta terminava com mais algumas palavras que a humanizavam, lhe
atenuavam a rispidez. Ento, tdas as indecises de Frederico se
dissiparam. Efectivamente, reconhecia a sua culpa. Nuno tinha motivos
para estar magoado, para o recriminar. Que homem era le?--pensava
Frederico, espreitando, espavorido, a conscincia. Queria furtar a sua
dignidade de amigo a atraces que a manchariam, e comprometia
nicamente as suas afeies mais puras. E tudo isto porqu? Pelo temor
absurdo de praticar uma aco vil. Mas, no dispunha le duma
inteligncia capaz de compreender os eternos problemas do Bem e do Mal e
duma energia capaz de resistir s alucinaes criminosas?

Chamou o criado na electrizao duma vontade que o vitalizava, mandou
encher uma grande mala de madeira, recoberta de couro, com roupa e
calado, ordenou que lhe fssem buscar um automvel, e sem pensar, sem
calcular as conseqncias da sua carreira cega e vertiginosa para o amor
e para a vergonha, ou para a libertao e para a morte, partiu. Ainda
confiava numa coisa:--a sua timidez. Nunca teria a audcia de revelar a
Jlia o seu segrdo. Se ela o perscrutasse e o aceitasse sem cleras
fulgurantes, talvez a sua natureza imperfeita sucumbisse; mas, pura,
como era, ignorando as torpezas do corao humano, nunca ela o
adivinharia. A sua adorao continuaria, portanto, oculta, fazendo-o
sofrer apenas a le...

Volvidas horas duma impaciente correria por estradas que cortavam
atravs de espraiadas veigas, de descampados, de terras de cultivo, de
pinheirais rumorosos, Frederico parava diante do porto da quinta, tam
seu conhecido, ao latir furioso dos ces de guarda. J pelas grades
pintadas de verde floriam as roseiras de trepar, e tda a aldeia
reverdecia, como numa festa, sob as aragens perfumadas e o ouro dum sol
criador e maravilhoso de luz, descendo dum cu de esmalte azul. Nuno que
estava  varanda olhando distradamente as montanhas que ao longe se
esfuminhavam, na vaga nvoa, vendo deter-se um automvel, desceu
apressadamente ao jardim, sem esperar pelo criado e atirando uma
sadao amigvel ao viajante, que sacudia a roupa empoeirada.
Abraaram--se com efuso. Frederico repreendeu-o:

--Que estpida carta foi aquela, Nuno?

--No foi estpida, foi estimulante. Se me no zangasse sriamente, no
vinhas. E olha que comeava a no saber o que pensar... Mas vieste. Tudo
se esclareceu. Esqueamos sse desagradvel incidente...--explicava le,
dirigindo-se a casa.

Trmulo, transtornado, esforando-se por conservar a tranqilidade
aparente, tda superficial, Frederico acompanhava Nuno, que cruzava o
jardim a passos largos. Ia tornar a ver Jlia perto de si. H quanto
tempo a no via! Quse um ano--uma eternidade para quem ama como le
amava--tinha decorrido, desde que se separaram. A sua perturbao
aumentava, o corao pulsava-lhe com violncia, o sangue circulava-lhe
apressadamente nas veias.

--Jlia, Jlia!--bradou Nuno, ao subir, com Frederico, a larga escadaria
de pedra, sob as glicnias brancas e rxas, que conduzia ao primeiro
andar.

Ela apareceu logo,  porta de entrada, com o filho ao colo, muito
risonha, muito crada e afvel.

--C est o prdigo!--zombou Nuno.

--Que volta ao calor das vlhas amizades, arrependido da sua
prodigalidade--concluiu Frederico, apertando a mo que ela lhe estendia,
aberta e leal, e beijando a criana com ternura, quse com devoo.

--Pensei que nos tinha esquecido...

--Oh! minha senhora... E como pde supr...

Ergueu, a cabea e fitou-a pela primeira vez mais demoradamente, muito
perturbado, tentando sorrir. Ela encarou-o tambm, satisfeita, com uma
grande alegria no rosto. Os seus olhares cruzaram-se.

--Se lhe parece! Que devamos pensar, ento?... Mas perdoamos-lhe, pelo
muito que o estimamos, no  verdade, Nuno?

le fez um gesto de assentimento, muito contente.

--S por esta vez... Para a outra, no haver perdes!--ameaou Jlia.

Enleado, sem saber o que responder, Frederico refugiou-se todo na
inocncia do pequerrucho, que sorria enlevado, agitando as mozinhas cr
de rosa.

--E c o figuro? Admirvel, no  assim?--perguntou le, tocando-lhe
com a ponta do dedo levemente, afagando-o.

--Est excelente, agora. Mas inspirou-nos um susto!...

--Eu sei, eu sei. Nuno contou-me tudo.

--Oh! menino, deixa as expanses para logo--atalhou Nuno. Teremos muito
tempo de tagarelar, durante esta deliciosa primavera. Porque deliberei
no te deixar evadir daqui tam cedo. Agora s meu prisioneiro... Vai-te
arranjar. O quarto  o mesmo do ano passado... C em casa nada mudou.
Amamos as tradies.

Frederico aproveitou a ordem providencial do amigo, que vinha libert-lo
duma situao de momento a momento mais penosa para le, exclamando:

--Ento, se V. Ex.^a d licena, minha senhora...

--Pois no, pois no!...--declarou Jlia.

Entrou no quarto para onde os criados tinham j levado a mala, lavou-se
e vestiu-se. O silncio envolvente apaziguava-o, tranqilizava a sua
perturbao. Aquela casa, que a luz inundava, era feliz: e a felicidade
foi sempre recolhida e pacfica. Mas, cheio de desconslo, invadido por
um desgsto imenso, Frederico perguntava a si mesmo para que viera,
porque no tinha resistido tenazmente s solicitaes de Nuno. Que
leviandade! E como, por irreflexo, havia concorrido para agravar o seu
mal!

       *       *       *       *       *

Os dias foram passando num desespro cada vez maior para Frederico. O
seu delrio atingia uma violncia terrvel de instante a instante.
Surpreendia-se muitas vezes a contemplar Jlia em xtase, quando 
noite, ela, sentada ao piano, interpretava uma dessas pginas de msica
que parecem falar da aspirao irrealizada das almas para a beleza e
para a ventura. A luz do candeeiro, que lembrava um hlito dourado,
derramando-se no ambiente, batia-lhe em cheio na massa dos cabelos
enrolados no alto da cabea gentil, nos ombros, nos lbulos das orelhas,
onde fulguravam as pedrarias dos brincos. Frederico, sentado numa
cadeira de braos, absorvia-se na sua graa, no seu encanto,
idealizava-a, considerava como devia ser infinitamente doce o seu amor e
setinosa a sua pele tam branca, opalizando-se na claridade difusa,
enquanto Nuno, fumando um charuto, vagarosamente folheava um livro. No
fundo do seu corao havia agora um inexplicvel ressentimento, quse
dio por aquele homem que tirnicamente se interpunha entre le e a
divina mulher da sua ardente paixo, em nome dum afecto a que a
sociedade--e talvez a lealdade do seu carcter!--impunham obedincia
passiva. Como a influncia desta adorao infindvel se tornasse mais
imperiosa e dominadora de hora para hora, Frederico, temendo o
irremedivel, evitava tdas as ocasies de se encontrar s com Jlia. De
dia, se Nuno descia  quinta, le acompanhava-o, procurava interessar-se
por coisas que no entendia, demorava por tdas as formas o regresso 
vivenda. O tempo estava esplndido e a scenografia era, realmente,
maravilhosa. Todos os arvoredos do parque agitavam no ar, brandamente,
as ramarias cobertas de folhagens novas, que os pssaros vestiam de
asas. As accias douravam-se duma flor que, trespassada pela luz, dava a
impresso duma espuma de ouro; altos castanheiros da ndia balouavam
pingentes de florescncias brancas e rosadas. As flhas densas formavam
um docel duma cr verde e tenra. Por vezes, flechas de sol, filtrando-se
por entre os ramos, mosaicavam a areia fina do cho de manchas
luminosas. Ao lado, o jardim enflorava, exalando-se em perfume. Mais
para alm do muro que circundava a vasta propriedade, ondulavam em
galges as dobras de terreno, espraiavam-se os campos cultivados, os
ferregiais, os lameiros em que a erva crescia, branquejavam casais
pequeninos donde aonde, verdejavam os pastos, subiam na atmosfera os
campanrios em que, aos domingos, os sinos, convocando os fiis,
espalhavam por todo o vale a msica festiva e mstica dos seus claros
sons. E ao fundo, subia a mole colossal das serras, mais fecundas na
base, mais ridas nos cimos, com a sua decorao de matagais cheirosos,
de pinheirais, de rochedos cortados em escarpa.

--Que beleza!--murmurava Frederico, enlevado.

--No  verdade?--inquiria Nuno. Onde  que tu encontras stes
espectculos, esta poesia, na cidade, em que tudo  tam pequenino, tam
mesquinho, tam banal?

Depois, levava-o at ao fim da quinta, para que le visse os grandes
melhoramentos em que consumira a actividade de todo um estio. Nas terras
de po, as sementeiras eram prometedoras. Vigorosamente, os milhos
midos viam-se crescer--como dizia o velho Mateus, agora mais feliz,
bem instalado na sua granja que devia  generosidade do senhor; os
centeios e os trigais, impando de seiva, arrepiavam-se  ligeira aragem
que sbre les corria, gil como um spro, fazendo-os encrespar; ramadas
e vinhedos lanavam pmpanos; todo o vergel se estrelava de florao. E
sobre aquela alegria da leiva frtil, caa a luz pura como uma bno de
Deus.

--Isto  uma verdadeira maravilha, Nuno!--exclamava Frederico, diante do
caseiro que sorria, agradecido.

--O tio Mateus trata-me a propriedade com amor.

--Faz-se o que se pode... Mas o patro  um santo!--dizia le para
Frederico.

--Oh, homem, olhe que s o Vaticano  que pode fazer canonizaes.
Santo, eu? Pecador, pecador...

--O que tem feito por mim e pela pobre doente e pelos filhos  mais do
que de santo, pois no ? Ai! devo-lhe muito, devo-lhe muito.

-- verdade, e como est sua mulher?

--Na forma do costume, a infeliz.

--Alguma doena?--perguntava Frederico, condodo.

--Uma paralisia... Coitada!

Muitas vezes, saam para fra da quinta, pela porta que servia a parte
alugada ao caseiro, davam grandes passeios atravs dos prados,
internavam-se nos caminhos sulcados pelas rodas dos pesados carros de
bois, coleando-se entre sebes j floridas, e s recolhiam quando se
aproximavam as horas do jantar.

Era ste o momento mais doloroso para Frederico, que tinha de sofrer,
diante de Jlia, o seu suplcio atroz, ouvindo-lhe a voz de ouro,
afagando-lhe com os olhos a beleza a que a maternidade e a certeza dum
amor constante imprimiam mais serenidade e mais graa, desejando-a com
febre e temendo-a, ao mesmo tempo, por ste desejo impuro que ela, sem
querer, comunicava aos seus sentidos,  sua carne,  sua animalidade.
Uma noite, durante o sero, a conversa entre os trs animara-se.
Discutia-se a incapacidade dos homens para saberem procurar a sua
felicidade. Os que a encontravam no eram nunca orientados pela
inteligncia ou pela finura psicolgica, mas pelo acaso, observava
Frederico.

--Sai-lhes a ventura, como lhes poderia sair a sorte grande, num bilhete
de lotaria...

--Essa agora!--atalhou Jlia.  ento a inconscincia que preside  vida
consciente?

--E porque no?--afirmava Frederico. A humanidade  ainda tam
imperfeita!...

--Oh! menino, concede ao menos alguma sagacidade ao instinto, que poucas
vezes se engana.

--Engana-se quse sempre, porque est submetido a influncias nefastas.

-- levares muito longe a tua furiosa vontade de negar... Mas, a tens
tu as mulheres, por exemplo. So duma argcia!... Sobretudo em questes
de sentimento.

--Pobres delas!--riu Frederico.

--Pobres porqu?--perguntou Jlia, interessada.

--Porque nunca vero claramente as almas. A sua anlise no ultrapassa
as exterioridades--insinuou com inteno Frederico, em voz apressada e
viva.

Jlia olhou-o demoradamente, enquanto Nuno comentava:

--So opinies, pontos de vista.

Sob o olhar penetrante de Jlia, Frederico baixou a cabea, perturbado e
arrependido de ter ido tam longe, arrebatado por um impulso que no
pudera dominar. A fixidez da vista dessa doce mulher cravada nle
inquietava-o. Que queria ela dizer, comunicar? Ter-se-ia denunciado?
Adivinharia Jlia, h muito, por uma dessas intuies que certas
criaturas possuem, o segrdo que le trazia escondido no corao?
Atarantado, acrescentou, como se quisesse desculpar-se, furtar-se quela
espcie de interrogatrio mudo:

-- claro, h excepes. Falei dum modo genrico...

E sorrindo lvidamente, com os lbios muito brancos, uma imperceptvel
tremura nas mos, disse ainda, voltando-se para Jlia:

--No pense V. Ex.^a que eu envolvi tdas as mulheres na minha
afirmativa...

--Eu fui uma das exceptuadas?--interrogou ela alegremente.  uma
amabilidade de amigo.

O incidente esqueceu, a palestra derivou para outros assuntos que iam
surgindo, mas Frederico no pde recuperar a sua serenidade de esprito.
Estava doido, ia perdendo a noo das convenincias e, se permanecesse
por mais tempo naquela casa, perto de Jlia, vergado  tirania da sua
fascinao, viria a praticar loucuras. No via, no ouvia, deixava
muitas vezes sem resposta perguntas de Nuno, que tinha de o chamar 
realidade, exclamando:

--Que diabo de abstraco  essa?

E foi, na verdade, um grande alvio para le o instante em que Jlia se
levantou, sorrindo de fadiga, despedindo-se e dirigindo-se ao seu
quarto. le e Nuno ficaram ainda no gabinete,  volta da luz. Havia luar
e uma claridade branca batia em cheio nos vidros da janela. Fra, tudo
adormecia em sossgo, na pacificao nocturna. Quebrando a cinza do
charuto no cinzeiro, Nuno sorria enlevado, e o amigo, surpreendendo-lhe
o sorriso, disse:

--Em que coisas alegres pensas?

--Na minha felicidade. Imagina...

Calou-se, como se se arrependesse, de repente, duma revelao que ia
fazer.

--Imagino o qu?

--No sabes nada? No vs nada?... Bem dizias tu, h pouco, que os
homens so rombos de compreenso, teem embotada a ponta da subtileza.

Frederico observava-o, intrigado, batendo sbre a mesa com os ns dos
dedos.

--Tu s um amigo, um irmo. No s, nesta casa, uma pessoa estranha.
Pertences  famlia. Pode, portanto, dizer-se-te tudo... Jlia est
outra vez grvida! Assim mo revelou esta manh... Vou ter outro filho...
Talvez uma filha, para a felicidade ser completa...

Grvida! Jlia estava grvida! Que horror! E como essa certeza brutal o
amachucava, o transtornava. A garganta constrangia-se-lhe. Fazia
esforos para falar, e no conseguia articular as palavras.

--Mas no me dizes nada, no me felicitas, no me abraas por esta
ternura que me envolve e que eu agradeo ao meu doce destino?...

--Ah! de-certo que s bem feliz!...--exclamou Frederico, por fim.

--No  verdade?--interrogava Nuno, com a face banhada de riso e de
satisfao.

--Um amimado da sorte!...

Retiraram, por fim, da sala. Um criado veio apagar a luz e arrumar os
mveis.

A noite tempestuosa que Frederico passou! Que terror e que desalento
geravam, para a sua alma pvida de espanto, as sombrias larvas do
delrio? E que futuro entrevia, sem um ideal, sem um sentimento mais
puro que lhe enchessem a vida e lhe dessem esperana e coragem! Tda a
doura que sonhara findava repentinamente como uma flor que se
desfolhasse ao vento. Compreendia gora ntidamente que falhara na
existncia. Na hora de agonia que atravessava, tdas as dvidas se
esclareciam para a sua inteligncia conturbada. Nada ousaria tentar para
fugir a uma condenao fatal, para reconquistar uma paz que perdera. A
sua conscincia era uma abjeco. Estava endemoninhado dum pensamento
mau, que no podia arrancar dos sentidos como quem arranca o ferro duma
ferida sangrenta e profunda; estava possesso do crime em que se
envilecera e o espicaava como um remorso. Para viver tranqilo, seria
necessrio redimir-se da fria cada vez mais ardente duma diablica
paixo insaciada.

Estendido sbre o leito, arquejante, Frederico, de vez em quando,
insurgia-se contra o curso das suas meditaes, contra si prprio; mas a
sua revolta era intil, no vingava desviar a ateno concentrada
naquela absurda tortura. E que abismo de torpeza era o homem! Odiava
Nuno fulgurantemente, desejava que tdas as desgraas, todos os
infortnios, se abatessem sbre a sua cabea, que a amargura de tdas as
misrias o punisse implacavelmente. Com que vitorioso grito de triunfo
le lhe anunciara a gravidez de Jlia! E com que punhalada varara o seu
corao! Essa nova maternidade sagrada da mulher que amava era uma suja
mcula na santidade da sua adorao--mcula bestial. Nuno, fecundando-a
entre speros beijos de luxria e de fogo, na vibrao suprema do seu
organismo fsico, poluira o sentimento que na sua alma abrira puro como
uma flor virginal. O filho que viesse, que j fazia estremecer o ventre
de Jlia, enxovalharia a mulher para quem a sua venerao subia como o
incenso subia dum turbulo, na nave dum templo. E fra para assistir a
esta vilania que o amigo o convidara para casa, arrancando-o
irnicamente ao seu isolamento. Mas quem o impediria da vingana,
procurando Jlia, revelando-lhe aquele doloroso segrdo que trazia
dentro de si e que o sufocava?...

A esta ideia, que por um momento lhe pareceu justa, encolheu-se,
espavorido.

--Que canalha! Que canalha eu sou!--murmurava.

No, que pavor! Jlia devia ignorar tudo. Era em saber guardar o mal que
o atormentava, que residia a beleza real do seu sacrifcio. E com que
direito criminava le aquela doce unio conjugal em que tudo era graa,
constncia, virtude, pureza? Para que havia de espalhar a lama no
caminho de Jlia e de Nuno, tam dignos um do outro e da ventura, pela
sua bondade, pela sua abnegao, pela sua lealdade? Confessar-lhe um
amor criminoso, que seria repelido sem piedade, era dar a conhecer os
aspectos mais torpes da sua alma, que no hesitava em trar o amigo,
disputando-lhe a espsa, o tlamo, em ultraj-lo, ofend-lo, humilh-lo
na dignidade do sr consciente.

De-certo que um dles era de mais na vida--pensava Frederico. Mas quem?
Nuno, que tam dedicado lhe fra sempre, que lhe queria como a um irmo,
na ignorncia da serpe do desejo que se lhe enroscara no corpo e o
despedaava, o comprimia at  tortura, que confiadamente lhe abrira as
portas do seu lar--que se fechavam para tda a gente? Seria aquela a
vtima que o seu egosmo, a sua loucura sensual, escolheria? Estas
interrogaes passavam-lhe no crebro como a fulgurao dum sinistro
relmpago. Depois, recuperando a lucidez, podendo raciocinar com mais
clareza, Frederico monologou:

--Eu, eu  que sou de mais!...

Ainda no tinha descido tanto no pntano em que se afogava que no
visse, acima da sua perversidade, alguma coisa de sublime, de
luminosamente grande. Que Nuno, continuasse a viver para o amor, para a
felicidade, para o futuro. Que o seu sonho de ventura nunca se
interrompesse! le desapareceria, j que lhe era honrosamente impossvel
amar Jlia sem incorrer no absoluto desprzo de si prprio e sem trar
um afecto mais santificado, e j que tambm no conseguiria viver sem
essa adorao. Morreria!...

Por um instante, na solitude nocturna que o rodeava, pensou em matar-se
ali mesmo, dando um tiro na cabea. A detonao alarmaria tda a casa,
Jlia acudiria, aos gritos, pousaria, talvez, o primeiro e ltimo beijo
na sua fronte ainda morna e lvida, levaria para a cova o encanto, a
revelao, o perfume dsse beijo derradeiro que lhe aurorizaria a morte.
Fechou, porm, os olhos horrorizados. sse suicdio naquele logar, alm
de ser uma denncia, depois da scena do sero, macularia com uma ndoa
sangrenta a ternura infinita de Nuno e da espsa--uma ndoa que nenhuma
gua, nenhum esquecimento, nenhum arma purificaria, como a das mos de
Macbeth. No! Viveria mais umas horas, umas horas apenas! S o tempo de
chegar ao Prto...

A luz da manh veio surpreend-lo ainda vestido, rolando-se no leito
desmanchado, plido, os cabelos revoltos. Abriu a janela vagarosamente.
O ar vivo e balsmico entrou a jorros. Aspirou-o com volpia. Em baixo,
passava o criado. Pediu-lhe que fsse a Guimares buscar um automvel.

--E no te demores.  um caso de urgncia.

Banhou o rosto em gua fria, tirou da mala a pistola que meteu no blso
das calas, e quando sentiu Nuno a p, correu para le em alvoro. Ao
passar pela porta do quarto de Jlia, fitou-a com um olhar em que ia
todo o seu adeus, todo o seu desgraado amor, todo o seu perdo.
Dirigindo-se ao jardim, onde Nuno descera, como fazia sempre, para gozar
o encanto idlico das manhs, bradou de longe:

--Sabes? Tenho de ir j ao Prto.

--O qu? Ests doido! No sais daqui, no te deixo.

--Se eu te digo que tenho de ir! Mandei at o Manuel a Guimares, buscar
um automvel... Mas volto hoje mesmo. Nem levo a mala... Preciso de ir
pagar umas letras que se vencem.  uma coisa sria, como vs!... S esta
noite me lembrei, de repente.

--Oh! Frederico!... Porque no recorreste a mim!... E no tinhas o meu
automvel?...

--No me ocorreu... Mas  uma questo rpida.

--Nesse caso, vai...

Uma hora depois, o automvel chegava e Frederico, impaciente, ao porto,
despediu-se do Nuno, saltou para dentro, dizendo ao _chauffeur_:

--Larga e com velocidade.

Estava com pressa de pr fim, por uma vez, quele tormento que fra a
angstia pavorosa de todo um ano de sofrimento! Fechou os olhos. No
queria ver nada, para que um sbito arrependimento, um desmaio de
coragem, o no prendessem  vida. Ia como numa embriaguez, concentrado
na sua ideia fixa e fnebre. O automvel rolava, fugia no fio do vento.
Era uma carreira para a morte, um paroxismo...

Quando mais tarde entrou em sua casa, pagou generosamente ao
_chauffeur_, subiu a escada rpidamente. Bernardo acudira,
perguntando-lhe se desejava alguma coisa.

--Nada, homem. Podes ir para baixo. Se eu precisar, chamarei.

Encerrou-se no seu escritrio, sentou-se  escrivaninha e durante algum
tempo esteve escrevendo. Admirava a sua serenidade em face daquele acto
terrvel e necessrio que preparava. Seguidamente, fechou a carta e
tocou a campanha. O criado veio, ligeiro:

--Leva j esta carta ao correio. Mas no te demores.

E, quando ficou s, serenamente, como quem cumpre com honra um dever
contrado, tirou a pistola do blso, encostou o cano  cabea sem que um
msculo da face se lhe enrugasse e desfechou. Um jacto de sangue brotou,
salpicando o papel das paredes; um pedao de massa enceflica fra
projectado violentamente contra a porta. Frederico cau de brco no
cho, sem um estremecimento, esvaziando-se de tda a seiva da vida sobre
o tapte...

       *       *       *       *       *

Na manh seguinte, Nuno, que passara a noite inquieto por aquela sbita
fuga do amigo, no sabendo a que atribu-la, recebia uma carta.

Reconhecendo no _enveloppe_ a letra do Frederico, abriu-a nervosamente.
Que teria acontecido, para le escrever em vez de voltar, como
prometera? Leu, apavorado, estas palavras sombrias, gravadas numa letra
firme:

--Nuno:--Vou matar-me, em plena conscincia, e foi justamente para isso
que deixei a tua companhia, a tua afeio, a tua nobre e grande alma.
Nem a paz, a consolao imensa do teu lar tam belo, puderam reter-me por
mais tempo num mundo em que sou um intruso. No posso viver mais. A vida
para mim  um suplcio e por isso me liberto dela. O homem dispe da
fora augusta que lhe permite aniquilar a obra de Deus.

Porque me mato? Porque h, realmente, na minha existncia um segrdo
terrvel, o segrdo de que um dia suspeitaste e que te no posso dizer,
porque me no pertence inteiramente. Oh! no faas suposies
inconsideradas! Julga-me com equidade. No penses por um momento s que
deixei, por um crime atroz e sem perdo, de ser digno do teu afecto.
Morro em beleza espiritual... Mas o meu segredo tortura-me sem repouso e
-me impossvel sofrer mais. Para que prolongar uma dr incurvel? Sou
s, o meu acto, longamente meditado, no ter conseqncias e apenas
far padecer as poucas criaturas devotadas que me estimaram e que ho de
curvar-se, em lgrimas, sbre o meu tmulo.

S tu feliz, entre os teus, bom amigo! Que sempre  volta da tua vida
tam pura e da tua bondade tam comovida, pousem a graa, o encanto e a
doura! Pensa em mim com um pouco de carinho e de mgoa. Afinal, amei-te
e desapareo inteiramente merecedor da tua afeio--inteiramente
merecedor dela, ouve bem! Um beijo para teu filho e outro para tua
mulher--um beijo de irmo, o beijo dum cadver. Adeus!--Frederico!.

Ao concluir a leitura, Nuno ficou petrificado, no jardim, alheado de
tudo, como se a inteligncia inesperadamente lhe fugisse e le se
encontrasse num logar desconhecido. Estava branco, os dedos tremiam-lhe.
Tinha a carta entre as mos, e os seus olhos, por uma alucinao dos
sentidos, viam nela manchas sangrentas... Depois, fundos soluos
abalaram-no, chorou com desespro, correndo para casa. Abriu
nervosamente a porta do quarto. Jlia ainda estava no leito, com o filho
que ria e galrava.

--Tu queres saber?--exclamou le. Uma desgraa horrvel, um pavor!

--Que foi, santo nome de Jesus?--exclamou Jlia, sentando-se na cama.

--Pois, foi uma fatalidade, filha! Frederico matou-se, ontem, no Prto.

--Matou-se?...--perguntou, num grito.

--Sim, matou! Aqui est a carta dle, anunciando-me a sua resoluo, a
sua loucura. Pobre amigo! Antes de morrer, pensou em mim, pensou em ns!

--Oh! meu Deus!--murmurou ela, levando as mos fechadas  cabea. E
porque foi, porque foi?...

--No o diz... Olha! L tu! Eu nem serenidade tenho para nada.

Jlia leu, com os olhos vidrados de pranto, aquela carta para ela
reveladora--s para ela!... Uma dvida que por muito tempo a
sobressaltou, esclareceu-se-lhe de repente no esprito. Admirou a
grandeza de alma de Frederico--uma grandeza que se denunciava ainda no
beijo supremo e sublimado que o seu cadver lhe mandava da beira da
sepultura. Mudamente entregou a carta a Nuno, e as lgrimas correram-lhe
em fio dos olhos.

--E ento? Que te parece? Que julgas?...

--Era um nobre corao!--exclamou ela, chorando sempre.

Nesse mesmo dia, Nuno partiu para o Prto, a assistir ao entrro do
homem que, diante da traio, optou pela morte, para no deixar de ser
leal aos outros e a si prprio.


Miramar, 9 de novembro de 1916.




Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


+---------+-------------------------+-------------------------+
|         |        Original         |        Correco        |
+---------+-------------------------+-------------------------+
|#pg.  53| pefil                   | perfil                  |
|#pg.  56| Fredrico                | Frederico               |
|#pg.  63| docorreu                | decorreu                |
|#pg.  67| diza                    | dizia                   |
|#pg.  67| fertiliade              | fertilidade             |
|#pg.  76| apressadamnte           | apressadamente          |
|#pg.  79| mulido                 | multido                |
|#pg.  81| ferragns                | ferragens               |
|#pg.  81| pincpio                | princpio               |
|#pg. 104| refractrio e um desejo | refractrio a um desejo |
|#pg. 107| se se isso              | se isso                 |
|#pg. 112| miaginao              | imaginao              |
|#pg. 141| vingindade              | virgindade              |
|#pg. 143| picacado                | picado                  |
|#pg. 145| Nes e momento           | Nesse momento           |
|#pg. 153| iuterminveis           | interminveis           |
|#pg. 155| Fredico                 | Frederico               |
|#pg. 156| stuao                 | situao                |
|#pg. 157| bejou-a                 | beijou-a                |
|#pg. 158| subtitua               | substitua              |
|#pg. 159| tran formam             | transformam             |
|#pg. 170| borrocais               | barrocais               |
|#pg. 171| Beetheven               | Beethoven               |
|#pg. 171| capazas                 | capazes                 |
|#pg. 181| e de medicina           | o de medicina           |
|#pg. 232| Bernado                 | Bernardo                |
|#pg. 232| uam                     | uma                     |
|#pg. 232| irrmediveis            | irremediveis           |
|#pg. 236| rapares                 | repares                 |
|#pg. 238| ni- pessoa             | nica pessoa            |
|#pg. 241| rua a                   | a rua                   |
|#pg. 244| No poderia              | No poderia             |
|#pg. 257| Banca                   | Branca                  |
|#pg. 272| companha               | campanha               |
+---------+-------------------------+-------------------------+


A acentuao foi mantida de acordo com o original.





End of the Project Gutenberg EBook of A Morte Vence, by Joo Jos Grave

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MORTE VENCE ***

***** This file should be named 23687-8.txt or 23687-8.zip *****
This and all associated files of various formats will be found in:
        http://www.gutenberg.org/2/3/6/8/23687/

Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online
Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net


Updated editions will replace the previous one--the old editions
will be renamed.

Creating the works from public domain print editions means that no
one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
(and you!) can copy and distribute it in the United States without
permission and without paying copyright royalties.  Special rules,
set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark.  Project
Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
charge for the eBooks, unless you receive specific permission.  If you
do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
rules is very easy.  You may use this eBook for nearly any purpose
such as creation of derivative works, reports, performances and
research.  They may be modified and printed and given away--you may do
practically ANYTHING with public domain eBooks.  Redistribution is
subject to the trademark license, especially commercial
redistribution.



*** START: FULL LICENSE ***

THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK

To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
distribution of electronic works, by using or distributing this work
(or any other work associated in any way with the phrase "Project
Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
Gutenberg-tm License (available with this file or online at
http://gutenberg.org/license).


Section 1.  General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
electronic works

1.A.  By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
and accept all the terms of this license and intellectual property
(trademark/copyright) agreement.  If you do not agree to abide by all
the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B.  "Project Gutenberg" is a registered trademark.  It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement.  There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement.  See
paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D.  The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work.  Copyright laws in most countries are in
a constant state of change.  If you are outside the United States, check
the laws of your country in addition to the terms of this agreement
before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
creating derivative works based on this work or any other Project
Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
the copyright status of any work in any country outside the United
States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
copied or distributed:

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org

1.E.2.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
and distributed to anyone in the United States without paying any fees
or charges.  If you are redistributing or providing access to a work
with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
1.E.9.

1.E.3.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
terms imposed by the copyright holder.  Additional terms will be linked
to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
permission of the copyright holder found at the beginning of this work.

1.E.4.  Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
License terms from this work, or any files containing a part of this
work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.

1.E.5.  Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
electronic work, or any part of this electronic work, without
prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
active links or immediate access to the full terms of the Project
Gutenberg-tm License.

1.E.6.  You may convert to and distribute this work in any binary,
compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
word processing or hypertext form.  However, if you provide access to or
distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
form.  Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7.  Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.8.  You may charge a reasonable fee for copies of or providing
access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
that

- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
     the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
     you already use to calculate your applicable taxes.  The fee is
     owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
     has agreed to donate royalties under this paragraph to the
     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
     must be paid within 60 days following each date on which you
     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
     address specified in Section 4, "Information about donations to
     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
your equipment.

1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
