The Project Gutenberg EBook of A Revoluo Portugueza: O 31 de Janeiro
(Porto 1891), by Jorge de Abreu

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Title: A Revoluo Portugueza: O 31 de Janeiro (Porto 1891)

Author: Jorge de Abreu

Release Date: July 22, 2009 [EBook #29484]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A REVOLUO PORTUGUEZA ***




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                          BIBLIOTHECA HISTORICA
                         (POPULAR E ILLUSTRADA)
                                   III

                               A Revoluo
                                Portugueza

                             O 31 DE JANEIRO

                              *(Porto 1891)*
                                   POR
                              JORGE D'ABREU

      [Ilustrao da capa: bandeira do Centro Democratico Federal]



                                  1912
                       EDIO DA CASA ALFREDO DAVID
                               ENCADERNADOR
                     _30-32, Rua Serpa Pinto, 34-36_
                                 LISBOA




BIBLIOTHECA HISTORICA
(POPULAR E ILLUSTRADA)
III

A Revoluo Portugueza

O 31 DE JANEIRO




    VOLUMES PUBLICADOS

    I--HISTORIA DA REVOLUO FRANCEZA, por _F. Mignet_, 1. volume.

    II--HISTORIA DA REVOLUO FRANCEZA, 2. volume.

    III--A REVOLUO PORTUGUEZA--O 31 DE JANEIRO (PORTO 1891), por _Jorge
    d'Abreu_.

    NO PRLO

    IV--A REVOLUO PORTUGUEZA--O 5 DE OUTUBRO
    (LISBOA 1910), por _Jorge d'Abreu_.

    V--A REVOLUO E A REPUBLICA HESPANHOLA (1868 A 1874), por _Victor
    Ribeiro_.




BIBLIOTHECA HISTORICA
(POPULAR E ILLUSTRADA)

A Revoluo
Portugueza

O 31 DE JANEIRO

(Porto 1891)

POR

JORGE D'ABREU

Logotipo do editor

1912

EDIO DA CASA ALFREDO DAVID
ENCADERNADOR
_30-32, Rua Serpa Pinto, 34-36_
LISBOA




Composto e Impresso na Imprensa Libanio da Silva==Travessa do Falla-S,
24--Lisboa




PALAVRAS DE UM SOLDADO

*ao presidente do tribunal de guerra, no acto do julgamento:*


... _Eu, meu senhor, no sei o que  a Republica, mas no pde deixar de
ser uma cousa santa. Nunca na egreja sent um calafrio assim. Perd a
cabea ento, como os outros todos. Todos a perdemos. Atirmos ento as
barretinas ao ar. Gritmos ento todos:--Viva! viva, viva a Republica!_...

        Do Manifesto dos Emigrados da Revoluo
        do Porto de 31 de Janeiro de 1891.




O 31 DE JANEIRO

(Porto 1891)




CAPITULO I

O movimento de 31 de janeiro filia-se no "ultimatum" de 1890


A revolta militar de 31 de janeiro de 1891 caracterisou-se pela
precipitao com que foi decidida e a pouca ou nenhuma reserva com que
foi organisada. Durante mezes uma parte do paiz teve conhecimento quasi
minucioso de que se conspirava contra a monarchia e que na conspirao
entravam elementos de importancia recrutados na officialidade dos
regimentos que a guarneciam. No emtanto a exploso patriotica, que na
madrugada de 31 fez triumphar por algumas horas a bandeira verde e
vermelha, surprehendeu muita gente porque apenas uma insignificante
minoria no julgava extemporaneo o _rebentar da bomba_.

A causa unica do movimento podemol-a filiar no _ultimatum_ de 1890. Por
espao d'um anno, a agitao popular, que essa chicotada diplomatica
provocara nos primeiros instantes--agitao que, no dizer de Joo
Chagas, trouxera pela primeira vez para a rua, a manifestarem-se,
homens graves e de chapeu alto--por espao d'um anno, repetimos,
essa agitao minou profundamente diversas camadas sociaes e fez
augmentar por uma forma extraordinaria o descontentamento da nao, a
sua hostilidade contra o regimen monarchico e o soberano. Viu-se
claramente, n'esse momento grave da vida portugueza, que, ao
substituir-se o ministerio abatido pelo _ultimatum_, o novo governo
procurara antes de mais nada deitar uma escra ao throno, desprezando em
absoluto as reclamaes do povo, a sua grita sedenta de justia.
Calcra-se a patria para sustentar no poder o monarcha brigantino. A
dignidade da nao, o seu anceio fervoroso de que o _ultimatum_
obrigasse a politica governativa a mudar de processos, a trabalhar com
seriedade, uma e outro foram espesinhados pelo empenho dos aulicos da
monarchia em precavel-a da marcha progressiva das ideias democraticas.
D'ahi o exodo para o partido republicano de muitos dos homens que at
ento tinham tentado servir os partidos monarchicos com boa f e dedicao.

Mais adeante desenvolveremos, na medida do possivel, esse periodo da
historia contemporanea, cujos incidentes, voltamos a affirmal-o, fizeram
germinar o pensamento da revolta e contribuiram directamente para que
ella rebentasse no Porto no dia 31 de janeiro de 1891. Por agora
limitaremos o nosso papel de modesto e desataviado chronista da
Revoluo Portugueza a descrever o que occorreu em Lisboa mal se soube
da momentanea victoria das armas republicanas.  interessante recordar
as horas de mortifera espectativa que a capital soffreu, emquanto a
varias leguas de distancia um troo de valentes se fazia massacrar pela
chamada _guarda pretoriana_.


Nas vesperas da revolta, os jornaes de Lisboa ainda reflectiam quasi
toda a indignao e a celeuma causadas pelo _ultimatum_. A poucas horas
de ser iniciado o movimento, os _Pontos nos ii_ inseriam uma pagina
faiscante de Bordallo Pinheiro, intitulada _A maldita questo ingleza_.
As perseguies a differentes officiaes do exercito succediam-se com uma
pertinacia feroz. No dia 30 de janeiro, um jornal, alludindo  que fra
movida ao alferes de caadores 9 (aquartelado no Porto) Simes Trindade,
salientava o facto curioso d'esse official ter sido, em 27 d'aquelle
mez, mandado apresentar _immediatamente_ no quartel general da
respectiva diviso; depois, d'ahi, mandado seguir, _immediatamente_,
para o ministerio da guerra; d'aqui apresentado _immediatamente_ no
quartel general da 1. diviso, onde tinham acabado por lhe dar uma guia
afim de se apresentar, _immediatamente_ tambem, no regimento de
infantaria 24, aquartelado em Pinhel. Os jornaes do Porto, confirmando
esse furor persecutorio, accrescentavam que a violencia das auctoridades
militares incidia especialmente sobre os officiaes inferiores.

Surgiu a manh de 31 e com ella principiaram a circular em Lisboa os
boatos alarmantes. Um d'elles, talvez o primeiro e o que mais
consistencia adquiriu desde logo no espirito do publico, dizia:


_No Porto, s seis horas, os regimentos de caadores 9 e infantaria 10 e
parte de infantaria 18, sahindo dos quarteis, dirigiram-se  praa da
Regenerao, soltando vivas  Republica. O movimento tende a
alastrar-se. A guarda municipal quiz oppr-se-lhe; mas, depois d'uma
descarga dada por caadores 9, e da qual morreram 12 soldados d'aquella
guarda, os outros adheriram aos revoltosos._


A seguir, correu que a primeira auctoridade militar do Porto pedira de
madrugada reforo  _guarda pretoriana_, mas que ella se recusara
peremptoriamente a combater as tropas sublevadas. Dizia-se tambem que
toda a guarnio se solidarisara com os insurrectos.

Estas e outras noticias, como  de comprehender, lanaram na capital uma
agitao indescriptivel. Os primeiros momentos foram, sem duvida, de
confuso e de panico. s 7 da manh, o ministerio j estava reunido e
procurava, no sem difficuldade, tomar contacto com a situao. s 8,
eram chamados ao pao da Ajuda o presidente do conselho e o general
Moreira, commandante das guardas municipaes. D'um extremo ao outro da
cidade, desfilavam vertiginosamente as ordenanas, os correios, e a
populao, despertada pelo annuncio retumbante d'esse golpe de audacia
republicana, espreitava curiosa a sequencia e o desfecho dos
acontecimentos.

Pouco depois das 8 horas, correu em Lisboa que um telegramma recebido no
jornal o _Seculo_ affirmava estarem occupados pelos insurrectos todos os
edificios publicos e que a populao da capital do norte adherira em
massa  obra iniciada pelo exercito. Era o triumpho completo da
Revoluo, o alvorecer radioso d'um novo regimen politico, interrompendo
na nossa historia o desenrolar corrosivo da tyrannia monarchica. O
governo, reunido, tentava com medidas successivas suffocar o incendio
que lavrava no Porto. Os regimentos de infantaria recebiam ordem de
partir para ali. O sr. Antonio Ennes, ministro da marinha, fazia-se
conduzir ao Arsenal e ahi, em conferencia com o commandante geral da
armada, exigia que os navios de guerra disponiveis seguissem sem demora
a investir a cidade revoltada. O ministerio fremia de impaciencia e de
terror. A familia real inquiria constantemente das diversas phases da
insurreio. Os elementos avanados principiavam a respirar a atmosphera
de liberdade trazida do Porto na lufada dos telegrammas optimistas.
A alegria desenhava-se em quasi todos os rostos.

Longas horas se passaram assim--horas de esperana, horas de espectativa
anciosa--durante as quaes os boatos nunca cessaram de fervilhar. Contava
no dia seguinte um jornalista que a confuso de momento era tal que os
mesmos alviareiros que espalhavam a noticia da victoria decisiva dos
sublevados no tardavam d'ahi a instantes a divulgar o contrario. Para o
pao de Belem havia desde manh cedo enorme affluencia de personagens
officiaes. Desde os ministros, affirmou mais tarde um _reporter_, at
os simples fidalgos cavalleiros, dos quaes vimos dois, fardados, irem em
trem pr-se s ordens de D. Carlos, todos  porfia accorreram  regia
morada. A guarda do pao era n'esse dia de infantaria 2. Mas, apesar do
rebolio que ia dentro do edificio, os soldados mostravam-se
despreoccupados e no local--c fra--pouco se sabia da revoluo. Os
politicos, frequentadores da Arcada, andavam desvairados. Uns
asseguravam que a populao portuense, dirigida por officiaes de
caadores 9, arvorara a bandeira republicana no palacio da Bolsa; outros
que infantaria 8, de Braga, e o 14, de Vizeu, tinham adherido ao
movimento; outros ainda que a guarda municipal, fraternisando com os
revoltosos, se apressara a soltar Joo Chagas, que ento expiava na
cadeia da Relao a condemnao imposta por um delicto de imprensa. Os
que pareciam melhor informados accrescentavam a tudo isto que na
madrugada de 30 de janeiro varios telegrammas cifrados haviam annunciado
aos dirigentes da politica democratica o _estalar da bomba_. De Lisboa,
por exemplo, tinham perguntado para o Porto: _Como vae o doente?_ Do
Porto tinham respondido: _Deve morrer manh_...


Mas, ao comeo da tarde, o optimismo cedeu o passo ao desalento. As
agencias officiosas principiaram a falar em suffocao da revolta e em
rendio de revoltados. Mudra a face das cousas. O pao animava-se, o
governo cobrava sangue frio. O commandante da diviso militar com sde
na capital do norte--o general Scarnichia--que na occasio se encontrava
em Lisboa, tratando junto do ministerio da guerra das transferencias dos
seus subordinados suspeitos de republicanismo, seguia s 2 e 30 para o
Porto n'um comboio especial. Uma parte das tropas que, tendo recebido
ordem de marchar em soccorro da monarchia, j se agglomeravam nas
estaes de caminho de ferro, regressava a quarteis. Suspendiam-se por
um mez as garantias em todo o districto do Porto e auctorisava-se a
suspenso dos _jornaes perigosos_ ali e no resto do paiz. Evidentemente,
a sublevao no lograra exito e o sangue derramado na manh de 31
servira apenas a registar uma infructifera tentativa de reaco contra a
dynastia oppressora. A democracia fra vencida pouco depois de ter
vencido. A atmosphera voltava a carregar-se de violencia, de jugo
tyrannico, e no horisonte j se descortinava que as represalias iam ser
ferozes. Uma gazeta das mais populares da epoca, reconhecendo que, uma
vez dominada a _sargentada_, o governo se apressaria sem duvida a
esmagar a mais insignificante velleidade de resistencia, escrevia vinte
e quatro horas apoz a derrota:


 merc do arbitrio  difficil poder-se viver; aguardemos melhores dias
de liberdade e... calemo-nos.


Extincto o claro redemptor, a imprensa--salvo raras excepes--ou
vociferava tonitruante, enraivecida, contra os revoltosos, pedindo para
os vencidos o maximo do castigo--at a pena de morte--ou se curvava
resignada sob a ameaa do triumphador, disposta a supportar em silencio
a desforra cruel que os vencedores procurariam abertamente tirar dos
derrotados. O nucleo dirigente do partido republicano escrevia a poucas
semanas dos acontecimentos:


O directorio cumpriu o seu dever, synthetisando as aspiraes d'um
partido; em vez de appellar para aventuras anarchicas, recommendou 
imprensa republicana, aos conferentes e propagandistas a demonstrao
calma e justificada d'esses principios. (Alludia aos que tinham sido
consignados no seu manifesto de 11 de janeiro de 1891).

Acceitando o mandato de aco, conferido pelo ultimo congresso, o
directorio entendeu que consistia essa aco em repellir a mesquinha
subserviencia que envolvia o partido em accordos com os grupos
monarchicos e em conter as individualidades sem mandato, que,
trabalhando sem disciplina, compromettiam o partido, como em seguida os
acontecimentos o provaram.

As revolues so factos inherentes ao organismo social; no  um grupo
de homens que as fazem, como ou quando querem; mas compete a esse grupo
dar-lhes pensamento e direco quando sobrevenham.


Resumindo: o directorio entendia de boa politica no se responsabilisar
pela tentativa mallograda e condemnava-a pelo que ella se lhe affigurava
de desordenada e inopportuna. N'outra passagem do documento a que nos
referimos affirmava que a nao inteira julgara immediatamente o
movimento de 31 de janeiro pela sua _inopportunidade_. E no emtanto, a
poucos dias da revolta, o mesmo directorio tinha espalhado profusamente
esta opinio nitida e vigorosa:


No momento que atravessamos no ha logar para demonstraes theoricas
nem para argumentar com os pedantocratas do constitucionalismo. Elles j
deram as suas provas. Para a crise extrema um supremo remedio.


Supremo remedio!... Que outro poderia ser, afinal, seno o iniciado na
manh de 31?




CAPITULO II

O primeiro rebate do conflicto diplomatico anglo-portuguez


Precisemos os factos:

O _ultimatum_ de 11 de janeiro de 1890 teve como pretexto a expedio do
major Serpa Pinto na Africa Oriental. Antes d'ella j se falava
vagamente na possibilidade d'um conflicto anglo-portuguez e porque em
1889, nos fins do reinado de D. Luiz, tudo o que dependia da influencia
ou da aco ministerial se inclinava a hostilisar--ainda que mais ou
menos disfaradamente--a Inglaterra e as cousas inglezas.

Parece assente que aquelle soberano, levado talvez por consideraes de
ordem familiar, projectava lanar-se e lanar ostensivamente o paiz nos
braos do imperio allemo, quebrando todos os laos intimos que, desde
seculos, uniam a nacionalidade portugueza  Gr-Bretanha. D. Luiz e os
seus ministros queriam mais: queriam amarrar  Allemanha o destino do
nosso commercio vinicola e das nossas colonias--o primeiro ligado 
Frana e as segundas relacionadas quasi todas com o dominio inglez.
Tentou-se mesmo fazer derivar da Frana para a Allemanha a exportao
dos vinhos nacionaes, com a organisao em Berlim d'um certamen,
que, no fim de contas, nada deu de productivo.

[Ilustrao: Quartel de infantaria 18, e campo da Regenerao, onde se
reuniram as tropas sublevadas na madrugada de 31 de janeiro]

Mas o primeiro rebate d'essa hostilidade appareceu de frma inilludivel
em julho de 1889, quando o governo ento no poder rescindiu o contracto
de 14 de dezembro de 1883 (o contracto para a construco do caminho de
ferro de Loureno Marques). No diremos em absoluto que essa resciso
fosse apenas inspirada no desejo de ferir homens e interesses da
Gr-Bretanha. A verdade, porm,  que muita gente quiz vr logo no facto
o ensejo propicio para o trespasse da mencionada concesso a um grupo de
capitalistas allemes e essa suspeita surgiu clara e precisa na imprensa
a mais ponderada e suave de termos. A Inglaterra, pela bocca dos seus
orgos jornalisticos, sentiu-se fundamente attingida com a medida tomada
pelo governo portuguez e no tardou que dsse largas a uma celeuma at
certo ponto exagerada, mas comprehensivel em face das nossas manobras
secretas com a chancellaria germanica.

Os periodicos londrinos aconselharam acto continuo o governo inglez a
enviar a Loureno Marques uma esquadra, com o fim, diziam ironicamente,
de proteger os seus subditos ali ameaados pela valentia de Portugal,
e embora um ou outro d'esses mesmos periodicos indicasse vagamente a
arbitragem como um meio decente de liquidar o assumpto, o conjuncto
d'elles no desafinava na sua exigencia de que deviamos soffrer uma
punio significativa. Por alguns dias receiou-se, effectivamente, que o
governo inglez seguisse o conselho da imprensa exaltada. Mas, como ainda
no soara a hora para a diplomacia britannica nos mostrar que andavamos
por caminho errado, pretendendo, nos pactos de alliana internacional,
substituil-a pela Allemanha, as cousas foram atamancadas sem grande
dispendio de dignidade e as nuvens negras, que j carregavam e
entenebreciam o horisonte, perderam um pouco do seu aspecto ameaador.

O partido republicano, tendo seguido com interesse patriotico a marcha
dos incidentes, no duvidou estigmatisar publicamente o projecto
desvairado da monarchia ao procurar enredar a nacionalidade na teia
emmaranhada d'um conflicto diplomatico. Os jornaes da epoca falam
pormenorisadamente da campanha que esse partido ento fez no s contra
a projectada alliana luso-germanica mas, principalmente, contra a
entrega do caminho de ferro de Loureno Marques a um grupo allemo.

Quando surdiu o _ultimatum_, ninguem hesitou em reconhecer que, se a
patada do colosso de alm Mancha era brutal, mesmo brutalissima, 
monarchia e aos seus governos cabiam, entretanto, uma boa parte das
culpas. Opinio identica expressou-a mais tarde Joo Chagas ao tratar do
assumpto, de collaborao com o ex-tenente Coelho:


Estava-se em principios de janeiro sob uma situao presidida pelo
sr. Jos Luciano de Castro e na qual detinha a pasta dos estrangeiros o
sr. Henrique de Barros Gomes, quando os jornaes comearam referindo-se
com insistencia  possibilidade d'um conflicto com a Inglaterra, a
proposito das pretenes d'esta nao sobre os territorios do Nyassa,
onde algumas expedies portuguezas de caracter scientifico operavam ao
tempo. O facto pareceu novo e surprehendeu, se bem que tivesse origem
antiga no plano de absorpo da Africa Austral e dos territorios
sertanejos de Moambique, principiado a executar-se em 1888, pelo
tratado feito entre a Inglaterra e o potentado Lobengula no qual era
comprehendido o territorio dos Mashonas, reivindicado por Portugal; e
levado a cabo pelo tratado de 18 de maio de 1891, extorquido pelo
governo britannico  invalidez portugueza.

O litigio, que veiu a liquidar-se desastrosamente pelo _ultimatum_ de
11 de junho de 1890, pode dizer-se, comeou ento. Durante dois
annos--foroso  reconhecer para esclarecimento da historia e apuramento
de responsabilidades--a Inglaterra oppz s pretenes de Portugal o
_veto_ mais formal. J em 1887, o marquez de Salisbury protestava contra
os tratados, assignados e publicados, de Portugal com a Allemanha e a
Frana, declarando no nos reconhecer o direito, que aquellas naes nos
attribuiam, de exercermos jurisdico em territorios d'Africa, onde no
tinhamos occupao effectiva, e invocava, para justificar o seu
protesto, as decises da conferencia de Berlim.

Mais tarde, em 1888, sir James Fergusson pronunciava na Camara dos
Communs um discurso que fez impresso em Portugal, mas nem por isso
deixou de constituir uma negao severa, que o governo britannico
officialmente apoiou, dos direitos de soberania, invocados pelo governo
portuguez, sobre o serto da Africa Oriental. Quando, apoz o tratado
feito pela Inglaterra com o regulo Lobengulo, o governo portuguez quiz
definir, por uma delimitao, a posse dos territorios da Africa Oriental
(outubro de 1888) o governo britannico, presentindo que no chegaria a
uma rapida conciliao, fez-lhe sentir, pelo ministro em Lisboa, sir
George Petre, que o estado das relaes entre os dois governos, no que
se referia s questes africanas, estava longe de ser satisfatorio, e
que uma prolongao d'esse estado podia conduzir a uma seria quebra de
amizade entre os dois paizes.


Em janeiro de 1889, o marquez de Salisbury queixava-se ao representante
de Portugal em Londres de que o governo lusitano tivesse feito partir
para a Africa e com _destino mysterioso_ (aos territorios do Nyassa) a
expedio do capito tenente Antonio Maria Cardoso e avisava o diplomata
portuguez de que as boas relaes dos dois paizes no podiam por muito
tempo resistir ao perigo a que estavam sendo expostas. Essa expedio,
 data da queixa do marquez de Salisbury, acampava no Monte Melange e
luctava no s com as febres mas tambem com a falta de carregadores,
parte dos quaes havia fugido. E facto curioso: emquanto o ministro
inglez mostrava ao representante de Portugal apprehenses sobre o
objectivo principal da expedio, que lhe parecia ser o territorio
occupado pelas misses e estaes commerciaes inglezas, os indigenas da
regio atravessada por Antonio Maria Cardoso desfaziam-se em queixas
contra os subditos britannicos, considerando-os d'uma tyrannia excepcional.

Em resumo: os inglezes, antes mesmo de occorrer o facto que mais tarde
invocaram como a causa directa do rompimento de relaes com o nosso
paiz, j preparavam o golpe, aproveitando todos os ensejos de insinuar
na diplomacia portugueza a ideia de que cedo ou tarde rebentaria o
conflicto e de que este seria motivado essencialmente pela nossa
politica e a nossa aco na Africa Oriental. O _ultimatum_ de 1890
surprehendeu at certo ponto a populao portugueza. O mesmo no
succedeu, por certo, aos governantes, que estavam fartos de saber que a
Gr-Bretanha s espreitava o momento favoravel de nos enviar essa ameaa
humilhadora.

[Ilustrao: Elias Garcia]

Ha quem attribua ao ministro do gabinete progressista que mais de perto
lidou com a diplomacia ingleza intenes criminosas. Cremos, porm, que
isso  exagerado. O ministro em questo, o sr. Barros Gomes, deve antes
talvez ser accusado de incompetencia e inhabilidade. As cousas
ter-se-hiam naturalmente passado de modo diverso se, quando appareceu na
tela da discusso diplomatica a contestao da Inglaterra aos direitos
que Portugal affirmava ter em varios territorios da Africa Oriental, o
ministro, longe de empregar processos dilatorios, houvesse sem perda de
tempo sujeitado o litigio ao exame e deciso d'uma conferencia das
potencias signatarias do Acto Geral de Berlim. Por outro lado, como a
Inglaterra fundamentava a sua contestao em que esses territorios nunca
tinham sido occupados d'um modo effectivo por Portugal nem soffrido a
menor influencia civilisadora, ao governo da epoca incumbia
logicamente desmentir com actos, e no com palavras, os argumentos
utilisados pela poderosa Albion.

Mas o ministro culpado entendeu dever manter at quasi s vesperas do
_ultimatum_ uma attitude de indeciso e de pusillanimidade e assim,
quando se iniciou a occupao definitiva dos territorios contestados,
lanando-se atravez d'Africa algumas expedies, todas ellas chocaram
innumeros obstaculos que precipitaram logicamente o desfecho da questo.
O ministro n'essa altura ainda quiz emendar a mo; era tarde, porm, e
os erros diplomaticos por elle commettidos no permittiam j que se
recorresse  arbitragem internacional. Portugal tinha que aguentar a p
firme e sem esquiva tudo o que a Gr-Bretanha sobre elle fizesse desabar.




CAPITULO III

Serpa Pinto,  frente de 6000 homens, derrota os makololos revoltados


A expedio Serpa Pinto, j o dissemos, foi o rastilho que faz detonar a
ameaa contida no _ultimatum_. Contemos como o caso se deu:

A expedio tinha por mobil o affirmar a soberania de Portugal nos
territorios do Nyassa, que o nosso paiz reivindicava. Commandava-a
aquelle major do exercito e compunham-na varios funccionarios e
technicos. O engenheiro chefe da misso de estudo era o sr. Pereira
Ferraz. Em fins de 1899, Serpa Pinto, sahindo de Messanje em direco a
Quelimane, entregou-lhe o commando da expedio, emquanto outro
funccionario, o sr. Themudo, seguia para Mupasso com parte da gente e as
embarcaes transportando bagagens e mantimentos. O sr. Pereira Ferraz
acompanhado d'uns duzentos homens dirigiu-se para ali a encontrar o
seu collega de misso--disposto a acampar defronte de Mupasso para
seguir  risca as instruces do commandante em chefe. Tratava-se, no 
mau repetir, de pacificar a regio, que alguns pretos insubordinados
animados por uma influencia estranha, tentavam revoltar contra ns.

Os effeitos d'essa attitude hostil no se fizeram esperar. Logo que a
expedio chegou em frente da aldeia dos makololos, viu-se fra do
recinto da povoao varios homens armados e dentro appareceram por cima
da palissada muitas cabeas, ao todo talvez uns duzentos negros promptos
a entrar em combate. O sr. Pereira Ferraz fez signaes para parlamentar
com o que parecia ser o chefe dos pretos, o qual lhe correspondeu
fazendo signal para que se approximasse. O sr. Ferraz queria dizer-lhe
que no ia disposto  guerra, portanto que deixassem passar a sua gente
e cargas e que lhe daria um presente.


No me deixou, porm--informa o mesmo engenheiro--o negro dizer nada
d'isso, pois logo que nos viu ao alcance das espingardas de pederneira
com que elle e os outros estavam armados, disparou sobre ns, fugindo
para dentro do recinto, pelo que, chamando alguns dos nossos, que eu
posso affirmar no passavam de 40, fizemos fogo sobre a povoao, que
elles abandonaram com perda de 6 homens e umas 12 barricas de polvora,
que explodiram no incendio que os landins lanaram s palhotas da aldeia.


Por aqui se v que os pretos tinham o firme proposito de aggredir a
expedio. Esta pouco depois era avisada de que os regulos Massa,
Catanga, Molidima, Caberenguene e os filhos do Chipitura haviam reunido
e armado a sua gente e se tinham juntado a Melaure para baterem os
nossos. Estas informaes aterradoras, note-se, foram ministradas 
expedio pelos inglezes Harry e George Petit, accrescentando-lhes que o
Melaure tinha comsigo muita gente, muita polvora e 6:000 espingardas. Um
e outro d'esses agentes britannicos correspondiam-se com aquelle regulo
e, tendo o sr. Pereira Ferraz convidado ambos, para maior segurana das
suas fazendas e vidas, a retirarem-se para a povoao portugueza de
Natumbe, a dois dias de viagem ao sul de Mupasso, pondo s suas ordens,
para isso, as necessarias embarcaes, responderam-lhe que preferiam
antes ir _to up_, sahindo logo no dia immediato em direco ao norte,
tentando ainda assim e infructiferamente lanar o panico entre os
auxiliares portuguezes.

Os makololos, refeitos do primeiro embate, saltaram sobre a povoao
portugueza de Samoane e, em territorio nosso, destruiram o caminho
collimado e atravessaram n'elle espinheiros, dizendo que at ali tudo
lhes pertencia e que matariam quem se atrevesse a collimar um palmo de
terra d'ali para cima. Os indigenas de Samoane fugiram aterrados a
acolher-se  proteco do sr. Pereira Ferraz e este engenheiro julgou
mais prudente collocar-se em guarda e esperar reforos que pediu ao
governador de Quelimane.

[Ilustrao: Encontro dos revoltosos com as tropas fieis ao Governo]

Foi depois d'sto que o major Serpa Pinto, accudindo com mais gente 
expedio e elevando o seu contigente a uns 6.000 homens armados,
marchou sobre os negros revoltados e travou com elles em Mupasso
sangrento combate. Os makololos deixaram mortos no campo uns 72 homens e
muitos prisioneiros importantes. A expedio poz-se novamente em marcha
apoz a victoria, que, diga-se desde j, teve no estrangeiro uma
extraordinaria resonancia. Na Africa Oriental e principalmente na regio
sublevada o effeito no foi menor. O sulto Macanjira estabelecido nas
margens do Nyassa prestou vassalagem a Portugal. O chefe M'ponda
apressou-se tambem a imital-o; o regulo Malipuiri e outro visinho dos
makololos foram a Quelimane receber a bandeira portugueza. Mas,
emquanto isto succedia, o _Times_, dando conta do combate, fazia
affirmaes d'este theor: que o major Serpa Pinto enganara o consul
inglez na regio onde elle se travara, affirmando intenes pacificas,
mas que, decorrido algum tempo, levantara conflicto com os makololos,
fazendo n'elles grande morticinio e tomando-lhes duas bandeiras
britannicas recentemente dadas por aquelle consul. Os makololos,
julgando-se abandonados pelos inglezes, tinham ento reconhecido a
dominao portugueza. O major Serpa Pinto, accrescentava o _Times_,
annunciara a inteno de conquistar o Chire at o lago Nyassa e
convidara os residentes inglezes a collocarem-se debaixo da proteco de
Portugal, tornando-os responsaveis pelas consequencias no caso de
recusa. A imprensa franceza, por seu lado, occupando-se da victoria
alcanada por Serpa Pinto, falava pouco mais ou menos n'estes termos: a
aco do major portuguez poz termo  comedia que a Inglaterra andava
representando em Moambique. Felicitamol-o por isso. Portugal deu um
excellente exemplo. Esperamos que outras naes o sabero seguir na
occasio opportuna para fazerem respeitar as espheras de influencia de
cada um, e no permittirem as continuas invases da Inglaterra no
terreno alheio.

A informao relativa ao combate transmittida pelo consul britannico em
Zanzibar ao marquez de Salisbury, que se encontrava ao tempo em
Hatfield, foi logo noticiada na imprensa londrina com o commentario de
que lord Salisbury certamente no procederia com rapidez emquanto no
recebesse pormenores do facto; que pediria primeiro explicaes a
Lisboa, e, se o governo portuguez lh'as no desse, chamaria a Londres o
diplomata sr. Petre. D'ahi a dias surgiu, com effeito, a primeira
reclamao da Inglaterra sobre a expedio Serpa Pinto. O marquez de
Salisbury dirigiu ao governo portuguez uma nota que foi entregue ao sr.
Barros Gomes pelo sr. Glynn Petre, ministro britannico em Lisboa. A
nota, diziam n'essa occasio os telegrammas de Londres, tinha a forma de
uma representao sobre a aco de Portugal na Africa do Sul e Oriental
e pedia que o nosso governo repudiasse os actos do agente portuguez no
districto da Zambezia. O marquez de Salisbury, affirmava-se, no usava
de ameaas; a nota continha uma exposio de varios factos que
asseverava terem occorrido e pedia a restaurao do anterior _statu quo_
na regio em litigio; o governo inglez no podia permittir que fosse
arriada a bandeira ingleza depois de arvorada por um representante
responsavel. Outras informaes diziam que a nota vinha redigida em
termos correctos, embora o gabinete de Londres registasse,
impressionado, as noticias recebidas pelo bispo Smythies, crca de
hostilidades a estabelecimentos inglezes por parte do major Serpa Pinto,
acontecimentos que, afinal, no constavam no nosso paiz. Serpa Pinto, na
verdade, objectava-se em Portugal, limitara-se a desembaraar o caminho
 expedio Ferraz perturbada pelos makololos e mais nada.

Isto passava-se em 18 de dezembro de 1889. A nota do marquez de
Salisbury referindo-se exclusivamente ao supposto ataque da expedio
portugueza contra os makololos, e no fazendo meno alguma dos outros
assumptos pendentes entre a Inglaterra e Portugal sobre as suas
respectivas espheras de influencia na Africa do Sul e Oriental e pedindo
ao sr. Barros Gomes uma resposta prompta, o mais rapida possivel, e, no
caso do ataque se confirmar, a chamada a Lisboa do major Serpa Pinto; o
ministro portuguez dos negocios estrangeiros replicou que as informaes
at  data recebidas no confirmavam as interpretaes dadas pelo
gabinete inglez aos actos do major, que repellira smente o ataque
d'uma tribu hostil na bagagem da qual encontrara tres bandeiras
inglezas. O sr. Barros Gomes terminava por pedir uma demora afim de
poder communicar com o major Serpa Pinto. Entretanto, para estar
preparado para qualquer contingencia, o governo britannico decidia
collocar as suas foras navaes proximo de Portugal. Persuadido de que a
reunio de barcos de guerra inglezes no Tejo augmentaria
indefectivelmente a irritao dos portuguezes e entorpeceria a aco do
governo lusitano nas suas negociaes para o arranjo da questo relativa
ao paiz do Nyassa, os couraados britannicos receberam ordem de
reunir-se em Gibraltar e de ahi se manterem em expectativa dos
acontecimentos futuros. Os navios destinados a essa empreza foram
escolhidos entre os que formavam a esquadra do Mediterraneo. Os
couraados _Bendvor_ e _Colossus_, a 27 de dezembro, levantavam ferro de
Malta com destino a Gibraltar. Em Malta tambem se encontravam as
fragatas couraadas _Agammenon_ e _Dreadnought_; em Edimburgo egualmente
se preparavam outros navios.

Em Portugal, no emtanto, percebiam-se os primeiros symptomas d'uma
reaco forte contra o regimen. A imprensa democratica clamava
altisonante que se a Revoluo ainda se no tinha feito no era porque
o terreno fosse safaro, ou porque as vozes republicanas no
encontrassem echo, mas apenas por motivos de ordem secundaria, que no
cabiam ao momento discutir. Comtudo estava provado que a realeza
perdera o prestigio, que a dynastia de Bragana alienara todas as
sympathias, que as instituies tinham cahido no descredito e que, por
conseguinte, o povo desejava vida nova. E perguntava-se: O que devemos
 dynastia? Que principio superior anda ligado  existencia d'essa
anachronica forma de governo? A Patria?... Oh! ns bem sabemos que,
quando Portugal se quiz emancipar do jugo da monarchia hespanhola, quem
mais conspirou contra a Patria foi o Bragana idiota, por quem os
ingenuos combatentes de 1640 andavam expondo a vida; sabemos como esta
funesta dynastia tem, pouco a pouco, em presentes de noivado e como
premio de servios contra a nao, entregado as nossas colonias aos
inglezes; sabemos como, na hora do perigo para a nossa independencia,
para a nossa honra nacional, o sr. D. Joo VI fugiu covardemente para o
Brazil; sabemos como o pae do actual reinante (D. Luiz) escreveu umas
cartas criminosas a Napoleo III, no intuito de se formar em seu
proveito e da sua raa a unio iberica. A Liberdade?... No a suffocam,
porque no podem. O Bragana, que aqui implantou o systema
constitucional, fra um despota no Brazil. Escorraado de l, como no
podia apresentar-se em frente da monarchia tradiccional representada por
seu irmo, em nome de outro principio deu-nos a constituio que, mais
tarde, seu filho rasgou  vontade, abafando os clamores angustiosos da
nao, com a interveno das armas estrangeiras...




CAPITULO IV

O governo progressista cede ante as exigencias da Gr-Bretanha


Os primeiros dias de janeiro de 1890 ainda reflectiram as benignas
razes dadas pelo sr. Barros Gomes ao governo inglez. No se podia
exauctorar Pereira Ferraz e Serpa Pinto--dizia o ministro e diziam
alguns jornaes de Lisboa--prestando apenas credito s informaes dos
funccionarios britannicos. Era necessario ouvir os dois
expedicionarios e ouvir-lhes as allegaes que, decerto, produziriam
sobre a sua attitude em to melindroso assumpto. Uma parte da imprensa
acreditava at ingenuamente que a Inglaterra no tardaria a modificar o
tom aggressivo das suas notas diplomaticas, substituindo-o por outro de
feio conciliadora: em primeiro logar, porque assim o quer o respeito
devido por cada nao a todas as outras; em segundo logar, porque, se
procurasse entregar  violencia a deciso d'um pleito em que devem ser
ouvidos e escutados os argumentos de parte a parte e em que a justia ou
a equidade deve proferir sentena em unica instancia, no s concitaria
a nossa resistencia mas, porventura, tambem provocaria a indignao do
mundo. E essa parte da imprensa ia mesmo mais longe na sua ingenuidade:
A Gr-Bretanha sabe que, embora sejam enormes as suas foras comparadas
com as nossas, poderia arriscar-se a revezes se desrasoadamente
accendesse a guerra na Africa...

Ao abrir-se o parlamento, o rei D. Carlos, que, pela primeira vez, se
apresentava a desempenhar o seu papel constitucional de chave de todos
os poderes, lendo o classico discurso da croa, sublinhou estas
passagens, que a assembleia dos representantes da nao escutou com rara
e justificada avidez:


Recentemente as patrioticas aspiraes da nao ingleza e do governo de
sua magestade britannica, a dilatarem as suas vastas possesses na
Africa, encontraram-se em mais d'um ponto d'esse continente, com o firme
proposito de Portugal de conservar sob o seu dominio e de utilisar para
a civilisao os territorios africanos que primeiro foram descobertos e
trilhados pelos portuguezes, por elles foram revelados e abertos s
misses do christianismo e s operaes do commercio e nos quaes as
auctoridades portuguezas teem praticado os actos de jurisdico e
influencia consentaneos ao estado social dos seus habitantes, actos que
sempre bastaram para significar dominio incontestavel.

Este encontro poz em relevo desaccordos de opinio entre o meu governo
e o de sua magestade britannica crca das condies a que devem
satisfazer e dos titulos que teem de adduzir as soberanias europeias em
Africa, para serem reconhecidas pelas potencias, e d'esses desaccordos
resultou uma correspondencia diplomatica que ainda os no poude sanar e
que tambem houve de occupar-se de outras divergencias, posteriormente
suscitadas, sobre o modo de apreciar um conflicto, occorrido nas margens
do Chire, entre uma tribu indigena e uma expedio scientifica
portugueza. O meu governo, inspirando-se no sentimento nacional e
conformando-se com o voto unanime das duas casas do parlamento, tem
diligenciado convencer o de sua magestade britannica do direito que
assiste a Portugal de reger os territorios ao sul e norte do Zambeze
sobre que versa a mencionada correspondencia, limitando-se, durante o
incidente e em todos os seus termos, a manter dominios que sempre
reivindicou, e reiterar declaraes que sempre fez. E n'esta attitude
persistir com o apoio, que decerto lhe no ha de faltar, dos
representantes da nao, esperando conseguir uma equitativa conciliao
de todos os legitimos interesses, que promptamente restabelea, como eu
desejo, o perfeito accordo entre os governos de duas naes ligadas por
vinculos de amizade e tradices seculares.


Pura illuso! No dia 5 de janeiro, o ministro inglez em Lisboa,
rebatendo a asseverao do sr. Barros Gomes de que Serpa Pinto, travando
combate com os makololos, se limitara a repellir o ataque d'uma
tribu hostil escrevia-lhe notando que essa asseverao no parecia ao
seu governo de muito peso, pois que a aco dos makololos, quer tivessem
ou no tomado a offensiva, fra unicamente determinada pelo desejo de
proteger o seu territorio contra a invaso dos portuguezes. A questo
attingia, evidentemente, a sua phase aguda. O _Times_, referindo-se-lhe,
dizia que, se a Inglaterra no tomasse promptas providencias para
apagar a impresso causada pelas incurses do major Serpa Pinto, toda a
regio dos Lagos Africanos se incendiaria; os makololos tinham visto a
Inglaterra grosseiramente ultrajada; era necessario que a vissem
reivindicar claramente a sua honra. Por outro lado, o governo
portuguez, desejoso, sem duvida, de attenuar um pouco a irritao que o
da Gr-Bretanha denunciara na nota de 5 de janeiro, havia ordenado a
Serpa Pinto que recolhesse  metropole. Mas nem com isso o colosso
amorteceu a pancada.

O sr. Barros Gomes tentou ento propr a suspenso temporaria de
qualquer procedimento e submetter o litigio ao exame e deciso d'uma
conferencia internacional. Trabalho inutil.  nota do dia 8 d'aquelle
mez, em que o sr. Barros Gomes lamentava que a Inglaterra nunca tivesse
reconhecido o direito historico constantemente affirmado por Portugal
aos territorios do Chire e do Nyassa, a essa nota, o ministro Petre
respondeu no dia 10 com um _memorandum_--guarda avanada da exigencia
formal. O governo britannico, frisava esse documento, precisa saber se
foram ou no enviadas instruces rigorosas s auctoridades portuguezas
em Moambique com referencia aos actos de fora e ao exercicio de
jurisdico que ali subsistem actualmente. E, quasi sem dar tempo a que
a sr. Barros Gomes digerisse o tom comminatorio do _memorandum_, o
ministro Petre entregou-lhe o famoso _ultimatum_ concebido n'estes termos:


_O governo de sua magestade britannica no pode acceitar como
satisfatorias ou sufficientes as seguranas dadas pelo governo
portuguez, taes como as interpreta. O consul interino de sua magestade
em Moambique telegraphou, citando o proprio major Serpa Pinto, que a
expedio estava ainda occupando o Chire e que Kalunga e outros logares
mais no territorio dos makololos iam ser fortificados e receberiam
guarnies. O que o governo de sua magestade deseja e em que insiste 
no seguinte:_

[Ilustrao: Alves da Veiga (1891)]

_Que se enviem ao governador de Moambique instruces telegraphicas
immediatas para que todas e quaesquer foras militares actualmente no
Chire e nos paizes dos makololos e mashonas se retirem. O governo de sua
magestade entende que sem isto as seguranas dadas pelo governo
portuguez so illusorias._

_Mr. Petre ver-se-ha obrigado,  vista das suas instruces, a deixar
immediatamente Lisboa com todos os membros da sua legao, se uma
resposta satisfatoria  precedente intimao no fr por elle recebida
esta tarde; o navio de sua magestade Enchantress est em Vigo
esperando as suas ordens._


O _ultimatum_ tinha a data de 11 de janeiro. No mesmo dia o sr. Barros
Gomes entregava ao ministro inglez a resposta. No a transcrevemos na
integra, dada a sua extenso. Registem-se comtudo os seus pontos
essenciaes. Abria pela declarao infantil de que o governo portuguez
julgava ter, com a sua nota do dia 8, satisfeito por inteiro quanto
d'elle reclamava o de sua magestade britannica; antecipando-se 
segurana d'uma justa reciprocidade, que devia constituir o natural
preliminar das suas resolues, apressara-se a enviar para Moambique as
ordens mais terminantes no sentido de fazer respeitar desde logo, em
toda a provincia, o compromisso tomado, no intuito de facilitar a
realisao d'um accordo com a Gr-Bretanha, pelo qual o governo
portuguez sempre pugnara. A resposta do sr. Barros Gomes fechava assim:


_Na presena d'uma ruptura imminente de relaes com a Gr-Bretanha e de
todas as consequencias que d'ella poderiam talvez derivar-se, o governo
de sua magestade resolveu ceder s exigencias recentemente formuladas e,
resalvando por todas as formas os direitos da cora de Portugal nas
regies africanas de que se trata, protestando bem assim pelo direito
que lhe confere o artigo 12. do Acto Geral de Berlim, de ver resolvido
definitivamente o assumpto em litigio por uma mediao ou pela
arbitragem, o governo de sua magestade vae expedir para o governador
geral de Moambique as ordens exigidas pela Gr-Bretanha. Aproveito a
occasio para renovar a v. ex. as seguranas da minha alta
considerao._


Resumindo: se a intimao era cathegorica, e a ameaa do governo inglez
resumava inilludivelmente o proposito de vexar, de humilhar o pequeno
paiz ao qual ella se dirigia, a resposta no podia ser mais
subserviente, apesar do fraco esboo de protesto com apoio no direito
internacional consignado nas ultimas linhas do documento. Ao pontap
vibrado impiedosamente pela Inglaterra, Portugal offerecia uma curvatura
de espinha s propria d'um lacaio... Custa dizel-o sem disfarce, mas  a
verdade.

A noticia do _ultimatum_ foi divulgada em Lisboa poucas horas depois do
sr. Barros Gomes a ter recebido. No dia 12 de manh, um jornal dos de
maior circulao exclamava, em typo grado, no logar mais saliente da
sua primeira pagina:


O governo inglez, o philantropico e honesto governo inglez, recorreu,
emfim, ao argumento que lhe  usual nas discordias com os povos
pequenos. Recorreu ao argumento da fora! O governo portuguez recebeu
uma intimao formal: ou d promptas satisfaes, n'um curto praso, que
deveria ter terminado s 2 horas da manh de hoje, ou marcha sobre
Lisboa a poderosa esquadra que est reunida em Gibraltar, com ordem de
bombardear a capital de Portugal! Lisboa, a nossa querida e formosissima
Lisboa, bombardeada pelos canhes da Inglaterra! A cidade de onde
partiram os descobridores audazes que deram ao mundo--e no mundo mais
que a nenhum outro povo, ao povo britannico--a America prodigiosa, e
essa Asia, onde a Inglaterra tem o seu grande imperio, e essa Africa,
por um ponto insignificante da qual se levanta o presente conflicto--a
cidade dos navegadores heroicos e generosos, destruida a tiros de pea
pelos couraados da nao colonial por excellencia!  phantasticamente
horrivel!

Que respondeu o governo? Salvou a sua honra, ou salvou a historia
d'esta immensa vergonha, e Lisboa d'esta immensa catastrophe? Nada
podemos averiguar. O ministerio esteve reunido at alta noite e do que
decidiu s hoje, provavelmente, haver conhecimento. A hora no  de
recriminaes. Aguardemos com serenidade e com firmeza o que o destino,
a imprevidencia dos homens e a rapacidade d'uma nao egoista e
desalmada nos preparam n'este momento solemne da nossa historia!


Estava lanado o rebate. O povo, a genuina massa do povo, no tardaria a
entrar em scena, manifestando-se por uma frma at ento desconhecida
pelos serventuarios da monarchia--explodindo indignao e sincero
patriotismo. O partido republicano, firmando-se n'esse impulso da
opinio, adquiria novo alento e preparava-se para ulteriores trabalhos
de propaganda, mais forte, melhor orientada e, sobretudo, de maior
efficacia.




CAPITULO V

O protesto contra o "ultimatum" echoa de norte a sul do paiz


O domingo 12, isto , o dia immediato ao da recepo do _ultimatum_,
consagrou-o a populao lisboeta a commentar o acontecimento. Uma parte
da imprensa, fazendo o resumo do conflicto diplomatico que desfechara na
affronta despedida pela Gr-Bretanha, accrescentava que, emquanto o
ministro inglez sr. Petre entregava a intimao formal ao sr. Barros
Gomes, este recebia do governador de Cabo Verde um telegramma
communicando-lhe que entrara no porto de S. Vicente com carta de prego
um cruzador britannico; o nosso consul em Gibraltar avisava-o, por
seu turno, de que a esquadra do Canal l estava concentrada, prompta ao
primeiro aviso; o consul em Zanzibar tambem telegraphava participando a
sahida para as costas de Moambique de dez navios de guerra inglezes,
acompanhados de um transporte com carvo e mantimentos. Perante esta
situao, o governo consultara o conselho de Estado, que reunira sob a
presidencia do rei D. Carlos. No conselho tinham votado pela satisfao
s exigencias da Inglaterra os srs. Barjona de Freitas, Jos Luciano de
Castro, conde de S. Loureno, Barros Gomes e Joo Chrysostomo. O sr.
Antonio de Serpa manifestra-se pela arbitragem e por que s fossem
mandadas retirar as foras portuguezas do Chire depois da Inglaterra a
acceitar.

 tarde, apesar da excitao popular j ser bem visivel, o rei D. Carlos
exhibiu-se em passeio na Avenida da Liberdade e seu irmo o infante D.
Affonso percorreu  desfilada varios pontos da cidade, mostrando-se um e
outro completamente alheiados do facto que enlutra a nao. Ao comeo
da noite formaram-se grupos numerosos no Rocio e como do Colyseu da rua
da Palma sahisse, em certa altura, um cortejo de patriotas que soltavam
calorosos vivas  nao, ao exercito e  imprensa e morras ao governo e
 Inglaterra, os grupos addicionaram-se-lhes e uma enorme multido
dirigiu os passos para a Sociedade de Geographia. Ahi, d'uma das
varandas, falou o sr. Luciano Cordeiro:

--A Inglaterra, trovejou, pode expulsar-nos pela fora, mas o direito
subsiste! Precisamos protestar contra a pirataria britannica!...

Mas, da multido, elevaram-se outras vozes:

--E contra o governo que nos atraioou! E contra os Braganas que nos
jungiram  Inglaterra!...

Depois, a grande massa dos manifestantes subiu  parte alta da cidade a
saudar a imprensa, que se collocra abertamente ao lado do povo,
verberando a affronta. As redaces do _Seculo_, _Revoluo de
Setembro_, _Jornal da Noite_, _Jornal do Commercio_, _Debates_, _Correio
da Manh_ e _Gazeta de Portugal_ foram alvo de manifestaes de
sympathia.  passagem em frente da redaco do _Dia_, alguns dos
populares deram palmas emquanto outros se limitaram a bradar: Viva
Portugal! Abaixo a Inglaterra!. Em frente ao _Correio da Noite_
produziu-se uma manifestao hostil ao governo, manifestao que se
repetiu junto do _Reporter_ e que redobrou de violencia em frente das
_Novidades_, com morras ao sr. Emygdio Navarro, aos progressistas
traidores e gritos de: Abaixo o _chalet_! Viva a Republica!

Na rua Serpa Pinto, a multido, lembrando-se do nome do official que
derrotara os makololos, rompeu em estrepitosas acclamaes em sua honra.
O enthusiasmo attingiu propores indescriptiveis. Do terceiro andar
d'uma casa habitada por uma modista, falou um academico convidando os
collegas a realisarem no dia seguinte um grande cortejo patriotico. Foi
delirantemente applaudido. Da rua Serpa Pinto, a massa popular avanou
depois sobre o theatro de S. Carlos e irrompeu na sala dando vivas 
patria e clamando contra a Inglaterra. Os _habitus_ da nossa Opera,--_a
jeunesse dore_--tranzidos de pavor, no lhe oppuzeram a menor
resistencia. Dentro e fora do edificio os manifestantes gritavam:

--Hoje no  dia de espectaculo,  dia de luto!...

Sahindo de S. Carlos, alguem lembrou que o consulado inglez era na rua
das Flores. O rastilho propagou-se. N'um abrir e fechar d'olhos, a casa
do consul foi apedrejada, arrancando-se da parede o respectivo escudo.
Apedrejaram egualmente a residencia do sr. Barros Gomes. E, s quando a
policia interveiu, prendendo 61 dos populares,  que a mole se
desfez, mas preparando _in mente_ para o dia seguinte novas e incisivas
manifestaes de antipathia  Gr-Bretanha e ao governo que promptamente
se lhe submettera. Entretanto, esse ministerio pedia a demisso, abalado
pelos primeiros symptomas da reaco nacional. Para mais o movimento de
protesto no se limitra a Lisboa. Repercutira de norte a sul do paiz,
revelando energias civicas que desnorteavam por completo a cora e os
partidos da monarchia.


No dia 13 de janeiro, os estudantes da capital effectuaram uma reunio
na Escola Polytechnica, reunio a que compareceram os alumnos da Escola
Naval, da Escola do Exercito e do Collegio Militar. Presidiu o sr.
Hygino de Sousa e falaram varios oradores, todos elles estygmatisando
com violencia a affronta ingleza e aconselhando a _boycottage_ aos
productos da Gr-Bretanha. Um professor do lyceu de Lisboa, sr. Carlos
de Mello, tentou, n'um discurso habil, defender o sr. Barros Gomes, mas
a assembla recebeu pessimamente as suas palavras e foi resolvido acto
continuo que a academia se dirigisse  camara dos pares a pedir ao
parlamento declaraes terminantes que serenassem o espirito publico.
Assim se fez e um cortejo de mais de quinze mil pessoas, sahindo da
Escola Polytechnica, encaminhou-se para S. Bento.

 entrada do Largo das Crtes, do lado do mercado, um cordo de policias
pretendeu impedir a passagem aos manifestantes, mas o cortejo rompeu-o e
tudo passou. A guarda do palacio chamou s armas e calou bayonetas. Em
frente do edificio, destacou-se do cortejo uma commisso que foi falar
ao presidente da camara. A policia dentro e fora do edificio era em to
grande quantidade que Fialho d'Almeida soltou esta _boutade_:

--Os seios da representao nacional trazem hoje espartilho de guarda
civil...

Os aspirantes de marinha, receiando que a massa de povo aglomerada no
largo fosse maltratada pela fora militar, formaram deante d'esta,
offerecendo-lhe como que uma barreira, e a sua attitude provocou uma
ovao extraordinaria, frenetica de enthusiasmo. D'ahi a momentos, a
commisso que se avistara com o presidente da camara voltou para junto
dos manifestantes, e communicou-lhes que o parlamento, tendo tomado em
considerao a _dmarche_ patriotica da academia, occupar-se-hia, na
sesso seguinte, dos assumptos que interessavam a defeza e a integridade
do paiz. O cortejo andou depois a percorrer varias ruas da cidade,
pronunciando-se hostilmente em frente dos jornaes caracterisadamente
governamentaes e  noite repetiram-se as scenas da vespera, queimando-se
bandeiras inglezas, victoriando-se em delirio os nomes de Serpa Pinto,
Latino Coelho e outros democratas ento em evidencia.

No dia 14, pelas seis e meia da tarde, sahiu do Caf Aurea um grupo de
estudantes soltando vivas  patria,  liberdade,  independencia
nacional, ao exercito e  marinha. A esse grupo juntou-se na rua do Ouro
e praa de D. Pedro muito povo e  porta do Caf Martinho o antigo
deputado progressista sr. dr. Eduardo de Abreu propoz  multido que se
envolvesse em crepes a estatua de Cames. Dito e feito. Os manifestantes
enfiaram pela rua Nova do Carmo e o Chiado, explodindo sempre o maior
enthusiasmo, aos degraus do monumento subiram alguns individuos,
arranjou-se uma escada, passou-se o crepe em largas dobras rodeando a
estatua e rematando sobre a cora de ferro ali deposta pelos estudantes
em 1880 e, no meio do mais respeitoso silencio, leu-se ao povo este
cartaz, que foi depois affixado:

[Ilustrao: Na rua de Santo Antonio]


_Estes crepes, que envolvem a alma da patria, so entregues  guarda do
povo, do exercito e da alma nacional. Quem os arrancar ou mandar
arrancar  o ultimo dos covardes vendido  Inglaterra._


Uma prolongada e fremente salva de palmas acolheu a leitura d'este
protesto, simples e curto, mas d'uma eloquencia esmagadora e o cortejo
patriotico voltou, como nos dias anteriores, a percorrer as ruas de
Lisboa, gritando febrilmente o seu desejo de liberdade e a revolta
contra a ignominia com que a nao fra aviltada. O ministerio
progressista j tinha sido substituido por um outro de feio
regeneradora, sob a presidencia do sr. Antonio de Serpa e em que
figuravam pela primeira vez o sr. Joo Arroyo na pasta da marinha,
Joo Franco na da fazenda e Vasco Guedes na da guerra. Um dos actos do
novo governo, mal subiu ao poder, foi o de procurar reprimir todas as
manifestaes patrioticas inspiradas no _ultimatum_, mandando espadeirar
dezenas de populares que na noite de 14 de janeiro desciam o Chiado
desferindo as suas exclamaes de odio  poderosa Albion. O inicio, como
se v, no podia ser mais promettedor de brutalidade e arbitrio.




CAPITULO VI

Serpa Pinto, heroe africano, perde o prestigio


D'essa agitao imponente, d'essa inesperada revelao de civismo em
face da humilhao inflingida ao paiz, sahira, porm, uma ideia, que,
encontrando rapidamente o maior apoio em todas as classes manifestantes,
em breve se traduziu n'uma aspirao nacional. Referimo-nos 
subscripo da iniciativa dos alumnos da Escola Naval destinada  compra
de meios de defeza maritima. De toda a parte acudiram donativos, e
dentro de pouco tempo a commisso incumbida de os recolher e que tinha
como secretario o sr. dr. Eduardo de Abreu, desligado do partido
progressista e filiado, com Guerra Junqueiro, no partido republicano,
houve de fazer as suas reunies no salo do theatro D. Maria e de ali
centralisar o trabalho que lhe estava affecto.

Ao mesmo passo organisava-se a Liga Patriotica do Norte collocada sob a
egide de Anthero de Quental; Alfredo Keil, imitando Rouget de Lysle,
compunha o hymno a _Portugueza_, para o qual o sr. Lopes de Mendona
escrevia os versos e esse canto vulgarisava-se tanto ou mais que a
_Marselheza_; faziam-se diariamente conferencias publicas de
esclarecimento e de protesto; os nomes dos mais illustres
africanistas andavam em todas as boccas aureolados de ruidosa
celebridade. Houve mesmo uma epoca em que o de Serpa Pinto se ligou 
narrativa d'um incidente sul-africano com propores de feito heroico.
Foi quando a imprensa deu publicidade  carta que elle dirigira ao
agente britannico Buchanan que o intimara a no avanar pelas terras dos
makololos, collocados sob a proteco do governo inglez. N'essa carta
dizia Serpa Pinto:


Se na verdade os makololos esto debaixo da proteco do governo inglez
e por conseguinte lhe obedecem, estou certo de que a minha passagem ser
facil e segura, porque o governo inglez, representado por v. ex., s me
pde dar facilidades, sendo eu d'um paiz que sempre teve abertas, franca
e lealmente, as portas das suas colonias s expedies scientificas
inglezas, prestando-lhes todo o auxilio e amparo; mas, em todo o caso,
se  verdade o que v. ex., me diz, peo-lhe que convena os makololos
de que a minha expedio  pacifica e scientifica, que lhes diga que
perteno a uma nao amiga da Inglaterra e que, portanto, no perturbem
a minha marcha, perturbao a que v. ex., n'esse caso, no pode ser
considerado extranho; e assegurando-lhe que no posso consentir que um
chefe negro queira disputar-me a passagem, ou fazer-me o mais
insignificante insulto, asseguro, alm d'isso, a v. ex., que, se na
minha entrada no territorio makololo eu fr atacado, tomarei
immediatamente a offensiva e acabarei de uma vez com essa causa
constante de perturbao n'esta parte do Chire.


E n'outro paragrapho:


Emquanto  intimao que v. ex. me faz de no continuar no meu
caminho, peo licena para lembrar a v. ex. que eu s recebo ordens
do governo de sua magestade fidelissima, de quem as recebo directamente
e, como no recebi ordem em contrario, continuarei, tenaz e
pacificamente, a minha jornada, arvorando uma bandeira de paz e s de
paz, mas prompto a repellir com energia quaesquer aggresses sem motivo
que me possam ser feitas.


Mas Serpa Pinto, longe de conservar esse favor popular, tornando-se o
proeminente defensor das reivindicaes da grande massa, optou, em
breve, pelo servio incondicional  cora e essa attitude divorciou-o
completamente do nucleo democratico, que o encarara durante algum tempo
como uma das esperanas mais promettedoras. E, divorciado, perdeu o
prestigio. Quando morreu, dez annos mais tarde, estava em absoluto
esquecido. Continuemos, porm, a contar os episodios que caracterisaram
essa phase de agitao nacional, consequencia do _ultimatum_.

O sentimento da dignidade collectiva, despertando com extraordinaria
vehemencia, produziu em todas as classes, at mesmo na aristocratica,
uma reaco contra a Gr-Bretanha. O duque de Palmella, por exemplo,
tendo renunciado s condecoraes inglezas que possuia, collocou-se 
frente da commisso da subscripo patriotica; dos partidos monarchicos
desertaram alguns homens dos mais eminentes; surgiu, emfim, uma nova
imprensa, reflectindo, como diz Joo Chagas no j os interesses
especiaes do partido republicano, mas as coleras e os enthusiasmos do
patriotismo, identificado com a republica para a misso commum da
desaffronta.

Fundou-se a _Patria_, jornal de estudantes de Lisboa, e, logo de
entrada, essa folha, feita um pouco _ la diable_, investiu
denodadamente contra o velho regimen, apaixonando em alto grau a
opinio. N'ella se revelaram, entre outros politicos militantes, Brito
Camacho e Hygino de Sousa. E a sua aco de propaganda foi to intensa
que a ella se deveu, sem duvida, uma grande parte da tenso
revolucionaria mantida atravez do anno de 1890 e comeo do anno seguinte.

Aqui tem cabimento referir que o directorio do partido republicano,
julgando azado o momento de sanccionar com a sua chancella a
recrudescencia do partido democratico, publicou n'essa occasio um
manifesto em que propunha a congregao dos esforos honestos no sentido
de se rejuvenescer Portugal no s confiando-o ao novo regimen como
protegendo-o internacionalmente por meio d'uma federao latina. Esse
manifesto concluia assim:


S a republica pode organisar o exercito e a marinha, fortificar
Lisboa, administrar as colonias e defender a nao affrontada. A
republica, no meio d'estes desastres publicos, est na consciencia de
todos como o recurso definitivo da nossa estabilidade nacional. Da
consciencia para os factos vae um momento. E esse momento approxima-se.


Por outras palavras: o directorio comprehendia, ou convencia-se, n'essa
altura, de que a propaganda bem dirigida resultaria fatalmente na
liquidao, dentro de curto praso, das instituies que envergonhavam o
paiz. E se o trabalho no ambiente rubro dos centros politicos denunciava
ento uma actividade excepcional, fra, na rua, auxiliavam-no, ainda que
d'outro modo, as manifestaes da grande massa, que no affrouxava em
protestar energicamente contra o _ultimatum_ e a cobardia da familia
brigantina.

Dois dias a fio, um cortejo composto exclusivamente de marinheiros
da armada appareceu n'alguns pontos de Lisboa, saudando
enthusiasticamente a bandeira da patria e dando vivas  independencia
nacional. O governo atemorisou-se com o facto e ameaou os manifestantes
de os encarcerar durante trinta dias. Ao mesmo tempo, a policia recebeu
ordem de empregar maior violencia na disperso dos grupos patrioticos.
Uma coisa e outra, porm, no impediram que a onda de indignao se
avolumasse e que frequentemente se produzissem incidentes demonstrando
que o divorcio entre a nao e a dynastia se accentuava cada vez mais.
N'um dos ultimos dias de janeiro, o Gremio Henriques Nogueira, tendo
dirigido caloroso convite ao povo de Lisboa, organisou uma manifestao
imponente que, em marcha correcta e digna pelas ruas da cidade, se
dirigiu s legaes de Frana e Hespanha a agradecer  opinio dos dois
paizes, a sympathia e a solidariedade moral dispensadas nas horas
lutuosas da affronta ingleza. O gabinete regenerador, entretanto--muito
embora todos os grupos politicos lhe tivessem offerecido apoio
incondicional no respeitante  questo anglo-lusa--fazia dissolver o
parlamento, collocando-se em verdadeira dictadura. O presidente do
conselho, sr. Serpa Pimentel, e o ministro dos estrangeiros, o sr.
Hintze Ribeiro, preparavam-se assim para negociar com a chancellaria
britannica o accordo final, sanccionando a expoliao contida no
_ultimatum_.

Em 11 de fevereiro, repetiram-se na capital, e com maior intensidade, as
scenas de agitao popular que haviam caracterisado os primeiros dias do
mez anterior. Motivou-as a prohibio d'um comicio no colyseu da rua da
Palma, em que se deveria accordar nos meios de se enviar uma mensagem
de congratulao e agradecimento ao povo francez e hespanhol e de se
apreciar o pensamento e a opportunidade da liga portugueza
anti-britannica como base dos trabalhos da federao dos povos
latinos. Pouco antes, como corressem boatos de que o governo projectava
dissolver a camara municipal de Lisboa, o presidente d'essa corporao,
o sr. Fernando Palha, apressara-se a inquirir do chefe do governo os
motivos de to arbitraria resoluo, tomando ao mesmo passo varias
medidas tendentes a resistir-lhe caso ella fosse levada  pratica. O sr.
Serpa Pimentel, apesar do decreto de dissoluo j estar lavrado,
receiou publical-o e respondeu ao sr. Fernando Palha que os boatos eram
insubsistentes, calculando que, recuando n'essa altura da situao,
poderia conjurar uma nova exploso de sentimentos patrioticos.

No dia 11,  tarde, quando o povo se encaminhava para o colyseu da rua
da Palma a assistir ao comicio, verificou-se que o governo no s
decidira obstar  sua realisao como  d'um cortejo organisado pelo
Gremio Henriques Nogueira, que se propunha, n'esse mesmo dia, collocar
uma cora no monumento a Cames. A policia e a municipal que
estacionavam nas immediaes do colyseu tinham modos provocadores. O
povo, porm, conservou-se tranquillo e s s 3 horas, quando se
convenceu em absoluto de que a ordem do governo era irrevogavel,  que
formou um cortejo, acompanhando na retirada do local os oradores que
deviam falar no comicio: Jacintho Nunes, Manuel de Arriaga, Consiglieri
Pedroso e outros. Chegado esse cortejo ao Rocio, Manuel de Arriaga, no
intuito de fazer dispersar a multido, subiu a um banco e dando um _viva
 patria_, disse:

--Povo: o governo sahiu da lei prohibindo a nossa reunio.
Conservemo-nos dentro d'ella, protestando contra os que a violaram.

O sr. Jacintho Nunes tambem proferiu algumas palavras no mesmo sentido.
O povo, enthusiasmado, applaudiu os dois oradores. Mas no foi
preciso mais para a policia iniciar as violencias e as prises. As
correrias dos guardas lanaram no recinto largos minutos de panico.
Chamou-se ali, como reforo, um esquadro de cavallaria. O povo
recebeu-o com demonstraes de sympathia e os soldados desfilaram
socegadamente, acompanhados dos vivas da multido. Os primeiros presos
foram Manuel de Arriaga e Jacintho Nunes. Depois a leva, comprehendendo
uns 130 individuos, seguiu para o governo civil, d'onde, no dia
immediato, foi mandada para bordo do _India_ e do _Vasco da Gama_.

Assim que o facto constou na cidade, o commercio fechou meia porta e
quasi todas as associaes realisaram sesses de protesto. Reappareceram
os incidentes tumultuosos, a populao voltou a agitar-se, os jornaes
democratas abriram subscripes em favor dos presos e, s ameaas de
novas e maiores violencias, o elemento popular respondeu approximando-se
mais e mais dos vultos ento em evidencia no partido republicano. A
_Patria_, diario visado especialmente pelos serventuarios do regimen,
escrevia a poucas horas de perpetrado o arbitrio governamental:


Consta-nos que da parte do governo ha todo o empenho em damnificar o
nosso jornal e que se tomam providencias tendentes a supprimir a
_Patria_ e bem assim prender os seus redactores. O publico fica de
sobreaviso, na certeza de que todos os dias sahir o nosso jornal com o
nome que tem ou com qualquer outro, se lhe fr inhibido usar o glorioso
nome de _Patria_ que o encima. No  com ameaas, levadas ou no a
effeito, nem  com prises ou detenes a bordo do _Africa_ que nos
faro desistir da tarefa que nos impuzemos, porque, uns presos, outros
viro, e quando esses forem presos outros viro ainda e a _Patria_
apparecer implacavelmente e o governo d'este paiz ha de aprender que
no  com vilezas e processos de mo baixa que se combatem sentimentos
grandes e generosos, que s anceiam pelo bem estar do seu paiz.

[Ilustrao: Joo Chagas (1891)]


Mas os serventuarios do regimen no descanaram na tarefa de precavel-o
contra o progresso da democracia, tentando por todos os modos
estrangular os clamores do povo. Em 14 de fevereiro dissolveram a
Associao Academica de Lisboa, sob o pretexto de que ella, contrariando
os fins indicados nos seus estatutos, se entregava a aventuras
politicas que tinham perturbado a ordem publica. Ainda mais:
decidiram-se finalmente a publicar o decreto dissolvendo o primeiro
municipio do paiz, apprehenderam alguns jornaes da opposio, entraram
em conflicto com a commisso executiva da Subscripo Nacional,
reorganisaram a guarda municipal, gratificaram a policia e, por uma
srie de medidas dictatoriaes, restringiram a liberdade de pensamento e
o direito de reunio.

Entretanto, caminhava-se a passos agigantados para a concluso do
tratado anglo-portuguez, o famoso tratado que devia, por assim dizer,
ratificar o _ultimatum_ de 11 de janeiro e a perda subsequente do que
Portugal disputava  Gr-Bretanha.




CAPITULO VII

O partido republicano nasce da disperso do reformista


Cabe agora dar aos leitores um rapido esboo das phases por que passou o
partido republicano desde 1880 at  ecloso da revolta do Porto. Esse
partido nasceu da dissoluo do reformista, apoz o movimento de Cadiz
que tambem animou o mesmo ideal em Hespanha. Do partido reformista
sahiram Latino Coelho, Elias Garcia, Bernardino Pinheiro e Jacintho
Nunes que, acompanhados de Oliveira Marreca e os generaes Gilberto Rolla
e Sousa Brando, fundaram o jornal _Democracia Portugueza_  cabea do
qual foi logo inscripto o primeiro programma partidario accentuadamente
democratico. Esse programma comprehendia:


_Egualdade civil e politica. Governo e taxao do povo pelo povo.
Suffragio universal e representao das minorias. Abolio do juramento
politico; de privilegios pessoaes; dos direitos de consumo para o
Estado; do recrutamento. Servio pessoal; exercito reduzido  escola e
quadro; milicia nacional. Liberdade de consciencia; egualdade de cultos;
casamento civil; registo civil; liberdade de imprensa e de ensino;
julgamento pelo jury; liberdade pessoal; inviolabilidade do domicilio;
liberdade de associao; de reunio; de representao, excepto para a
fora armada collectivamente. Poder legislativo de eleio; executivo
delegado d'este e que dirige os negocios geraes do Estado.
Descentralisao administrativa e autonomia das provincias ultramarinas.
Ensino obrigatorio. Economia na despeza publica. Direito de
resistencia aos actos da auctoridade, offensivos das leis. Justia
democratica retribuida pelo Estado, revertendo para este os emolumentos;
jurados por eleio; juizes collectivos; ampliao da competencia dos
arbitros. Harmonia do codigo penal e do processo com a philosophia do
direito e o modo de ser da sociedade portugueza._


O programma foi obra, principalmente, de Latino Coelho e Elias
Garcia--este dirigindo a _Democracia Portugueza_ emquanto o jornal
arrastou a sua vida precaria. Os restantes redactores eram Osorio de
Vasconcellos, Teixeira Simes, Gomes da Silva, Ferreira Mendes, Caetano
Pinto e Feio Terenas. De camaradagem com estes nomes appareciam os de
Manuel de Arriaga, Nunes da Matta, Sousa Larcher, Homem Christo,
Magalhes Lima, Alves da Veiga, Jos Sampaio (Bruno), Emygdio
d'Oliveira, etc., etc. Hintze Ribeiro tambem gosou durante algum tempo a
fama de democrata e pode lr-se na sua biographia que, quando estudante
em Coimbra, escreveu artigos inflammados para um jornal de Ponta
Delgada. Mas que admira, se da Universidade  que surdiram em todas as
epocas os elementos mais avanados, os propagandistas mais devotados, os
revolucionarios mais atrevidos... Quantos dos antigos ministros da
monarchia portugueza no foram, afinal, durante a sua passagem por
Coimbra, considerados as futuras escoras do partido republicano!...
Quantos!

At 1880, esse partido apenas exerceu no paiz uma aco de simples
sentinella, quasi perdida na immensidade do deserto. Ainda no havia
despertado o sentimento civico entre os portuguezes como mais tarde
despertou, precipitando-os em reivindicaes revolucionarias e a nao
mal dava pelos clamores do nucleo nascente que todo se esbofava na
imprensa e nas palestras da rua a demonstrar que o reinado de D. Luiz
cavava alguns metros mais no abysmo da nossa ruina. Em Lisboa, o partido
republicano dispunha d'uma modesta influencia eleitoral, que, no
emtanto, lhe permittia, uma vez por outra, travar lucta com os
monarchicos. No Porto, toda a propaganda democratica se reduzia a meia
duzia de homens--de alto valor,  certo, mas de fraco exito nas suas
tentativas para arrancar a capital do Norte  tradico monarchica. Na
provincia, tudo se subordinava ao caciquismo e os republicanos ali eram
encarados como fautores da anarchia e da desordem. Finalmente, o proprio
nucleo democratico de que Lisboa se envaidecia antes de 1880, no
apresentava a resistencia e a solidez necessarias  conquista do poder
politico.


A celebrao do tri-centenario de Cames, realisada n'quelle
anno--sacudindo o paiz inteiro n'uma rajada de patriotismo--deu corpo e
energia ao ideal republicano e transformou o nucleo existente n'uma
fora respeitavel, digna de ser encarada pela monarchia como um inimigo
serio. Melhor do que ns o poderiamos fazer, o dr. Magalhes Lima vae
dizer aos nossos leitores da influencia decisiva d'essa apotheose na
democracia portugueza:


O tri-centenario de Cames foi o primeiro capitulo da gloriosa jornada
que teve o seu desfecho em 5 de outubro de 1910. Nunca se viu cousa
semelhante em grandeza e sinceridade. O povo, o bom povo portuguez,
compenetrado da elevao da festa, e ainda mais de que a homenagem ao
immortal cantor das nossas glorias correspondia ao anceio d'uma
revivescencia futura, acorreu a ella cheio de enthusiasmo, ardoroso,
expandindo a maior alegria. A celebrao do tri-centenario radicou
no espirito da nacionalidade a ideia carinhosa de que no auctor dos
_Lusiadas_ se symbolisavam as esperanas de melhores dias e talvez do
regresso a um passado opulento, viril, de inapagaveis tradices.

Mas a grandiosa homenagem no teve s esse condo. Despertou egualmente
a energia democratica, congregou em volta das figuras do partido
republicano, ento em evidencia, os elementos dispersos, consolidou-os,
deu corpo  opinio publica, foi o ponto de partida da marcha politica
que, em successivas _tapes_, conseguiu, entre ns, pr um ponto final
no regimen monarchico. Devemol-a essencialmente a Theophilo Braga, que
durante tres annos consecutivos fez uma propaganda intensissima para a
sua realisao. A commisso executiva da festa compunham-na elle,
Rodrigues da Costa, que representava ao tempo o jornal mais antigo, a
_Revoluo de Setembro_; Pinheiro Chagas, Eduardo Coelho, Jayme Batalha
Reis, Ramalho Ortigo, Luciano Cordeiro, eu e o visconde de Juromenha,
mais tarde substituido pelo Rodrigo Pequito. Cada um de ns tomou a seu
cargo para a preparao da solemnidade o realisar um certo numero de
conferencias em que, divulgando a obra do epico, se orientava ao mesmo
tempo o espirito publico n'um ideal genuinamente patriotico.

E a influencia exercida pela nossa aco foi tal que, apesar da
hostilidade que o governo progressista da epoca nos moveu, os _Lusiadas_
entraram em todos os lares e Cames, alcanando a maior consagrao,
passou a ser como que o orago da massa popular. As edies da monumental
epopeia vulgarisaram-se por uma forma extraordinaria. Fizeram-se varias,
desde a mais modesta, ao alcance de todas as bolsas, at  de luxo,
regalo de privilegiados. Os nossos manifestos eram acolhidos com
verdadeira soffreguido e conseguiam maior exito do que os decretos do
governo. Chamava-se ironicamente  commisso do tri-centenario o
_comit_ de Salvao Publica, mas essa ironia dava bem a medida da nossa
fora e o que  mais: da impetuosidade da corrente democratica que
caracterisou sempre e profundamente a homenagem ao grande poeta.

A celebrao do tri-centenario fez expandir a ideia republicana que
muitos espiritos acalentavam em silencio. Em 1880 havia republicanos,
mas no havia conjugao de foras democraticas. O tri-centenario
promoveu-a. Antes de se prestar a homenagem ao poeta, j se palpava a
existencia de um ideal de liberdade e de justia, o esboo d'uma reaco
decidida contra o regimen monarchico. Recordo-me, perfeitamente, que no
antigo _Commercio de Portugal_, ensaiando a verificao d'essa corrente
avassaladora, obtive um resultado bastante lisongeiro. Nos caixeiros,
mais talvez do que nas outras classes, encontrei elementos valiosos de
propaganda--parte dos quaes fundou e installou o Atheneu e mezes depois
da celebrao do tri-centenario me auxiliou na fundao do _Seculo_.

Glorificando o epico immortal, revestindo de excepcional imponencia
esse cortejo apotheotico do dia 10 de junho de 1880, Lisboa e, com ella,
as provincias, soffreram um abalo salutar, enveredando decisivamente no
caminho da destruio da tyrannia brigantina. A monarchia comprehendeu-o
e quiz impedil-o. O rei D. Luiz pretendeu encorporar-se no cortejo e o
governo no lh'o consentiu. Em summa, a influencia desprendida da festa
foi enormissima e fez-se sentir de modo flagrante no decorrer dos annos
e em diversos incidentes da vida interna da nacionalidade.


Em 1881, quando a imprensa republicana promoveu uma campanha justa e
violenta contra o celebre tratado de Loureno Marques, a opinio vibrou
como nunca at ali vibrara. Alguns officiaes do exercito chegaram a
offerecer-se para, na impossibilidade do partido republicano se lanar
abertamente n'uma revoluo, organisarem guerrilhas e d'esse modo
combaterem a monarchia. Crearam-se centros politicos, as associaes de
classe tomaram um incremento irreprimivel e o povo passou a
interessar-se a valer pelas attitudes dos governantes. Apoz a celebrao
do tri-centenario, o dr. Magalhes Lima propoz-se deputado por Lisboa,
ou melhor, pelo circulo 98, que comprehendia S. Paulo, Santos, Lapa e
Alcantara. A lucta foi renhida. Theophilo Braga propoz-se depois por
Alfama, Manuel de Arriaga pela Baixa e Elias Garcia pelo circulo 95
(Anjos). Durante annos foram estes os _candidatos chronicos_ dos
republicanos da capital. Travaram-se batalhas eleitoraes que ficaram
memoraveis. D'uma das vezes, disputando Magalhes Lima um circulo a
Hintze Ribeiro, Fontes, ao tempo presidente do conselho, viu-se forado
a ir presidir a um comicio para _poder salvar a honra do convento_...

Comtudo, esse impulso progressivo experimentado em 1880 pelo ideal
democratico, soffreu um decrescimento apoz 1881, isto , logo que a
questo do tratado de Loureno Marques se apagou do espirito publico. E
essa decadencia, chamemos-lhe assim, chegou a ser to accentuada que o
incomparavel jornalista Emygdio Navarro no duvidou um bello dia fazer
um appello ao estado maior do partido republicano convidando-o a ir
religiosamente enterrar uma bandeira que parecia condemnada a no se
desfraldar jmais. O director das _Novidades_ supplicava a todos os
democratas que fossem uteis  patria, levando a sua dedicao, o seu
trabalho, a sua intelligencia aos arraiaes da monarchia, que os
receberia de braos abertos. Deram-se mesmo algumas deseres. O
jornalista portuense Emygdio de Oliveira cessou a publicao do diario
_Folha Nova_ e renunciou  politica republicana. Outros dos seus
correlligionarios acolheram-se a um novo gremio politico--a _Esquerda
Dynastica_--fundado e dirigido pelo sr. Barjona de Freitas, e durante
mezes, dada a crise de desorganisao que o minava, suppoz-se at que o
partido mais avanado se fusionra n'aquella faco conservadora.




CAPITULO VIII

Joo Chagas abandona enojado a imprensa monarchica


Mas sobreveiu o _ultimatum_ e esse conflicto diplomatico exerceu
egualmente consideravel influencia nas condies politicas da sociedade
portugueza. O patriotismo, offendido, encorporou-se nas fileiras
democraticas e engrossou-as. Brotaram da indignao do momento varios
jornaes que foram outros tantos pamphletos revolucionarios: a _Patria_,
de Lisboa, o _Rebate_, do Porto, fundado pelo sr. Eduardo de Sousa, o
_Ultimatum_, de Coimbra, fundado pelo sr. Antonio Jos de Almeida. Com
essa erupo jornalistica coincidiu a formao, na Universidade, d'uma
gerao de propagadores do ideal, que apoz os dias luctuosos de 1890
publicou um manifesto vigoroso, aggredindo directamente o regimen
monarchico e reclamando a bem da patria uma mudana de instituies. A
policia no deixou circular esse documento, mas dois diarios
reproduziram-no immediatamente nas suas columnas. Assignavam o
manifesto, entre outros, estes estudantes:

[Ilustrao: A guarda municipal entrincheirada na egreja de Santo
Ildefonso]


_Fernando Brederode, Joo de Menezes, Agostinho de Campos, Cunha e
Costa, Couceiro da Costa, Antonio Jos de Almeida, Pires de Carvalho,
Lomelino de Freitas, Antonio Cabral, Mario Monteiro, Augusto Barreto,
Silvestre Falco, Joo de Freitas, Paulo Falco, Francisco Valle, Julio
Paulo de Freitas, Malva do Valle, Evaristo Cutileiro, Luiz Soares de
Sousa Henriques, Affonso Costa, Manuel Galvo, Lucio Paes_
_Abranches, Julio de Mello e Mattos, Fausto Guedes, Bessa de Carvalho,
Alberto de Oliveira, Bernardo Leite, Carneiro de Moura, Anto de
Carvalho, Arthur Leito e Virgilio Poyares._


 tempo de nos referirmos  entrada de Joo Chagas na scena politica,
facto que se produziu em 20 de fevereiro de 1890. O eminente publicista,
que at ento trabalhara na imprensa monarchica, revoltado ou, melhor,
enojado com o espectaculo que presenceara durante os dias agitados que
se seguiram ao _ultimatum_, dirigiu n'aquella data esta carta ao
_Correio da Noite_:


_Meu caro amigo_:--No me convindo continuar a collaborar em jornaes da
imprensa monarchica, nos quaes, alis, tenho tido apenas collaborao
litteraria, peo a v... me julgue desde hoje desligado da redaco
d'essa folha. Aproveito o ensejo para lhe agradecer as provas de
considerao que constantemente me tem dispensado.--Seu amigo e collega:
_Joo Chagas_.


Egual declarao foi publicada no _Tempo_ e na _Provincia_ e no dia 21
um jornal republicano da manh accrescentava, fazendo alluso ao facto:
desde j affirmamos que Joo Chagas traz ao nosso partido toda a sua
intelligencia, toda a sua dedicao e todo o seu ulterior trabalho; 
uma adheso valiosissima, que mostra bem o que ha de diamantino no
caracter do nosso amigo, que no hesita sacrificar interesses egoistas
nas aras sacrosantas da patria, cuja remodelao  incompativel com a
subsistencia do affrontoso regimen que nos vae explorando.

Na _Historia da Revolta do Porto_, que escreveu de collaborao com o
ex-tenente Coelho, Joo Chagas descreve assim os seus primeiros
passos na propaganda do ideal republicano:


Em fevereiro de 1890, como um dos auctores d'esta obra, ao tempo joven
e fazendo um jornalismo sem paixo e sem ambies, se decidisse a
encetar o jornalismo politico e a adoptar a causa que era ento de toda
a gente, reuniu-se a um, egualmente joven--tudo foi juventude n'esse
movimento!--alumno do curso de engenharia civil, Chrispiniano Fonseca,
que mais tarde veiu a morrer no Brazil, de febre amarella, sob a
republica de Floriano Peixoto; e tendo os dois concertado que era
preciso fazer alguma coisa, como se dizia por essa grande epocha,
comearam por ir espionar a provincia do Algarve, onde certo dia se
affirmou com alarme que rebentara uma sedio militar e, havendo
reconhecido que tal sedio estava longe de ser um facto, voltaram as
vistas para outro lado e decidiram, apoz diversas machinaes, que o que
havia a fazer era _propaganda_ muito activa e muito eloquente.

D'este accordo partiu a ideia de fundar um jornal republicano, j se
v, que tomasse a dianteira a todos os que j existiam e que, para a
nossa impaciencia, pareciam excessivamente deficientes.

Alvitrou-se que se lanasse o jornal a publico o mais rapidamente
possivel, dentro de quinze dias, dentro de um mez--e quando se discutiam
as bases d'essa publicao imprevista e fulminante, lembrmos que um
jornal, tal como o sonhavamos, desencadeando uma tormenta de paixes
populares, s poderia nascer e cobrir-se de gloria no Porto, que at
ento no dera grandes signaes de vida civica, mas que se nos
affigurava, pela sua tradico e pelas nossas supersties, o unico
centro de populao portugueza susceptivel de soltar o primeiro de
liberdade de que nos propunhamos ser os interpretes.

Lisboa, inada de uma populao heterogenea, disseminada n'uma grande
rea e dividida pelas opinies mais diversas, foi posta de parte, como
pouco propicia para o exito do nosso emprehendimento, e adoptou-se o
Porto com enthusiasmo e esperana. Estes dois homens no dispunham,
porm, de uma moeda de cobre que lhes permittisse acalentar to vasto
sonho, e, por outro lado, no tinham um nome que os auctorisasse a
lanar-se nas luctas politicas, em meio da confiana dos que iam ser
seus amigos e cumplices.


Apesar d'isso, Joo Chagas poz-se a caminho da capital do Norte,
alcanou o concurso do velho democrata Jos Sampaio (Bruno) e em breve
formou-se uma modesta empreza com o capital sufficiente para a fundao
da ambicionada gazeta. O primeiro numero da _Republica_--tal era o
titulo do novo jornal--sahiu a 18 de abril de 1890 e, embora esse e os
numeros seguintes traduzissem s claras o radicalismo das aspiraes do
seu director, a verdade  que o diario logrou pouca vida e pouco tempo
depois suspendia a publicao. Em setembro do mesmo anno, Joo Chagas,
recebendo o auxilio efficaz de tres democratas, Dyonisio dos Santos
Silva, Joaquim Leito e Alvarim Pimenta, voltou a insistir na creao
d'uma folha demolidora e fez sahir a _Republica Portugueza_, que acolheu
na sua redaco toda uma pleiade de velhos e jovens combatentes,
animados por egual do desejo de derrubar o regimen. O artigo de
apresentao inserto no primeiro numero dizia assim:


A obra d'este jornal ser inteiramente e desassombradamente
revolucionaria. Tanto vale dizer que ser um jornal de combate e
dir tudo o que fr mister:

a despeito da vontade pessoal do rei;

a despeito da tyrannia dos governos;

a despeito do odio e da antipathia dos homens e dos partidos que
exploram o paiz.


No primeiro numero da _Republica Portugueza_ tambem foram estampados os
retratos do rei e de dois dos ministros, precedidos d'estas palavras:
_Pelourinho: Os tres de Inglaterra_. Nos outros logares do jornal
explodia a incitao  revolta, usando-se d'uma linguagem que nunca at
ali fra empregada com tanta franqueza. D'aqui resultou o crear-se, pelo
estimulo do exemplo, uma atmosphera de decisiva batalha, que nem os
acontecimentos nem os homens haviam ainda preparado. Affirma-o Joo Chagas:


A revolta de 31 de janeiro pode attribuir-se em grande parte s
instigaes directas d'esse jornal, o qual, por seu turno, se veiu a
publico, no foi seno em virtude de circumstancias que no se
produziriam sem o conflicto diplomatico anglo-portuguez. Por isso
reputamos esse conflicto a causa unica do movimento revolucionario do
Porto, que, sem elle, nem encontraria meio idoneo em que se consumasse,
nem agentes que o provocassem. Dar-se-hia outro, mais tarde, e em outras
circumstancias. Esse no.


Na _Republica Portugueza_ collaboraram Jos Sampaio (Bruno), Julio de
Mattos, Basilio Telles, Latino Coelho, Elias Garcia, Gomes Leal,
Heliodoro Salgado e, o que  mais interessante fixar, varios officiaes
do exercito--um dos quaes, em servio na guarda municipal, teve um dia
ensejo de ver querellada a sua prosa. A par d'essa collaborao,
logo que a _Republica Portugueza_ viu a luz da publicidade, arremettendo
violentamente contra as instituies, appareceram um sem numero de
communicaes sob a forma de cartas e manifestos, de soldados, cabos e
sargentos da guarnio portuense, a principio, depois de militares das
guarnies da provincia, por ultimo de officiaes de todas as graduaes
j do Porto j de Lisboa. E os que as enviavam ao jornal faziam-no de
modo to explicito que, em certa altura, houve necessidade de destruir
uma boa parte da papelada, receiando-se que ella cahisse em poder dos
defensores do regimen e collocasse os signatarios em situao
compromettida. Como amostra da linguagem empregada n'esses documentos,
damos a seguir o trecho d'uma carta enviada n'essa occasio  _Republica
Portugueza_ por um grupo de officiaes transmontanos:


_Camaradas: A me-patria agonisa.  preciso que seus filhos a salvem sem
demora, porque a sua salvao  do nosso dever. Salvemos a patria
proclamando a Republica. Camaradas: No ha tempo a perder._


D'aqui se deprehende facilmente que os acontecimentos de janeiro de 1890
no tinham apenas perturbado a massa generosa do povo, mas egualmente o
exercito, que se sentira molestado nos seus brios. Como toda a nao, o
exercito reclamava o desaggravo. E esse estado de animos no se revelava
simplesmente nas communicaes dirigidas  _Republica Portugueza_, mas
tambem em dois orgos da classe militar, o _Sargento_ e a _Vedeta_, que
deram  imprensa democratica um forte contingente para a sua propaganda
subversiva. O _Sargento_, por exemplo, exclamava com uma audacia que ia
a todo o genero de infraces disciplinares:

O exercito aguarda o plebiscito da nao, sem as restrices, as
formulas e os sophismas constitucionaes; o plebiscito dos cidados
livres e honrados na urna livre e honrada; o plebiscito de protesto e da
representao nos comicios; ou o plebiscito da revoluo nas barricadas.

O povo  o poder legislativo; o exercito  o poder executivo. O povo 
a vontade; o exercito  a aco. O povo  a soberania; o exercito  a
fora. O exercito no  uma guarda de suissos; o exercito no  uma
casta. O exercito  a nao armada e  a democracia armada.


A linguagem da _Vedeta_ no era menos arrojada e expressiva. A irritao
na classe militar augmentava de dia para dia, e porque o governo de
Hintze Ribeiro, sempre cuidadoso de rodear o throno do maior numero de
garantias, entrara a valer no caminho das represses, transferindo
officiaes e mandando para o servio do cordo sanitario, que ento
guarnecia a fronteira, certos contingentes de corpos suspeitos de
rebeldia. Por outro lado, em agosto, o mesmo governo apresentava ao
parlamento o tratado com a Inglaterra e esse novo acto de vergonhosa
submisso ante a _fiel alliada_, longe de acalmar os espiritos, aguara
extraordinariamente as ideias revolucionarias.

A medida ia a trasbordar... N'uma noite d'aquelle mez, um grupo de
segundos sargentos e cabos de infantaria e caadores, sem que a sua
_dmarche_ correspondesse a qualquer trabalho previo de alliciao,
apresentou-se na redaco da _Republica Portugueza_ e um d'elles,
Annibal Cunha, formulou o plano da rebellio. Tratava-se de fazer sahir
infantaria 18, para o que diziam contar com o apoio de grande numero dos
seus camaradas, depositando antecipadamente na alameda da Lapa, proxima
do quartel, uma certa quantidade de espingardas de velho typo,
existentes na arrecadao do regimento. As espingardas serviriam para
armar os cidados que fosse possivel ligar  aventura.

Exposto o plano, o grupo prometteu voltar ao jornal e voltou, com
effeito, desferindo ento mais largos vos, ampliando a esphera do seu
emprehendimento. No era facil, porm, realisar na occasio qualquer
tentativa e, apoz acalorada discusso, foi decidido aguardar o regresso
ao Porto das tropas empregadas no cordo sanitario. Mas esse grupo,
tendo iniciado o contacto directo com os homens que propagavam pela
palavra e pela escripta o ideal republicano, no tardou que outros
militares o imitassem e, dentro de semanas, a redaco da _Republica
Portugueza_ passou a ser frequentada por dezenas de sargentos, cabos e
soldados da guarnio do Porto, todos dispostos a collaborar na obra da
revoluo. Quer dizer: o _complot_ militar formava-se e avolumava-se
gradualmente, espontaneamente, sem que os dirigentes da politica
democratica para elle houvessem contribuido com o mais insignificante
pedido de concurso.




CAPITULO IX

O dr. Alves da Veiga assume a chefia civil do movimento


Comtudo, tornava-se necessario acceitar as adheses que irrompiam cada
vez mais numerosas e inflammadas e canalisal-as, dando-lhes orientao
perfeitamente definida. Joo Chagas e a redaco da _Republica
Portugueza_ procuraram entender-se, para tal effeito, com o dr. Alves da
Veiga, que ao tempo gosava no Porto da situao d'um chefe de
partido e dividiram com elle as responsabilidades da conspirao. At o
momento, os republicanos do Porto tinham-se limitado, na espectativa dos
acontecimentos, a agitar a opinio por meio da imprensa e dos clubs; o
directorio do partido, presidido por Elias Garcia, procurra iniciar um
movimento egualmente de caracter militar e delegra em Basilio Telles o
encargo de o secundar na capital do Norte. No emtanto, como de todos os
republicanos portuenses o dr. Alves da Veiga era o que dispunha de maior
actividade organisadora, foi elle que desde logo assumiu a chefia civil
da conspirao, continuando Basilio Telles a operar de concerto com o
directorio, extranho em absoluto a esta primeira phase dos
acontecimentos. E assim, em setembro de 1890, lanando mos  obra, o
illustre jurisconsulto preparou nas provincias do Norte diversos
_comits_ revolucionarios que deviam secundar, no ensejo propicio, a
iniciativa do Porto.

[Ilustrao: Capito Leito (1891)]

Restava encontrar quem reunisse  sua volta, e os estimulasse, os
elementos de lucta que se offereciam constantemente  redaco da
_Republica Portugueza_. Lanou-se os olhos sobre a figura gigantesca
de Santos Cardoso e o famoso director d'um semanario de combate--que se
propunha pr as calvas a descoberto--embora soffrendo d'uma reputao
pouco cuidada, appareceu immediatamente como o homem de aco capaz de
aggremiar os officiaes inferiores da guarnio do Porto que se
entregavam  causa da revolta. E assim succedeu. A casa de Santos
Cardoso passou a ser o centro da conspirao dos sargentos. Mas o
director da _Justia Portugueza_, no contente com isso, quiz ir mais
longe. Principiou a dirigir-se a varios officiaes, solicitando a sua
adheso e a corresponder-se com o directorio, de quem recebia
communicaes e mais tarde lhe conferiu um voto de confiana.


Em 17 de setembro, deu-se no Porto a unica manifestao tumultuosa que
precedeu na capital do Norte a revolta de 31 de janeiro. A sua
iniciativa partiu d'um grupo de estudantes, entre os quaes se contavam
Alberto de Oliveira e Eduardo Arttayette. Comeou no caf Suisso, na
praa de D. Pedro. Pouco antes, tinham sido queimados  porta do
estabelecimento varios jornaes do governo--como protesto contra a
apresentao do tratado de 20 de agosto--e davam-se vivas  Patria e
morras  Inglaterra, quando entrou no caf o antigo republicano
Felizardo de Lima. Resoou uma enthusiastica salva de palmas, o estudante
Ernesto de Vasconcellos fez um discurso caloroso e alguem soltou este
grito:

--Para a rua!

Os manifestantes sahiram em massa do estabelecimento e encaminharam-se
para a rua dos Clerigos, tendo  frente, entre outros, Joo Chagas e o
dr. Julio de Mattos. O cortejo comprehendia individuos de todas as
classes sociaes e atroava os ares com vivas, morras e ruidosas salvas de
palmas. Dos Clerigos, os manifestantes foram  Cordoaria. Depois, em
frente da Relao, o estudante Eduardo de Sousa fez um discurso e o
cortejo encaminhou-se para a rua das Taypas, produzindo novas e
estrepitosas demonstraes deante do quartel de caadores 9.  porta e
s janellas do quartel appareceram muitas praas agitando os _bonnets_.
Da rua das Taypas, os manifestantes dirigiram-se  rua do Triumpho,
entoando a _Marselheza_ e a _Portugueza_, ento muito em voga. Em frente
do quartel de infantaria 10 reproduziram-se os applausos ao exercito e o
cortejo seguiu para a rua do Pombal, parando junto d'uma das casas
d'essa rua a acclamar o dr. Alexandre Braga, pae do illustre causidico
do mesmo nome. Alexandre Braga, assomando a uma janella, falou ao povo,
affirmando-lhe estar orgulhoso por encontrar nos moradores do Porto a
sua altiva e tradiccional energia.

A manifestao seguiu depois ao campo de Santo Ovidio, parando em varios
pontos do percurso para ouvir improvisados oradores. Um d'elles disse:

--O Porto precisa provar que ainda no perdeu o segredo das revolues.

No campo de Santo Ovidio, as demonstraes patrioticas attingiram o
delirio. Alguns officiaes de infantaria 18 vieram at junto da multido
pedir-lhe cordura. A seguir, a manifestao desceu pela rua do Almada e,
voltando  Cordoaria, passou pelo quartel da guarda municipal.
Immediatamente sahiu d'ali uma fora de cavallaria e, carregando sobre a
multido, que se refugiou no jardim, dispersou-a. Alguns individuos
responderam  pedrada, houve gritos subversivos e na refrega um
estudante ficou ferido nas costas. Reconcentrando-se, os manifestantes
desceram  rua dos Clerigos e vieram para a praa de D. Pedro. Ahi, os
soldados da guarda municipal, cravando as esporas nos cavallos,
carregaram novamente sobre o povo, acutilando-o a torto e a direito,
mettendo toda a gente debaixo das patas dos animaes, varrendo no s a
praa mas as ruas circumvisinhas e ferindo e prostrando grande numero de
pessoas. Os cafs do local foram logo fechados por ordem da policia.
Muitos feridos receberam curativo no hospital da Misericordia. No dia
immediato, a cidade reentrou no socego habitual; mas todos esses
incidentes que acabamos de relatar foram a origem d'uma nova excitao
que aggravou a que j fundamente lavrava e havia de resolver-se no
movimento de 31 de janeiro.


Entretanto, os trabalhos para a organisao do _complot_ progrediam a
olhos vistos. Os organisadores j contavam com o concurso de varios
officiaes e porque alguns d'elles tinham apparecido nas redaces dos
jornaes republicanos, decididos, pelo menos na apparencia, a contribuir
para a derrocada da monarchia. E se  certo que no momento em que
rebentou a revolta, apenas tres d'elles conseguiram justa evidencia, a
verdade  que durante o periodo preparatorio da conspirao o numero de
officiaes que n'elle intervieram contavam-se por dezenas. Cada corpo da
guarnio do Porto, sem excluso da guarda municipal, dava, pelo menos,
um contingente de tres officiaes, cujos nomes circulavam entre os
conspiradores e eram quasi do dominio publico. Os mais graduados eram
capites. Por outro lado, nas provincias, onde Alves da Veiga organisara
_comits_ civis e militares, estes garantiam-lhe a sua plena adheso. O
commandante d'uma das foras aquarteladas no Porto compromettia-se a
adherir ao movimento caso no recebesse ordem em contrario do quartel
general. Santos Cardoso affirmava a todo o momento que o major Graa,
da guarda municipal, e que mais tarde havia de desempenhar um papel
decisivo na insurreio, mas para a suffocar, estava ao lado dos
revoltosos.

Nos quarteis, entre os officiaes, era corrente que se conspirava. As
noticias do facto transpiravam dia a dia e invadiam abertamente a
opinio. Nos cafs do Porto no se falava n'outra cousa e os agitadores
no se occultavam ao solicitar para a causa a adheso de novos
elementos. Crescia-se em audacia. Todos suppunham e se convenciam que
caminhavam realmente para um exito seguro. Joo Chagas, j na cadeia da
Relao, a cumprir a sentena imposta por um delicto de imprensa,
escrevia n'um artigo inserto na _Republica Portugueza_:


Estou convencido a serio, porque perteno ao grande numero dos
indisciplinados republicanos que querem a Republica--de que uma
revoluo se far dentro em breve, a mais nobre, a mais generosa, a mais
sympathica de quantas revolues tem tentado um povo offendido, em nome
da sua dignidade e da sua honra.

Quero-a, desejo-a, promovo-a e d'isso me ufano. Com a minha consciencia
vivo na mais perfeita beatitude. Da minha intelligencia fao o uso mais
nobre. Estou tranquillo por mim, porque pratico uma boa aco. Como
convencional, fiz commigo proprio um pacto que vae desde a liberdade 
morte. Ao servio da minha causa puz todo o meu pensamento, todo o meu
sentimento, toda a minha aco. Quero, pois, a Republica por vingana,
por odio e por dignidade. Dias viro, cheios de alternativas, dias de
orgulho, talvez dias de infortunio--quem sabe?

 todo um mundo a fazer!  toda uma sociedade a reformar! Vivemos sobre
lama. Os ps enterram-se-nos no solo. Quanto esforo, quanto trabalho,
quanta coragem para consolidar o cho que nos foge!... Pois bem!
Batidos, vencidos, eu, ns, os meus companheiros de combate,
recomearemos em qualquer ponto onde estejamos, aqui ou na terra
estrangeira, dando o nosso sacrificio pessoal, entregando a nossa
felicidade, a nossa vida  causa da patria e da liberdade. A opinio e a
historia condemnaro os que prevaricarem e, se algum de ns os julgar um
dia, dir inexoravelmente como Manoel falando do rei de Frana: Um
traidor de menos, no  um homem de menos.


As idas de revolta inflamavam todos os coraes. Os estudantes das
escolas do paiz que j se tinham offerecido ao governo para constituir
um batalho voluntario que fosse  Africa combater os inglezes e se
tinham visto recusados, entravam resolutamente no vasto campo da
rebellio. A mocidade academica de Coimbra, posta em contacto com os
revolucionarios do Porto, aprestava-se a tomar parte na lucta em
vesperas de travar-se. O grupo revolucionario academico--sessenta e
tantos estudantes--organisara-se secretamente e reunia-se para
exercicios de espingarda Kropatschek com o concurso dos sargentos de
infantaria 23. Formavam-se novos clubs republicanos. Nos logares os mais
publicos exhibiam-se opinies revolucionarias. De toda a parte affluiam
exhortaes e incitamentos em telegrammas e em bilhetes postaes. Todos
pediam que o movimento se iniciasse quanto antes. A impaciencia era
flagrante e, mal contida, expressava-se nos menores actos dos
conspiradores.

Alves da Veiga, tomando o pulso  agitao, ponderando os trabalhos at
ento realisados e reconhecendo que o movimento necessitava  sua frente
d'um chefe militar prestigioso, abalanou-se a procurar esse official e
conseguiu a promessa formal do general Sebastio Calheiros, ento
residente em Vianna do Castello. Resolvido o problema, obtida assim
uma direco certamente efficaz no instante da revolta, aquelle official
poz-se a caminho de Lisboa, decidido a arranjar collaboradores, que o
auxiliassem em semelhante empreza. O contacto do general Calheiros com
varios dos elementos republicanos residentes na capital do paiz
prejudicou o bom andamento das cousas revolucionarias...  tempo de
descrever aos leitores, como esse facto, e outros que se lhe seguiram,
entravaram o movimento, tirando-lhe ao mesmo passo o caracter d'uma
aco conjuncta da democracia portugueza.




CAPITULO X

O Directorio recusa a sanco official  revolta


No mez de setembro de 1890, quando a redaco da _Republica Portugueza_
j concentrava um numero bastante regular de sargentos conspiradores, o
partido republicano soffreu uma dissidencia profunda. D'um lado ficou
Elias Garcia, congregando  sua volta toda a parte conservadora do
partido; do outro surgiu o tenente de caadores Homem Christo, com todos
os radicaes. O conflicto devia ter soluo no congresso annunciado para
janeiro de 1891 e no qual os dois grupos travariam a batalha decisiva.
Apesar da dissidencia, porm, os republicanos do Porto continuaram a
entender-se com Elias Garcia, pois que este, como j tivemos ensejo de
referir, tambem trabalhava na organisao d'um movimento de caracter
militar e o seu delegado na capital do Norte, Basilio Telles, prestava
rasoavel concurso  actividade de Alves da Veiga. Santos Cardoso, por
seu lado, entrara na intimidade d'outros vultos em evidencia como
Bernardino Pinheiro e Theophilo Braga.

Em dezembro, Homem Christo, que no via com bons olhos a chefatura de
Elias Garcia e o contrariava em tudo que parecesse dimanar da sua
resoluo pessoal, procurou-o e fez-lhe sentir a inconveniencia do
Directorio secundar a _sargentada_ do Porto. A revolta de sargentos,
dizia elle a Elias Garcia, se vingar, vae ser funesta  disciplina do
exercito; mas no vinga, porque lhe falta o elemento intelligente e de
coheso. Depois, logo a seguir, convidado por Jacintho Nunes, foi ao
Porto estudar a situao. No Porto, Homem Christo procurou Alves da
Veiga e Rodrigues de Freitas, mas no lhes poude falar. Jacintho Nunes
propoz-lhe ento uma conversa com Santos Cardoso. Homem Christo recusou,
porque odiava fundamente o director da _Justia Portugueza_, mas depois
consentiu em procural-o, para averiguar at que ponto eram authenticos
os trabalhos revolucionarios. O encontro d'esses dois homens  assim
relatado por Joo Chagas, que foi quem apresentou Homem Christo e
Jacintho Nunes a Santos Cardoso:


A entrevista no teve o menor effeito na obra que estava em via de
realisar-se e passal-a-hiamos em claro se o facto de termos assistido a
ella no nos permittisse formular uma impresso exacta da situao
reciproca dos dois homens--Santos Cardoso e Homem Christo--n'esse
curioso lance, mais tarde exposto e discutido nos tribunaes e na
imprensa. Homem Christo entrou em casa de Santos Cardoso munido de todas
as prevenes que o indispunham contra o director da _Justia
Portugueza_. Por seu turno, Santos Cardoso recebeu-o como a um inimigo.

[Ilustrao: Uma carga de cavallaria.]

A memoria no nos soccorre de forma a podermos reproduzir, dez
annos volvidos, os termos exactos d'essa conferencia; mas a impresso
que nos deixou e que subsiste no nosso espirito  de que foi um acto
sobre o qual pesou uma profunda e mal contida irritao. Santos Cardoso,
com o seu ar fanfarro de desafio e Homem Christo, com o seu duro e
implacavel desdem, estavam destinados a no entender-se. E foi o que
succedeu.

Como o director da _Justia Portugueza_, pallido, mas affectando
serenidade, a cofiar largamente a sua vasta pera, entrasse de enumerar
com aparato aquellas foras de todas as proveniencias, que j reputava
solidamente ao servio da revoluo, Homem Christo entrou, por seu
turno, de dar evidentes mostras de impaciencia, menos talvez porque
estivesse ali o homem que elle detestava, seno porque n'esse homem
detestado via o paisano a mover soldados, que de todo o tempo irritou o
espirito dos militares profissionaes. No era realmente irritante que
aquelle adventicio, alheio a todo o saber e a todos os interesses
militares, se permittisse a impertinencia de dar sentenas a um militar
de profisso, sobre o que fossem regimentos, batalhes, companhias,
officiaes, soldados, parecendo ter a preteno de usurpar com o seu
desplante a soberania dos chefes militares n'esse movimento feito por
sargentos que elle j parecia commandar?

Na sua cegueira, embriagado com o que suppunha j a sua obra e com o
proprio ruido das suas palavras, Santos Cardoso no comprehendia at que
ponto se tornava antipathico ao seu interlocutor. E proseguia
inexgotavelmente, enunciando regimentos, guarnies, nomes de
officiaes... Friamente, como quem se vinga, Homem Christo impoz  sua
total ignorancia uma sabbatina cruel, reduziu-o a confessar-se em erro,
em equivoco, em mentira. Santos Cardoso embrulhava-se, mettia os ps
pelas mos, j se agitava na sua cadeira, como procurando romper. 
certo que, finda essa penosa entrevista, Homem Christo o tivesse
maltratado, atirando-lhe ao rosto o epitheto de imbecil? No o
recordamos e no cremos que essa palavra tivesse sido pronunciada em
termos d'elle a ouvir. Os dois homens despediram-se mesmo com cortezia.
O que recordamos com preciso  que, j na rua, Homem Christo disse:
Vou ali falar com alguns rapazes e que, poucas horas depois, como
tornassemos a encontral-o, accrescentou: Isto no est to mau como eu
pensava.


D'ahi a alguns dias, como houvesse no Porto apprehenses sobre o valor
do apoio que o Directorio dispensava ao movimento, Joo Chagas foi
incumbido de ir a Lisboa falar a Elias Garcia. Encontrou-o no Hotel
Atlantico, mas o chefe republicano, cauteloso e previdente, no quiz
desde logo sujeitar-se  conversa sobre to melindroso assumpto e,
rasgando em duas metades um carto de visita, entregou-lhe uma d'ellas
dizendo:

--s 8 horas, alguem lhe apparecer com a outra metade d'este carto. 
pessoa de confiana. Pode seguil-a.

s 8, com effeito, um emissario discreto conduzia Joo Chagas ao
Directorio, que estava reunido em casa de Bernardino Pinheiro e, uma vez
junto d'esse democrata, de Elias Garcia, Theophilo Braga e Sousa
Brando, o director da _Republica Portugueza_ constatou que nenhum
d'esses homens hostilisava o movimento. Pelo contrario. A uma pergunta
directa de Joo Chagas, o Directorio respondeu que trabalhava para
secundar a revolta do Porto. E no fim, apoz animada conversa, ficou
assente que o general Sousa Brando iria pessoalmente ao Norte
inteirar-se, _de visu_, da situao--o que fez, na realidade,
encontrando-se ali com os mais importantes elementos da conjura.


Em principios de janeiro reuniu em Lisboa o congresso do partido e
os amigos de Homem Christo triumpharam dos de Elias Garcia. O novo
Directorio, dias depois de eleito, fez circular pelo paiz um vigoroso
manifesto em que parecia dar alento aos revolucionarios, apontando-lhes
como unico caminho a seguir, perante o descalabro da monarchia, a
execuo immediata do plano da conjura. No estado actual da crise
portugueza--dizia uma passagem do manifesto, que era acompanhado d'um
novo programma partidario--s existe uma soluo nacional, pratica e
salvadora: a proclamao da Republica. S assim acabaro os interesses
egoistas que nos perturbam e vendem, s assim apparecer uma gerao
nova capaz de civismo e de sacrificios pela Patria. Mas, quasi a
seguir, o Directorio mostrou-se como que cheio de remorsos por haver
expendido doutrina to francamente revolucionaria e, dedicando-se a
entravar os progressos, j inilludiveis, da conspirao do Porto, fez
publicar em 25 de janeiro uma circular em que dizia sem disfarce:


Prevenimos os nossos correligionarios para que abandonem ao seu
isolamento egoista qualquer grupo perturbador que anteponha  magestade
dos principios o fetichismo de personalidades e aos interesses da
propaganda as vantagens dos lucros economicos.


E concluia:


Aproveitamos este ensejo para lembrar s dignas commisses a
necessidade de se proceder aos trabalhos do recenseamento eleitoral; e,
ao mesmo tempo, que todas as combinaes importantes para a vida do
Partido sero communicadas e estabelecidas por um enviado especial do
Directorio, evitando assim as intervenes discricionarias de
individualidades sem mandato, que enfraquecem toda a auctoridade.


A circular visava, como se comprehende, a tirar aos conspiradores do
Porto qualquer sombra de auctoridade official. E para que no restasse
duvidas sobre a sua significao, no dia 27, os _Debates_ publicavam um
artigo de Homem Christo, intitulado _Uma preveno_, em que se attribuia
ao movimento o caracter d'uma _pavorosa_ urdida pelo governo e se
exclamava:


Acautelem-se, pois, os republicanos com essas manobras. Revolues
fazem-se. No se dizem, nem se apregoam. Quando se dizem e quando se
apregoam, ou  desconchavo que faz rir, ou armadilha lanada aos
ingenuos e simples do mundo. E como ha muito ingenuo e muito simples,
sempre  preciso cuidado com taes armadilhas e artes de tratantes.
Cautela, pois.


Homem Christo vingava-se de Santos Cardoso e outras personalidades
implicadas no movimento, mas que lhe eram antipathicas, aggredindo-as
por essa forma indirecta e pretendendo _furar_ as probabilidades de
exito que, porventura, caracterisassem o projecto de revolta. Antepunha
 questo do partido uma questo de mero odio pessoal. E a esta
sacrificava tudo, indo at  denuncia publica e formal do que se tramava
na capital do Norte.




CAPITULO XI

A crise ministerial dos vinte e sete dias


Retrogrademos um pouco at  apresentao ao parlamento do tratado
anglo-luso. Este documento, tendo sido publicado no _Diario do
Governo_ em fins de agosto de 1890, levantara, como j dissmos n'outro
ponto, enorme grita de hostilidade. Os jornaes da opposio
classificaram-n'o acto continuo de: certido de obito passada por um
diplomata funebre a uma nao narcotisada por dois seculos de jesuitismo
e de inquisio e esterilisada por pouco mais de meio seculo d'um
constitucionalismo dissolvente e desmoralisador. Pela essencia do
tratado, Portugal no podia alienar os seus territorios africanos sem
previo consentimento da Inglaterra.

As associaes mais importantes da capital pronunciaram-se altivamente
contra a ratificao de semelhante hypotheca feita  Gr-Bretanha.
Convocaram-se comicios em diversas cidades do paiz, houve mesmo um no
Porto presidido pelo africanista Alvaro de Castelles, em que os
oradores, alguns monarchicos, tonitruaram contra o negociador do
tratado, o sr. Barjona de Freitas; de modo que no dia em que o ministro
Hintze Ribeiro se aprestou a ler o respectivo texto  camara dos
deputados, a esquerda parlamentar acolheu as suas primeiras palavras com
uma enorme pateada. A esta manifestao da esquerda corresponderam
ligeiras manifestaes das galerias e a maioria rompeu em invectivas
contra a opposio, despedindo-lhe phrases como estas:

--Fra pulhas!...

--Isso  indecente!...  de canalhas!

A opposio recrudesceu na gritaria e o tumulto generalisou-se. Serpa
Pinto, que era deputado governamental por Lisboa, subindo a uma coxia,
interveiu, clamando com intimativa:

--Nem mais uma palavra aqui, nem mais um pio!

--O que? O que diz? perguntou-lhe o padre Alfredo Brando.

Serpa Pinto replicou:

--Nem mais um pio, sou eu que o digo.

O reverendo agarrou ento o heroe pelas orelhas, sujeitando-o nos seus
dedos de ferro e a desordem tomou por momentos propores inenarraveis.
Restabelecida a calma, o tratado foi enviado s commisses incumbidas de
lhe dar parecer. Naufragara decisivamente por effeito do tumulto
parlamentar.


Ao cahir da tarde, esse tumulto repercutiu-se, sangrento, nas ruas de
Lisboa. O povo, que se agglomerara durante o dia no largo das Crtes,
encaminhou-se ao terminar a sesso para os lados da Esperana. A policia
quiz dispersal-o e effectuou uma priso que foi mal recebida pela grande
massa. Tanto bastou para que os guardas cahissem  cutilada sobre os
populares, travando-se lucta renhida, pois a multido resistiu
corajosamente  ferocidade dos janizaros. A policia, por fim,
refugiou-se na esquadra de S. Bento, em frente das grades do largo das
Crtes e d'ali disparou os revolvers sobre o povo, ferindo alguns
individuos e matando o operario fundidor Carlos Franco (_Antonio
Pardal_). O cadaver do infeliz foi transportado  casa mortuaria da
Misericordia e o povo acompanhou-o em cortejo dorido, convidando toda a
gente que encontrava no percurso a descobrir-se ante o martyr
sacrificado s iras governamentaes.

No dia seguinte declarava-se a crise ministerial. Por espao de vinte e
sete dias, a cora recorreu a todos os expedientes afim de constituir o
novo gabinete. Pretendia-se que o momento era azado para experimentar os
politicos que no pertenciam  rotao constitucional. De Roma veiu a
toda a pressa o sr. Martens Ferro, mas nada conseguiu fazer. A situao
era grave, confessavam-n'o os proprios jornaes monarchicos. Estamos
 merc d'um movimento popular, que pode rebentar d'um instante para
outro e porque a irritao publica augmenta a olhos vistos. Chegou-se a
aventar a subida ao poder d'um ministerio de concentrao, de que
fizessem parte representantes do partido republicano. A propria imprensa
democratica quasi que intimava os seus adeptos a tomarem conta das
pastas vagas. No estrangeiro a Republica Portugueza annunciava-se para
breve como um facto previsto, indiscutivel.

A 18 de setembro repetiram-se os conflictos populares. Apoz um incidente
motivado pela policia, no largo de Cames, de dois garotitos
inoffensivos, uma fora da guarda municipal parou em frente do Caf
Martinho, onde abancavam estudantes, jornalistas, militares, deputados,
gente, emfim de todas as classes, e sem previo aviso desfechou sobre
aquella mole desarmada, causando um mixto de panico e de colerico
assombro nas victimas de semelhante surpreza. Depois, a mesma fora
andou em correrias selvagens pela avenida da Liberdade e arterias
proximas, espancando quem encontrava desprevenido. Quer dizer: apesar de
demissionario o gabinete regenerador, os serventuarios do regimen
recorriam ao emprego da brutalidade e da selvageria para aterrorisar o
povo e impedir o mais ligeiro gesto de censura ao regimen.

Por fim, a crise ministerial foi resolvida com a constituio d'um
gabinete extra-partidario da chefia do general Joo Chrysostomo e em que
eram ministros: da guerra, o presidente do conselho; do reino, Antonio
Candido; da justia, S Brando; da fazenda, Mello Gouveia; da marinha,
Antonio Ennes; das obras publicas, Thomaz Ribeiro; dos estrangeiros,
Barbosa du Bocage. Mas esta soluo dada pela cora  situao politica
do momento no logrou aquietar os animos e as primeiras providencias
decretadas pelo novo governo nada mais conseguiram do que intensificar
os odios que o throno j concitra  sua volta, e no paiz inteiro.

[Ilustrao: Rodrigues de Freitas (1891)]

Iniciaram-se perseguies  imprensa e, para dar satisfao s
reclamaes inglezas sobre a rejeio do tratado de 20 de agosto,
approvou-se um _modus-vivendi_, pelo qual Portugal concedia 
Gr-Bretanha a liberdade de navegao no Chire e no Zambeze. Pela mesma
poca fundou-se a chamada _Liga Liberal_, partido em que preponderou o
sr. Augusto Fuschini e que teve uma aura de sympathia, dadas as suas
apparencias revolucionarias. Falhou quasi a seguir, porque no passava,
afinal, d'uma liga de concentrao de interesses conservadores. No
emtanto, a agitao popular ia crescendo, crescendo sempre, a
conspirao do Porto alargava mais e mais a importancia e o numero de
adheses e nos fins de dezembro de 1890 j se perguntava sem disfarce e
em voz alta quando rebentava a revolta. A mocidade das escolas fremia de
impaciencia e de indignao. Guerra Junqueiro publicara o seu _Finis
Patri_ e as estrophes da bella poesia resoavam a todos os ouvidos como
notas vibrantes d'um canto guerreiro.

Em certa altura, Alves da Veiga apresentou-se em Lisboa e, s
advertencias do novo Directorio, que lhe fez sentir a inopportunidade do
movimento em plena preparao effervescente, respondeu que da melhor
vontade se esforaria por addial-o, mas que tal empreza no era facil,
porque a excitao dos elementos militares portuenses no admittia
delongas. E, a comprovar-lhe a affirmativa, deu-se um facto que marcou
por assim dizer a data da revoluo, apressando-a, ou melhor,
precipitando-a. Referimo-nos a uma reunio de sargentos da guarnio do
Norte, effectuada a 24 de janeiro de 1891, n'uma casa da rua do
Laranjal. Essa reunio foi provocada por um acto do ministro da guerra,
que descontentou sobremaneira a classe. Os sargentos vinham desde muito
reclamando, por intermedio do seu orgo especial, contra a forma de
promoo; e as suas reclamaes assumiram feio mais aggressiva, quando
a ordem do exercito publicada em 17 de janeiro de 1891 inseriu a
promoo ao posto de alferes de trez aspirantes,--promoo contraria 
lei, visto que por ella deviam beneficiar dois aspirantes e um 1.
sargento.

O orgo da classe transpareceu logo esse descontentamento e um grupo de
sargentos da guarnio do Porto divulgou um protesto em que se dizia com
toda a clareza:


Camaradas!

Ns temos sido a pella de brinquedo dos governos nos ultimos tempos e o
nosso bom nome clama com energia para que termine este ultrage. Ha pouco
era um ministerio que, tendo-nos constantemente illudido com a promessa
de augmento de vencimento, s quando foi invadido pelo terror da agonia
 que se lembrou de que ns podiamos ser seu sustentaculo, e por isso
tentou corromper-nos, sacudindo nas nossas faces as migalhas da
toalha do oramento. Agora  um gabinete presidido por um general,
que ns ingenuamente consideravamos nosso protector, nosso amigo
solicito e desvelado, que, tendo-nos promettido a escala de promoo por
antiguidade do curso, se curva ante as exigencias de uma aggremiao
politica em que militam muitos officiaes da arma scientifica,
respondendo com despreso  nossa ardente... e jubilosa expectativa.

Unamo-nos todos: que haja uma s voz, um s pensamento, uma s vontade!
S assim nos poderemos vingar impondo a nossa fora e fazendo prevalecer
os nossos direitos contra a perfidia dos nossos _amigos_. Desviemos os
olhos d'este monturo pestilento, que exhala miasmas que nos asphyxiam e
volvamol-os para a alvorada que desponta no horisonte social... Tomemos
as armas nas mos, e com f e enthusiasmo saudemos o futuro, que elle
minorar a nossa sorte ingrata.


Ao mesmo passo, tres sargentos-ajudantes da guarnio de Lisboa redigiam
e faziam imprimir a minuta d'uma petio que enviaram a todos os corpos
de infantaria e caadores, a fim de ser assignada individualmente pelos
1.os sargentos d'esses corpos e remettida ao parlamento. A petio
solicitava que a promoo continuasse a ser regulada na razo de um
tero das vacaturas que occorressem no posto de alferes.

Recebido no Porto esse documento, os sargentos da guarnio
apressaram-se a reunir para o apreciar.




CAPITULO XII

E as armas que nos foram entregues para defeza das instituies,
voltal-as-hemos contra ellas


 reunio na casa da rua do Laranjal--casa habitada por um individuo da
intimidade de Santos Cardoso--presidiu o alferes de caadores 9, Simes
Trindade, homem da absoluta confiana da classe e que com ella cooperava
no movimento da revolta. Mas os sargentos presentes, no se contentando
com o subscreverem individualmente a petio enviada de Lisboa, foram
mais longe: approvaram a minuta d'um verdadeiro _ultimatum_, ameaando o
governo com a sedio caso elle no respeitasse a lei no tocante s
promoes. A ameaa continha entre outras esta phrase: ..._e as armas
que nos foram entregues para defeza das instituies voltal-as-hemos
contra ellas_.

O sargento-ajudante de infanteria 18 Arthur Ferreira de Castro, que
tambem tomara parte na reunio, conseguiu obter copia do documento e
entregou-o ao capito do mesmo regimento Alexandre Sarsfield, que, por
sua vez, o passou ao coronel Lencastre de Menezes. Estava denunciado o
proposito dos sargentos e no tardou que o ministerio da guerra, tendo
conhecimento minucioso do que se discutira na assembla da rua do
Laranjal e de posse de uma lista de officiaes inferiores que a ella
tinham assistido, desatasse a transferir quantos se lhe affiguravam
suspeitos de republicanismo.

Quer dizer: a traio do sargento-ajudante Arthur Ferreira de Castro no
s revelou ao governo a existencia da conspirao como, provocando as
immediatas represalias, contribuiu directamente para que os
revolucionarios apressassem a sua sahida e a levassem a cabo em
condies bastante tumultuarias. Sem a denuncia do sargento
Castro--affirma uma testemunha dos acontecimentos--os sargentos do Porto
no se teriam precipitado e a revolta, que se daria um mez ou dois mais
tarde, teria tido provavelmente um chefe militar, um estado maior bem
mais numeroso, um plano mais intelligente e, seguramente, uma maior e
mais vasta repercusso. No seria, ento, uma revolta: seria uma
revoluo, incendiando pelo menos metade do paiz e  qual era de
presumir que a outra metade adherisse, dada a disposio geral dos
espiritos para uma transformao politica, que um grande numero reputava
indispensavel e que os outros acceitariam sem protesto. Assim, foi um
homem, um homem s, obscuro, desconhecido, vindo do anonymato e da
treva, que subverteu a obra da redempo do anno de 91, entravando a
evoluo politica da nao, fazendo parar com seus fracos pulsos a ideia
que j se precipitava na gloria de um futuro talvez maravilhoso,
mergulhando--quem sabe?--a bella Patria portugueza na desesperao de um
incerto destino ou de um outro, porventura, funestamente irremediavel.

Ordenadas as transferencias de sargentos compromettidos no movimento,
todos elles foram procurar Santos Cardoso e instaram energicamente para
que se no addiasse por mais tempo a sua ecloso. Santos Cardoso
entendeu-se com o dr. Alves da Veiga e este, convencendo-se de que no
havia maneira de protelar a revolta embora inopportuna, tratou de, em
curto espao, ultimar os preparativos dando certa unidade aos elementos
que, fora do Porto, o deviam secundar no momento decisivo. Santos
Cardoso ainda tentou um derradeiro esforo junto dos sargentos mais
exaltados, mas estes, vendo nas evasivas do director da _Justia
Portugueza_ um receio injustificado, puzeram a questo n'estes
termos: Se no dia 30 de janeiro no resolverem fazer a revoluo,
sahiremos para a rua  frente dos soldados.

No havia que hesitar. No dia 30, Santos Cardoso e o dr. Alves da Veiga
decidiram o general reformado da arma de engenharia Correia da Silva a
tomar a direco do movimento, mas o general s acceitou o encargo at
ao momento em que algum official superior, em effectivo servio,
apparecesse a assumir o commando das tropas revoltadas ou ainda se os
officiaes que se apresentassem  frente d'essas tropas concordassem em
que fosse elle o chefe.

D'ahi a uma hora, effectuou-se uma reunio em casa d'uns parentes do
general, na rua de Malmerendas, reunio para que foram convocados todos
os officiaes adherentes e os individuos da classe civil destinados 
execuo do plano revolucionario.  mesma hora realisava-se n'uma casa
da rua da Alegria uma reunio de cerca de setenta sargentos e estes,
receiando que o general Correia da Silva opinasse pelo addiamento da
revolta, foram  rua de Malmerendas demovel-o d'esse proposito.

O general ouviu-os e, por fim, concordou-se em que o movimento
rebentaria na madrugada. Faltava discutir o plano revolucionario. Para
isso marcou-se nova reunio, s 10 da noite, na rua de Santa Catharina.
Talvez n'ella comparecesse maior numero de officiaes, visto que nem
todos os compromettidos tinham recebido o respectivo aviso e a primeira
reunio na rua de Malmerendas caracterisara-se pela falta de muitos
d'esses elementos.


Para aproveitar o tempo que decorria at se realisar essa reunio,
entendera o general, bem como o dr. Alves da Veiga, que fossem
procurados alguns officiaes de superior graduao, convidando-os a
comparecer em casa d'um conhecido negociante do Porto. Esses officiaes
eram o coronel, o tenente-coronel e um major de caadores 9, que se
recusaram a acceder ao convite. Lembrou-se, em vista da recusa d'estes,
o nome d'outro official, que, sem ter uma graduao superior, era
comtudo muito estimado entre os seus camaradas e gosava de um notavel
prestigio entre os seus subordinados. Este alvitre, porm, no foi
aceito; por consequencia, o general Correia da Silva ficaria, at
ulterior resoluo e dependendo isso das circumstancias occorrentes, com
o commando em chefe das tropas revolucionarias.


s 10 da noite, na reunio da rua de Santa Catharina compareceram apenas
o general, o dr. Alves da Veiga, Santos Cardoso, diversos civis, alguns
sargentos, o capito Leito e um alferes da guarda fiscal. Os outros
officiaes compromettidos no compareceram, ou, melhor, no foram
convidados a comparecer. Durante alguns instantes, o general e o capito
Leito discutiram o plano revolucionario. O primeiro entendia que as
tropas deviam concentrar-se na praa da Batalha e tomar desde logo posse
do quartel general, do governo civil e do telegrapho, cujos edificios
esto reunidos n'aquelle local. O capito Leito desejava que a
concentrao se fizesse no campo de Santo Ovidio e contrariava a
indicao do general, porque, dizia, os revolucionarios necessitavam
antes de tudo vencer uma difficuldade: a da sahida do quartel do
regimento de infantaria 18. A respectiva officialidade, quasi toda
residindo dentro do edificio, fra, decerto prevenida, do proposito dos
sargentos pela denuncia do traidor Castro e trataria de oppr-se a que
elles sublevassem as praas. Por conseguinte, s com a presena dos
outros corpos nas immediaes do quartel  que infantaria 18 poderia,
quebrando os laos da disciplina, cooperar na insurreio. Quanto ao
quartel general, os revoltosos contavam que o sargento commandante da
guarda o submetteria sem difficuldade.

O general Correia da Silva insistiu mais do que uma vez na superioridade
do seu plano estrategico, mas Santos Cardoso, collocando-se ao lado do
capito Leito, fez vingar a ideia de se effectuar a concentrao das
tropas no campo de Santo Ovidio. Assentou-se tambem em que alguns dos
civis presentes procederiam  deteno das auctoridades governamentaes,
mas com a condio de no exercerem sobre ellas a menor violencia, salvo
se isso se tornasse absolutamente indispensavel ao bom exito da causa.
Do mesmo modo se deveria proceder para com os officiaes que se no
solidarisassem desde logo com o movimento. Por ultimo: o general Correia
da Silva s seria chamado ao campo de Santo Ovidio, se depois das tropas
ali concentradas no apparecessem a commandal-as officiaes d'uma certa
graduao.

Dissolvida a reunio, o dr. Alves da Veiga e outros conjurados
encaminharam-se para a loja maonica o _Gremio Independencia_, d'onde
deviam lanar as ordens necessarias para a execuo do plano pouco antes
delineado. A essa hora, no Porto, a noticia de que dentro em pouco
rebentaria a revolta j se divulgara o bastante para que a maioria da
populao a no ignorasse. Mostra-o o depoimento do ex-tenente Coelho,
consignado no livro que escreveu de collaborao com Joo Chagas. Vamos
transcrevel-o, porque evidencia egualmente a precipitao com que,
chegado o momento decisivo, se tocou a reunir nos arraiaes revolucionarios:


Entrando o tenente Manuel Coelho, por um mero acaso, na noite de 30 no
Caf Central, que era ento um verdadeiro foco de conspirao, veiu
a saber que se preparava a revoluo para a madrugada immediata de 31 em
circumstancias que  conveniente registar. Depois de haver trocado
algumas palavras com um seu camarada, tomou assento a uma das mezas do
caf. D'ahi a pouco acercou-se-lhe o dr. Joo Novaes, que lhe disse:

[Ilustrao: Levantando os feridos]

--J sabes que a revoluo se projecta para a madrugada?

--No, respondeu-lhe; e at me surprehende muito a noticia, porque o
capito Leito me viu no quartel e de nada me falou.

--Pois toda a gente diz isso ahi  bocca cheia. Sabem-n'o todos, at
mesmo a policia.

--No sei de nada, e quer-me parecer que, se a noticia tivesse algum
fundamento, certamente eu teria sido procurado.

--Tens razo, com effeito, replicou o dr. Joo Novaes; mas corre o
boato com tal insistencia que me parece que elle tem fundamento. Mas
eu vou j sabel-o; vou falar ao dr. Alves da Veiga.

O dr. Joo Novaes sahiu. Pouco depois entravam no Caf Central o
tenente da cavallaria 6 Vaz Monteiro, destacado no Porto, e o tenente
Margarido de cavallaria da guarda municipal. Aquelle veiu immediatamente
sentar-se junto de Manuel Coelho, acercando-se de ambos este ultimo,
que, logo depois de cumprimentar, disse:

--Ento sabes o que para ahi corre?... Diz-se que n'esta madrugada se
vae fazer uma revoluo republicana.

--No ouvi ainda falar de tal.

E a rir replicou:

--Ah! que tu tambem ests compromettido!

--No, no sei de nada, podes crr...

E explicou que, se sabia a noticia, era por causa do impedido d'um
official de infantaria 18 que o dissera no quartel a outras praas
d'aquelle regimento. Passados momentos, entrava de novo o dr. Joo
Novaes, que aproveitou o ensejo para dizer que, com effeito, estava
plenamente confirmado o boato e que o dr. Alves da Veiga lhe affirmara
que a revoluo se iniciaria s 3 horas da manh, com a sahida dos
corpos revoltados. Entretanto, iam conversando Manoel Coelho e os
tenentes Vaz Monteiro e Margarido, em assumpto differente d'aquelle que
primeiro abordaram.

Eram j dez e meia da noite e os freguezes do caf comeavam a rarear.
Preparava-se Manuel Coelho para sahir, quando notou que, do guarda-vento
envidraado do caf, um individuo, que apenas havia entrevisto, uma por
outra vez, falar com o capito Leito, lhe fazia signal de querer
transmittir-lhe qualquer communicao. Approximou-se d'esse individuo,
que lhe disse:

--O sr. capito Leito manda-me aqui para dizer a V. que deseja
falar-lhe.

--A mim? Sabe quem sou?

-- o sr. tenente Coelho, no  verdade?

--Com effeito. E onde est o sr. capito Leito?

--No _Gremio Independencia_. Se o consente, acompanho-o.

Seguiram os dois. As ruas estavam inundadas e a chuva persistente fazia
caminhar rapidamente. Emfim, chegaram  rua Fernandes Thomaz, esquina da
rua de Santa Catharina, tendo atravessado por uma das ruas lateraes do
mercado do Bolho. Subiram a longa escadaria do edificio onde estava
installado o _Gremio Independencia_ e penetraram n'uma sala do segundo
andar, onde estava reunido um grande numero de individuos. Eram os
irmos d'esse gremio, que tinham sido convocados pelo dr. Alves da
Veiga, com o fim de encobrir a concorrencia quella casa, de outras
pessoas estranhas  associao.

 volta do bilhar, jogando, andavam dois homens, um dos quaes era o
capito Leito, trajando  paisana: grosso jaqueto de pelles, cala
clara unida  perna e chapo desabado. No nariz, a sua luneta de vidros
escuros, que elle usava, mais que por outro motivo, pela necessidade de
occultar a fixidez do olho direito immobilisado, quasi completamente,
pela paralysia dos musculos da face. Muito embaraado, olhou em redor e
disse:

--O dr. Alves da Veiga est l em baixo; vamos falar-lhe.

Depz o taco e desceram ao primeiro andar. N'um pequeno gabinete
interior, cuja forma se approximava do symbolico triangulo,
encontravam-se, cada um sentado  sua meza, Santos Cardoso e o dr. Alves
da Veiga. Em p, e como esperando ordens, estava um homem ainda novo,
pequeno bigode, quasi um buo sombreando-lhe o labio, grandes olhos
vivos que pareciam prestes a sahir das orbitas, estatura menos que me,
largos hombros, busto amplo, poisando em pernas robustas; era
Annibal Cunha, ento cabo de infantaria 18, estudante da Escola
Polytechnica. O dr. Alves da Veiga estava com um lapis pondo signaes em
frente dos nomes registados no _Almanach Commercial_ e designados sob a
rubrica--_Regimento de infantaria n. 10_.

-- certo, perguntou Manuel Coelho, o que por ahi corre, da projectada
revoluo para esta madrugada?

Sim, era certo; no tinha podido ser de outro modo. Santos Cardoso, do
lado, affirmou com superioridade:

--Estou a fazer os avisos.

Com effeito, em cartes de visita, com o seu nome, escrevia--_pede a V.
para comparecer s 3 da madrugada no campo da Regenerao_. E mettia
depois esses cartes em envelopes nos quaes escrevia o nome d'um
official, entregando-os a Annibal Cunha.

O tenente Manuel Coelho retirou-se preoccupado. As circumstancias no
eram de natureza a fazer-lhe acreditar n'um triumpho. Todavia, era
foroso acceitar os factos como elles se apresentavam. Era tarde para
discutir e inopportuno desobedecer.


Emquanto no _Gremio Independencia_ se passava isto que acabamos de
transcrever, varios republicanos em destaque, reunidos n'um gabinete do
Caf Suisso, preparavam o manifesto que desde o inicio da revolta seria
lanado: _Aos camaradas do Norte e Sul de Portugal; aos cidados do
Porto; aos cidados portuguezes!_ Esse manifesto, composto e impresso na
typographia da _Republica Portugueza_--e cujos exemplares foram
destruidos ao ser um facto a derrota dos insurrectos--principiava assim:


A fora militar do Porto acaba de dar por findo o reinado do sr. D.
Carlos de Bragana. Proclamou a Republica. No se trata d'uma simples,
d'uma transitoria revolta. Foi uma revoluo que se fez.


Expunha a seguir, a traos largos, a situao do paiz, _situao
aviltante, deshonrosa, receiante_. Era um documento em que cada um dos
convivas d'essa historica ceia no Caf Suisso puzera a sua nota
pessoal, philosophica, ou anedoctica e que surgira dos commentarios
calorosos, apaixonados, sobre o resultado do movimento que no tardaria
a rebentar.

Mas, emquanto os conspiradores davam a ultima demo aos preparativos da
revolta, as auctoridades civis e militares tomavam conhecimento d'uma
parte do plano concebido e concertavam os meios de o inutilisar. s 7 da
noite de 30, um amigo do governador civil, Joaquim Taibner de Moraes,
tendo ouvido a dois sargentos que infantaria 18 se insurreccionaria na
madrugada de 31 por causa da transferencia d'um sargento ajudante, foi
avisal-o do caso e aquella auctoridade dirigiu-se immediatamente ao
quartel do Carmo, a prevenir o commandante da guarda municipal.

A conferencia foi rapida. N'ella ficou assente que o commandante da
guarda concentraria, sem grande apparato, toda a fora de que pudesse
dispr e que mandaria vigiar de perto os outros quarteis militares dados
como suspeitos. Combinado isto, o governador civil e o commisario da
policia procuraram o commandante interino da diviso--o general
Scarnichia marchara pouco antes para Lisboa--e esse commandante foi, em
pessoa, ao quartel de infantaria 18, onde, em face das suas ordens,
todos os officiaes passaram a exercer a maior vigilancia nas respectivas
companhias, aguardando o que de anormal se preparava.

Por outras palavras:  meia noite de 30, as auctoridades civis e
militares do Porto sabiam perfeitamente o que estava planeado e
repousavam descanadas, suppondo ter providenciado de modo a impedir
qualquer tentativa de sedio. Comtudo  curioso registar que essas
providencias se haviam limitado  policia civil,  guarda municipal e ao
regimento de infantaria 18 e que aos commandantes de infantaria 10 e
caadores 9 nada fra communicado ou transmittido que lhes revelasse
_officialmente_ o proposito dos revolucionarios.




CAPITULO XIII

Vinte annos apoz a derrota...


A manh do dia 30 surgira nevoenta, tristonha, aoitada pelo vento
agreste do inverno. D'ahi at a noite alta, a chuva cahiu a espaos
inundando a cidade e afastando das ruas do Porto a massa de transeuntes.
Joo Chagas, encurralado na cadeia da Relao, recebera  tarde a visita
de Alves da Veiga, que sombrio e preoccupado lhe dissera, falando do
movimento prestes a rebentar:

--Vae ser desastroso...

--Evite.

-- tarde...


Ao comeo da noite, os soldados de guarda  cadeia e que estavam no
segredo da conspirao foram despedir-se de Joo Chagas:

--Vimos dizer-lhe adeus... at logo.

--At logo.


Que se passou depois? Fala o brilhante jornalista, confiando ao auctor
d'esta narrativa as suas impresses da madrugada tragica:

J decorreram vinte annos sobre a derrota... Na vespera  noite, assim
que a treva obscureceu o ambiente, comearam para mim horas inquietas e
perturbadas. Sabia que a insurreio devia rebentar s tres da
madrugada. Tirei o relogio do bolso. Eram oito horas. Distrahi-me em
coisas futeis, bebi caf e fumei como um desesperado. Ainda, como
distraco e talvez para surprehender mais facilmente o primeiro rumor
d'essa arrancada decidida contra a monarchia, abri a janella. A noite,
humida, afogava a cidade. Houve um instante, j quando se approximava a
hora marcada para o rebentar do movimento, que suppuz aperceber o
barulho de carros  desfilada...

s duas e meia, gelado pelo frio, comprehendi que se fazia um silencio
magestoso, o silencio do somno pesado. Mas d'ahi a pouco levantou-se um
clamor enorme e distingui gritos, brados, vivas, vozes confusas, retinir
d'armas. Depois, uns minutos de treguas, minutos terriveis de anciedade
e, _perto de mim_, o passo cadenciado d'uma fora militar... Eu, que no
resava, fiz _in mente_ uma grande e ferverosa prece _por elles_. A fora
no tardou a desapparecer e voltou a agitar-me a persuaso de que tudo
recahira em tranquilidade absoluta. Os minutos escoaram-se
dolorosissimos, augmentando a minha impaciencia, aguando a minha
ignorancia do que occorria. Cheguei a ter a impresso de que essa
guarda-avanada dos insurrectos se submettia completamente e que a mesma
noite que a vira nascer a veria sepultar. Horrivel e febril essa
hesitao do meu espirito, sem outro horizonte que uma neblina glacial,
torturante e a galhofa das sentinellas que vigiavam o meu carcere.

A fadiga e a commoo prostraram-me. Exhausto, renunciei a saber, a
indagar, a prescrutar. Tombei no leito, fechei os olhos e dormi. Quando
despertei, era manh clara. A nevoa dissipara-se e a cidade surgia
cheia de luz. Corri  janella. O socego parecia completo. O dia
annunciava-se lindo, calmo. Mas no tardou que um homem de quem me no
lembro o nome, entrando na cella, me communicasse que a revoluo estava
na rua, e, seguindo-o e enfiando a cabea por umas grades de ferro,
presenciei effectivamente um dos episodios do combate. O movimento
estava realmente no seu auge. A fuzilaria crescia de minuto para minuto.
Convencido do triumpho, preparei-me para a sahida da cadeia... No
tardariam decerto a vir-me buscar.

O resto  por demais sabido. Ao comeo da tarde, a bandeira
revolucionaria, que at ento tremulara no edificio da Camara,
desappareceu com o estrondear do canho. Esse trapo, que era a minha
esperana, sumira-se aps um tiroteio pavoroso, encarniado. Ao declinar
do dia, tive a sensao da derrota. Sobre a cidade cahia verdadeira
mortalha. Tornei de novo a estender-me no leito, dormi doze horas sem
interrupo e, quando despertei, reconheci-me excellentes disposies
para affrontar a tempestade que ia desencadear-se, impiedosamente, sobre
a minha cabea...


Vejamos o que  mesma hora succedia em Coimbra, onde, como em Santarem e
outras cidades do paiz, a organisao revolucionaria portuense contava
um auxilio efficaz.

Resolvido que a sedio se iniciaria s 3 da madrugada de 31, Alves da
Veiga mandou a Coimbra Ricardo Severo com o encargo de communicar a
Silvestre Falco: que estivessem todos a postos, mas que s sahissem em
armas quando recebessem um telegramma em cifra, isto para evitar
impulsos temerarios. Ricardo Severo desempenhou-se cabalmente da misso
e s 10 da noite reuniam cerca de setenta rapazes na casa dos Arcos do
Jardim, onde moravam, alem de Silvestre Falco, Augusto Barreto,
Guilherme Franqueira e Fernando Brederode.

Em primeiro logar, a assembleia nomeou um _comit_ dirigente, que ficou
constituido por Silvestre Falco, Pires de Carvalho, Augusto Barreto,
Barbosa de Andrade e Antonio Jos d'Almeida. Depois, Malva do Valle foi
alugar o telegrapho, para se conservar at de manh por conta do
_comit_ e operou-se a junco do elemento academico com os outros
revolucionarios de Coimbra, combinando-se por ultimo o seguinte:

[Ilustrao: Jos Sampaio (Bruno) (1891)]

Logo que Silvestre Falco recebesse na Alta o telegramma cifrado de
Alves da Veiga, dez ou doze estudantes desceriam a ladeira do Pio at 
parte posterior do quartel de infantaria 23, onde receberiam as armas e
as munies destinadas a armar os conspiradores. Em seguida todos elles
atravessariam a cidade, descendo pelo Quebra-Costas e a rua Visconde da
Luz at o quartel. Ahi bastaria uma manifestao ao regimento, que, 
voz dos sargentos revoltados, viria para a rua em sedio. Removidos
todos os obstaculos que, porventura, se apresentassem  execuo do
plano, os conspiradores iriam depr a sua obra nas mos de Jos
Falco, que, informado de tudo, horas antes, puzera o seu esforo ao
servio da Republica.

Um dos estudantes ainda lembrou a conveniencia de se destacarem grupos
armados para junto das residencias dos officiaes do 23, a fim de lhes
embargarem o passo, caso pretendessem sahir em direco ao quartel, mas
Silvestre Falco ponderou que isso era perigoso e podia provocar uma
srie de assassinios e a assembleia revolucionaria decidiu caminhar
temerariamente, lanando o exito da empreza aos azares da guerra.


At  manh clara, os estudantes conservaram-se reunidos na Alta
esperando o telegramma do dr. Alves da Veiga. Mas o telegramma no
chegou e assim que todos elles adquiriram a convico de que o movimento
do Porto fra mal succedido, dispersaram desalentados, ainda que
dispostos, no intimo, a renovar mais tarde a audaciosa tentativa.

E muitos d'elles a renovaram com effeito. As datas de 28 de janeiro e 4
e 5 de outubro, trouxeram  evidencia uma boa poro dos nomes dos
academicos conspiradores de 1891.




CAPITULO XIV

A alvorada triumphante: caadores 9 inicia o movimento


Duas da madrugada...


Terminada a reunio na rua de Santa Catharina, os sargentos da guarnio
portuense que a ella tinham assistido dirigiram-se aos seus quarteis e
tomaram desde logo as providencias necessarias para a sahida das
foras no momento opportuno, preparando-a de modo que  rapidez de
execuo se alliasse o affastamento da interveno de qualquer official
que, pelo seu prestigio, conseguisse contrariar a revolta.

Caadores 9 foi o primeiro regimento a dar o signal da sedio. As
companhias formaram na parada do quartel sob o commando dos sargentos e
emquanto dois d'elles, Galho e Bandarra, e algumas sentinellas
procuravam impedir que o coronel Malheiro, o official de inspeco e o
tenente ajudante saissem dos aposentos e se mostrassem aos soldados, o
1. sargento Abilio[A] soltou o primeiro grito de _Viva a
Republica_!--calorosamente repetido por todos os seus subordinados.
Entretanto, apesar de todas as precaues tomadas pelos revoltosos,
o coronel e o tenente-ajudante appareceram na parada e o coronel,
dirigindo-se ao 1. sargento, exprobou-lhe em phrases paternaes a sua
attitude:

--Tambem voc, Abilio... e eu... que era to seu amigo!

--Meu coronel--respondeu o interpellado--v. ex. dar-nos-hia grande
prazer se viesse commandar o regimento.

--Isso no...

--Nesse caso, v. ex. fica e ns sahimos.

O tenente-ajudante chorava que nem uma creana e pedia a todos os
sargentos que desistissem da sua audaciosa sortida, empregando os
maiores esforos n'esse sentido. O coronel Malheiro ainda tentou falar
ao regimento, para o demover do seu proposito e por ultimo exclamou para
o 1. sargento Norberto, que, como mais antigo, commandava o corpo:

--Mande retirar essa gente para as casernas!

--Agora j  tarde, meu coronel; no pode ser...

E logo a seguir, o mesmo 1. sargento deu as vozes do estylo:

--_Direita volver, ordinario marche_...

A interveno do coronel Malheiro falhara por completo.


Caadores 9, sahindo do quartel, subiu em boa ordem a rua de S. Bento e
dirigiu-se  cadeia da Relao, onde estacou. A guarda  cadeia,
fornecida por aquelle corpo, era commandada pelo alferes Malheiro. Desde
que nenhum dos officiaes, conhecidos como republicanos, que estavam
dentro do quartel, tinha querido assumir o commando do regimento, os
sargentos lembraram-se durante o trajecto de o offerecer quelle
subalterno, que sabiam tambem professar ideias democraticas. E um
d'elles, abeirando-se da porta da casa da guarda, gritou para dentro:

-- sr. Malheiro, venha d'ahi...

O alferes no sahiu e a mesma voz tornou a insistir:

-- sr. Malheiro, tome o commando do regimento, porque o official de
inspeco no quiz acompanhal-o...

O alferes ento accedeu ao convite e voltando-se para o sargento da
guarda recommendou-lhe que vigiasse bem o edificio da cadeia, no fossem
os presos aproveitar o ensejo para se evadirem. Ninguem se lembrou,
n'esse momento, que l dentro estava Joo Chagas e que era natural
gosasse immediatamente da liberdade para collocar o seu nome, o seu
talento, o seu esforo individual e a sua energia ao servio da
revoluo. Pensou-se apenas--e n'isso o alferes Malheiro deu provas de
extraordinario sangue frio--em deixar guarnecida a priso, com o receio
de que o menor descuido fizesse extravasar para as ruas do Porto a
grande massa de criminosos ali agglomerada.

Liquidado este incidente, caadores 9 proseguiu a sua marcha em direco
ao grupo de Santo Ovidio. Dentro de pouco reunia-se-lhe o de infantaria 10.

As condies topographicas do quartel que ento alojava o segundo
d'aquelles regimentos permittiram que elle formasse na parada interior
sem que o official de inspeco desse por tal. s 2 e meia da madrugada,
um dos revoltados foi avisar o capito Leito, que morava proximo e que
no tardou a comparecer no edificio. Dirigiu-se logo  arrecadao, poz
um capacete na cabea e tendo inquirido dos outros officiaes
compromettidos na conjura foi esperal-os para um caramancho. Estava bem
longe de suppr que uma vez chegado ao Campo de Santo Ovidio, teria que
assumir o commando superior das foras revoltadas...

Os minutos, no emtanto, iam decorrendo e como no apparecessem no
quartel outros officiaes republicanos, um sargento veiu convidar o
capito Leito a seguir immediatamente com as foras para o campo de
Santo Ovidio. Assim se fez e o regimento marchou em acelerado para o
local da concentrao.  entrada na rua da Rainha, encontrou o tenente
Coelho, que fora chamado ao quartel por um grupo de cabos. O tenente
Coelho conferenciou rapidamente com o capito Leito, trocou o kepi que
levava pelo capacete do 1. sargento Vergueiro e assumiu o commando do
2. peloto de infantaria 10. No Campo de Santo Ovidio, os dois
regimentos formaram d'este modo: o de caadores 9, em quadrado, proximo
da porta principal do quartel de infantaria 18; o de infantaria 10 em
dois circulos na outra extremidade do Campo.

Concluida a formatura, os soldados e os civis j ento ali agglomerados
comearam a dar vivas ao regimento de infantaria 18 para o decidir a
cooperar na insurreio. Outras vozes elevaram-se:

--Viva a Republica!

--Viva o exercito!

--Abaixo a monarchia!

Momentos depois, o destacamento de cavallaria 6, alojado n'uma das
dependencias do quartel do 18, sahindo pela porta posterior do edificio,
veiu a galope formar em linha parallela  fachada. As saudaes e os
vivas redobraram de intensidade. Ao mesmo tempo convergiam para o campo
as foras da guarda fiscal. O cabo Joo Borges apresentou-se  frente de
87 praas de infantaria e o 2. sargento Silva commandando 24 praas de
cavallaria da mesma guarda. Quer dizer: s 4 da manh de 31 todas estas
foras estavam revolucionadas e s aguardavam a sahida de infantaria 18
para iniciarem marcha contra o inimigo monarchico, apenas
representado, dentro do Porto, pela guarda municipal e a policia civil.

Varios officiaes superiores tentaram, emquanto o 18 no appareceu no
local, fazer voltar aos respectivos quarteis as outras foras
sublevadas. O primeiro foi o major Graa, da _guarda pretoriana_.
Sahindo do quartel do Carmo,  frente de infantaria e cavallaria,
dirigiu-se ao Campo da Regenerao e chamando o commandante de caadores
9 j ali estacionado, intimou o alferes Malheiro a render-se.

--Agora  tarde, respondeu o official revolucionario.

--Ainda no ...

Um cabo que ouvira a intimao exclamou:

--Se  militar, eu tambem o sou; se  portuguez egualmente o sou; mas
no posso soffrer esta tyrannia por mais uma hora!

O major Graa, em resposta, bradou:

--Querem ento que haja derramamento de sangue, e sangue portuguez,
n'estes dolorosos momentos por que est passando a patria? Pois seja...

Um individuo da classe civil ia, n'esta altura, a arengar qualquer cousa
aos soldados, mas os militares oppuzeram-se, dizendo-lhe:

--Cale-se; aqui s a tropa tem voz activa.

O major Graa dispoz as suas foras nas ruas da Lapa e de Germalde e foi
dar ordens ao quartel de S. Braz. D'ahi a pouco entrou no Campo de Santo
Ovidio o sub-chefe do estado maior da diviso, tenente-coronel Fernando
de Magalhes. Encaminhou-se para o 2. peloto de infantaria 10 e
perguntou pelo seu commandante. Respondeu-lhe o tenente Coelho.

--Que esto a fazer aqui? disse o sub-chefe.--Mande retirar essa gente
para o quartel. Os senhores so uns doidos...

--No  possivel, replicou o tenente. Estou sob as ordens d'um
capito do meu regimento e, tendo sahido do quartel, insurrecionado,
para proclamar a Republica, j  tarde para recuar.

--Quem  esse capito que commanda o seu regimento?

--O capito Leito.

E dizendo isto, o tenente Coelho apontou ao sub-chefe o sitio onde elle
se encontrava. Junto do commandante de infantaria 10, o sr. Fernando de
Magalhes empregou quasi as mesmas palavras:

--Mande recolher essa pobre gente a quem est a comprometter.

--D'aqui no sae ninguem, respondeu o capito, a carta est jogada e
vamos at ao fim!...

A seguir, o tenente coronel ainda formulou novo conselho de retirada ao
alferes Malheiro, mas ninguem lhe obedeceu, como, de resto, tambem lhe
no obedeceriam se elle, em vez de meios suasorios, procurando impr o
prestigio da sua personalidade, tivesse tentado outros processos mais
violentos.


Deixemos as foras revoltosas especadas no campo de Santo Ovidio e
cercadas por todos os lados pela guarda municipal e vejamos o que se
passava no quartel de infantaria 18. A insurreio d'este regimento no
fora levada a cabo com tanta facilidade como a de caadores 9 e
infantaria 10, por causa das prevenes tomadas pelos officiaes. Um dos
sargentos do 18, que assistira  reunio na rua de Santa Catharina, ao
regressar ao quartel recebera ordem de deteno e s por um prodigio de
astucia  que, illudindo a vigilancia do official de inspeco,
conseguira dar conhecimento das deliberaes tomadas na mesma reunio
aos sargentos de cavallaria 6. Ainda assim,  hora marcada para a
revolta, as companhias,  ordem dos officiaes superiores, comearam a
formar as casernas.

[Ilustrao: Proclamao da Republica]

Presentindo o movimento, alguem quiz evital-o, mas inutilmente. D'uma
janella do primeiro pavimento, o tenente-ajudante arengou s foras que
j estavam na parada, mas dois tiros disparados na direco d'essa
janella cortaram-lhe o discurso. O coronel do regimento, Lencastre de
Menezes, mostrando uma indeciso extraordinaria, ordenou a varios
officiaes que sahissem do quartel a indagar que foras estavam formadas
no campo.

Decorrido algum tempo, os sargentos do 18 compromettidos na revolta,
julgando que nem todos os seus camaradas adheriam  insurreio e que a
sahida do regimento no se operaria sem um impulso energico,
soltaram gritos furiosos de traio!--e assim conseguiram arrastar um
grosso contingente de soldados--quasi duas companhias--para junto dos
revoltosos do 9 e do 10. Mas o porto do edificio voltou a fechar-se
sobre a sahida d'essa fora e os instantes foram passando sem que o
regimento adoptasse uma attitude definida em conjunctura, como essa, to
critica.

Era necessario, na verdade, tomar uma resoluo. Apoz alguns momentos de
reflexo, em que os officiaes revoltados trocaram impresses sobre o
caso, infantaria 10 e caadores 9, formando a quatro, encaminharam-se
para a parte posterior do quartel do 18 e estacionaram em frente da
egreja da Lapa. As foras da guarda municipal, sob o commando do major
Graa, retiraram prudentemente e, deixando livres as ruas que conduzem
ao campo de Santo Ovidio, foram estacionar para a praa da Batalha,
junto do quartel general e do telegrapho.

A multido, que a cada instante crescia, misturava aos das tropas os
seus vivas atroadores. No rosto de toda a gente havia a expresso d'uma
alegria indizivel. Por vezes, os mais enthusiasmados rompiam as fileiras
e iam abraar um sargento ou um soldado, victoriando-os, acclamando-os.
Era to quente o arrebatamento, to ardente aquella ruidosa alegria que
a doce e consoladora esperana na victoria revolucionaria penetrava em
todos os coraes, dissipando vagos receios que a longa inaco das
tropas fizera despertar.


Tratava-se agora de invadir o quartel de infantaria 18 e impellir de
qualquer maneira esse regimento para a revolta. Os populares que se
tinham collocado na vanguarda das foras do 9 e do 10 fram a uma
estao de incendios, que havia perto, trouxeram de l dois machados e
abriram um rombo na porta do quartel do lado da Lapa, que o coronel
Lencastre de Menezes fizera pouco antes barricar. Soldados e populares
iam, certamente, a entrar de tropel no edificio e travar lucta com os
elementos hesitantes, quando o actor Miguel Verdial, tendo, n'um
relance, a viso da provavel carnificina--o quartel era habitado por
muitas familias--exclamou para os invasores:

--Suspendam, que eu vou parlamentar com o coronel.

C fra, os vivas ao regimento de infantaria 18 eram calorosos e sem
interrupo.

Atraz de Miguel Verdial, entraram no quartel Santos Cardoso e outros
individuos da classe civil e por fim o capito Leito commandando uma
fora dos dois regimentos revoltados. Santos Cardoso, gesticulando como
um possesso e ameaando a officialidade do 18 de ser riscada do exercito
caso no adherisse  Republica, encaminhou-se para junto do coronel
Lencastre e disse-lhe:

--A esta hora esto quarenta e quatro regimentos sublevados, o
telegrapho na nossa mo, o rei a embarcar: no queira V. ex. ser a
unica nota discordante.

--Deixe-me, replicou o coronel, eu no sou republicano nem monarchico.
Sahirei d'aqui a pouco.

O capito Sarsfield, que estava proximo, accrescentou:

--Visto que vae parte do nosso corpo, vamos tambem.

Por seu lado, o capito Leito tambem procurou convencer o coronel a
acompanhar os revoltosos. E, ao cabo d'alguns momentos, conseguiu
effectivamente d'elle essa promessa, que mais tarde, nos conselhos de
guerra, varios officiaes do 18 se empenharam em negar tivesse sido
feita. Emquanto isto se passava, uma fora da guarda municipal
commandada por um tenente apparecia no largo da Lapa a enfileirar
ao lado de infantaria 10. Depois, por conselho do tenente Coelho,
punha-se novamente em marcha e seguia pela rua que ladeia  esquerda o
quartel do 18.

D'ahi a pouco, o capito Leito, sahindo d'aquelle edificio, voltava
para junto das foras sublevadas e communicava aos officiaes s suas
ordens:

--O 18 vem j. Ns seguimos para a Praa Nova e l o esperamos. O
commandante disse-me que vinha em breve: que estando elle e quasi todos
os officiaes presentes no quartel era necessario tomar certas medidas de
ordem e segurana e que convinha reunir o conselho administrativo antes
do regimento sahir.

Mas no era s o capito Leito que affirmava isto. Militares e civis,
todos quantos sahiam n'aquella celebre manh do quartel de infantaria 18
asseveravam que o coronel Lencastre de Menezes no tardaria com as
foras do seu commando a juntar-se aos insurrectos. E faziam-no,
certamente, por terem ouvido ao official j citado palavras muito
nitidas a tal respeito. Mais tarde, nos conselhos de guerra,
pretendeu-se desmentir tudo isso, e embora tivesse sido aconselhado ao
capito Leito e aos outros reos que no aggravassem a sua situao com
accusaes a officiaes superiores que no estavam mettidos no processo,
a verdade  que das acareaes feitas em pleno tribunal militar resultou
o convencimento geral de que s por um mero acaso no soffreram o
castigo imposto a certos dos conspiradores outras creaturas de maior
patente e mais graves responsabilidades.

    [A] O 1. sargento Abilio, hoje tenente n'um regimento de
    infantaria, apoz o mallogro da revolta de 31 de janeiro, deixou
    crescer a barba e prometteu  esposa que s a faria rapar no dia em
    que em Portugal fosse definitivamente proclamada a Republica. Quando
    rebentou a revoluo de 4 e 5 de outubro, a esposa, que estava em
    Espinho, telegraphou-lhe para o Porto, anciosa, a pedir noticias. O
    1. sargento Abilio dirigiu-se  estao da praa da Batalha e
    depositou um telegramma de resposta em que dizia: _Estou bom; foi
    proclamada a Republica_. O empregado dos telegraphos recusou
    acceitar a communicao.

    --Porque no acceita? perguntou-lhe o antigo revolucionario do 31.

    --Porque ahi diz que foi proclamada a Republica e a noticia ainda
    no  _official_.

    --Bem... no ha duvida, redijo outro telegramma.

    E redigiu. A esposa, quando o recebeu delirou de contentamento e foi
    mostral-o a umas pessoas amigas. Mas estas, lendo o texto, no se
    contiveram que no observassem:

    --Seu marido mandou-lhe um telegramma de troa. Pois no ?...
    _Estou bom; vou fazer a barba_...

    --No  troa, no... _Se elle vae fazer a barba_  porque _j foi
    proclamada a Republica_!




CAPITULO XV

Proclama-se a Republica no edificio da Camara Municipal


J manh clara, as foras revolucionarias sahiram das immediaes do
quartel de infantaria 18 e dirigiram-se pela rua do Almada at  praa
de D. Pedro, onde deviam occupar os paos do concelho para se effectuar
a cerimonia da deposio do monarcha reinante e da proclamao da
Republica. Segundo a formatura ordenada pelo capito Leito, abria a
columna, tocando a _Portugueza_, a banda, quasi completa, de infantaria
10, com alguns musicos de caadores 9, todos sob a direco do musico de
1. classe Eduardo da Silva; seguia-se-lhe a guarda fiscal e depois as
praas d'aquelles dois regimentos, as do 9 antecedendo o 10. Conta um
chronista:


Desde que as foras comearam a marchar, sentia-se desapparecer a
oppresso que invadira todos os espiritos n'essas longas tres horas em
que, fra ou dentro do quartel, se tentara que o regimento de infantaria
18, devidamente commandado, viesse augmentar as foras da revolta. O que
se seguiria depois parecia no preoccupar os espiritos. Acreditava-se
firmemente que o regimento de infantaria 18 estava inclinado a apoiar a
revolta. Se assim fosse nenhuma duvida poderia offerecer a victoria
decisiva da Republica; no porque a fora do regimento de infantaria 18
desse s tropas insurreccionadas uma superioridade notavel sobre as da
guarda municipal, mas pela alta significao que teria no s para a
populao civil mas para o quartel general o facto das tropas sublevadas
serem commandadas por um coronel e muitos officiaes. Era evidente que,
se esse acontecimento viesse a realisar-se, as adheses seriam
innumeraveis. Ninguem teria duvida em acceitar os factos consumados; as
garantias de victoria eram indiscutiveis; a resistencia da guarda
municipal seria nulla, sem contestao; a ordem estava assegurada.

Animadas d'uma doce esperana, as tropas revolucionarias, ladeadas
por immensa multido, seguiram para a praa de D. Pedro. Ao longo
da rua do Almada, desfilava a columna em formao regulamentar e
disciplinadamente. As janellas estavam todas abertas, e os habitantes
que j tinham conhecimento de que a guarnio militar da cidade sahira
dos quarteis para proclamar a Republica recebiam a noticia com manifesto
aprazimento. E assim,  medida que as foras da revolta iam descendo a
rua, s saudaes erguidas pelo povo que as acompanhava, correspondiam
das janellas, gritando:

--Viva a Republica!

--Viva o exercito portuguez!

Acenavam com lenos, davam palmas, n'uma grande expanso de alegria que
punha nos coraes um suavissimo calor e nos labios um sorriso de
triumpho. Nunca to espontanea e to calorosa manifestao se produziu
na bella cidade do Norte. Nunca o Porto, a cidade do trabalho e das
grandes virtudes civicas, fez to enthusiastica acclamao a um exercito
victorioso, porque nunca esteve mais identificado com a ideia que esse
exercito vinha proclamando. Na rua a multido engrossava a cada momento,
e, quando as tropas revolucionarias dobravam a rua do Almada para entrar
na praa de D. Pedro, era difficil romper por entre a massa compacta que
se agglomerava...

Chegadas as foras  praa de D. Pedro, formaram rodeando a mesma praa
pelos lados do norte, nascente e sul, comeando a linha pela guarda
fiscal e terminando por caadores 9. O esquadro de cavallaria 6, que
tambem acompanhava a columna, estacou na rua occidental da praa.

Pouco passava das seis horas da manh. As acclamaes despedidas pelos
populares continuavam vibrantes, enthusiasticas. De repente, abriram-se
as janellas dos paos do concelho e alguns individuos da classe civil,
entre os quaes se destacava a figura herculea de Santos Cardoso,
appareceram a dar vivas  Republica, ao exercito e aos regimentos
sublevados. Um popular, armado de espingarda, foi buscar a bandeira do
Centro Democratico Federal 15 de Novembro; Santos Cardoso agitou-a
freneticamente sobre a multido e depois fel-a arvorar no mastro que
sobrepujava o fronto do edificio. A guarda de honra nos paos do
concelho era feita por uma fora de infantaria 10 commandada pelo 1.
sargento Vergueiro.

Decorrido algum tempo, o dr. Alves da Veiga assomou a uma das janellas
da casa da Camara e proferiu um discurso, entrecortado pelos applausos
da multido. Depois ia a ler os nomes das pessoas que deviam constituir
o governo provisorio, mas o actor Miguel Verdial arrancou-lhe o papel
das mos e procedeu a essa leitura. Esses nomes eram os seguintes:


_Rodrigues de Freitas._

_Joaquim Bernardo Soares_ (desembargador).

_Jos Maria Correia da Silva_ (general de diviso).

_Joaquim Azevedo Albuquerque_ (lente da Academia Polytechnica).

_Jos Ventura dos Santos Reis_ (medico).

_Licinio Pinto Leite_ (banqueiro).

_Antonio Joaquim de Moraes Caldas_ (professor).

_Alves da Veiga._


Cada um d'estes nomes foi acolhido com vivas delirantes e estrepitosos.
Proclamado o governo provisorio, a maioria dos populares que tinham
entrado na casa da Camara desceu  praa a misturar-se com os soldados,
que, diga-se sem hesitaes, j comeavam a sentir os effeitos d'uma
immobilidade que afinal ninguem justificava. Na varanda dos paos do
concelho ondulavam dezenas de bandeiras azues e brancas. O nevoeiro, que
de madrugada amortalhara a cidade, dissipara-se lentamente.


O capito Leito, vendo que, em contrario do que lhe assegurara o
coronel Lencastre de Menezes, infantaria 18 no vinha juntar-se s
foras revoltadas, e que os minutos corriam rapidos sem que no local
apparecessem outros officiaes alm dos tres que desde o comeo da
revolta lhe tinham francamente adherido, approximou-se do tenente Coelho
e disse-lhe:

--Estou a perceber isto perfeitamente; fomos trahidos: _so uns
infames_. Disseram-me que a guarda municipal adheria e no a vi no
campo; que o sub-chefe de estado maior tambem vinha e eu tambem o no
vi... Aqui acontece a mesma cousa. _So homens de pannos quentes._
Talvez haja motivo para demoras. Pelo sim pelo no continuarei a esperar...

Mas os soldados mostravam desejos de seguir para a frente e um popular,
approximando-se do capito Leito, observou-lhe que a guarda municipal
j estava occupando a praa da Batalha, na defensiva e que era urgente
desalojal-a d'ali para se occupar o telegrapho e o quartel general.
Outro popular aconselhou-o a fraccionar as foras do seu commando.

[Ilustrao: A Bandeira da Revolta que foi hasteada na Camara Municipal]

--Ora, tenha juizo, replicou o valente official. Ninguem nos hostilisa.

E, voltando-se para o tenente Coelho, acrescentou:

--Vou tomar uma resoluo definitiva: vou mandar seguir pela rua de
Santo Antonio, onde me apresentarei ao general; n'um caso ou n'outro
elle dar as suas ordens...

O tenente Coelho notou que a guarda da Camara tinha desapparecido e que
era conveniente no deixar o edificio  merc da populaa. O capito
Leito concordou com a ideia e mandou para os paos do concelho uma
fora do commando d'um sargento. Feito isto dispoz-se a marchar em
direco  praa da Batalha. Antes, porm, reuniu com o tenente Coelho e
o alferes Malheiro uma especie de conselho conversando os tres
sobre a attitude que d'ahi por diante deviam adoptar as tropas
sublevadas perante as outras que no manifestavam adheso ao movimento.
O tenente Coelho registou mais tarde, do seguinte modo, as ideias que
predominaram n'essa conferencia:


O parecer de que as foras da revolta se dividissem em differentes
fraces que por diversas ruas convergiriam na praa da Batalha,
forando a guarda municipal que ali se encontrava a abandonar o seu
posto, atacada de frente, de revez e de flanco foi posto de parte,
porque, apesar de tudo, se tinha como certa a adheso d'essa fora desde
que as tropas sublevadas manifestassem no abandonar o seu proposito. A
guarda municipal estava informada de que o regimento de infantaria 18
apoiava a revoluo; vira com que ardentes acclamaes eram saudadas as
foras revolucionarias; sentia-se, portanto, isolada do resto das tropas
da guarnio e das sympathias da populao civil; demais entre aquella
guarda havia um grande numero de homens que tomara parte nos
preparativos da revolta.

O que havia, pois, a fazer era, do mesmo modo que a guarda municipal
procedera com as tropas sublevadas no campo de Santo Ovidio, procederem
tambem para com ella, aconselhando-a a abandonar a sua attitude
espectante e a adherir ao movimento insurreccional; o regimento de
infantaria 18 havia adherido, no era rasoavel nem patriotico que a
guarda municipal o no fizesse. As tropas sublevadas no tinham a menor
inteno de fazer derramar sangue de irmos d'armas; no desejavam uma
lucta fratricida, tanto menos presumivel que, sem excepes, todo o
exercito se sentia impellido a resgatar o paiz da humilhante situao em
que se encontrava por virtude dos actos dos governos da monarchia,
que no se inspiravam nos sagrados interesses nacionaes.

No. A guarda municipal era com as tropas da revolta. Se estas no
tinham a commandal-as officiaes, cujas patentes e cujos nomes se
impuzessem, bem certo era que o regimento de infantaria 18, com o seu
coronel e com os seus officiaes, tinha adherido ao movimento
revolucionario e no havia que hesitar. Os tres officiaes que se
encontravam com as foras sublevadas, ali, no queriam reivindicar
nenhum direito de superioridade; contentavam-se bem com a satisfao da
sua iniciativa e, nem por si, nem pelos seus subordinados, reclamavam
nem outros postos nem outras honras. Se outras ideias germinavam no
espirito dos que no tinham at aquelle momento adherido  revolta, que
se desilludissem. Que o throno desapparecesse: mais nada. A nao
governar-se-hia sem profundas transformaes. Ellas viriam depois. O
essencial era quebrar com a criminosa tradio. Por ella  que Portugal
vergava ao peso de tanta deshonra, por ella  que a vida social vinha
sendo insupportavel. Governar-nos-hiamos como irmos, no mesmo
sentimento commum dos interesses individuaes, coincidindo com os da
Patria. Taes pensamentos animavam as tropas sublevadas. No havia que
discutir.


Resumindo: o capito Leito iria  frente das foras e ao chegar  praa
da Batalha procuraria parlamentar com o sub-chefe de estado maior,
Fernando de Magalhes, que os revolucionarios consideravam intelligente
e de caracter. Elle decidiria em ultima instancia se a superioridade
estava, na verdade, do lado dos sublevados e se a guarda municipal podia
ou no submetter-se-lhes sem hesitaes. Era o appello honesto a um
arbitro de occasio, que gosava ao momento de justificado prestigio na
classe militar.




CAPITULO XVI

O choque sangrento--A guarda municipal desbarata os revoltosos


As foras do commando do capito Leito sahiram da praa de D. Pedro e
principiaram a subir a rua de Santo Antonio. Formavam uma columna em
marcha de quatro, levando  frente a banda de infantaria 10;
seguia-se-lhe a guarda fiscal e iam depois caadores 9 e aquelle
regimento. A guarda municipal formava ao alto da rua, no adro escalonado
de Santo Ildefonso, guardando a entrada da Batalha pelas ruas de Santa
Catharina, Santo Antonio, de Santo Ildefonso, de Cimo de Villa e viela
da Madeira. A entrada pelas ruas de Entreparedes e Alexandre Herculano,
vedavam-na cem praas fieis da guarda fiscal. No lado nascente do antigo
theatro de S. Joo formava cavallaria 6, cobrindo o edificio do quartel
general e governo civil.

Uma multido immensa acompanhava as foras da revolta na marcha rua de
Santo Antonio acima e essa arteria do Porto tinha um aspecto quasi de
festa. A maior animao e alegria illuminavam-na. Do povo sahiam brados
enthusiasticos victoriando os sublevados. As senhoras que estavam s
janellas agitavam freneticamente os lenos, soltavam vivas calorosos,
batiam as palmas n'um contentamento indescriptivel. A satisfao
dominava tudo e todos. A marcha das foras tinha o caracter
insophismavel d'um passeio triumphal, em que elles pareciam recolher os
applausos pela victoria alcanada rapidamente e sem embate sensivel.

Na altura da viela chamada dos Banhos, do lado direito da rua de Santo
Antonio, o povo que acompanhava os sublevados hesitou e recuou. O
capito Leito olhou para cima, e viu a guarda municipal em attitude
defensiva com as armas apontadas para a columna. No ligou grande
importancia ao facto e, como a banda de infantaria 10 continuasse a
tocar, no ouviu que de Santo Ildefonso os cornetas tinham feito o
signal de _alto_--_meia volta_. Ia a proseguir na marcha quando
presenceou que dois soldados da guarda fiscal, sahindo da frma, se
dispunham a disparar as armas contra a municipal. Correu para elles e
gritou-lhes:

--No atirem!... A guarda no nos faz mal!...

[Ilustrao: Basilio Telles 1891]

Os homens entraram na frma e elle ento, collocando-se  frente da
columna, levantou os braos, como pretendendo affirmar  municipal que a
attitude dos sublevados era pacifica. De nada valeu esse expediente. A
guarda, fazendo pontarias baixas, deu uma descarga que lanou o maior
panico nas foras da revolta e nos populares que pejavam a rua de Santo
Antonio. A marcha deteve-se. Uma commoo violenta agitou aquella massa
compacta. N'um segundo, ou em menos d'um segundo, produziu-se um grande
e precipitado movimento de recuo. Os populares, como por instincto,
penetraram nas fileiras da columna procurando um abrigo. Impellida
pela fora collossal d'essa enorme multido, a columna dissolveu-se,
desordenada e a breve trecho a rua de Santo Antonio ficou juncada de
corpos inanimados e dos despojos das victimas. O capito Leito, ferido
na cabea, abrigou-se n'uma casa proxima, acompanhado de dois
corneteiros e d'uma praa da guarda fiscal e mandou fazer repetidos
toques de cessar fogo. Trabalho inutil. A guarda municipal, abrigada por
detraz de pedras continuou a alvejar a rua de Santo Antonio, respondendo
quelles toques com tiroteio renhido.

Entretanto, no meio de todo esse panico, os soldados revoltados ou se
agrupavam junto de alguns portaes ou se deitavam no cho, offerecendo o
menor alvo possivel ao fogo da guarda. E, emquanto tiveram munies,
responderam com valentia ao ataque da fora fiel ao regimen monarchico.
Esses heroicos combatentes eram principalmente da guarda fiscal e de
caadores 9, porque o regimento de infantaria 10, estando no fundo da
rua de Santo Antonio ao comear o tiroteio, fra forado a recuar at 
casa da camara. E assim se sustentaram n'um ou n'outro ponto da rua,
quasi sempre expostos aos projecteis da municipal, atirando sobre os
adversarios com uma serenidade extraordinaria, desafiando impavidamente
a morte.

Em certa altura, ouviram-se na praa de D. Pedro os primeiros tiros da
artilharia. A bateria da Serra do Pilar intervinha na lucta para lhe pr
o ponto final. Os revoltados at ento escalonados na rua de Santo
Antonio desceram at ao edificio municipal e ahi se reuniram s foras
do 10, que se tinham concentrado n'esse ponto desde o comeo da refrega.
O capito Leito, havendo conseguido, depois de abandonar a casa onde se
abrigara, chegar por entre quintaes e escalando muros at  Praa Nova,
ainda procurou com as foras reunidas na casa da camara operar um
retorno offensivo sobre a guarda municipal. Mas no houve meio, ou
melhor, j era tarde para tentar a sortida. Pequenas fraces da guarda,
protegendo a bateria de artilharia postada nos angulos dos Loyos e de S.
Bento, comearam a atacar os sublevados encurralados nos paos do
concelho e um tiro de pea, arrombando a porta do edificio, mostrou
quelles valentes que a situao se definia, irremediavelmente como a
derrota da Republica.

O capito Leito abandonou a casa da camara e d'ahi a pouco os outros
combatentes imitaram-n'o, terminando a lucta cerca das 9 da manh.
Durara duas horas.

Por este relato  facil de vr que a victoria alcanada pela guarda
municipal foi mais devida  excessiva _boa-f_--chamemos-lhe assim--das
tropas revolucionarias do que  coragem dos soldados fieis  monarchia.
Se as foras revolucionarias houvessem marchado sobre a praa da Batalha
em disposio hostil, o resultado do choque sangrento teria sido, sem
duvida, bem diverso. O proprio capito Leito reconheceu isso mesmo no
conselho de guerra a que foi submettido:

--Se eu adivinhasse que tratava com tal gente--disse elle, referindo-se
s foras do commando do major Graa--eu procederia d'outra forma e hoje
no me alcunhariam de imbecil. Eu avanava com a maior serenidade e nem
mesmo me passava pela mente que ia para um ataque. Suppunha-os
plenamente seguros e, como j disse, tinha razes para isso. Se eu
entendesse, se eu suspeitasse do que me esperava, no teria receio algum
de os atacar.

No era a guarda municipal, que de poucas foras dispunha, pois no
estava toda reunida (e nem mesmo que o estivesse) que derrotaria as
foras do meu commando. Cercal-a-hia, e isso sem grandes planos
estrategicos e foral-a-hia a render-se, sem mesmo disparar um
tiro. E no se daria a grande desgraa que se deu. Eu envolvia a guarda
e ella no poderia resistir. No lhes chamem, pois, valentes, porque o
no so. Estava espantado de um tal procedimento. Eu no ia para
isto--disse na casa onde entrei. E esta  a verdade; a prova  que
alguem que ouviu a minha phrase j aqui a referiu. No digo isto para
declinar responsabilidades, porque no quero declinal-as...

Incontestavelmente, a guarda municipal no poderia manter-se nas suas
posies; e, nem pelo numero nem pela dextreza, conseguiria offerecer
uma resistencia demorada. Alem d'isso, no estava suficientemente
instruida no manejo da espingarda Kropatschek, que s muito pouco tempo
antes da revolta lhe fra distribuida; o servio especial de policia, em
que era empregada, no lhe permittia evolucionar convenientemente em
combate. Pelo contrario; os seus adversarios, tendo passado pela
carreira de tiro em exercicios reiterados, estavam perfeitamente aptos
para se medir com ella e para a subjugar sem esforo sensivel ou grande
dispendio de munies. E a prova  que a guarda se conservou sempre na
defensiva, abrigada pelas varandas de pedra que guarnecem as escadas e
patamares que do accesso  egreja de Santo Ildefonso e s mudou de
attitude quando a bateria de artilharia, rompendo o fogo contra o
edificio municipal, rematou a contenda.


Emquanto, na rua de Santo Antonio e na praa Nova se desenrolavam os
acontecimentos que acabamos de narrar, as guardas de revoltados que
haviam ficado nos quarteis impediam que ali entrassem os respectivos
officiaes no adherentes ao movimento e que o mesmo movimento
surprehendera ainda no leito ao romper da manh de 31 de janeiro.
No quartel de caadores 9, por exemplo, ficara uma fora sob o commando
do sargento Galho, que mandara armar todas as praas que ali estavam,
collocando-as s suas ordens. Instantes depois do regimento ter sahido
para a revolta, essa fora avistando na rua de S. Bento um troo da
guarda municipal, fel-a dispersar com uma descarga. E desde manh at ao
comeo da tarde, todos os officiaes que tentaram penetrar no edificio
foram respeitosamente prevenidos pelo sargento Galho de que desfecharia
sobre elles a sua espingarda.

[Ilustrao: Bombardeamento da Camara Municipal pelas tropas fieis ao
Governo]

S s tres horas  que esse valente militar se rendeu, abandonando o
quartel ao dominio dos vencedores. O capito Almeida Soares que
havia tomado conta da guarda  cadeia da Relao, appareceu  porta
principal d'aquelle edificio e intimou o sargento a entregar-se-lhe.

--No, respondeu o revoltado.

--Mas isso  uma loucura, insistiu o capito. A insurreio j est
suffocada.

--V. ex. d-me a sua palavra de honra?

--Dou.

Ento o sargento Galho disparou a espingarda para o ar e franqueou as
portas do quartel ao capito Almeida Soares.


Em infantaria 10 as cousas passaram-se d'outro modo. Ahi a guarda ao
quartel, composta d'um cabo e varios soldados conseguiu, s primeiras
ameaas, que os officiaes no tentassem sequer empregar a sua
auctoridade hierarchica para a demover do proposito em que se
encontrava. Todos elles, percebendo a inutilidade de qualquer esforo
n'esse sentido, dirigiram-se  casa do commandante do regimento e s
mais tarde, quando a revolta se considerou completamente suffocada  que
conseguiram submetter a guarda do quartel e as praas que retiravam da
lucta que se travara.

Mas, facto digno de registo: tanto n'um como n'outro quartel no se
produziram violencias--alis comprehensiveis n'um momento como esse de
fundamentada agitao e irresistivel anormalidade. Violou-se  certo, a
disciplina. Nem a revoluo era possivel sem esse delicto. Mas ninguem
faltou ao respeito individual pelos officiaes que no quizeram adherir
ao movimento.




CAPITULO XVII

A noite negra do traidor Castro
O destino de trez officiaes


Relatados assim os factos que caracterisaram essencialmente a revolta,
desde o primeiro viva  Republica soltado pelo sargento Abilio at 
_reconquista_ dos paos do concelho pela guarda municipal victoriosa,
no  demais uma referencia embora ligeira ao homem que, atraioando os
seus camaradas, contribuiu de algum modo para que a noticia do movimento
se divulgasse prematuramente e o contrariasse em mais d'um ponto. Esse
homem, j o dissemos n'outro logar d'esta desataviada narrativa, foi o
sargento Castro.

Tendo assistido  reunio da rua do Laranjal--contou elle em conselho
de guerra, depondo como testemunha accusatoria dos implicados na
revolta--vi, com espanto, que se tratava d'uma representao dos
sargentos ao governo, elaborada em termos taes, que era mais uma ameaa
do que um pedido.  reunio presidiu o alferes Simes Trindade. Pretendi
tomar a palavra, para combater a forma como fora escripto esse
documento, mas a maioria dos assistentes abafou as minhas palavras e eu
retirei-me do local. _No dia seguinte ao da reunio, procurei o capito
Sarsfield e narrei-lhe o succedido, para evitar que mais tarde me
calumniassem_...

Mas a delao do sargento Castro no ficou por aqui. Provocando com essa
narrativa ao capito Sarsfield as perseguies que as auctoridades
militares moveram dias antes da revolta aos officiaes inferiores da
guarnio do Porto, o traidor, na tarde do dia 30, voltou a avisar
aquelle capito de que o movimento rebentaria na madrugada do dia
seguinte. Fez a denuncia e sahiu do quartel do 18, disposto a no tornar
a entrar l dentro, porque receiava justamente que os seus camaradas de
regimento, sabedores do seu acto ignobil, lhe arrancassem a pelle. s 11
da noite, porem, como tivesse deixado ficar no edificio a guia de marcha
para Lisboa--o sargento Castro fora mandado apresentar com urgencia no
ministerio da guerra--arriscou-se a penetrar novamente alli e falou ao
capito Fumega, que era o official de inspeco. O capito, mal o viu,
aconselhou-o a que se retirasse, accrescentando:

--Olhe que a sua vida corre perigo... Alguns sargentos querem matal-o
por no haver adherido  conjura...

--No tenho medo, respondeu o traidor, encaminhando-se para a secretaria.

Nessa dependencia do quartel estavam reunidos o coronel Lencastre de
Menezes e o capito Sarsfield. O coronel dirigiu ao sargento Castro
conselho identico ao que j lhe dera o official de inspeco:

--O senhor desapparea do edificio, porque a sua presena aqui pode
provocar um conflicto grave...

--Vim buscar a guia de marcha, replicou o traidor.

--Isso  o mesmo... Diga onde quer que eu lh'a mande amanh de manh...

O sargento Castro obedeceu. E abandonando o quartel foi tomar caf.
Depois como se fazia tarde, lembrou-se de ir dormir a uma hospedaria da
praa de Santa Thereza. Quando parou  porta, principiava a accentuar-se
nas ruas o movimento das tropas insurrecionadas. Tremeu de medo. O seu
acto infame seria, indubitavelmente castigado e castigado com rigor,
pelas foras que aclamavam a Republica. Receiando que o vissem e
lhe pedissem estreitas contas da delao foi para a esquadra dos
Carmelitas e alli supplicou que o no entregassem aos revoltados pelos
motivos acima expostos e que reproduziu entre lamentos cobardes ao
commandante da fora policial.

Durante hora e meia, conservou-se recolhido n'esse abrigo, estremecendo
a cada ruido indicativo da victoria dos insurrectos. Passado esse tempo
veiu ordem do quartel do Carmo para toda a policia da esquadra dos
Carmelitas--como das outras esquadras--auxiliar as evolues das tropas
fieis  monarchia. A esquadra ficou deserta. Cheio de terror,
sentindo-se isolado no transe mais angustioso da sua vida, o sargento
Castro acabou por tambem abandonar a esquadra e foi para o quartel do
Carmo, onde suppunha estar em maior segurana. Ahi, apresentou-se ao
official de inspeco e este vendo que elle ainda no tinha seguido para
Lisboa, apesar da ordem urgente que recebera, prendeu-o incommunicavel
e, no dia immediato, fel-o transportar para bordo da corveta _Sagres_.
Na corveta detiveram-no por vinte e quatro horas e s o puzeram em
liberdade quando o commandante do 18, intercedendo em seu favor,
informou as outras auctoridades militares do papel repugnante que o
prisioneiro desempenhara na insurreio...


Fechemos aqui a historia do traidor Castro e sigamos o destino dos trez
officiaes combatentes que se salientaram nas diversas phases do
movimento revolucionario. O capito Leito, acabada a lucta na casa da
Camara, refugiou-se nas proximidades do quartel de infantaria 10 e s 8
da noite de 31 foi ao domicilio do tenente Coelho que ahi se acolhera
apoz a derrota. O tenente Coelho, surpreso, de o ver, exclamou:

--Como, pois tu aqui?

-- verdade, replicou o valente official. Que fazer agora?

--Meu caro, ou fugir ou apresentarmo-nos no quartel general. Para o caso
de nos expatriarmos  preciso dinheiro que eu no tenho...

--Nem eu. Comtudo, talvez um amigo m'o empreste.

--Pois bem, concluiu o tenente Coelho, se conseguires o dinheiro
necessario aos dois vem  minha casa s duas da madrugada; se no
alcanares seno o sufficiente para ti, vae s e s feliz...

O capito Leito sahiu e no tardou a apparecer ao seu companheiro de
lucta. Na madrugada de 1 de fevereiro, montou a cavallo e dirigiu-se a
Oliveira de Azemeis. Aqui, dil-o uma testemunha presencial, apesar de o
reconhecerem, as auctoridades no o perseguiram e elle seguiu para
Albergaria-a-Velha, no intuito de comer alguma cousa. Quando chegou a
essa localidade, estava o padre, que tem a alcunha de _O Sopas_,
conversando com varios individuos cerca dos acontecimentos do Porto.
Este padre tinha sido, durante doze dias, hospede de cama e meza do
capito Leito. Ao vr o cavalleiro, exclamou:

-- elle!...

Alguem recommendou ao _Sopas_ que no denunciasse o fugitivo. Mas o
padre approximou-se acto continuo do cavalleiro e disse-lhe:

--O senhor  o capito Leito!

--No, no sou, respondeu o interpellado.

Mas, logo a seguir, commovido, fraco--havia muitas horas que no
comia--o capito Leito succumbiu e cahiu com uma syncope. O padre
procurou o administrador e este tomando conta do foragido, encerrou-o na
cadeia. Na priso, o capito Leito teve nova syncope. Quando d'alli
sahiu, no meio da escolta que o devia acompanhar ao Porto,
dirigiu-se ao povo em phrases sentidas e a commoo que provocou foi to
intensa, que muita gente derramou sinceras lagrimas.

No trajecto de Albergaria-a-Velha para aquella cidade, o capito Leito
observou ao commandante da escolta:

--Sabe uma cousa... No triumphmos na revolta de 31 porque fomos trahidos.

--Mas quem os atraioou no fim de contas... perguntou o commandante.

--Sou bastante generoso para no denunciar ninguem!

Na cadeia da Relao, o capito Leito mostrou-se por vezes
excitadissimo e nunca cessou de solicitar do respectivo director que lhe
consentisse vr o filho--um rapazito de quatorze annos que ia alli
levar-lhe a comida. No dia 6 de fevereiro  tarde, satisfizeram-lhe o
desejo. E elle ento, ao avistar a creana, ajoelhou, exclamando:

--Perdoa-me, assassinei-te!...


O tenente Coelho, esse, apresentou-se no dia 1 de fevereiro, no quartel
general, aqui entregou a sua espada ao sub-chefe de estado-maior, que
lhe deu voz de priso e foi em seguida conduzido para o castello da Foz,
onde ficou custodiado  vista.

O alferes Malheiro, ao que depois se affirmou, tendo sido derrubado na
rua de Santo Antonio pelos populares que fugiam das descargas da guarda
municipal, acolheu-se  casa d'um amigo, d'onde mais tarde passou para
uma quinta do Douro e d'aqui para a Povoa do Varzim. Na Povoa embarcou
n'uma canoa de pesca para a Galliza e de Vigo seguiu mais tarde para a
America do Sul.


A maledicencia no poupou nenhum d'esses tres homens. Vendo-os
derrotados, entreteve-se a assacar-lhes varias infamias, como se
fosse necessario cobril-os de opprobrio para mais facil apotheose dos
vencedores. Os jornaes da epocha, porm, registam diversos documentos
que ao mesmo passo que evidenciam a qualidade dos manejos tecidos para
denegrir a situao dos tres officiaes, demonstram egualmente que todos
elles investiram de frente contra as insidias e calumnias espalhadas nos
orgos da monarchia. Vejamos, em primeiro logar, esta carta do capito
Leito publicada, j depois de elle ter sido julgado e condemnado em
conselho de guerra:


_Sr. redactor do Seculo_:--Informa o _Dia_ que minha esposa
supplicra do general Scarnichia commandante da 3. diviso militar, o
auxilio da rainha de Portugal em seu favor e que a soberana ia, com
effeito, conceder-lh'o bem como a meus dois filhos. Achando-me eu
separado ha annos da senhora de quem se trata, cumpre-me declarar em
vista de tal informao, que nem sou solidario com os seus actos nem
d'elles assumo a menor responsabilidade. Cumpre-me outrosim accrescentar
quanto a meus filhos que a situao d'estes  perfeitamente independente
da de minha esposa e se acham felizmente ao abrigo da regia
philantropia. Lamentando que um tal facto me obrigasse a vir  imprensa
desvendar um recanto da minha vida intima, etc.--_Antonio do Amaral
Leito_.


Trechos d'uma carta do tenente Coelho:


_Sr. redactor do Diario Popular_:--Tive por acaso conhecimento de que
um jornal de Lisboa, no furor de fazer _reportage_, a proposito dos
lamentaveis successos do dia 31 de janeiro se refere a um incidente da
minha vida de estudante, deturpando-o e commentando-o de um modo
insultante para mim. Indigna-me a cobardia; porque  facil e pouco
perigoso insultar um preso que tem a absoluta impossibilidade de
desforar-se. No fui eu o unico a quem aconteceu aquelle incidente, mas
fui o unico que por elle respondi, sendo absolvido por unanimidade no
conselho de guerra respectivo. Outros mais felizes obtiveram as suas
cartas apesar de identicos incidentes.

[Ilustrao: Tenente Coelho (1891)]

Pois embora tivesse sido denunciado por um camarada, no deixei de lhe
perdoar o muito que soffri pelo muito que os dignos officiaes que
compunham o corpo docente da escola do exercito me beneficiaram a mim. E
desde que vesti a minha farda de official, desde janeiro de 1883, posso
erguer bem alta a cabea, que na minha vida no ha uma aco que me
deslustre! Tenho por testemunhas toda a populao de Villa Real, onde
sempre tenho vivido e os officiaes que commigo serviram em infanteria
13. Desafio quem quer que seja a desmentir as minhas palavras.
Transferido violentamente e violentamente exonerado de ajudante de
infanteria 13, como o prova o sr. conde de Villa Real, pelo simples
facto de eu ser progressista, partido em que trabalhei afanosamente, bem
podera ter ficado no mesmo logar se quizesse transigir com o partido
regenerador, como pode proval-o um dos homens mais honrados e illustres
d'esse partido, o sr. dr. Antonio de Azevedo Castello Branco. Mas no. O
meu dever era no abandonar o partido em que me alistra e assim o fiz,
apesar dos innumeros sacrificios que isso me custou.

Tendo um grande amor ao trabalho e ao estudo, todo Villa Real sabe e
todos os que me conhecem testemunham como eu desde as 6 horas da manh
at s 6 ou 7 da tarde, parte as horas em que cumpria os meus deveres
officiaes, leccionava varias disciplinas para angariar meios de
subsistencia para a minha numerosa familia sem me arredar um ponto da
linha recta da honra e da dignidade.--_Manuel Maria Coelho_.


Uma carta do alferes Malheiro:


_Sr. redactor do Jornal de Noticias_:--Tendo lido em diversos
periodicos que eu tentara alliciar a fora da guarda do meu commando, a
fim de me acompanhar na revolta e que essa fora no adheriu devido ao
procedimento energico do 2. sargento Benigno, que disse no abandonar o
seu posto emquanto tivesse munies, tenho a declarar muito
terminantemente que so falsas taes verses.

Na occasio em que se apresentou o regimento de caadores 9 em frente
da cadeia, sahi do meu quarto e como visse grupos de soldados passeando,
intimei-os a recolher  casa da guarda, assistindo eu mesmo a essa
retirada. Disse-lhes, finalmente, que ninguem sahiria d'alli a no ser
ao brado d'armas. Tudo isto que declaro  a expresso da verdade,
podendo ser garantido pelo sargento que estava n'esse momento a meu lado.

Nunca me passou pela imaginao a adheso da fora da guarda, pois
n'aquelle momento de exaltao no deixei de pensar em que se
tornava precisa a maior vigilancia sobre a cadeia. Seria leviano,
mas no tanto como o julgam aquelles para quem escrevo esta
declarao.--_Augusto Rodolpho da Costa Malheiro._


Repetimos: a maledicencia no poupou nenhum dos tres officiaes que se
evidenciaram durante a revolta. Dias a fio bradou-se,  mistura com a
divulgao dos mais censuraveis boatos, que era necessario applicar aos
culpados todo o rigor das disposies penaes. Pouca gente, da affecta ao
regimen e  dynastia brigantina, ponderou que a genese do movimento
brotara exactamente dos erros e dos escandalos d'um e d'outra e que para
os accusadores serem realmente justos precisavam, antes de mais nada,
pensar nas suas proprias responsabilidades, ou nas dos partidos
politicos a que pertenciam.




CAPITULO XVIII

O dia seguinte ao da derrota


Suffocado o movimento, que fizera triumphar por algumas horas, a dentro
dos muros do Porto, a bandeira verde e vermelha, os serventuarios da
monarchia apressaram-se a enaltecer os talentos dos vencedores e a
amesquinhar o valor da organisao revolucionaria. No ignoravam elles
que fra d'aquella cidade se tinham dado occorrencias graves,
reveladoras da amplitude d'essa organisao e que para evitar maiores
complicaes se mandara interromper a marcha d'algumas das foras
militares a caminho do fco insurreccional.

O mesmo regimento de infanteria 18--affirma-o um chronista da epoca--s
s dez da manh, terminado completamente o combate, finda
inteiramente a lucta, foi, a bandeira desfraldada, apresentar-se ao
quartel general. Um dos regimentos do Norte, que chegou a desembarcar na
estao de Campanh, ahi mesmo levantou vivas  Republica. Muitas praas
do regimento de caadores 5 que faziam a guarda s prises onde se
encontravam os revoltosos que no haviam conseguido fugir, diziam-lhes
que tinham feito mal em no prolongar a lucta at  sua chegada, porque
o regimento faria causa commum com a revolta...

Na imprensa monarchica liam-se as cousas mais affrontosas para os
derrotados. Todos os que, durante os momentos victoriosos, tinham
receiado pela sua integridade pessoal, atropellavam-se no empenho de
accumular a _metralha accusatoria_ sobre os vencidos. Sacudiam-se
responsabilidades e ninguem queria ter a menor solidariedade com os
revoltosos. As mesmas corporaes que no caso do triumpho republicano se
apressariam por certo a saudar o advento d'um novo regimen com o appoio
incondicional e festivo despejavam sobre o throno canastradas de
felicitaes, algumas n'uma linguagem servil e, por isso mesmo, abjecta.


No dia 31, ao comeo da tarde, o governador civil do Porto, Taibner de
Moraes, fez publicar um edital suspendendo as formalidades que garantem
a liberdade individual, e o governo central acrescentou a isso a
suppresso da imprensa republicana ou d'aquella que no vociferasse
tonitruante contra o movimento e os seus promotores. A serie das
bajulaes  monarchia victoriosa que, afinal, durante a insurreio,
no ganhara para o susto, foi aberta pela vereao portuense n'uma
mensagem que ella propria veio entregar a Lisboa, dizendo todas estas
enormidades:


N'esse nefasto dia (o de 31 de janeiro) uma parte da guarnio,
esquecendo o juramento de fidelidade  sua bandeira e s instituies
que nos regem e no menos o dever da disciplina e da manuteno da ordem
e da tranquilidade publica, praticou o maior dos attentados contra a
patria, que na occasio se podia commetter.

Attentando contra a monarchia constitucional que  o mais seguro esteio
da independencia portugueza, nem ao menos se ponderaram as criticas
circumstancias em que nos collocam no actual momento as pretenes de
uma poderosa nao sobre o nosso dominio africano e a situao da
fazenda publica.

E quando todo o cidado que verdadeiramente ama o seu paiz sente o
impreterivel dever de no crear o menor embarao nem levantar o menor
estorvo  melhor soluo d'aquellas difficuldades e perigos  que uns
poucos de militares e um insignificante numero de individuos da classe
civil intentam, verdadeiramente obcecados, mudar a natureza das
instituies fundamentaes, abolir a monarchia e precipitar o paiz na
revoluo  mo armada...


A mensagem tinha os nomes dos srs. Oliveira Monteiro, Ribeiro da Costa e
Almeida, Leo da Costa, Anthero d'Araujo, Mendes Correia, Pinto de
Mesquita, Chaves de Oliveira, Christiano Vanzeller, Pires de Lima,
Teixeira Duarte, Lima Junior, Silva Moreira, Alves Pimenta, Jos Arroyo,
Fernando Bahia, Silva Tapada, Moreira Monteiro, Manuel da Silva Pinto,
Vieira d'Andrade, Pedro de Araujo e Tito Fontes.

A guarda municipal do Porto tambem recebeu a sua quota parte de
felicitaes e... melhoria de rancho, pelo denodo com que repellira os
insurrectos. Os jornaes da epoca esto pejados de documentos
interessantes, revelando o calor bajulatorio projectado sobre os
triumphadores do movimento. Um d'elles:


Satisfeito com o exemplar comportamento e bravura que mostrou o corpo
da guarda municipal do Porto, no dia 31 de janeiro para conter os
desordeiros e fazer respeitar a lei e o governo do paiz e seguindo as
ideias do meu compadre e bom amigo Joo Pinto Ferreira Leite, tomo a
liberdade de remetter a v. ex. (o commandante da guarda) a quantia de
50$000 ris destinados para melhorar o rancho dos soldados da mesma
guarda.--_Januario Bastos_.


Outro, egualmente dirigido ao commandante da guarda municipal:


_Meu bravo e glorioso camarada_: Felicito a v. ex. e felicito a
valente guarda municipal do Porto, hoje mais do que nunca, uma honra
para o nosso paiz, pela maneira corajosa por que acaba de arrancar da
beira de um abysmo a monarchia e a nao. Consinta v. ex. que o abrace
e este amplexo cinge toda a corporao da guarda municipal do
Porto.--_Christovo Ayres_.


Alguns dos membros do governo provisorio proclamado no edificio da
camara municipal, uma vez suffocado o movimento, publicaram egualmente
nas gazetas declaraes terminantes repudiando a menor ligao com os
revoltosos. O sr. Joaquim Bernardo Soares, por exemplo, dizia na sua carta:


Tenho sido sempre homem de ordem--nem o meu passado, nem as ideias
que tenho manifestado inalteravelmente com o maior desassombro,
podiam auctorisar um tal procedimento da parte d'aquelles que
imprudentemente lanaram o meu nome para o publico e com os quaes no
tenho relaes de qualquer natureza nem sequer pessoalmente conheo.
Repillo, portanto, com a maior indignao, o abuso que do meu nome se
fez, sem que possa descortinar o motivo que o determinou.


O sr. Azevedo Albuquerque foi mais laconico:


Declaro que no dei auctorisao para o meu nome figurar na lista dos
membros do governo provisorio proclamado na casa da camara do Porto; e
que no concorri nem directa nem indirectamente, para o movimento
revolucionario.


A declarao do sr. Rodrigues de Freitas, embora principiasse
por affirmar que o seu auctor desde muito se manifestara
republicano-democrata e continuaria a professar firmemente as mesmas
ideias quaesquer que fossem os derrotados ou os victoriosos, acrescentava:


No auctorisei ninguem, quer directa quer indirectamente, a incluir o
meu nome na lista do governo provisorio lida nos paos do concelho no
dia 31 de janeiro; e deploro que um errado modo de encarar os negocios
da nossa infeliz patria levasse tantas pessoas a tal movimento
revolucionario.


Por ultimo esta declarao do sr. Jos Ventura dos Santos Reis:


Sabendo que o meu nome anda envolvido nos tristes acontecimentos que se
deram n'esta cidade no dia 31 do mez passado, cumpre-me declarar
cathegoricamente que no auctorisei absolutamente ninguem a incluir o
meu nome na lista do governo provisorio, que foi lida nos paos do
concelho; que fui completamente estranho a quaesquer preparativos ou
combinaes que precederam as occorrencias d'aquelle dia.


Quarenta e oito horas depois da revolta, o governo fez publicar varios
decretos com o fim, dizia elle, de supprir as deficiencias da legislao
ento vigente provendo  necessidade de reprimir de prompto e punir com
severidade os attentados commettidos contra a ordem publica, segurana
do Estado e suas instituies. Por um d'esses decretos entregava 
exclusiva competencia dos tribunaes militares, o conhecimento e o
julgamento do crime de rebellio, alis previsto e punido no codigo
penal portuguez. Na cidade do Porto, no faltavam edificios onde
podessem funccionar os conselhos de guerra nem cadeias onde acumular os
individuos presos como implicados na revolta. Mas o governo receiou que
a populao se interessasse demasiadamente pelo espectaculo dos
julgamentos e assim decidiu que os conselhos de guerra reunissem a bordo
de navios de guerra.

Para esse effeito, collocaram no porto de Leixes o transporte _India_,
a corveta _Bartholomeu Dias_, e o vapor da Mala Real, _Moambique_,
guarnecido com marinheiros da _Sado_. Como deposito de prisioneiros
juntaram a estes tres navios um velho ponto incapaz de navegar. Para o
_Moambique_ foram mandados Joo Chagas, Santos Cardoso, o capito
Leito, tenentes Coelho e Homem Christo, as praas do regimento de
caadores 9 e os civis: Miguel Verdial, Felizardo de Lima, Santos Silva,
o abbade de S. Nicolau (rev. Paes Pinto), Eduardo de Sousa, Amoinha
Lopes, Thomaz de Brito, Barbosa Junior, Alvarim Pimenta, Jos Duro,
Pereira da Costa, Gomes Alves, Soares das Neves, Pinto de Moura, Pinto
de Vasconcellos, Aurelio da Paz dos Reis, Cervaens y Rodrigues,
Feito y Sanz e Simes d'Almeida. Para a _Bartholomeu Dias_ foram as
praas de infantaria 18 e 10; para o _India_, o alferes Trindade e
os revoltosos da guarda fiscal. Mais tarde, o tenente Coelho passou
do _Moambique_ para aquella corveta. Dos chefes civis do movimento,
conseguiram expatriar-se o dr. Alves da Veiga, Jos Sampaio (Bruno) e
Basilio Telles.

[Ilustrao: Santos Cardoso, preso a bordo]

Reunidos os conselhos de guerra, os julgamentos decorreram de tal modo
que ninguem se illudiu sobre a sorte que estava reservada aos
revoltosos. Sabia-se de antemo que sobre elles recahiria o peso d'uma
forte condemnao e que quaesquer que fossem os incidentes revelados
durante as sesses dos conselhos elles em nada alterariam a sentena j
lavrada.


O tribunal--affirmou-se mezes depois no manifesto dos emigrados da
revoluo--era uma to evidente delegao do poder executivo que, em
plena audiencia, um dos julgadores, nem sequer resguardando o melindre
das conveniencias, declarou que no proseguiria n'um detalhe qualquer de
juridicas investigaes, _em virtude de ordens superiores_.

Foi decerto tambem em virtude d'essas ordens superiores que os
julgamentos se realisaram sobre o mar, acossado por uma invernia
excepcional. Foi em consequencia d'essas ordens que succedeu que, uma
tarde mais aspera, as vagas arrojaram contra os paredes do porto
(Leixes) ainda em via de construco, desamparado e  merc,
consequentemente, um dos navios ahi ancorados, persuadindo-se todos os
habitantes do Porto que a verminada carcassa desfeita fra a d'um dos
pontes onde se mandara apodrecer os suppostos criminosos e
assistindo-se ento ao tremendo exemplo d'uma populao de mes e
esposas clamorosas accorrendo, em gritos de dr, a olhar a perfida,
movedia sepultura, onde repousariam, emfim, seus desditosos filhos,
seus tristes esposos, a alegria das suas almas, as esperanas de
suas escuras existencias.

Em virtude e consequencia d'essas ordens superiores foi que um dos
navios de guerra (pois que se transformaram os maritimos gloriosos do
glorioso Portugal passado em carcereiros dos que almejavam restituir a
patria ao seu antigo esplendor) se desprendeu uma noite de tempestade e,
com um condemnado a bordo, andou perdido, sem provises e sem rumo, na
serrao, pela clemencia infinita das aguas.


Terminados os julgamentos, os conselhos de guerra condemnaram na pena de
priso maior cellular (e, na alternativa, na de degredo): Joo Chagas,
Santos Cardoso, Verdial, capito Leito, os sargentos Abilio, Galho,
Silva Nunes, Castro Silva, Rocha, Barros, Pinho Junior, Fernandes
Pinheiro, Gonalves de Freitas, Villela, Pereira da Silva, Folgado,
Figueiredo e Cardoso, os cabos Joo Borges, Galileu Moreira e Pires e o
soldado da guarda fiscal Felicio da Conceio. O tenente Coelho foi
condemnado a cinco annos de degredo. Aos restantes implicados couberam
penas variaveis de deportao militar, degredo e priso correccional.

Os regimentos de caadores 9 e infantaria 10 tambem soffreram castigo
exemplar: o governo dissolveu-os. E comtudo, em 1826, o primeiro de
esses corpos, tendo-se revoltado contra o marquez de Chaves, que
defendia o absolutismo do sr. D. Miguel, fra aclamado fiel e at
comtemplado com augmento de soldo...




CAPITULO XIX

Para as despezas da revolta bastou um conto de ris


Uma das accusaes graves feitas aos revolucionarios do 31 de janeiro
foi a de que o movimento s se levara a cabo para servir interesses
inconfessaveis e apoiar especulaes financeiras. Envolveram-se durante
alguns dias os revolucionarios n'um circulo de malquerena e de odio,
attribuindo-se-lhes propositos realmente nefandos--como dizia o governo
nos documentos officiaes, classificando os incidentes do movimento. O
_Diario Illustrado_ chegou mesmo a affirmar:


Elles (os revolucionarios) puzeram-se, conscientemente muitos,
inconscientemente alguns, ao lado dos inimigos da patria, serviram a
causa da Inglaterra, que nos quer expoliar em Africa; _serviram a causa
dos financeiros que pretendem explorar com onzenices as desgraas da
nossa situao_.


Outro jornal, as _Novidades_, ia mais longe:


D'onde veiu e para onde foi o dinheiro que se arranjara para a revolta?

Houve ha um mez uma reunio no Porto onde foram dois delegados de
Lisboa. Ao contrario do que se tem dito, o accordo para a revoluo foi
completo. Nem os de l nem os de c divergiram. No que no concordaram
os de c com os de l foi na forma da republica a proclamar, oppondo-se
os de Lisboa  federao com a Hespanha.

O que  certo, porm, porque resulta de documentos encontrados, e
de depoimentos recolhidos,  que a isto se seguiu a subscripo aberta
em Lisboa para a revolta, que produziu rapidamente 20 contos que foram
levados ao Porto por dois sujeitos, um dos quaes tem uma alta graduao
burocratica. Esse dinheiro ficou nas mos de Alves da Veiga.

Escusamos dizer que no foi encontrado na busca que a policia fez. Nem
o dinheiro nem os papeis importantes, porque as gavetas foram j
encontradas tiradas dos moveis, espalhadas pelo cho e alguns dos papeis
que n'ellas ainda havia eram ou insignificantes ou rasgados.

[Ilustrao: Actor Verdial (1891)]


Em summa, as _Novidades_ diziam claramente que um dos chefes da revolta
recebera alguns contos de ris e com elles se locupletara.

Essa e outras accusaes despertaram, como  natural, protestos
vehementes. Os jornaes republicanos, apesar da mordaa que o governo
lhes collocara apoz o 31 de janeiro, esforaram-se o mais possivel por
quebrar os dentes  calumnia e apagar a serie de apodos com que a
imprensa monarchica mimoseava os revoltosos. E esse sentimento de
protesto conquistou tambem a grande maioria dos jornaes madrilenos,
porque um d'elles, o mais accentuada e tradicionalmente monarchico,
o jornal ultra-conservador a _Epoca_ fez cro com os collegas radicaes
que estygmatisaram a insidia cavilosa.

E comprehende-se que assim succedesse. No era crivel que o exercito
portuguez--a parte d'esse exercito que se revoltara no 31 de
janeiro--pensasse em saquear a cidade do Porto, como egualmente a
imprensa monarchica pretendeu fazer acreditar. Admittir tal hypothese
seria o mesmo que admittir que a revolta, longe de visar  proclamao
da Republica, se limitava a favorecer o roubo d'umas tantas casas
commerciaes. Narrou-o mais tarde um dos revolucionarios que conseguiu
escapar  furia dos serventuarios do regimen, exilando-se em Hespanha:


Emquanto a estupida imprensa officiosa de Portugal enxovalhava de tal
modo o exercito portuguez perante a Europa toda, por um momento occupada
quasi exclusivamente do que estava ocorrendo na nossa terra, o
jornalismo estrangeiro registava, ainda com os louvores mais rasgados,
que a revoluo militar do Porto no se devera a nenhum baixo mobil, no
fora propulsionada por nenhum mesquinho interesse, antes, pelo
contrario, constituira, na solidariedade moral europeia, um caso honroso
para toda a humanidade e infelizmente raro, na historia d'um movimento
politico, combinado e ultimado pelo simples prestigio das convices.

E todavia a imprensa estrangeira ignorava que o trao particularmente
typico do movimento de 31 de janeiro foi o da sua essencia genuinamente
democratica; ignorava que nenhuma seduco poderia exercer em almas
populares o fascinamento das posies sociaes de elevados alliciadores,
pois que os no houve; ignorava que no smente no existia caixa
alguma, pittoresca, estolidamente, denominada _da revoluo_, mas
ainda que nem sequer o anonymo soldado recebera um real para sahir do
quartel; ignorava que na noite famosa que precedeu o acontecimento se
deixara bem assignalado que, na hypothese da victoria, nenhum dos
militares revolucionados teria a mais somenos promoo ou o mais
insignificante beneficio, de qualquer genero que fosse.

Em to novas condies se consumou este movimento politico de 31 de
janeiro de 1891 que elle far a admirao das geraes portuguezas e
nobilitar o paiz, comprehendendo-o na esphera dos povos que sabem,
podem e querem, ao menos tentam pelejar e morrer pela consecuo
desinteressada d'um ideal de justia abstracta.

A historia no ha-de ser commettida aos escribas da imprensa vendida
dos nossos tempos; e a historia ha-de considerar o movimento republicano
do Porto a uma altura que parece irrisorio talvez  tagarelice insensata
de certos portuguezes de hoje.


E tinha razo de sobejo o revolucionario emigrado. Tres dias depois de
suffocado o movimento, o presidente da edilidade portuense, n'uma nota
distribuida aos jornaes monarchicos, salientava o facto dos revoltosos
no haverem tocado no thesouro da camara emquanto occuparam o edificio
municipal. Na grande meza da sala das sesses repousaram, durante o
tiroteio entre os revolucionarios e as foras fieis, magnificos
tinteiros de prata. Pois ninguem lhes tocou, at que os empregados da
camara, uma vez liquidado o movimento, os arrecadaram em logar seguro.

A _Tarde_, jornal de Lisboa affecto ao antigo partido regenerador, bem
se esfalfou em asseverar que a muitos dos militares presos tinham sido
encontradas libras em ouro, o que provava que na madrugada de 31 de
janeiro se fizera larga distribuio de dinheiro. Outras gazetas
insinuaram egualmente que a revoluo rebentara mais cedo do que fra
determinado pelos seus organisadores, porque um dos sargentos
compromettidos tendo defraudado a caixa do respectivo regimento em
centenas de mil ris--gastos em alliciar os subordinados--no queria de
modo algum que em 1 de fevereiro de 1891 o obrigassem a prestar contas.
Afinal, tudo isto cahe pela base sabendo-se que o unico dinheiro que
serviu realmente a pagar despezas da revolta foi fornecido ao dr. Alves
da Veiga pelo negociante portuense Jos Ferreira Gonalves e no
excedeu... um conto de ris. No se dir, por isso mesmo, que o
movimento custou caro!

Junte-se agora a essa quantia a de sete contos--em que se avaliou os
estragos causados pelas balas nos predios dos Clerigos, rua de Santo
Antonio e praa de D. Pedro--e vr-se-ha que nunca se fez uma revoluo
com tanta economia de numerario e tanta nobreza de procedimento da parte
dos que a levaram  pratica.


Mas se os revolucionarios dispenderam pouquissimo dinheiro em investir
contra o regimen monarchico, em compensao prodigalisaram os actos de
heroismo. N'outro logar d'esta narrativa, j assignalmos o ardor com
que a guarda fiscal e as tropas do 10 e do 9 sustentaram na rua de Santo
Antonio e na casa da camara as arremettidas da guarda municipal.
Devemos, no emtanto, registar dois casos typicos que a imprensa da epoca
descreveu pormenorisadamente e que qualificam nitidamente o valor dos
insurrectos.

Um d'elles  o d'um guarda fiscal--figura de athleta--que, installado
n'uma das janellas do Caf Suisso, na praa de D. Pedro, ahi se manteve
desfechando ininterruptamente a sua espingarda sobre os defensores
da monarchia e s abandonou o posto quando lhe faltaram totalmente os
projecteis. Essa janela do caf ficou crivada de balas, mas o guarda
fiscal em questo nunca perdeu o sangue frio e por espao de horas
visou, certeiro, a guarda municipal. O segundo caso  a reproduco do
primeiro e occorreu n'outra janella do estabelecimento j citado, onde
se entrincheiraram quatro estudantes.

[Ilustrao: Revoltosos presos a bordo do _India_]

Compare-se a attitude d'essas creaturas luctando serenamente,
imperturbavelmente, pelo ideal que se tinham proposto conduzir 
victoria com o de outras que no curto espao de tempo que durou a
revolta se bandearam primeiro com os revoltosos e logo a seguir
manifestaram a sua adheso ao regimen monarchico. Os exemplos
d'essa cobardia moral abundam. Respigamos ao acaso n'um jornal portuense
do dia 2 de fevereiro de 1891:


C... proprietario d'um armazem de moveis e L... pharmaceutico, logo que
viram o caso mal parado (o triumpho momentaneo dos insurrectos) tiraram
das frontarias dos respectivos estabelecimentos os escudos com as armas
reaes; mas depois tornaram a collocal-os, porque perceberam que a
monarchia no fra vencida na refrega.




CAPITULO XX

Triste balano: o das victimas da insurreio


Vinte e quatro horas apoz a liquidao do movimento, espalhou-se que o
numero de mortos na refrega no passara de doze--na sua maioria guardas
municipaes. Entretanto, na populao portuense ficou durante muito tempo
a impresso de que esse numero no representava a verdade e que os
cadaveres de revoltosos sepultados nos cemiterios da capital do Norte se
tinham contado por centenas. O _Primeiro de Janeiro_, do dia immediato
ao da revolta, forneceu aos seus leitores esta lista de feridos
graves--muitos dos quaes vieram a fallecer dos ferimentos recebidos:


_Recolhidos no hospital do Tero._--Manuel Canedo, soldado de
infantaria 10; Manuel Barreira, guarda municipal; Francisco Joaquim,
guarda municipal; Manuel Maria, soldado do 10; Jos Joaquim Teixeira,
guarda fiscal; Joo Manuel Gomes, guarda fiscal; Antonio Carneiro,
soldado do 18; Pedro da Rocha, soldado do 10; Manuel Cardoso, cabo
da municipal; Joo Nepomuceno, guarda fiscal; Antonio Pereira de
Almeida, civil; Francisco Jos e Jos Antonio Carneiro, municipaes; Joo
Jos Pereira de Azevedo Lobo e Joaquim Gomes, cabos da municipal; dr.
Joo Henrique da Rocha, redactor da _Luz_; Maria Custodia Alves,
costureira. Esta rapariga estava  janella da casa do sr. Henrique de
Mello quando rebentou o tiroteio e recebeu uma bala no pescoo.

_Recolhidos no hospital da Misericordia._ Victorino da Assumpo e
Domingos da Cunha, guardas fiscaes; Antonio Joaquim, municipal;
Bernardino Gonalves Losa, cabo da municipal; Albino Cardoso, guarda
fiscal; Julio Cordeiro, sargento do 18; Joo Aleixo, corticeiro; Jos
Manuel da Silva Monteiro, charuteiro; Joaquim Sant'Anna, pedreiro; Joo
de Castro, empregado forense; Antonio Gomes Junior, alfaiate; Manuel
Pereira da Fonseca, chapelleiro; Cosme Campos Cabral, estudante;
Marianna Rosa, servial.

_Recolhidos no hospital militar._--Lemos Junior, cabo do 10; um soldado
do 9 e tres soldados da guarda municipal.


Sobre o numero de mortos, dizia:


_No hospital do Tero._--Um soldado da guarda fiscal.

_No hospital da Misericordia._--Jos Joaquim d'Almeida, tamanqueiro;
Joo de Carvalho, trolha; um desconhecido e Jos Gustavo Adolpho Alves
de Almeida Guimares.

_Nas ruas_--Um desconhecido; Silverio d'Almeida Santos, guarda fiscal;
Taveira, 2. sargento; Domingos Nogueira; Joo, entalhador e um
empregado do commercio, irmo do redactor da _Republica_ Jayme
Filinto.


Evidentemente, esta lista era deficientissima. Tanto assim que d'ahi a
dias uma nota do commissariado geral da policia indicava como despojos
dos militares compromettidos no movimento:


147 espingardas, 147 terados, 1 espadim de official, 3 espadins de
musicos, 1 bainha de espada de cavallaria, 147 patronas, 176 cintures
completos, 197 cananas, 14 cantis, 12 mochilas, 92 capacetes grandes,
parte dos quaes sem a cora real, 13 bonets da guarda fiscal, 9
instrumentos musicos, uma corneta, dois tambores, 39 capotes, um capote
de official, 23 jaquetas, a maior parte das quaes pertencentes a
sargentos, 173 massos de cartuchame embalado com vinte tiros cada um,
227 massos com dez tiros e uma grande poro de balas soltas.


Reproduzindo esta nota, no queremos dizer com isso que cada um dos
objectos acima enumerados tenha realmente correspondido a um morto pela
revoluo. A nota, em primeiro logar, expressa por uma maneira bem
flagrante a intensidade do panico que se desenvolveu ao principiar o
recontro na rua de Santo Antonio. Por outro lado, muitos dos militares
que empunhavam esse armamento recolhido pela policia, tendo conseguido
escapar  fusilaria da municipal, abrigaram-se fra do Porto e uma
grande poro d'elles fugiu para Lisboa. Em resumo: se no foram apenas
doze as victimas do movimento republicano--como se pretendeu affirmar no
dia seguinte ao da derrota--tambem no cremos que tivessem passado de
cincoenta os cadaveres enterrados nos cemiterios.


No dia 3,  meia noite, correu no Porto que o regimento de infantaria 3,
aquartelado em Santo Ovidio de camaradagem com o 18--fra para ali
horas depois de suffocada a revolta--se insubordinara e pretendia sahir
 rua dando vivas  Liberdade e  Republica. A capital do Norte tornou a
viver momentos de angustiosa espectativa. Pelo espirito da populao
portuense de novo perpassou a viso d'outros cadaveres empilhados no
Prado do Repouso... A guarda municipal, prevenida dos boatos correntes,
encaminhou-se sem demora para o Campo de Santo Ovidio. Ahi, reconhecendo
que nada tinha a fazer, evolucionou em varias direces e por fim desceu
 Praa de D. Pedro, ostentando a _pose_ irritante adequada a
_salvadores da monarchia_. De madrugada recolheu ao quartel e a cidade
recuperou o socego.

[Ilustrao: Antonio Jos de Almeida (1891)]

Nos dias immediatos, ainda os cemiterios receberam os corpos de algumas
das victimas da Revoluo. Tratava-se de feridos graves operados nos
hospitaes e que no tinham resistido a amputaes dolorosissimas, s
trepanaes e outros trabalhos cirurgicos. A par d'essa liquidao
funebre, a policia e as auctoridades militares procediam a uma outra: a
das creaturas que se lhes affiguravam suspeitas de republicanismo. Para
mais, nas buscas realisadas em diversas casas de revoltosos haviam sido
apprehendidos documentos provando a adheso ao movimento no s de
quasi todos os officiaes inferiores da guarnio do Porto mas de dezenas
de militares residentes n'outros pontos do paiz. E assim, a rede lanada
pelos agentes da ordem procurou abranger o maior numero possivel de
elementos accusatorios, collocando ao mesmo tempo os presos politicos em
situao de esmorecerem de animo pelo effeito do tratamento que lhes
dispensavam.

Dil-o um testemunho insuspeito:


Punge-me a triste situao em que se acham os revoltosos do 31 de
Janeiro. Aos presos apenas  dada uma triste aorda; no teem cama nem
uma enxerga ou maca, nem uma pouca de palha em que se deitem, nem uma
manta em que se embrulhem. Os que dispem d'alguns recursos mandam ir
das suas casas roupas e enxergas, mas os restantes, que so o maior
numero, esto dormindo nas tabuas nuas, tiritando e morrendo com frio.


Pelo que respeita  assistencia judiciaria foram os revoltosos mais
felizes. O curso do 5. anno da Faculdade de Direito, n'um impulso de
vehemente generosidade, offereceu-se em massa para defender os rus,
explicando, porm, pela bocca do seu camarada dr. Lomelino de Freitas--o
porta-voz do bizarro offerecimento--que a sua attitude no implicava de
modo algum profisso de f politica nem approvao ou desapprovao dos
acontecimentos.

Os republicanos que tinham conseguido abrigar-se em Hespanha, esses,
depois de socorridos pelo governo do paiz visinho, haviam recebido ordem
de se afastar da fronteira, internando-se--exactamente o contrario do
que succedeu mais tarde, estando no poder o sr. Canalejas e tentando o
ex-capito de artilharia Paiva Couceiro restaurar a monarchia
brigantina.

A situao, em resumo, tornara-se difficil e penosa para todos os que,
no partilhando da subserviencia incondicional ao regimen monarchico, se
viam forados a procurar no isolamento ou no exilio a tranquilidade que
o mesmo regimen lhes negava. O governo, no proposito firme de cortar as
azas  mais insignificante velleidade de resistencia, dissolvia os clubs
republicanos e punha a guarda municipal constantemente de preveno. E a
sua furia contra as aggremiaes democraticas attingiu taes propores
que s n'um dia mandou fechar quatorze das que ento existiam em Lisboa.




CAPITULO XXI

A serenidade d'uns e o desalento de muitos


Chegado o momento da justia militar pedir contas dos seus actos aos
individuos presos por effeito da revolta, houve o maximo cuidado, nas
regies officiaes, em impedir que os depoimentos dos _principaes
culpados_ salientassem o condemnavel procedimento de varias
personalidades consideradas sustentaculos do throno. Procurou-se assim
dar ao grande publico,  nao inteira e at ao estrangeiro, a impresso
falsissima de que a revolta de 31 de Janeiro brotra apenas dos cerebros
de meia duzia de tresloucados, creaturas apagadas e de nullo valor
social, sem ligao com outros elementos de superior importancia. Ao
mesmo tempo, a imprensa monarchica tentou insinuar, falsamente tambem,
que a maioria dos individuos presos como revolucionarios experimentra,
ao embarcar nos navios-prises, o arrependimento do seu gesto nobre
e patriotico e s anceiava por alijar as responsabilidades que lhe
cabiam  face das leis.

Se  certo que no decorrer da instruco do processo e mesmo durante o
julgamento em conselho de guerra alguns d'esses homens mostraram falhas
de animo e de coragem, devidas essencialmente  torturante atmosphera
moral que os agentes da monarchia lhes tinham creado, muitos houve--e
esses constituiram o maior numero--que evidenciaram no s incomparavel
dignidade como uma presena de espirito, uma serenidade verdadeiramente
heroicas.

Joo Chagas, por exemplo, conservou uma placidez digna de registo. Dil-o
um jornal da epoca:


O brilhante escriptor no afasta de si todas as responsabilidades nem
as assume todas. Acceita as que tem e no as declina, antes entende que
deve ufanar-se d'ellas. Essas responsabilidades versam principalmente
sobre o que elle escreveu e sobre o que se publicou no jornal que
dirigia: a _Republica Portugueza_.


E como circulasse que no seu depoimento feito perante a auctoridade
militar, o illustre pamphletario commentra acremente a attitude dubia
de diversos individuos compromettidos na revolta, o mesmo jornal a que
acima nos referimos accrescentou dias depois:


 inexacto que o depoimento de Joo Chagas contenha censuras. Elle
julga simplesmente que  nobre que responda cada qual corajosamente
pelos seus actos.  correcto. Joo Chagas mantem a serenidade e a
tranquilidade dos primeiros dias. Dorme pouco em virtude d'uma tosse que
contrahiu na frialdade humida da cadeia. Ser visto por um medico. Um
amigo do fogoso jornalista, desejoso de lhe provar a considerao e
a estima em que o tem, fez-lhe, por intermedio do digno director da
cadeia, alguns offerecimentos que elle agradeceu e recusou. Consta at
que affirmou, mostrando desprendimento pela vida:

[Ilustrao: Os prisioneiros a bordo]


--O ser condemnado pouco me importa. Estava um pouco canado e o
governo, mandando-me prender, offereceu-me descano por alguns annos.


D'uma vez, porm, a serenidade de Joo Chagas estremeceu ao de leve. Foi
no dia, em que j encarcerado a bordo, viu passar, a curta distancia do
local onde se encontrava, o famoso director da _Justia
Portugueza_. Ento, voltando-se para um companheiro de priso, disse,
apontando Santos Cardoso:

--Estamos aqui a pagar as antipathias que aquelle homem provocou...


E j que falamos de Santos Cardoso: o seu depoimento confiado ao
instructor do processo no correspondeu ao que se esperava do seu
aspecto energico, quasi feroz. Mostrando-se muito abatido e desanimado,
declarou que no tomra parte activa no movimento insurreccional, que
nada soubera antecipadamente do _complot_ revolucionario e que apenas
sahira  rua na madrugada de 31 de Janeiro depois de ter ouvido tocar a
rebate na egreja da Lapa. Mais tarde descera  praa de D. Pedro e
assistira na camara  proclamao da Republica. Contou, n'esta altura,
um insignificante episodio occorrido dentro do edificio municipal. A seu
lado, na sala, encontrava-se no momento da proclamao, um individuo
envolto na bandeira do Club Democratico 15 de Novembro. Esse individuo,
pretendendo deslocar-se para ir  varanda, ensarilhou o cordel da
bandeira na espingarda d'um soldado e a arma cahiu no sobrado. A
multido, receiando que a espingarda se disparasse, afastou-se
pressurosa do local...


Decorridos alguns dias apoz o depoimento, a esposa de Santos Cardoso foi
visital-o  priso. O antigo director da _Justia Portugueza_ soffreu
tal choque com essa visita, que chorou desabaladamente, lamentando a sua
situao e pedindo a todos que d'ella se apiedassem. Ignorava, disse, a
responsabilidade em que incorria, tomando parte no movimento; do
contrario, no o teria feito. E quando teve conhecimento das
declaraes de Homem Christo, prestadas  policia, declaraes que
relatavam minuciosamente os seus trabalhos na preparao revolucionaria,
ento o seu desanimo tornou-se mais profundo. Succumbiu.


O jornalista Eduardo de Sousa, que collaborara na _Republica Portugueza_
sob o pseudonymo de _Gualter_, esse, pretendendo fazer um depoimento
revelador d'uma virilidade intemerata, lanou a policia na peugada de
varios republicanos egualmente implicados no _complot_. A imprensa
noticiosa da epoca chegou a asseverar que a defeza desse reu servira
simplesmente a comprometter diversas personalidades, algumas das quaes
tinham sido presas ao mesmo tempo que elle. Cremos, porem, que muito se
exagerou a tal respeito e que a verdade do caso reside no proposito de
atrevido exhibicionismo que acima registamos.


O sargento Abilio, n'uma carta que escreveu ao juiz affirmou
desassombradamente: sou culpado, mas ha superiores meus mais culpados
do que eu.


Depoimento de Dyonisio Ferreira dos Santos Silva: Sou republicano desde
que me conheo, mas mais accentuadamente desde 11 de janeiro de 1890; no
emtanto, nunca fui socio de nenhum club democratico e nunca privei com
os homens dirigentes do partido republicano. No sabia da revolta que se
preparava para 31 de janeiro e no podia, portanto, ter alliciado para
ella militares ou paisanos. Soube da sublevao horas antes de rebentar,
porque era esse o assumpto de todas as conversas nos cafs,
restaurantes, etc. Attribuo a minha priso ao facto de ser pouco
conhecido na policia...

Tambem declarou ter sociedade na empreza do jornal _Republica
Portugueza_; fra presencear, como curioso, os successos do dia 31, mas
no tomra a menor parte n'elles, e sentia-se, por isso mesmo,
tranquillo, no receiando o resultado do seu julgamento.


Declaraes do actor Verdial: No alliciei ninguem para a revolta;
sabendo que o movimento estava para rebentar, fui ao Campo da
Regenerao, onde collaborei nos episodios que ahi occorreram.
Parlamentei com o coronel Lencastre, commandante de infantaria 18, e
entrei depois na Camara Municipal, onde me conservei at o edificio ser
atacado pelas tropas monarchicas. S me pesa uma cousa: a lembrana de
minha mulher e dos meus filhos. Comtudo, aguardo sereno, a sentena do
tribunal.


Do abbade de S. Nicolau: Tinha por costume recolher a casa todos os
dias, s 7 da tarde, sendo falso que conspirasse na sombra contra as
instituies vigentes; para elle eram boas todas as formas de governo,
desde que os homens se inspirassem nos verdadeiros principios da moral e
da justia. Desilludido com respeito aos processos governativos at aqui
seguidos, a Republica era para elle uma esperana, mas no a queria por
meio da anarchia; os comicios realisados no theatro do Principe Real, em
que figurara, deram-lhe certa notoriedade, sendo essa a origem das
desventuras por que estava passando. No era homem de aco, porque
d'isso o impedia o seu caracter sacerdotal. Tendo ouvido falar no dia 30
a alguns individuos na revolta que se ia dar, sobresaltara-se com a
noticia e recolhera a casa. Na manh seguinte, sahira para fins
religiosos, ouvindo ento falar na reunio das tropas na praa de D.
Pedro. Ao avistarem-n'o, muitos populares ergueram-lhe vivas. Entrara no
edificio da camara, mas ao vr que ali reinava a anarchia, afastara-se
do local, encaminhando-se novamente para o seu domicilio. Tinha
confiana em que justia lhe seria feita...


Alvarim Pimenta falou d'este modo: Nunca commungara nos segredos dos
dirigentes do partido democratico; como um dos societarios da empreza
litteraria em que exercia o logar de administrador da _Republica
Portugueza_, fra presencear os factos occorridos no Campo da
Regenerao e paos do concelho; mas no assistira s reunies
preparatorias da revoluo ou se envolvera nos acontecimentos que se
deram.


Do aspirante a medico naval Gomes de Faria, accusado de ter tentado
revoltar a guarnio da corveta _Sagres_: No tivera o minimo
conhecimento dos preparativos da revolta, pois no estava pessoalmente
relacionado com os individuos indicados como promotores d'ella; nunca
assistira nem fora convidado a assistir a reunies preparatorias para a
sedio. Na madrugada de 31 de janeiro fora a sua casa o 1. sargento
Abilio de caadores 9 que o convidra a um passeio at Massarellos, afim
de ambos visitarem a corveta _Sagres_. Estranhara a proposta, recusra a
principio, mas, instado, terminra por acceder. Quando ia a sahir de
casa, acompanhado do sargento Abilio, este dissera-lhe que era melhor
vestir o uniforme de aspirante a medico naval, para ter mais facil
ingresso na _Sagres_. Achara natural a observao e vestira o uniforme.
Chegados ambos a Massarellos, dirigiram-se para bordo da corveta. S
n'essa occasio  que o sargento Abilio lhe dissera que se tratava de
sublevar a tripulao para adherir  revolta que ia rebentar. Hesitou
quando soube o papel que lhe destinavam, mas sendo republicano convicto,
embora no fosse partidario dos meios violentos, no tivera foras
para retroceder; por isso fra a bordo da _Sagres_ tentar, mas sem
resultado, sublevar a guarnio. Suppozera sempre no ter incorrido em
grande delicto; por esse facto no se homisiara, apesar de o terem
aconselhado a fazel-o.


Por ultimo, o depoimento do commissario geral da policia: Estava na
Praa de D. Pedro e viu alli chegarem os revoltosos. Receiando que elles
o prendessem, refugiou-se n'uma casa em obras proximo do restaurante
Camanho, onde trocou o fato pela blusa d'um operario. Depois subiu mais
um andar e d'ahi presenceou a lucta entre os republicanos e as tropas
fieis. Parte dos revoltosos destroados na rua de Santo Antonio veiu em
debandada para a praa de D. Pedro, formando aqui tres pelotes
commandados pelo capito Leito e recolhendo mais tarde  casa da
camara. Tambem viu a fuga precipitada d'um troo de cavallaria da guarda
fiscal em direco aos Clerigos e recorda-se dos nomes de varias pessoas
que se envolveram no movimento.


Escusamos dizer que o commissario geral da policia do Porto no se fez
rogado para indicar s auctoridades militares esses nomes, contribuindo
assim com a sua solicitude para augmentar o numero de presos existentes
a bordo dos navios fundeados em Leixes.




CAPITULO XXII

O julgamento dos revoltosos


Vamos terminar. Mas, antes de o fazermos,  de necessidade registar
algumas notas colhidas no decorrer dos conselhos de guerra que
sentenciaram os revoltosos. Ellas daro aos leitores d'esta modesta e
desataviada narrativa uma ideia clara da forma como se procedeu no
julgamento de todos esses homens e da attitude de alguns d'elles em
momento to critico e to grave.

[Ilustrao: Dr. Affonso Costa (1891)]


_Depoimento do 1. sargento Abilio:_

Narrou pormenorisadamente todos os incidentes que caracterisaram a
revolta e perguntado por fim sobre as intenes com que entrra no
movimento, respondeu:

--Sim, entrei no movimento para ajudar a depr o rei D. Carlos, porque
sou republicano e tenho muitas razes para o ser. No sou republicano de
evoluo, porque, por ella nem d'aqui a um seculo, julgo, teremos a
republica em Portugal. O que reconheo  que fomos enganados, pois vi
muitas adheses escriptas e sabia de outras feitas verbalmente e de
reunies de camaradas meus e de outros de superior graduao.

Sobre a sua priso conta que foi o ultimo a retirar da casa da camara,
quando j no tinha munies. Refugiou-se n'um predio da rua do
Almada. Quando ali appareceram soldados da municipal a perguntar se
l estava algum militar, o dono da casa perguntou-lhe o que queria que
dissesse. Elle apresentou-se. Os municipaes cruzaram ainda armas contra
elle, apesar de o verem s e desarmado. Deu-se  priso.

O auditor insistiu com o reu para que declarasse quaes eram os
militares que tinham relaes com os auctores do movimento do Porto. O
reu respondeu simples, mas dignamente:

--No senhor, no digo...

E acentuou:

--No quero acusar ninguem; quanto a mim, digo que foi da melhor
vontade que entrei no movimento e no declino a minha responsabilidade.
Na parada do quartel fui eu quem primeiro levantou um viva  Republica.


_Depoimento de Eduardo de Sousa (aspirante a medico naval):_

Declarou francamente ser republicano e repudiou por completo o seu
depoimento escripto que lhe foi arrancado pela policia  fora de ardis
e por outros meios egualmente condemnaveis. Declarou mais ter dado a
nota alegre na ceia que houve no caf Suisso na vespera da revolta,
assim como outros deram a nota philosophica, etc. Quanto a essa ceia,
explica que era seu costume e dos demais convivas cear ali todas as
noites. Accrescentou que acompanhra o movimento das tropas na qualidade
de redactor da _Republica Portugueza_ E no na de _reporter_ como lhe
chamaram.


_Extracto da sesso do 2. conselho de guerra (8 de maro de 1891)_:

... A parte mais interessante foi o promotor requerer acareao entre o
tenente de cavallaria 6, Vaz Monteiro, do destacamento aquartelado
no Porto, com o reu Thadeu Freitas, sargento de infantaria 10. Na
audiencia de hontem, Thadeu disse que o referido tenente affirmra ao
tenente Coelho que o esquadro estava prompto a sahir para acompanhar os
revoltosos. Chamado o tenente Vaz Monteiro, este negou ter dito
semelhante cousa. Acareado com o sargento Thadeu continuou negando a ps
juntos. Thadeu confirmou, acrescentando que o tenente Vaz Monteiro
pedira senha ao tenente Coelho.

Acareados ambos com este reu, Coelho disse no se recordar de
semelhantes palavras. Falara no Campo da Regenerao com o tenente Vaz
Monteiro, mas este apenas lhe observara: Manuel, vae-te embora. Nada
mais. O sargento Thadeu disse que era verdade tudo que tinha affirmado e
que se o tenente Coelho dizia no ter ouvido as palavras do tenente Vaz
Monteiro no era porque as no ouvisse. O que o levava a proceder assim
era o seu cavalheirismo e a nobreza do seu bello caracter, que no
queria comprometter ninguem. Que bem sabia que o tenente Coelho era um
homem de honra e por isso comprehendia a sua negativa.

O promotor requereu com urgencia auto de noticia das declaraes
cathegoricas do sargento Thadeu para as enviar ao quartel general,
segundo o seu dever, a que no podia faltar. O incidente causou
impresso, sendo todos concordes em elogiar o procedimento do tenente
Coelho, que a ninguem quer comprometter.


_Depoimento de Joo Chagas:_

Que o artigo da _Republica Portugueza_ sob o titulo _Terceira
meditao_ era seu e que o artigo que se seguia a esse o no era; sabia
bem de quem era, mas no o dizia. De resto, sendo elle director do
jornal, folgava em poder declarar que assumia, inteira e completa,
toda a responsabilidade dos artigos alli publicados. Inquirido sobre o
facto de ter incitado  revolta, declarou ter incitado  revoluo que
no se dera, porque o movimento de 31 de janeiro no fra um erro
politico, mas um erro de gramatica, um erro de palmatoria. Respondendo 
pergunta--se os artigos do seu jornal eram attentatorios das
instituies vigentes--disse que os membros do tribunal bem melhor do
que elle poderiam e deveriam saber de semelhante cousa.

Era republicano e, como tal, no poderia, est bem visto, defender as
instituies que julgava no convirem  felicidade da sua patria. Uma
vez convencido d'isto, no recuaria deante de qualquer obstaculo ou
contratempo; a sua convico, arreigada pela fora da experiencia da
sociedade portugueza, era pela mudana do systema de governo. No
movimento de 31 de janeiro no tomara parte pelo motivo de estar preso
na cadeia da Relao, por causa da primeira querella do seu jornal,
depois da lei restrictiva de Lopo Vaz contra a imprensa democratica.

Todas as suas declaraes, feitas com um tom de franqueza e
sinceridade, proprias da sua nobreza de caracter, foram escutadas
attentamente e produziram sensao. Ao findar o seu interrogatorio,
travou-se entre elle e o auditor o seguinte dialogo:

--Teve conhecimento antes, do movimento que havia de effectuar-se no
dia 31?

--Sim, senhor.

--Pode dizer-me, quem lh'o disse?

--No quero.


_Depoimento de Homem Christo_:

Contrariara o movimento, como provava pelo artigo dos _Debates_ e pela
circular do Directorio em que figura o seu nome, pela sua ida ao
Porto para dissuadir Santos Cardoso e pela descompostura que por esse
motivo recebeu do mesmo Santos Cardoso.

[Ilustrao: Conselho de guerra a bordo do transporte _India_]

A sua qualidade de republicano d'alma e corao no era cousa que o
impedisse de vr as cousas como ellas realmente so e lhe no
permittisse discernir o que convm  Patria e ao partido do que no
convm nem a uma nem a outro, e antes  prejudicial a ambos. A paixo
politica no o obceca a tal ponto.


_Depoimento do capito Leito:_

--Em abono da verdade, disse o ru, e porque no me soffre o animo vr
que um innocente est envolvido no movimento revolucionario preciso que
o tribunal tome conhecimento de que o espingardeiro de infantaria 10 no
tomou a minima parte na revolta. A accusao que sobre elle impende 
falsa. Reconheci perfeitamente todas as praas da minha companhia e
o espingardeiro no estava ali no acto da sublevao.

A passagem mais curiosa do depoimento , porm, a seguinte, com
referencia ao coronel Lencastre de Menezes:

--O sr. coronel disse-me ento: Obste a que entre mais gente no
quartel e faa sahir os populares que esto dentro. Cumpri essa ordem e
depois de a cumprir voltei para junto do sr. coronel, ouvindo
distinctamente que elle dizia aos paisanos com quem falava: Vo
descanados, que eu l estou s seis horas. Dou-lhes a minha palavra de
honra que no hostiliso o movimento. Deram-se ento muitos vivas ao
coronel do 18. Isto seriam quatro horas e um quarto, o maximo quatro
horas e meia. O coronel accrescentou ainda: Preciso ordenar certas
providencias para guardar os reclusos do presidio e o cofre. Os senhores
j l teem duas companhias e eu tenho pouca gente disponivel...

Eu entrei no movimento militar, continuou o capito Leito, por muitas
circumstancias e no foi s a ideia de ser ou no republicano que em mim
imperou; foi s pelo bem do meu paiz que trabalhei. No sou monarchico,
mas j o fui. Comecei a carreira militar apoiando o partido regenerador
e em 1874, nas suas fileiras, procurei ser util ao meu paiz. Tambem
militei no partido progressista, no qual julguei antever uma regenerao
da minha patria. Dentro em pouco, percebi que tanto um como outro
d'esses partidos nada faziam em bem da nao. Quasi todos os annos
promettiam vida nova; mas no passavam d'isso; eram tudo apparencias
enganadoras.

Afinal tudo isto me chegou a fazer crer e a convencer de que todos
ns--o paiz--estavamos fra da lei e que eu, estando o paiz fra da lei,
o estava egualmente. Eu no posso permittir nem admittir que a lei
seja por degraus. Eu julgo a lei superior a tudo e a todos e, portanto,
no admitto irresponsabilidades a ninguem. Eu, como capito, aquelle
como coronel e este como general, todos teem deveres e obrigaes e so
responsaveis pelo seu cumprimento. Ha, porm, uma unica excepo--o que
prova que a nossa lei no  egual para todos, (_exaltando-se_) no
!--Ha um unico responsavel  o rei!

Eu sempre tive um odio profundo ao inglez--desde que me conheo
(_exaltando-se_): os jornaes disseram que eu estava desanimado, mas no
ha tal:  mentira! Tinha um tio que se bateu contra os inglezes,
morrendo de 101 annos de edade. Como todos os velhos militares, gostava
de narrar os seus feitos ou os dos seus camaradas. Com as suas
historias, fez-me elle conceber esse odio, narrando-me algumas das
infamias e torpezas da tal raa. O que me custava mais  que, depois do
_ultimatum_, no terminassem ainda com essa alliana.

O que eu queria e quero  um governo que traga a felicidade do paiz,
que to humilhado est. Embora preso e vilipendiado como estou, espero
ainda a redempo. Considerar-me-hei feliz, se, com o que fiz, concorrer
de alguma forma para o bem da patria. No receio nem temo o castigo: o
que fiz foi o principio de alguma cousa. Ficarei satisfeito, serei
feliz, se a semente, fructificar. No entretanto, nada receio, alm de
que conto no cumprir a pena a que me condemnarem.


Para se avaliar da maneira atrabiliaria como se lanou  conta de
dezenas de individuos as responsabilidades da sublevao, basta
reproduzir alguns trechos dos discursos de defeza proferidos nos
conselhos de guerra:


_Do Dr. Pires de Lima:_

N'uma das guerras da religio foi cercada pelos catholicos uma cidade
protestante. Renderam-se os sitiados; e, conforme os usos barbaros
d'esses calamitosos tempos foram todos condemnados  morte pelos
invasores. Como na cidade tomada havia tambem muitos catholicos,
perguntaram ao legado do papa como os haviam de distinguir dos
huguenotes. Matem-nos todos, respondeu o catholico varo; Deus l os
separar. O mesmo se fez agora. Fra visto qualquer individuo
republicano na camara ou no campo da Regenerao? Prendam-n'o e
mandem-n'o para bordo. Mas elle est innocente:  o mesmo. O tribunal l
os separar.


_Do capito Fernando Maia:_

Acho extraordinario o que se fez aos soldados que ficaram no quartel
quer de guarda, quer nas casernas. Foi um desvairamento singular a
maneira como se procedeu. Que tumultuaria maneira de apreciar
criminalidades e avolumar o numero dos presos! Viu-se aqui, no tribunal,
bem clara e positivamente como tudo isso se fez. Prendeu-se a esmo.
Quantos estavam no quartel e no cahiram nas boas graas, foram presos e
de mais a mais ao engano, dizendo-se-lhes que era para averiguaes,
ainda com receio de que a sua justia valesse mais do que a disciplina!

Onde est a nota dos que se apresentaram voluntariamente? Onde a
d'aquelles que nenhuma parte tomaram no movimento? Onde a relao das
armas limpas e intactas? Onde a d'aquelles que tinham licena para
dormir fra? Se at appareceu aqui quem negasse a existencia d'essas
licenas, quando existem n'este tribunal os documentos officiaes que as
confirmam! Comprehende-se a irritao natural dos chefes contra os
subordinados rebeldes, mas o sentimento da justia, e a natural
piedade para com os vencidos deviam preponderar para que se tratasse de
indagar devidamente as condies especiaes em que cada um se encontrava.


_Do mesmo official referindo-se a muitos dos acusados:_

Reus!  quasi um sarcasmo qualifical-os assim, a todos esses que ahi
esto submissos, respeitosos e obedientes, a todos esses cujas
declaraes sinceras, ingenuamente sinceras, commoveram profundamente
quantos as ouviram.

E os sargentos? Apparece como principal figura o sargento Abilio. Todos
o ouviram aqui: todos apreciaram a franqueza, a nobreza das suas
declaraes. Podia falar, podia comprometter muita gente; podia revelar
cumplicidades graves. A sua generosidade levou-o a repudiar at a defeza
primitivamente apresentada, comquanto referindo inteira verdade.

E como  nobre o seu procedimento acerca dos soldados! De nada sabiam,
disse elle: foram levados por mim: conheciam-me e obedeceram-me. Eis o
segredo de tudo quanto se passou. Essa influencia deviam tel-a os
officiaes; no  momento agora para apreciar as razes porque a no
tinham e tirar d'ahi as legitimas consequencias.


Os quesitos referentes aos reus e submettidos aos officiaes julgadores
foram em grande numero. Damos apenas os seguintes, relativos s diversas
classes em que se dividiu a natureza dos crimes:

_Para os reus civis:_

O crime da rebellio de que o reu  accusado no libello por, na
madrugada do dia 31 de janeiro do corrente anno, com outros individuos
e muitos militares dos corpos da guarnio da cidade do Porto e
outros militares, haver tentado destruir a frma de governo
monarchico-representativo, pela qual  regida a nao portugueza,
apoderando-se do edificio da Camara municipal da mesma cidade, de uma
das varandas da qual foi proclamada a Republica e at lida uma lista dos
membros do governo provisorio, est ou no provado?

A cumplicidade no crime de rebellio de que o reu  accusado no
libello, por haver por meio de propaganda em logares publicos
directamente aconselhado ou instigado a execuo do mesmo crime,
consistente em se haver tentado destruir a frma de governo
monarchico-representativo pelo qual  regida a nao portugueza, crime
este praticado na manh de 31 de janeiro do corrente anno, em que os
meus auctores, apoderando-se do edificio da camara municipal da mesma
cidade, chegaram a proclamar a Republica d'uma das varandas do mesmo
edificio e a ler uma lista dos membros do governo provisorio, sendo que
sem esse conselho e instigao podia ter sido commettido o crime, est
ou no provado?

_Para os rus militares:_

[Ilustrao: Tumulo das victimas no cemiterio do Repouso, no Porto]

O crime de revolta militar de que o ru  accusado no libello por, no
dia 31 de janeiro do corrente anno, cerca das 3 horas da manh no
quartel d'aquelle regimento, na cidade do Porto, tendo sahido com outros
militares do mesmo regimento, em numero muito superior a quatro, das
respectivas casernas, desordenada e tumultuariamente, e tendo com os
mesmos militares, sem preceder toque previo, pegado nas suas armas e sem
auctorisao entrado em frma, de commum concerto, se haver recusado a
obedecer as ordens do seu commandante, o coronel do regimento que os
intimou a dispersar, e sahindo depois do mesmo quartel incorporado com
outros em numero excedente a oito, sob o commando de alguns sargentos e
depois do alferes Augusto Rodolpho da Costa Malheiro, que se
lhes reuniu junto  guarda da cadeia da Relao, onde, com outras foras
revoltadas, persistindo na desordem e commettendo violencias, no haver
dispersado  voz dos superiores Fernando de Magalhes, tenente-coronel
sub-chefe do estado maior da diviso e Jos Maria da Graa, major da
guarda municipal, est ou no provado?

O crime de revolta militar de que o ru F... n.... de matricula e...
da companhia do batalho n. 3 da guarda fiscal  accusado, por tr na
madrugada de 31 de janeiro ultimo, cerca das 3 horas da manh, sahido na
cidade do Porto, com muitos outros militares, todos armados, para a rua,
desordenada e tumultuariamente, e ter desobedecido a um dos seus
legitimos chefes, que o exhortou a entrar na ordem e seguir o caminho
legal: e ainda porque, juntando-se com muitos outros revoltosos, fez uzo
das armas contra tropas fieis, comettendo violencias e no despersando
s intimaes de seus legitimos superiores, persistindo na
desordem--est ou no provado?


Antes de serem lidas as sentenas aos accusados, o capito Leito teve
ensejo de usar novamente da palavra--o presidente do tribunal
perguntara-lhe se tinha mais alguma cousa a allegar em sua defeza--e disse:

--Eu, infelizmente, sendo o principal accusado sou o unico a quem no
foi permittida a defeza. A minha f, porm, est de tal frma arreigada
que no ha nada que a possa abalar. A f desterra o medo, abala os
tyranos e vence. O que se passa commigo  uma monstruosidade e n'isto
sirvo-me das proprias palavras do sr. promotor. O sr. auditor, como
homem de brio, disse, quando aqui se tratou da questo da minha defeza,
que desde o momento em que o meu defensor (o quintanista de direito
Lomelino de Freitas) apresentasse documentos que o auctorisassem a
advogar, na conformidade com o que dispe o regulamento de 26 de
dezembro de 1888, seria admittido.

V. Ex. (_dirigindo-se ao auditor_) devia ter esclarecido o conselho de
guerra sobre este assumpto.  verdade que tive defeza que agradeo ao
sr. dr. Alvaro de Vasconcellos. Essa defeza no foi engeitada mas foi
emprestada. O illustre advogado empregou todos os esforos, embora no
tivesse em seu poder muitos dos apontamentos que possuia o sr. Lomelino.
O sr. dr. Vasconcellos disse que se achava coacto. Eu o estou egualmente
e protesto contra a perseguio que se me faz. Cortou-se-me a defeza,
apesar do meu defensor apresentar documentos legaes: aqui decidiu-se que
todos os advogados podessem defender os seus constituintes, desde o
momento em que apresentassem os necessarios documentos provando estar
para esse fim habilitados. Todos apresentaram esses documentos; uns mais
cedo, outros depois. Como o meu defensor no podesse apresentar logo os
seus documentos, resolveu-se que o sr. dr. Alvaro de Vasconcellos
tomasse a minha defeza at que elle os apresentasse. N'essa occasio, o
sr. promotor declarou que desejava dar a maior latitude  defeza e que
por isso, seria acceite o defensor que eu escolhera, logo que se
apresentasse devidamente auctorisado.

Chegou o dia dos debates: o meu defensor apresenta documentos
devidamente authenticados, de frma a ninguem os poder contestar e
negam-me a defeza! Admiro que o sr. promotor, assistindo a tal facto e
em vista da sua anterior declarao, no protestasse immediatamente
contra a violencia de que eu era victima.

Estou coacto e apello, no para o conselho, que no me pode merecer
confiana, mas para a imprensa, para que esta faa demonstrar bem
alto este meu protesto. Apesar de tudo, a minha f fica firme,
porque  sincera; ninguem a pde ferir. O que commigo se passa 
simplesmente odioso. Eu continuo incommunicavel, quando  certo que o
sr. auditor tinha levantado a minha excommunho. Eu chamo-lhe assim,
porque isto no  mais que uma excommunho. O eu continuar
incommunicavel  uma monstruosidade, como afinal,  tudo isto, segundo o
proprio sr. promotor o declarou. Eu ainda sou official, tenho direitos
que ninguem pde contestar. Estou coacto, tendo defeza emprestada,
quando eu s depositava confiana no defensor que escolhera. Eu tenho a
fazer uma referencia. O sr. promotor atirou umas pedradas contra o meu
regimento, que Deus haja, por quanto infanteria 10 j no existe. V.
Ex. (_dirigindo-se ao promotor_) disse que ns framos cobardes...

_O promotor_--Eu no disse isso... No dou mais explicaes porque no
posso discutir com V. Ex.. O senhor pde apresentar novos argumentos
para a sua defeza e nunca discutir as minhas palavras.

_O capito Leito_--No quero discutir as palavras de V. Ex. No
posso, porm, admittir que me chamem cobarde. Se no me deixam defender,
dem-me ao menos o direito de protestar. Ns iamos em caminho do quartel
general...

_O promotor (interrompendo)_--Eu no me referi nunca ao sr. capito
Leito. Referi-me  defeza; e demais no tenho que dar satisfaes do
que aqui disse.

_O capito Leito_--Eu ento termino mais depressa. Quando me chegar a
minha vez, eu appellarei para tudo e at para a imprensa, para se
conhecer bem que no tive defeza, e desde j protesto contra todas as
violencias que se me fizeram.

Outro protesto no menos vibrante reproduzido na imprensa republicana:


Em nome dos republicanos prezos a bordo do vapor _Moambique_,
pedimos-lhe o favor de protestar perante o publico contra a ultima
violencia que se est commettendo comnosco na demora injustificada, e
por todos os motivos arbitraria, da leitura da sentena do primeiro
conselho de guerra. Sujeitos a todos os vexames, os officiaes militares
submettidos a um regimen contrario  lei e attentatorio da sua
dignidade, os prezos civis conduzidos como assassinos e salteadores, em
carros cellulares desde a Relao at Massarellos, e a p, no meio d'uma
escolta, desde a Foz at Mattosinhos, depois de terem corrido graves
riscos na barra do Porto a bordo do vapor chamado _D. Luiz_, com um
tratamento vergonhoso na 2. camara do vapor _Moambique_, apezar de nos
exigirem a cada um uma quantia sufficiente para um tratamento regular,
s nos faltava que o governo conservasse por tantos dias, como conserva,
suspensa a leitura da sentena do tribunal que nos julgou, sob o
pretexto ridiculo ou comico do receio de manifestaes populares.

O paiz avaliar um governo que no tem fora para fazer julgar em terra
uns centos de accusados politicos e, por esse motivo, os conduz
violentamente para bordo de varios navios ancorados n'um porto que s
por cumulo d'irriso se pode denominar porto de abrigo, onde as
tempestades desencadeadas teem produzido os estragos que se conhecem e
posto em perigo imminente a vida de tantos homens, muitos dos quaes os
proprios accusadores officiaes declararam innocentes durante a
discusso da causa! O paiz julgar da fora e do prestigio d'um governo
que conserva, durante oito dias, um tribunal em sesso permanente e
secreta, s porque receia a discusso publica e as manifestaes do
povo em cima d'uma sentena que o proprio governo vem declarando ha
muito ser a sentena mais levantada e mais patriotica de quantas se
poderiam lavrar e pronunciar na nossa terra.

O paiz que julgue isso tudo. Ns protestamos, com toda a fora do nosso
direito e da nossa justia, contra a ultima violencia que se comette
comnosco.

A bordo do _Moambique_, 20 de maro de 1891.--_Joo Paes Pinto_,
abbade de S. Nicolau; _Joo Chagas_; _Francisco Christo_.


Por fim sempre appareceram as decantadas sentenas. Como se ver pelo
extracto que damos a seguir nada tiveram da _elevao_ e do
_patriotismo_ apregoados pelos defensores do regimen monarchico e antes
se caracterisaram por uma manifesta desegualdade na applicao das
diversas penas.


_No 1. conselho de guerra:_

Santos Cardoso, condemnado a 4 annos de Penitenciaria seguidos de 8 de
degredo; 1. sargento Abilio e 2. sargento Galho, 6 annos de
Penitenciaria; Joo Chagas e 2. sargento Manuel Nunes, 4 annos de
Penitenciaria e na alternativa de 6 annos de degredo; 2. sargento
Castro Silva, 3 annos e 4 mezes de priso maior cellular; 1. cabo
Galileu Moreira e o actor Miguel Verdial, 2 annos de Penitenciaria;
Eduardo de Sousa, 2 annos de priso correcional; Felizardo de Lima,
Amoinha Lopes e Manuel Pereira da Costa, 18 mezes de cadeia; 8 cabos, 1
corneteiro e 32 soldados, 3 annos de deportao militar; 8 cabos, 3
corneteiros e 23 soldados, 3 annos e 6 mezes de deportao; 1.os cabos
Arthur Carneiro e Rosas Pinto, 4 annos de deportao; o soldado Albino
Rodrigues e os corneteiros Jacintho Duarte e Sousa Vaz, 5 annos de
deportao.


_No 2. conselho de guerra:_

Capito Leito, 6 annos de Penitenciaria, seguidos de 10 de degredo;
tenente Coelho, 5 annos de degredo; sargentos Joaquim Pinheiro, Thadeu
de Freitas, Pinto Villela e Hermenegildo Silva, 4 annos de
Penitenciaria; sargentos Raymundo de Carvalho, Alcoforado e Antonio
Maria, o musico Eduardo Correia, 3 aprendizes de musica, um mestre de
corneteiros, 12 cabos e 45 soldados, 3 annos de degredo; sargento Nunes
Folgado, 4 annos de Penitenciaria; sargentos Correia Mendes, Rodrigues
da Silva, Pinto Gomes, Botto Machado, Joaquim Moutinho, os musicos
Eduardo Silva, Jos Silverio, Eduardo Fortuna, Joaquim da Rocha, Manuel
Correia, Aurelio Silva, Jayme Lopes, o aprendiz Costa Rebello, 17 cabos
e 48 soldados, tambem 3 annos de degredo; 1. cabo Thomaz Bastos, 5
annos de degredo; 2.os sargentos Alexandre de Figueiredo e Vasconcellos
Cardoso, 4 annos de Penitenciaria.


_No 3. conselho de guerra:_

Sargentos Guilherme Rocha, Miranda de Barros, Pinho Junior e Alfredo
Fernandes e cabo Joo Borges, 4 annos de Penitenciaria, seguidos de 8
annos de degredo; 2.os cabos Ferreira Pires e Felicio da Conceio, 4
annos de Penitenciaria; 1 cabo e 5 soldados da guarda fiscal, 18 mezes
de priso militar.


De todos os revoltosos condemnados  priso maior cellular, apenas um,
cremos ns, o cabo Salom, da guarda fiscal, chegou realmente a ser
internado na Penitenciaria de Lisboa. Os outros, como nas suas sentenas
havia a alternativa de uns tantos annos de degredo, foram
espalhados pelos presidios ultramarinos. D'um d'estes se evadiu mais
tarde Joo Chagas, aproveitando o concurso dedicadissimo d'um official
da marinha mercante portugueza. A evaso do illustre escriptor revestiu
pormenores rocambolescos. Indo parar a uma colonia franceza da Africa
Occidental, de l se transportou a Paris onde viveu algum tempo na
intimidade doutros revoltosos emigrados. Breve, porm, sentiu a
nostalgia da patria e um bello dia abalanou-se a regressar ao Porto,
onde a espionagem policial o descobriu e o prendeu...


Agora que j decorreram muitos annos sobre os episodios que constituiram
a revolta de 31 de janeiro, no nos furtamos ao desejo de relembrar como
a classificaram ento as individualidades que eram o sustentaculo do
throno. Se a revolta houvesse triumphado, por certo a linguagem
empregada teria sido muito outra. Mas no triumphou e a arrojada
tentativa d'um punhado de valentes foi assim qualificada:


...lamentaveis acontecimentos que um bando de ambiciosos sem escrupulos
promoveu e por quem, infelizmente, alguns homens que vestiam a nobre
farda do exercito portuguez se deixaram arrastar n'uma lucta fratricida
contra os seus camaradas fieis, faltando ao seu sagrado juramento de
soldado e  sua nunca desmentida lealdade e disciplina, commettendo um
verdadeiro crime de lesa-patriotismo...


Isto appareceu n'um documento official--o elogio tributado pelo general
da diviso do Porto s praas da guarnio da cidade que no haviam
tomado parte na revolta. Ao mesmo passo, e tambem em documento
official, dirigia-se estas amabilidades  guarda pretoriana:


Mais uma vez, a guarda municipal do Porto deu provas da sua
inquebrantavel lealdade, disciplina, bravura e coragem nunca
desmentidas. O dia de hontem (31 de janeiro) foi muito trabalhoso e de
grande risco para todos, mas foi um dia de gloria para esta guarda. A
ella, a mais ninguem, pode dizer-se sem receio de que alguem possa vir
affirmar o contrario, se deve a suffocao da revolta, que os corpos da
guarnio d'esta cidade, esquecidos dos seus deveres de honra, do
juramento que prestaram, e do que devem  nossa querida patria e 
dignidade propria, levaram a effeito, intentando derrubar as
instituies que felizmente nos regem e os poderes legalmente
constituidos, reconhecidos e respeitados pela grandissima maioria da
nao. Foi um acto da maior indisciplina que pode dar-se na familia
militar; ainda bem, porm, que outros militares fizeram baquear os
revoltosos, e certamente um rigorosissimo castigo cahir sobre elles e
os far ento arrepender, se j no esto arrependidos, da erradissima
aco que praticaram.


Por outro lado, as camaras municipaes como que obedecendo a um _mot
d'ordre_ superior, felicitaram a monarchia pela victoria obtida e uma
d'ellas, em mensagem de maior requinte litterario, expressava-se d'este
modo:


_Senhor._ Reconhecendo que as sociedades, obedecendo s leis
biologicas, tendem a ser successivamente modificadas na sua organisao,
mas attento o grave e critico momento historico que a nossa querida
patria est atravessando, profundamente commocionada pelos irreflectidos
e criminosos acontecimentos que em 31 de janeiro findo enlutaram a
cidade do Porto e o paiz inteiro, a camara municipal d'este concelho,
interprete dos sentimentos que animam os povos que o constituem vem
depr junto de vossa magestade como representante d'um paiz que caminha
na vanguarda das aspiraes sociaes, o seu preito de dedicao e
fidelidade ao regimen monarchico e de felicitao a vossa magestade e a
toda a familia real, por ver n'este angustioso momento, junto de um dos
thronos mais dignos da considerao universal, reunida a grande massa da
nao, que s deseja ordem e inteira unio de todas as classes para
debellar os males que a affligem e poder repellir os inimigos que tentam
sepultar a sua autonomia.


No faltaram elogios e homenagens aos triumphadores como se no poupou
os vencidos a toda a casta de imprecaes. No momento da derrota ninguem
pensou em que a exploso revolucionaria podia reproduzir-se, apoz certo
lapso de tempo, e que essa reproduco podia ser acompanhada de
elementos de exito seguro. Todos trataram, na occasio, de mostrar 
dynastia brigantina um servilismo fra do commum e aos ps do rei
cahiram dias a fio excessivas doses de lisonja que, por serem de
encommenda, nem ao proprio alvejado deviam illudir.

E comtudo a revolta do 31 de janeiro marcra uma _tape_ bem nitida no
caminho da modificao do regimen. To nitida, que pouco antes d'ella
ser julgada nos conselhos de guerra, como em outro logar referimos, o
manifesto dos emigrados portuguezes residentes em Madrid soltava este
grito de esperana, desferido com tanto enthusiasmo como se j o
illuminasse um claro inapagavel de victoria:


...Ns, orgulhosos, obscuros, altivos e humildes, porque cuspimos nos
homens indignos e imploramos a Deus justiceiro, entendemos que bate
o minuto em que urge gritar a um povo honrado, a um povo valente que no
pde ser mais: que no hade ser ainda; que  inevitavel, que 
irremediavel que  necessario, immediata e incontrariadamente, cavar
fundo, rasgar immenso, despedaar largo, destruir vasto, j, j, agora,
agora, de maneira que a incomparavel vergonha se envergonhe, esta
incomparavel, esta inverosimil, esta unica e extraordinaria hediondez de
que uma nao inteira continue, inerte, tranquilla e triturada, sob as
patadas obscenas d'uma canalha que ella abomina muito menos do que ella
despreza.

E, se os emigrados teem toda a esperana no paiz, o paiz no se hade
vexar envergonhado, dos seus filhos hoje proscriptos, antes com elles
deve e pode contar para todos os sacrificios que a salvao da patria em
perigo tem o direito de exigir dos cidados probos e dedicados. A grande
palavra de Danton, de que ninguem consegue partir do solo que embalou o
bero em que vagiu a infancia, levando a patria pegada s solas dos
sapatos, tem-n'a presente constantemente os emigrados no espirito. Com
sobresaltada atteno espiam os successos; com a alma em susto,
forados, a, raivosamente, cruzarem os braos, n'uma inefficacia
provisoria, assistem ao desesperador espectaculo do crescente
amesquinhamento do paiz, que, com fervoroso impeto, respeitam e amam.

Mas, aguardando sempre, no se differenciam dos seus concidados,
injuriados pelo roubo das liberdades outr'ora conquistadas nem se
desinteressam das preoccupaes que os agitam. Os de fra continuam a
fazer causa commum com os que, a dentro de fronteiras, mal podem
expressar seus queixumes. Do exilio os alentam, da terra estrangeira
lhes clamam a esperana no futuro. Solde-se assim um pacto santo. Que a
ultima palavra que pronunciamos seja a que em breve, verbo
reformador, ascenda de todos os coraes generosos e irrompa em todos os
puros labios, como a consummao, salutar e fecunda, da grande obra
iniciada a 31 de janeiro:

Viva Portugal!

Viva a Republica!


Este manifesto era assignado, entre outros emigrados, por Alves da
Veiga, Basilio Telles, alferes Malheiro, Antonio Claro, Carlos Infante
da Camara, Annibal Cunha, Jos Sampaio, Alipio Augusto Trancoso e Jos
Tavares Coutinho.


A obra iniciada a 31 de janeiro... essa veiu a consummar-se quasi vinte
annos depois.

FIM




Indice


_Do TEXTO_

                                                                      Pag.

Palavras de um soldado                                                   3

Capitulo I--O movimento de 31 de Janeiro filia-se no ultimatum de
            1890                                                         7

       II--O primeiro rebate do conflicto diplomatico anglo-portuguez  14

      III--Serpa Pinto,  frente de 6.000 homens, derrota os
            makololos revoltados                                        20

       IV--O governo progressista cede ante as exigencias da
            Gr-Bretanha                                                27

        V--O protesto contra o ultimatum echoa de norte a sul
            do paiz                                                     34

       VI--Serpa Pinto, heroe africano, perde o prestigio              40

      VII--O partido republicano nasce da disperso do reformista      48

     VIII--Joo Chagas abandona enojado a imprensa monarchica          54

       IX--O Dr. Alves da Veiga assume a chefia civil do movimento     62

        X--O Directorio recusa a sanco official  revolta            69

       XI--A crise ministerial dos vinte sete dias                   75

      XII--E as armas que nos foram entregues para defeza das
            instituies, voltal-as-hemos contra ellas                 82

     XIII--Vinte annos apoz a derrota                                  92

      XIV--A alvorada triumphante: caadores 9 inicia o movimento      96

       XV--Proclama-se a Republica no edificio da camara Municipal    107

      XVI--O choque sangrento--A guarda municipal desbarata os
            revoltosos                                                 114

     XVII--A noite negra do traidor Castro--O destino de tres
            officiaes                                                  121

    XVIII--O dia seguinte ao da derrota                               129

      XIX--Para as despezas da revolta bastou um conto de reis        138

       XX--Triste balano: o das victimas da insurreio              144

      XXI--A serenidade de uns e o desalento de muitos                149

     XXII--O julgamento dos revoltosos                                156


_Das GRAVURAS_

Quartel de infanteria 18, e campo da Regenerao, onde se reuniram as
tropas sublevadas na madrugada de 31 de Janeiro                         15

Elias Garcia                                                            19

Encontro dos revoltosos com as tropas fieis ao governo                  23

Alves da Veiga (1891)                                                   31

Na rua de Santo Antonio                                                 39

Joo Chagas (1891)                                                      47

A guarda municipal entrincheirada na egreja de Santo Ildefonso          55

Capito Leito (1891)                                                   63

Uma carga de cavallaria                                                 71

Rodrigues de Freitas (1891)                                             79

Levantando os feridos                                                   87

Jos Sampaio (Bruno) (1891)                                             95

Proclamao da Republica                                               103

A Bandeira da Revolta que foi hasteada na camara Municipal             111

Basilio Telles (1891)                                                  115

Bombardeamento da Camara Municipal pelas tropas fieis ao governo       119

Tenente Coelho (1891)                                                  127

Santos Cardoso, preso a bordo                                          135

Actor Verdial (1891)                                                   139

Revoltosos presos a bordo do _India_                                   143

Antonio Jos de Almeida (1891)                                         147

Os prisioneiros a bordo                                                151

Dr. Affonso Costa (1891)                                               157

Conselho de guerra a bordo do transporte _India_                       161

O tumulo das victimas no cemiterio do Repouso, no Porto                167




      *      *      *      *      *

A sahir brevemente o 5. volume

DA

BIBLIOTHECA HISTORICA

A Revoluo e a Republica Hespanhola

(1868 a 1874)

POR

Victor Ribeiro

Da Academia das Sciencias

Um elegantissimo volume de 200 pag. 200 rs. broc. e 300 rs. enc. em
percalina


BIBLIOTHECA DA INFANCIA

COLLECO ILLUSTRADA DE LEITURAS EDUCATIVAS

Sob a direco litteraria

DE

VICTOR RIBEIRO

Da Academia das Sciencias

Volumes em 8., illustrados com esplendidas gravuras no texto e de
pagina, nitidamente impressos em magnifico papel, expressamente
fabricado para esta publicao, formando elegantissimos livros de cerca
de 200 paginas.

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N. B.--Alguns d'estes livros esto sendo adoptados para leitura nas
escolas por conselho de professores.


BIBLIOTHECA DA INFANCIA

Volumes publicados

I--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (A Conquista do Reino).

II--_A. Daudet_--*A Creana Abandonada*.

III--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (O Condestavel).

IV--*A Vida dos Animaes* (No Paiz do Leo).

V--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (D. Joo I, o rei eleito do
Povo).

VI--_Victor Hugo_--*O Bom Bispo*.

VII--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (Os Filhos de D. Joo I).

VIII--*A Vida dos Animaes* (Os ces).

IX--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (O Infante D. Henrique).

NO PRELO

X--*A Terra Portugueza* (Portugal Pitoresco).


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escolas

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30, 32, RUA SERPA PINTO, 34,36

==LISBOA==


BIBLIOTHECA HISTORICA

Volumes de cerca de 200 paginas, illustrados com primorosas gravuras
no texto e de pagina, impressos com typo novo, bem legivel, em optimo
papel, ao preo de *200 ris* por cada volume brochado e *300 ris* por
cada volume luxuosamente encadernado em percalina.


VOLUMES PUBLICADOS

I, II--*Historia da Revoluo Franceza* por _F. Mignet_ 2 vols.

III *A Revoluo Portugueza--O 31 de Janeiro* por _J. d'Abreu_.

NO PRLO

IV--*A Revoluo Portugueza--O 5 de Outubro* por _J. d'Abreu_.

V--*A Revoluo Hespanhola* por _Victor Ribeiro_.

VI--*A Revoluo Nihilista na Russia* por _Stepniak_.

BIBLIOTHECA DA INFANCIA

COLLECO ILLUSTRADA DE LEITURAS EDUCATIVAS

SOB A DIRECO LITTERARIA DE

VICTOR RIBEIRO

Da Academia das Sciencias


VOLUMES PUBLICADOS

I--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (A Conquista do Reino).

II--_A Daudet_--*A Creana Abandonada*.

III--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (O Condestavel).

IV--*A Vida dos Animaes* (No Paiz do Leo).

V--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (D. Joo I, o rei eleito do
povo).

VI--_Victor Hugo_--*O Bom Bispo*.

VII--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (Os filhos de D. Joo I).

VIII--*A Vida dos Animaes* (Os ces).

IX--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (O Infante D. Henrique).

NO PRLO

X--*A Terra Portugueza* (Portugal Pitoresco).


Cada volume em 8., illustrado com esplendidas gravuras nitidamente
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publicao, forma um elegantissimo livro de cerca de 200 paginas.

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Pedidos a

ALFREDO DAVID--Encadernador

Rua Serpa Pinto, 30 a 36--Lisboa





End of the Project Gutenberg EBook of A Revoluo Portugueza: O 31 de
Janeiro (Porto 1891), by Jorge de Abreu

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Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


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editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


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